domingo, março 25, 2007

Ludfashion
Willheinn quis ir primeiro ao cassino.
– Quero jogar um pouco, vamos mostrar a essas garotas como devem fazer para se tornarem pessoas de sorte.
Elas olhavam um tanto surpresas. Acredito que não estavam acostumadas a esse tipo de programa. Enquanto o táxi trafegava vagaroso, vi que meu amigo ofertara uma nota de cinqüenta a cada uma.
– Se vocês se comportarem, mocinhas, ainda vou agraciá-las com muito mais dinheiro, vejam, não é mentira.
Mostrava algumas notas que tinha na carteira. Percebi que não entendiam suas palavras, mas compreenderam com facilidade o que ele quis dizer.
A minha preocupação era com o motorista. Já o conhecia de outras viagens e o percebia como uma pessoa soturna. Temia que ele nos denunciasse. Seríamos chamados à delegacia, pagaríamos enorme multa e as garotas seriam deportadas. Quando nos deixou à porta do cassino e Willheinn pagou o preço estipulado, deslizei uma nota de dez nas mãos daquele que temia ser nosso algoz. Ele sorriu e piscou um dos olhos. Sinal de que estava satisfeito.
Dentro do Ludfashion havia uma grande confusão. Em meio às luzes, fumaça de cigarros, homens e mulheres elegantes, garçons transitando com bandejas plenas de copos com diversas bebidas, um cidadão que morava na Deigth Lusckern – eu o conhecia – e que sempre vivia de dinheiro emprestado, possuía junto a si uma grande quantidade de fichas. À sua volta, se aglomeravam pessoas de todos os tipos. Gritavam e davam palpites. Várias vezes os seguranças se aproximaram e fizeram menção de intervir, temendo confusão maior. Ele acenava querendo dizer que estava tudo sob controle, que não o aborrecessem. Tanto mais jogava, mais ganhava; e a quantidade de curiosos aumentava.
Fomos para o bar, onde o ambiente era mais calmo; colocamos as idéias em ordem. As mulheres pediram bitter russo, quanto a nós, não abandonamos os escoceses. Nossos copos vieram cheios.
– Camarada, disse eu, esses rapazes querem nos embebedar na primeira dose.
Meu amigo riu e não protestou.
Descobri que uma das mulheres conhecia algumas palavras em francês. Tentamos entabular uma conversa; a comunicação, no entanto, não se deu. Escutei diversas vezes a mais baixa dizer: État Uni, État Uni. Deduzi que era para onde ela desejava ir. Como já esperava, a pequena me abraçou e com a outra mão levou aos lábios o copo com líquido rubro.
Willheinn não abraçou a sua companheira, mas se manteve sempre a seu lado e cuidou para que estivesse protegida de pessoas indesejadas. Um engraçadinho passou e parou durante alguns segundos, mirando-nos. Meu amigo se dirigiu a ele. Em pouco tempo o homem desapareceu e não mais nos incomodou. Jamais soube o que Willheinn lhe dissera.
Eu e as duas mulheres não jogamos. Observamos o amigo. Ele começou perdendo, mas em pouco tempo recuperou e se pôs em vantagem. A roleta girava, Willheinn demorava um pouco, mas apostava. Em determinado momento, começou a apostar grande quantidade de fichas apenas na cor. Por duas vezes seguidas conseguiu dobrar toda a quantidade que possuía, tendo como resultado a cor vermelha. Ficou uma vez sem jogar e na vez seguinte apostou tudo na cor preta. Ganhou de novo. Em apenas trinta minutos foi ele que passou a ser assediado por grande número de apostadores e curiosos. Pediu que eu tomasse conta de algumas fichas. Continuou apostando. Reparei que não mais perdia. Cuidei também de proteger nossas mulheres e pude reparar que elas estavam excitadíssimas com as seguidas vitórias de Willheinn.
Já estávamos havia duas horas no cassino quando um dos funcionários se dirigiu ao meu amigo e sussurrou algumas palavras no seu ouvido. Este recolheu todas as fichas, pediu que nós o aguardássemos e seguiu o homem. Voltou depois de um quarto de hora.
– Eles estão pedindo para que nos retiremos.
– É por causa das garotas? – quis saber.
– Não, creio que pensam que eu estou utilizando algum tipo de truque. Mas não se preocupe, me pagaram todas as fichas.
Se antes já estávamos animados, a grande soma obtida no cassino derramou sobre nós vontade de gozar a noite de forma mais intensa.
Aproveitamos para jantar no melhor restaurante da cidade. Creio que não preciso descrever os pormenores do Café de Paris, pois as virtudes do local são do conhecimento de todos. A casa recebe visitantes de toda parte do mundo, sobretudo depois que completou três séculos de existência.
Pedimos duas entradas e três pratos principais. Para beber as escolhas variaram: uma garrafa de vinho branco alemão, outra de tinto francês (Bourbon), um dry-Martini, uma dose de vodca e o inconfundível doze anos escocês. As mulheres, pelo modo como se portaram à mesa, aparentavam pessoas finas.
Tentei me comunicar com Nasha, a minha pequena, queria falar sobre qualquer assunto, ou mesmo apenas ouvir sua voz. Dei a entender que queria saber dela. Tudo que consegui foi que fizesse um único gesto: deslizou uma das mãos sobre meus ombros e segurou-me um dos braços – sua temperatura era quente –, depois sorriu. Seus dentes se mostraram bastante claros. Investiguei-a de modo meticuloso, pois a bebida aguçara meus sentidos.
Acredito que ambas eram boas pessoas e que até tinham formação escolar; estavam ali em troca de algum dinheiro, é claro, mas seus objetivos eram outros: a emigração. Tentei estabelecer a todo custo algum diálogo.
– Elas só compreendem a linguagem do corpo –, disse meu amigo, enquanto saboreava uma fatia de presunto que viera em uma das entradas – não entendem outra coisa.
– Devem ter alguma inteligência – rebati.
– Claro que tem, caso contrário não estariam aqui – ele riu e as duas o acompanharam, embora suas faces não demonstrassem qualquer entendimento. Katya, como entendi ser o nome da musculosa, percorria com a ponta dos dedos o tórax de Willheinn; eu não quis acreditar que ela achasse aquele o local apropriado para colocar sua arte em prática.
O ruído de pratos e talheres nos levou a outra direção. Era o garçom que chegava com os pratos principais.
O jantar se deu no mais pesado silêncio. A luz era baixa, e das outras mesas vinham apenas pequenos ruídos entremeados de vozes que se esforçavam para não serem ouvidas. Quando terminou sua porção, Willheinn pediu ao garçom que deixasse a garrafa de uísque, não gostava de ser servido dose a dose. O empregado pediu que aguardasse. O próprio maitre trouxe a garrafa, encheu o copo dele e a pousou sobre a mesa, fazendo-nos uma breve reverência. As mulheres puseram-se também a beber. Nasha sorriu para mim após tomar longo gole e virou-se para o copo que segurava à altura dos olhos, como se quisesse fazê-lo de espelho. Depois me olhou de novo; percebi que desejava comunicar alguma coisa. Pegou o guardanapo e fez um desenho. Tentou me explicar a cena. Riscara com poucos traços uma mulher deitada; vinham-lhe ao encontro lábios que voavam sozinhos até se encaixarem na sua boca. Depois apontou para o desenho, para ela, e em seguida para mim. Fiz movimento de que iria beijá-la, mas descobri que não era isso que ela queria dizer. Começou então a explicar de novo. Virei-me para Willheinn com a intenção de que me socorresse; ele, porém, parecia entender com perfeição as mensagens das mãos de Katya. Ela usava aqueles tentáculos com muita habilidade. Ele, por sua vez, apertava com força as coxas da mulher que, sentada, dava pequenos saltos, como que assustada, mas demonstrava gosto pela brincadeira. Nasha num gesto súbito beijou-me o pescoço e depois os lábios; temi que os movimentos exacerbados tanto dela como da outra nos trouxessem complicações.
Embora já tivéssemos acabado o jantar, não queria despertar Willheinn do embevecimento em que se encontrava.
Custou-nos algum quarto de hora para que o maitre reaparecesse; perguntou se desejávamos mais alguma coisa; sua intenção, porém, estava estampada na fisionomia. Éramos presença indesejada no local. Agradecemos, Willheinn pediu o total da despesa. O homem voltou em instantes, recebeu o dinheiro e deu passagem para que nos retirássemos.
Convenci meu amigo de que o melhor era voltar ao hotel. Já nos tínhamos metido em confusões suficientes, melhor não mais arriscar a estragar a noite. Ele concordou a contragosto. Entramos em outro táxi e voltamos para o hotel. O motorista, desta vez, era estrangeiro e manteve-se indiferente à presença feminina.
As mulheres haviam tirado o casaco quando chegamos ao cassino; depois, mais uma vez, no restaurante. Em ambos os lugares incendiaram a curiosidade alheia e causaram furor entre os homens; usavam vestidos muito curtos. Katya, a musculosa, estava sem meias, o que também provocou certo alvoroço; suas pernas subiam nuas e penetravam sob o vestido. No táxi ela, ainda, tirou o casaco; demonstrava intenso calor; era a bebida que já provocava efeito. Sinalizei que não fizesse isso, que esperasse chegar ao nosso destino. Ela fez de conta que não entendeu. Sentada ao lado esquerdo de Willheinn, a roupa subira-lhe, deixando grande parte das coxas à mostra.
Ao entrarmos no Bourg sentamo-nos na sala de estar, ao passo que nosso patrocinador foi mais uma vez ao bar. Voltou com outra garrafa de uísque.
– Willheinn, basta, não posso mais – falei em voz baixa.
Nasha procurou um copo e estendeu a ele, seu gesto foi seguido pela amiga. Três copos quase pleno da bebida foram rapidamente esvaziados. Comecei a temer como tudo aquilo acabaria.
Quarenta minutos depois, enfim, nos recolhemos aos apartamentos reservados. Ficavam no terceiro andar. A pequena Nasha me acompanhou, enquanto a musculosa seguiu Willheinn. Ele se mostrava muito contente por estar prestes a possuir aquela mulher grande e forte. Aqui é preciso fazer um comentário. Meu amigo bebeu o dia inteiro e, em momento algum, demonstrou qualquer vestígio de embriaguez; apenas de incomum, o rosto avermelhado.
Nasha tirou toda a roupa sem pejo algum. Sinalizou que eu esperasse, deitou de ventre para cima na cama, mantinha as pernas abertas e os braços afastados do corpo. Parecia que iria entrar em transe. Só me faltava essa. Fechou os olhos e permaneceu longo tempo naquela posição. Esperei creio que vinte minutos. De repente ela começou a tremer, as pernas principalmente saltavam alguns centímetros da posição horizontal, os quadris se agitavam. Eu não queria acreditar no que via. Ela parecia estar transando com alguém invisível, alguém que a levava a estado de extrema excitação. A seguir começou a falar em seu idioma, não demorou e gritava alucinada. Apontou-me uma das mãos. Entendi que me desejava próximo. Ao tocá-la, enlaçou-se a mim com extrema violência, continuando com seus gritos estrangeiros. Giramos por toda extensão da cama, fomos lançados ao chão e ela bateu forte a cabeça no assoalho. Não se incomodou, nem demonstrou dor. Intempestiva, atirava-se em violento transe de corpo e alma.
Foi uma relação pontuada de gozo e dor para nós dois. Quando acabamos, tomou dois grandes comprimidos, caiu desmaiada e só acordou três horas depois. Pôs-se então a chorar. Nunca pude entender o que se passara com ela.

Willheinn partiu pela manhã. Katya e Nasha já haviam saído. Ele despediu-se demonstrando que sentiria minha falta. Acompanhei-o à estação. Antes de embarcar, disse-me em voz baixa:
– Dei às mulheres a senha, elas merecem; tenho alguns amigos na imigração, creio que elas conseguirão chegar aos Estados Unidos – sorriu ao seu jeito e me abraçou mais uma vez.
Partiu sem olhar para trás.

sexta-feira, março 16, 2007

Willheinn
Willheinn chegara à cidade havia dois dias. No terceiro, apareceu à minha procura. Saímos a esmo pelas ruas do Centro. A temperatura era amena e contribuía para alegre e descontraída conversa. Em determinado momento, resolvemos ir ao Sürgarden, pequeno bar à margem esquerda do Knopt. Ao entrarmos, sentamos e passamos a observar através do vidro a paisagem ainda branca de fim de inverno. Meu amigo viera do exterior e não hesitava em me contar suas experiências, sobretudo, como dizia, seu sucesso com mulheres de beleza exuberante. Ainda era cedo, mas o garçom não se surpreendeu quando ouviu dele o pedido: uma dose reforçada de vodca. Willheinn disse que não me reconhecia quando descobriu que eu queria apenas um café bem quente. Manteve-se em silêncio durante algum tempo e depois voltou à conversa anterior. Ao reparar que eu saboreava devagar o café, perguntou-me se parara de beber:
– Estou bebendo, não?
– Não é sobre café que estou perguntando.
– Ainda é cedo para outro tipo de bebida que não seja café.
Riu da minha resposta.
– Outro tipo de bebida... – repetiu minhas palavras em tom de pilhéria e mergulhou numa gargalhada que permitiu que se visse seus dentes muito brancos.
– Você fala com requinte, – disse – parece que também absorveu os dons de escritor para as conversas vulgares.
– Não foi essa minha intenção, – apressei-me em desfazer o mal-entendido – talvez seja devido à solidão em que ando ultimamente, trabalhando em excesso e conversando pouco.
– Solidão? É o que jamais me acontece, – falou – ah, as mulheres!, elas são tudo e não conseguem me deixar sozinho.
Eu e Willheinn havíamos sido muito próximos, aos vinte anos. Tivéramos planos. Ele também escrevera, fizera versos, e até que eram bons. Então toquei no assunto:
– Ainda escreve?
– Bilhetes românticos com indicações de encontros para as horas tardias – riu ao término das próprias palavras.
Nada falei; terminei meu café e reparei o ar mais frio que veio do exterior após a porta ser aberta para a entrada de uma mulher de meia-idade.
Meu amigo olhou para ela, mas não demonstrou interesse. Depois continuou:
– Você deve imaginar a vida intensa que levo desde que fui trabalhar com esses papéis que todos chamam de ações. Não há nada que torne um homem mais nervoso. Por isso é preciso muita bebida e divertimentos nas poucas horas vagas que restam.
– Você então se tornou um homem de negócios – afirmei.
– Isso, um homem de negócios – repetiu.
– E a nossa cultura humanista?
– E por que você acha que não há cultura humanista nos negócios?
Nada respondi. Meneei a cabeça em sinal de dúvida e não voltei ao assunto.
– Sabe quantos picassos a bolsa de Londres pôde proporcionar a alguns de seus grandes investidores?
– Não fazia idéia que distribuir picassos a grandes investidores significasse apreço do mundo dos negócios pela cultura humanista – respondi.
– O mundo dos negócios tem muito apreço pelas artes.
– Você não pensa em voltar a escrever, publicar alguma coisa?
– Vivo minhas histórias na pele.
Riu e levou o copo aos lábios, esvaziando o que restava da vodca.
– Apenas eu as experimento, não preciso compartilhá-las com pessoa alguma – falou.
– Você, porém, está me contando, de certa forma outras pessoas as experimentam.
– Isso, algum privilegiado que escute as histórias de Willheinn, de sua própria voz.
Dois senhores entraram no pequeno bar. Sentaram-se sobre dois bancos próximos ao balcão. Um deles reconheceu o meu amigo, acenou-lhe em silêncio. O outro pediu uma dose de vodca polonesa. Seu companheiro protestou:
– Uma, não; duas.
– Pelo visto os velhinhos andam em forma – sorriu Willheinn, acenando para o empregado que lhe enchesse o copo mais uma vez.
– Escute, amigo, – continuou – essa cidade ainda me parece animada como antes, quero aproveitar o pouco tempo de minha estada aqui, quero ir ao cassino, e preciso também de mulheres...
– Há muito divertimento, mas para isso é preciso dinheiro...
– Dinheiro não é problema; aproveitemos, você é meu convidado – disse Willheinn.
– Pelo visto, o mercado de ações lhe proporciona uma boa vida.
– Aqui entre nós, – sussurrou – boa, não, ótima. E olha, acho que você também possui enorme talento para ter uma boa vida e ganhar o que ganho.
– Não estou interessado em ofertas de trabalho, – rebati de imediato – já tenho muito o que fazer.
– Bem, não entremos em pormenores, você é meu convidado enquanto eu estiver na cidade.
Almoçamos juntos, fomos depois ao bilhar. O homem de negócios encontrou os velhos amigos, conversou com todos, sempre muito alegre e cordial, acompanhado de um copo ora contendo vodca ora uísque. E quando o alertei que já bebera demais, falou:
– É para descontrair, a vida de um homem de negócios é muito tensa.
Jogou algumas partidas. Ganhou a maior parte delas. Quando ele experimentava o taco movimentando-o para frente e para trás, medindo de modo meticuloso como daria a tacada, acertando uma bola à outra, lançando-a em seguida na caçapa, era possível perceber o porquê de seu sucesso no mundo dos negócios.
Quando deixamos o salão, falou:
– Agora vamos às mulheres.
– Calma, camarada, nada é mais reprimido nos dias de hoje nesta cidade do que a prostituição.
– Não falo em prostituição, falo em mulheres.
– E qual o meio de arranjarmos mulheres agora, sobretudo com tanta rapidez? – perguntei.
– Sobretudo? Acreditava que você tivesse algumas conhecidas...
– Oh, meu caro, minha cotação não anda tão alta como suas ações.
Entramos no Bourg, um hotel razoável que eu gostava de freqüentar quando saía com alguma garota. Perguntei ao funcionário da recepção se tinha o telefone da Sra. Polovsky. Ele me olhou com desconfiança; após alguns segundos, no entanto, voltou com o número dela. A sra. Polovsky era uma cinqüentona que agenciava mulheres jovens.
Terminei a ligação e voltei ao meu amigo. Ele se sentara na sala de estar, olhava o imponente lustre de pingentes de cristal e já percebera que havia um bar no fundo da sala.
– Escute, Willheinn, dentro de uma hora chegarão duas mulheres. Você não sabe o quanto isso vai nos custar. E tem mais uma coisa: não falam a nossa língua.
– De onde são, afinal?
– Da Ucrânia.
– Não poderiam ser prostitutas locais?
– Não temos prostituas locais, – afirmei – nossas moças não gostam de correr riscos; as poucas que tínhamos emigraram, vivem hoje algumas na França, outras nos Estados Unidos e creio que são mais felizes.
Enquanto meu amigo recebia das mãos do empregado do bar uma nova dose de uísque, num copo bem mais requintado do que o do bar da sinuca, eu refletia sobre a situação em que me metera. Na verdade, jamais me animara a fazer amor com prostitutas, não conseguia sentir atração por mulheres que faziam sexo em troca de dinheiro.
Quando ele sentou na poltrona em frente e me perguntou mostrando-me seu longo copo se eu também não beberia, tudo que fiz foi sinalizar ao garçom pedindo também uma dose.
– Você não acha que é muito cedo para esse tipo de encontro? – perguntei a Willheinn.
– Por isso mesmo; vamos sair com essas garotas, dar-lhes muita bebida, dançar com elas e, no final, vamos trazê-las para cá e nos fartarmos!
– Não basta apenas treparmos com elas?
– Não, a trepada será o ponto alto da noite, precisamos antes aproveitar bastante ao lado de duas mulheres.
Admirava aquela disposição. Apesar de estar bebendo desde cedo, ainda demonstrava muita energia.
– Foram os ingleses que lhe preparam para gozar a vida com tanta intensidade? Não me parece que lá eles se divirtam tanto.
– Não, claro que não, – afirmou fazendo pose de ator – depois de minha presença naquele pequeno reino, eles evoluíram um pouco e aprenderam a arte de aproveitar a vida, mas creio que ainda lhes falta talento.
As mulheres não demoraram. Comecei a pensar como faríamos para circular pela cidade com as duas prostitutas, como desejava Willheinn. Não eram extravagantes, mas muito altas e demasiadamente estrangeiras. Chamariam a atenção. Uma delas tinha o corpo que chegava a delinear músculos vigorosos. Teria sido uma atleta? A outra era menor e tinha o cabelo curto. Senti uma ponta de atração por esta, que também me olhou fingindo timidez e encanto. Não era possível saber o que vestiam por baixo dos longos casacos. Sobressaía apenas que a de maior estatura usava botas de cano longo, moda há muito ultrapassada entre as mulheres de nossa cidade. Vieram acompanhadas de uma outra, que tinha ar masculino e sotaque italiano. Sussurrou-me que deveríamos pagá-la antecipado e, caso acontecesse algum problema, não deveríamos denunciar pessoa alguma. Diríamos que encontramos as mulheres em alguma rua do Centro. Como minha reação foi demorada, meu amigo quis saber o que conversávamos. Estendi-lhe uma das mãos.
– Trezentos e cinqüenta coroas antecipadas; sem ter o direito de saber se elas sabem dar uma boa trepada.
Deixamos os quartos reservados e tomamos um táxi. Willheinn foi no banco de trás entre as duas, enquanto a mim restou o banco ao lado do motorista.

quinta-feira, março 01, 2007

Tair Anderson

Na Tair Anderson há um restaurante que se situa no mesmo andar de um salão de bilhar. Quem quiser chegar a ele, precisará ir por um corredor que à primeira vista parece sombrio, mas logo em seguida descobrirá algumas lâmpadas que dão um pouco de brilho ao local. À direita encontrará a escada; é por ali que deve ir. Após o primeiro lance, o visitante vai reparar que a porta à esquerda é a do salão de bilhar e, ao voltar-se, verá outra porta, esta de vidro, cuja cor azulada não permite distinguir o interior; é o restaurante.
Esse percurso já era familiar a mim. Não pelo bilhar, mas propriamente pelo imenso e requintado salão que se descortina quando se cruza sua soleira, pois sempre há um maitre atento a quem chega e pronto a lhe abrir a porta. Jamais descobri como pode perceber a aproximação de algum cliente. Ao entrar, recebo os cumprimentos do dono da casa e a seguir sou conduzido à mesa onde permaneço às vezes em que apareço ali.
Naquele dia, recém chegado de Malbork, ainda remoendo minhas incertezas, encontrei Maurice. Na verdade, ele me esperava. À sua frente como de costume, vi um copo de leite. Interessante esse homem, levava o leite à boca e se podia perceber que a bebida lhe proporcionava supremo prazer. Ao contrário de nós, mais jovens, não consumia álcool, bebia seu leite e se mantinha mais alegre e entusiasmado do que qualquer outra pessoa, seu estado de espírito surpreenderia quem não o conhecesse. Maurice, como era de se esperar, mantinha atenção especial pelas artes, que sabia comentar com os pormenores de um crítico, embora não fosse essa sua profissão.
– Caro autor – levantou-se e me abraçou. – Oh, tenha a bondade, sente-se comigo – convidou-me.
Ele me prezava muito, mas naquele dia não me sentia bem para conversarmos sobre literatura. E, além disso, eu passava por um período de angústia, o que me fazia pensar se valia a pena gastar tanta tinta e papel.
– Estive em Berlim e vi na vitrine de uma livraria o seu primeiro livro.
– Os alemães têm muito mau gosto – afirmei.
Deu um largo sorriso, levou o copo de leite à boca e saboreou a bebida mais uma vez, pousou-o depois e continuou estampar a fisionomia alegre. Seu rosto brilhava e lembrava um pouco os dias ensolarados de verão.
– Não fale isso, os alemães sempre cometem alguns erros, mas sobre o seu livro eles acertaram.
O garçom se aproximou e me perguntou em voz baixa o que eu beberia. Respondi que me trouxesse a bebida de sempre.
Maurice voltou ao assunto mais uma vez.
– Sei pelo que passam os jovens autores. Freqüentemente questionam se a escrita vale a pena. Isso é comum a todos os artistas, independente de qual seja a arte que praticam. Há quem diga que só vale a pena qualquer tentativa de criação se houver algo a acrescentar, caso contrário é melhor nada fazer. Não penso assim. Se tal raciocínio fosse verdadeiro, teríamos de nos desfazer de mais da metade do que foi produzido pela humanidade.
O garçom se aproximou de novo, agora trazia uma bandeja prateada que continha a garrafa de genebra e pequeno cálice. Colocou-o sobre a mesa e o completou com o líquido branco. Após fazer ligeira reverência, retirou-se.
– Acho que já falei sobre isso, mas escute mais uma vez. Sempre achei os críticos contemporâneos por muito racionais. Esquadrinham a obra sob perspectivas teóricas que não levam em consideração a sensibilidade. Traçam a arquitetura da criação como uma planta de edifício. E olha que é arriscado falar assim, pois há vários edifícios extremamente poéticos.
Maurice sorriu depois das duas últimas palavras, voltou o rosto a uma das janelas – estavam todas fechadas – e fez como se procurasse algum pássaro que cruzasse o céu portando segredo indecifrável.
Nessa altura, já esvaziara meu cálice. O garçom retornou e perguntou se eu desejava mais alguma coisa. Acenei que me repetisse a dose.
– Veja só; é lógico que toda a obra tem uma estrutura, uma forma; não se poderia se constituir sem isso, mas as pessoas têm a sensibilidade. O crítico também deve tê-la. O leitor não quer saber quantos pilares sustentam a construção, mas quer perceber os olhos dos personagens, reparar suas marcas faciais. Sim, marcas faciais, você nunca pensou nisso?
Eu olhava para ele e queria poder sentir aquela alegria toda e ver tudo o que ele via. Caso eu conseguisse, talvez não fosse mais necessário escrever. Ele sempre estava preste a descobrir alguma coisa.
– É claro, caro amigo, que o crítico também é um leitor, mas é alguém especializado, alguém mais equipado para tal fim. É preciso, no entanto, dizer que falta a muitos sensibilidade. Não estou falando que se deve ceder ao gosto do público, mas quando você diz: "aquela mulher mergulhou num mar de álcool e ali encontrou o atalho de uma nova e provisória vida" você está dizendo algo a mais, não? – assegurava ele –, o que você escreve tem esse estopim.
Diante dessa sua palavra, me veio à mente que tudo poderia ir pelos ares. Depois sorri e ele acabou por me perguntar de que eu ria.
Dei de ombros.
– Falta naqueles que analisam livros hoje em dia um pouco de sensibilidade. Não falo de pieguice, é claro. Não se pode tratar uma obra como uma equação matemática.
– O dono do nosso vespertino chora pelas lágrimas dos velhos românticos.
Ele deu uma sonora gargalhada.
– O dono do nosso vespertino chora pelos leitores que ele não consegue manter a cada dia que passa. O jornal envelheceu junto com ele – completou.
Entraram três homens, passaram por nós e nos cumprimentaram de modo formal. Sentaram-se em uma mesa próxima a uma das janelas. Percebi que pediram a um dos garçons que deixasse sobre a mesa uma garrafa de vodka. Um deles era o inspetor de tráfego do setor sul, controlava o acesso à segunda ponte sobre o rio Knopt; creio que não estava de serviço.
Aproveitei a chegada deles para dizer ao meu interlocutor:
– Veja, a vida é feita de homens práticos. Preocupam-se com profissões, divertimentos em bares, garrafas de vodkas e ocasionalmente mulheres, não estão interessados em arte, menos ainda em literatura.
– Não diga isso, jovem autor, não fale dessa forma. As pessoas precisam de fantasia. E isso é tudo.
– Fantasia? - repeti.
– Isso, fantasia; nunca pensou nisso?
– Já – falei –, mas de uma outra forma.
– As obras de arte precisam suprir esse ponto: fantasia. Há autores que se envergonham, que querem transmitir algo nobre, discussões teóricas, ensinamentos, revelações, etc. Mas o homem busca a arte apenas por isso: fantasia. As pessoas querem se divertir. Isso não quer dizer que o artista deva realizar sua obra de modo vulgar.
Não concordei em parte com o que falava, mas continuei ouvindo.
Ele pediu ao garçom mais um copo de leite e continuou:
– Na maioria das vezes, os estudiosos também não admitem isso, tratam a arte como uma ciência, querem encontrar os princípios que norteiam a criação, esquecem o primado da sensibilidade, da fantasia, esquecem que há uma centelha em cada grande obra que não pode ser captada por instrumentos cirúrgicos. Essa centelha está na realidade abstrata, muitas vezes é alguma coisa que não se consegue dizer, mas a sensibilidade consegue captar. Imagine o teatro grego, as epopéias, os grandes poetas, suas viagens e seu espanto, sem a fantasia.
Reparei meu cálice vazio mais uma vez. Ante nova investida do garçom, fiz sinal que por hora não mais beberia. Meu interlocutor acabava seu copo de leite.
Um casal de jovens entrou no restaurante e se dirigiu a uma das mesas junto ao balcão do bar. O rapaz puxava a moça por um dos braços. Ela resistia e fazia crer que ele a estava machucando. Olhei na direção deles. Quando reparou que eu os observava, o jovem soltou a moça. Ela esfregou uma das mãos sobre o local dolorido, após relutar acabou por se sentar na cadeira que ele lhe oferecia. A seguir, pareceu acalmar-se. Um dos funcionários trouxe dois longos cardápios. Eles, compenetrados, se puseram a lê-los.
Maurice distraiu-se enquanto eu acompanhava o casal. Pareceu não se impressionar com a chegada dos jovens. Olhou novamente em direção à rua, embora não pudesse vê-la, depois pareceu investigar os três homens que tomavam vodka. A seguir voltou-se para o bar, copos e taças dependurados, garrafas de todo o tipo de bebida, e creio que lamentou por sua bebida predileta não figurar entre elas.
– Bem, o que você está escrevendo agora? – lançou-me a pergunta inesperada.
– Nada – retorqui de imediato.
Riu alto de novo. E depois disse que não acreditava, que minha expressão sempre denunciava que eu estava a criar algo explosivo. Não era possível me ver sem imaginar que eu tocava nos subterrâneos da alma. Uso aqui suas próprias palavras.
– Não quero aborrecê-lo com minha conversa – continuou –, mas quis encontrar você para lhe parabenizar e dizer que não desista. Suas histórias são importantes e interessantes. Há quem deseja ver nas obras de arte algum tipo de revelação. Cada um pode procurar o que bem entender. Mas não é função do artista ser uma espécie de deus que leva às pessoas idéias sobre o que elas jamais pensaram. É mais importante a fantasia, a criação de novos mundos. Aqui, talvez o artista se iguale a deus. Os artistas criam novos mundos que passam a existir na mente daqueles que admiram suas obras. E são mundos tão importantes quanto os que nossos próprios olhos são capazes de distinguir.
Maurice disse que tinha pressa. Levantou-se e se foi. Passou pelo balcão e deixou algum dinheiro. Mais tarde descobri que pagara o pouco que consumira, deixara paga a minha parte e mais uma reserva para caso eu pedisse algo para comer. Fez isso por cortesia, sabia que minha situação financeira não ia mal.
Tirei do bolso pequeno caderno e comecei a escrever uma nova história. Nela, uma moça vinha de trem do estrangeiro para encontrar o namorado. Era tímida e arredia. Para tomar alguma decisão precisava ser pega pelo braço. O rapaz gostava dela, tentaria a vida a seu lado. Mas ambos ainda eram muito jovens e imaturos. Talvez vivessem algum tempo juntos, mas depois ela partiria. Ele em algum momento poderia ir à sua procura. Mais aí a história já estava avançando a passos rápidos. Era preciso esperar, escrever sobre o que faziam hoje, seus sonhos, ideais, planos para o futuro. Que futuro? Talvez um futuro sob a capa do jogo e do álcool, como ocorrera a Anne.
Quando descansei o lápis e levantei a cabeça, vi que a jovem me olhava. Será que tivera a sensibilidade de perceber que eu tentava escrever a sua história? E ela até que lembrava Anne.

domingo, fevereiro 11, 2007

Alpengarden

Eu olhava as montanhas através de uma janela lateral quando o garçom nos trouxe a garrafa de champanhe. Anne acompanhava os gestos dele, desviando o olhar apenas para encontrar meu rosto. Tudo levava a crer que se sentia extremamente feliz por eu estar a seu lado; queria minha cumplicidade naquele ato que representava a continuação de uma longa amizade. E eu que não pensava ser recebido com tanta facilidade. A rolha explodiu. Anne sorriu, depois se aproximou e me beijou os lábios, enquanto o garçom se preocupava em encher nossas taças, sem deixar que a bebida transbordasse. A seguir nos cumprimentou e se retirou. Ela pegou uma das taças e a elevou dizendo em voz um pouco alta para o local:
– À nossa eterna amizade.
Correspondi em voz e gestos. Então tocamos uma taça à outra e bebemos alguns goles.
– Você é a última pessoa que eu esperaria aqui em Malbork – falou.
– Sério?
– Sim.
– Por quê?
– Não sei.
– Você não acreditava que, ao partir, me faria falta?
– Não, quando o conheci, não notei interesse de sua parte. Você naqueles breves dias me tratou friamente.
– E depois, quando nos encontramos no centro e também naquele restaurante à margem esquerda do Knopt?
– Não sei, senti que seus interesses eram outros, mas, o que há de se fazer? São ventos de outros tempos, não? – ela falava sem demonstrar ressentimento.
O pequeno restaurante onde nos encontrávamos era decorado de modo rústico, o estilo tentava acompanhar o aspecto da região montanhosa. Naquele momento, éramos os únicos freqüentadores. Havia apenas um garçom e um outro empregado, que permanecia atrás do balcão. De todas as janelas seria possível apreciar diversos ângulos da paisagem, caso a diferença de temperatura interior não deixasse os vidros tão embaçados. Mas era possível imaginar que se destacavam, sobretudo, as escarpas cobertas pela neve.
–Você está surpreso com o local? – perguntou ao ver que eu movimentava a cabeça em algumas direções.
– De certo modo, sim.
– Aqui é bastante acolhedor.
Anne escorregou as mãos sobre as minhas, lançou-me os olhos e perguntou:
– Você foge de alguma coisa?
– Não, lógico que não, por que me pergunta isso?
– Acho sua presença estranha.
– Vim aqui por você, acredite.
Apertou-me uma das mãos com força, depois pegou a garrafa e colocou mais um pouco de champanhe na própria taça. Tomou um longo gole ainda com os olhos voltados para mim e, quando pousou a taça novamente, sorriu de maneira provocante. Depois, talvez para desfazer qualquer mal-entendido, disse:
– Não me leve a mal, quero apenas a sua amizade.
Ficamos em silêncio durante algum tempo. O vento sibilava em torno da construção; percebi que o homem atrás do balcão colocava pedaços de madeira na lareira e tentava concentrar o fogo. A súbita fumaça interior provocou sensação agradável. Anne aproveitou para acender um cigarro, depois esfregou as mãos. Seu rosto brilhava, pensei em uma mulher revestida por pedras preciosas. De repente, não sei porque razão, a imagem de um arco-íris invadiu-me a mente. O silêncio foi quebrado por sua voz macia, que acentuou as cores que lhe serviam de auréola:
– Não se preocupe com o que conversamos naqueles tempos; já não penso em me matar – ao fim dessas palavras, riu com algum espalhafato.
– Ao que parece, nesta cidade todos admiram você. E o jogo é outro forte motivo...
– Talvez – interrompeu-me, soltou um pouco da fumaça ao mesmo tempo em que falava: – a vida tem suas surpresas.
– A vida também trapaceia – quis insinuar, sorrindo ao pronunciar a última palavra.
– Talvez trapaça não seja a palavra adequada, a vida é a vida e não um jogo.
– Entendi – afirmei –, se fosse um jogo certamente você venceria!
– Concordo – enquanto falava, virou-se para o garçom que chegava com uma grande travessa. Depois me disse: – Acompanhe-me, por favor, não como coisa alguma desde a madrugada.
O almoço transcorreu entre silêncios e sorrisos de Anne, que procurava minha cumplicidade até mesmo em seus movimentos mínimos. Por vezes cheguei a pensar que se tratava de alguém muito carente e que, embora não reconhecesse, desejava minha permanência dali em diante, sempre a seu lado. Mas, a cada frase que sua voz emoldurava, também pude sentir a presença de uma mulher misteriosa, alguém que me deixava confuso; e não adiantava pedir esclarecimento a mais, corria-se o risco de tudo se tornar ainda mais nebuloso.
Depois da refeição foi nos servido o café, que era forte e de cheiro muito agradável. Experimentamos a bebida com um tipo de tranqüilidade que apenas naquele lugar se poderia usufruir. Reparei que Anne descobrira novo gosto pela vida. Na verdade, ela saboreava as palavras que dizia, talvez as que ouvia, saboreava a bebida, o gosto doce do cigarro, a comida delicada e agora, ao pousar a xícara sobre a mesa, demonstrava o prazer que lhe proporcionaram os últimos goles do café. É provável que o modo como vivia em Malbork fosse a grande razão de amar tanto a vida, como era possível perceber naquele instante. Comecei a achar que minha estada a seu lado teria de ser breve. Eu não queria atrapalhar a felicidade daquela mulher. Ao mesmo tempo, também concluí que viajara motivado por algo extremamente etéreo, procurava um passado que não mais existia. Não se deve sair em busca do passado; tais palavras tão fáceis e de senso comum só então passaram a fazer sentido para mim.
Descemos as montanhas olhando a paisagem branca. Ela chegou a baixar o vidro da janela à sua esquerda. Frio intenso invadiu o automóvel fazendo o próprio motorista olhar assustado para trás. Depois percebemos que era uma brincadeira de Anne. Às vezes, agia como criança. Riu exagerada do susto que pregou, principalmente a mim. Depois subiu o vidro novamente; permanecemos então no mais incômodo silêncio. Segurou as minhas mãos, aproximou-se e tocou com os seus os meus lábios. Quando voltou à posição anterior, ainda permaneceu com uma das mãos junto às minhas.
– Não me leve a mal, fui tomada por um impulso incontrolável – riu alto.
Pediu ao chofer que nos deixasse no Malgrandtown, como era chamado o pequeno centro.
Caminhamos lado a lado, cobertos pelos pesados casacos de inverno. Alguém acenou para Anne. Ela retribuiu o aceno e fez outro gesto, incompreensível para mim. Entramos por uma pequena rua, reservada apenas a pedestres, onde pude apreciar o comércio local. Observei uma fileira de lojas que aparentavam uniformidade apenas nas portas fechadas e nas vitrines que exibiam suas mercadorias. Tudo estava arranjado de forma artística. As pessoas daquele lugar pareciam se preocupar muito com os detalhes. Arrumavam tudo como se os objetos fossem obras de arte de extremo valor. Entramos por uma passagem que parecia levar a uma das estações de trens. O caminho no início era subterrâneo, com a entrada coberta por enorme proteção de vidro. Servia de teto panorâmico para que se apreciasse a neve caindo do céu. Percorremos o local, que era bem aquecido. Observei várias lojas requintadas, principalmente de roupas, com produtos de vários lugares. As vidraças reluziam, manequins bens vestidos exibiam a moda mais recente, também ostentavam jóias. Aqui e ali viam-se livrarias e cafés. Máquinas de expresso italianas espumavam a bebida quente e de odor forte. Anne me falou em meio às pessoas que circulavam pelo local que o produto vinha da América do Sul. Quando terminamos de percorrer a primeira passagem, encontramos escadas rolantes que nos levaram de novo ao patamar da rua, mas, logo a seguir, ingressamos em outra escada que nos deixou um andar acima. Ali o trem passava embutido em um túnel todo de vidro que permitia apreciá-lo por inteiro. Não se escutava barulho de máquina alguma; o silêncio era rompido apenas perlo ir e vir das pessoas, todas elas por sinal muito bonitas e bem vestidas.
– Onde estamos? – perguntei a Anne.
– Num dos lugares mais interessantes do planeta...
Ela exagerava, porém sentia-se ali clima futurista em harmonia com estilo acolhedor.
Entramos numa loja que vendia chocolates. A vendedora sorriu ao vê-la, se aproximou surpresa.
– É uma honra termos a senhorita em nosso pequeno bistrô – falou baixo e, após a últimas palavras, dirigiu o olhar para mim.
– Oh, ia me esquecendo – dizia Anne –, meu amigo está surpreso, não sabia que Malbork era tão agradável nos tempos atuais.
Apresentou-me à mulher, que vestia um conjunto vermelho de gravatinha preta.
– Estou realmente encantado – afirmei e me sentei diante de Anne.
Ela pediu um tipo de bebida que não compreendi o nome: era um composto de chocolate, licor e uísque. Eu aceitei apenas um expresso italiano.
– Você pretende ficar durante quanto tempo na cidade? – perguntou enquanto tirava um cigarro do maço e o levava aos lábios.
– Ainda não sei, mas não pretendo permanecer por muito tempo, sinto que posso atrapalhar suas atividades.
– Que atividades? Você vai querer jogar contra mim?
– Não, é lógico que não. Eu não seria capaz. E, além do mais, não teria tanto dinheiro para perder.
– Você é um homem de sorte, creio que não perderia.
– E Schrobel? Você crê que ele me deixaria ganhar. Aparentou-me impiedoso.
Ela virou-se tentando demonstrar seriedade.
– Oh, não me fale em Schrobel.
– Como, não? Vocês arrasaram os adversários.
– Aquilo foi mero acaso; não via o poeta há um ano...
– Mais pelo visto, vocês dois continuam em forma.
– Não brinque com essas coisas, nada tenho a ver com Schrobel.
Anne desviou os olhos para o longo corredor e apreciou pelo vidro duas adolescentes que passavam vistosas, trajando roupas coloridas; ambas cobriam a cabeça com gorros de cor verde. Evitei voltar ao assunto do jogo. Quando a garçonete surgiu com a bandeja que comportava taças e xícaras, Anne pronunciou em minha direção algumas palavras carinhosas:
– Não fique bravo comigo. Estou até precisando de alguém e você é uma boa pessoa. E é inteligente. Fique mais um pouco, ou até mesmo se estabeleça por aqui; poderíamos nos ver mais e então quem sabe? O futuro... o futuro não podemos prever, mas há indícios de que combinamos.
– Anne, essa sua proposta é muito séria. Você disse o tempo todo que queria apenas a minha amizade, agora fala de modo como se poderíamos tentar alguma coisa juntos, uma vida lado a lado. É isso mesmo?
– É e não é – falou enquanto levava a taça a boca.
– Gosto muito de você, estou aqui porque senti sua falta, mas não posso aceitar essa resposta. É o mesmo que você me dissesse que não está interessada em fazer tentativa alguma.
Ela sorriu mais uma vez. As adolescentes tinham parado diante de uma vitrina de roupas, encontraram mais duas amigas, entre elas havia agora também um rapaz. Todos sorriam e pareciam estar combinando alguma coisa, talvez uma festa, pensei. Senti inveja deles. Viviam a idade em que se têm muitas certezas.
– Anne, vou ver você jogar durante alguns dias, vou fingir que não a conheço. Aliás, os garçons daquele hotel são muito gentis. Antes mesmo de eu perceber de quem se tratava, um deles já me informava sobre você. Ficarei, manterei distância, mas talvez não suporte por muito tempo esse seu jeito de ver as coisas.
– Veja – falou de novo –, não exijo coisa alguma de você. Também gosto de você, mas não posso me comprometer, entende?
– Entendo.

Aquela noite não fui ao salão de jogos. Permaneci no meu quarto com o aparelho de TV ligado; tentava estar a par do que acontecia pelo mundo.
Nos dias seguintes, acompanhei Anne durante a tarde e dormi com ela algumas noites. Deixava aviso à recepcionista para que permitisse a minha entrada. Não consegui, porém, conviver durante muito tempo com aquele cotidiano de jogo. Ela vivia daquilo, quase sempre ganhava. E também bebia muito. Tudo era, para mim, desgastante ao extremo. Eu também já jogara e ainda bebia, mas havia algo mais importante que eu precisava fazer.
Seis semanas após ter chegado a Malbork, eu partia. Despedi-me de Anne. Ela não disfarçou as lágrimas. Falei que poderia viver com ela, mas não naquelas circunstâncias.
Quando o trem, resfolegando, deixou a estação, pressenti que não mais nos veríamos.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Malbork
Quando desci do trem em Malbork e percebi a atmosfera da cidade, comecei a experimentar sensações que nos ocorrem apenas quando estamos num local que não visitamos há anos. As pessoas pareciam afáveis e logo um dos carregadores se ofereceu para levar minha bagagem. Confesso que achei sua fisionomia familiar. Cumprimentei-o e disse-lhe que precisava de um táxi. Atravessamos todo o pátio da estação entre gente que se preparava para embarcar. Como a cidade não era tão populosa, a grande quantidade de viajantes assustou-me. Mas meu carregador, no entanto, antecipou-se:
– Muitos vão para as montanhas nesta época do ano, é a temporada de inverno, a cidade vira ponto de conexão. Se ao menos isso gerasse algum benefício para Malbork, mas nos resta apenas migalhas na porcentagem dos impostos.
Perguntei se conhecia o Wensk.
– Oh, é um bom hotel, é para lá que o senhor vai?
– Não, não – apressei-me em dizer –, vou para o Hilton.
– Fica em frente, e também não deixa de ser bom. Há todas as noites um carteado forte no salão principal. Vem gente de longe jogar ali.
– Não é o meu caso, bem... – quis justificar-me, mas concluí a tempo que qualquer explicação seria desnecessária. Ele manteve a discrição e nada mais falou até chegarmos à fila de táxis.
O recepcionista do hotel desejou-me boa estada na cidade, agradeceu-me pela preferência e sinalizou ao mensageiro para levar minha bagagem ao terceiro piso, onde ficava meu apartamento. Enquanto esperávamos o elevador, a porta de entrada do Hilton se abriu para alguém que chegava com algumas malas. Olhei em direção à rua e só então reparei a fachada do Wensk: suas janelas brancas o diferenciavam das demais construções vizinhas; diante da entrada de veículos, havia um pequeno semicírculo, onde os automóveis deveriam contornar caso se dirigissem ao hotel; acima da entrada principal vi dois mastros, um com a bandeira da cidade e outro, creio, com a do hotel.
À noite, permaneci no bar, pedi uma dose de uísque. Ainda não tinha coragem para começar a investigar sobre Anne, o verdadeiro motivo de minha visita àquele lugar. Enquanto o garçom servia-me procurando respeitar as regras da boa etiqueta, eu observava os outros hóspedes. Descobri homens sós, que bebiam e fumavam, pareciam tranqüilos e pensativos. Em algumas mesas, outros conversavam, contavam casos, riam e aguardavam a abertura do salão, para o início do jogo. Ainda ouvi de um deles, que usava bigode fino e fumava com piteira:
– Então, Sólon, já está recuperado?
– Acaso jogo futebol? – revidou.
– Você sabe sobre o que estou falando – continuou o primeiro, enquanto soltava o ar e se mantinha envolvido na fumaça do cigarro.
– Você não perde por esperar, Andrei. Está referindo-se ao jogo de ontem, não? Hoje você vai ver quem é Sólon.
O amigo sorriu e lhe apertou o braço direito, demonstrando concordância àquelas palavras. Depois se dirigiu ao bar e voltou com uma dose de uma bebida que não consegui distinguir.
Em uma das mesas viam-se mulheres, e eram elegantes. Também fumavam, mas pareciam não beber. Uma tinha os cabelos pretos curtos e a outra, a pele morena; pareciam aguardar alguém. A primeira demonstrava alguma impaciência, o que lhe proporcionava algum charme.
– Não, não, vocês sabem que não serão bem recebidos aqui, por favor, não insistam – era a voz do gerente, que aparecia no final do salão junto à escada e vinha acompanhado de três homens ainda jovens, um deles de cabelos compridos.
– Mas temos bastante dinheiro, veja – mostrou um deles, tirando dos bolsos maços de notas de cinqüenta coroas.
O funcionário do hotel olhou assustado, mas não se deu por vencido.
– Da ultima vez que estiveram aqui, vocês criaram problemas. Os outros jogadores quiseram chamar a polícia, disseram que vocês trapacearam, e vejam bem, nós não queremos problemas com a polícia, é melhor vocês procurarem outro lugar para jogar.
– Nada ficou provado contra nós naquele dia. Há pessoas que não sabem perder, e foi isso que aconteceu – afirmou com veemência o de cabelos compridos. E ainda continuou: – nós vencemos honestamente, somos homens corretos.
– Os participantes daquela noite julgaram impossível vocês ganharem todas as rodadas e os deixarem em frangalhos...
– Frangalhos? Ha, ha, ha, vejam só que palavra ele usa, frangalhos – e deu sonora gargalhada, se dirigindo a todos que estavam no salão. – Vejam, deixamos os nobres jogadores em frangalhos, segundo este senhor, vejam, frangalhos... – e continuou rindo.
– Keyne – interpelou o da piteira – deixe-os jogar.
O gerente o olhou com desconfiança.
– Me desculpe, senhor, não o conheço bem, o tenho visto algumas vezes, creio que não conhecem esses rapazes, são arruaceiros; se os deixamos jogar, sabemos que vão criar problemas, zelamos pela tranqüilidade desse lugar.
– Deixe-os jogar, vão perder hoje.
– Mas senhor... – ainda quis contra-argumentar o gerente.
– Eu me responsabilizo.
– Não precisamos que alguém se responsabilize. Essa é uma casa legalizada, o jogo aqui é permitido; se não nos deixarem jogar, estarão infringindo uma antiga lei do principado, podemos chamar as autoridades, nada aqui há contra nós – continuou o jovem.
O gerente ainda quis dizer alguma coisa, mas acabou silenciando. Demonstrou certo embaraço e se retirou. Sua fisionomia anunciava que depois não aceitaria reclamações.
De meu canto, pude observar melhor os três homens quando se aproximaram. O de cabelos compridos era Schrobel.
O jogo começou às 21h. Até ali os participantes não eram muitos, mas, a partir das dez, outros homens foram chegando e se juntando à mesa de pôquer. As duas mulheres, que estavam no salão, também ingressaram no jogo; ainda fumavam e, agora, bebiam algo que tinha coloração rosa.
À meia-noite, entrou uma dama vestida de preto. Alguns homens se levantaram para cumprimentá-la. Ela correspondeu movimentando a cabeça com suavidade e oferecendo uma das mãos de maneira delicada. Dedicaram-lhe o melhor lugar à mesa.
Nesse momento, percebi que minha estada na cidade seria turbulenta. Aquela mulher era Anne. Não fazia idéia que tinha tantos conhecidos e achei que não poderia manter discrição alguma caso desejasse estar a sós com ela.
Por incrível que pudesse parecer, Schrobel e seus amigos perdiam até ali. É verdade que deram algumas mordidas iniciais, mas naquele momento tudo indicava que a sorte não os favorecia.
A chegada de Anne provocou burburinho que a princípio não consegui entender. Um dos garçons, porém, após me trazer mais uma dose, deixou escapar, não sem que eu lhe enfiasse em um dos bolsos uma nota de dez:
– É a senhora Anne, o senhor nunca ouviu falar a seu respeito? É uma grande jogadora. É rica. Ganha na maioria das vezes.
Afastou-se sem mais comentários.
A mulher de negro ganhou logo a primeira rodada. Depois ela e Schrobel alternaram-se nas vitórias. Os outros parceiros começaram a se impacientar e se mostravam propensos a abandonar a mesa. O de bigode fino, que pilheriara no salão antes do jogo, agora via sua fichas – na verdade acumulara muitas desde o começo – se perderem. Seu amigo Solon mantinha os olhos arregalados, como quisesse dizer que não poderia perder tanto duas noites consecutivas. As outras mulheres estavam desconcertadas e, para disfarçar, acenaram ao garçom pedindo-lhe que enchesse ambos os copos. Outros tantos homens que ainda permaneciam viam suas fichas se acumularem ora ao lado de Anne, ora ao lado do homem jovem de cabelos compridos.
A partir das duas da madrugada, apenas os dois permaneciam na mesa: Anne, de um lado e Schrobel, do outro.
Alguém tentou fazer humor ligando o nome do jogador à poesia pela qual era conhecido, chegando a sugerir que, em vez de vencer sempre, deveria parar para recitar alguns poemas.
A resposta imediata partiu de um de seus amigos:
– Idiota, não vê que a poesia hoje está nas cartas.
O homem de meia idade, enfurecido e envergonhado, tentou agredi-lo, mas foi contido pelos que olhavam o jogo, sendo retirado do salão. Schrobel manteve-se impassível e ganhou duas vezes seguidas. A mulher recuperou uma, mas depois perdeu as outras três rodadas.
Às três e um quarto o jogo terminou com a vantagem para o poeta. Ambos se cumprimentaram de modo formal e se retiraram. Ninguém no salão ousou afirmar que houvera trapaça naquela noite.
Na tarde seguinte, eu caminhava sob frio intenso por uma das ruas laterais ao meu hotel. Por diversas vezes passara diante do Wensk e pensara alguma maneira de chegar até Anne. Havia poucas pessoas na rua, e vez ou outra algum veículo trafegava vagaroso. Ao voltar ao hotel, reparei no outro lado da rua um senhor gordo, de farda azul e branca, as cores do Wensk. Atravessei a avenida e me dirigi a ele. Pelo que percebi, usufruía alguns momentos de descanso na parte externa do prédio. Acendeu um cigarro enquanto eu me aproximava.
– Boa tarde, senhor – tomei a iniciativa.
– Boa tarde – respondeu-me com alguma desconfiança; então percebi que ele tinha algum problema no olho esquerdo, pois o piscava continuamente.
– Preciso saber a respeito de um hóspede – arrisquei.
– Dirija-se ao balcão de recepção, por favor, lá há uma recepcionista.
Sim, era isso que eu já deveria ter feito e não tivera coragem: procurar por Anne em seu próprio hotel.
A funcionária cumprimentou-me atenciosa e perguntou o que desejava. Após minhas poucas palavras, quis saber meu nome. Fez então uma ligação. Aguardei alguns nervosos segundos. A seguir falou:
– Tenha bondade, senhor, apartamento 314 – e me indicou o caminho.
Anne demonstrou alegria porque eu estava a procurá-la.
– Por que não falou comigo ontem à noite, durante o pôquer no Hilton?
Não sabia que dera por minha presença na noite anterior e só consegui desvencilhar-me da pergunta fazendo outra.
– Como você e Schrobel conseguem trapacear com tanta perfeição?
Deu uma gargalhada movimentando a cabeça para trás. Pude então reparar que, apesar das olheiras e algumas marcas que o passar dos anos lhe impusera, ainda mantinha a beleza de outros tempos.
– Não entendo como esses velhos podem ser tão idiotas – completei.
– Vamos sair, quero mostrar a você um lugar maravilhoso, onde poderemos conversar com tranqüilidade e saborear alguma coisa apetitosa.
Ligou a seguir para a recepção.
– Karenya, por favor, peça a meu motorista para estar à entrada em quinze minutos.
Ele se apresentou pontualmente e nos abriu a porta do veículo com toda a formalidade.
Rumávamos a uma estação montanhosa, nos arredores de Malbork.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Gunsk

A primavera é uma estação alegre em grande parte dos lugares, sobretudo em Gunsk. O degelo acontecia de modo que não atrapalhava a vida dos habitantes da pequena cidade. Meu hotel se situava junto ao lago. Podia-se vislumbrar de uma das janelas do segundo andar a fina camada de gelo que se desfazia a cada dia e em breve daria lugar às límpidas águas do lago, que brilhariam novamente sob os mornos raios de sol.
Naquela manhã de fins de março, dirigia-me ao restaurante. Costumava-se comer em demasia naquele lugar, mas desejava apenas o desjejum. Uma xícara de café com leite, algumas torradas e iogurte. Havia poucos hóspedes no hotel. Fora da temporada, não há quase viajantes. Surpreendeu-me uma mulher só, que usava óculos escuros dentro do restaurante e se sentava junto a uma mesa próxima à escada que levava ao piso inferior.
Tentei disfarçar meu interesse em observar sua silhueta. Fazia seu pequeno almoço devagar e olhava as páginas de um livro. As outras mesas estavam praticamente vazias. No lado oposto, junto à janela que dava vista para a entrada principal, três senhores conversavam quase que de modo inaudível. Pareciam querer contribuir com o ambiente de paz e silêncio do lugar.
A chegada de um dos garçons com a bandeja plena de xícaras, pequenos pratos e talheres provocou um tilintar que me fez voltar novamente para a mulher. Agora ele a servia com zelo e atenção.
No decorrer da manhã, enquanto eu caminhava pelas alamedas frias e ainda com pouca vegetação, pensei o que uma mulher sozinha estaria fazendo ali naquela época do ano. Perdi-me em divagações que não eram de minha conta. E flagrava-me em atitude um tanto conservadora.
A cena se repetiu durante três dias. Sempre a via no mesmo lugar, lendo o livro, e, cobrindo-lhe os olhos, os óculos escuros. Não consegui enxergar título ou autor do livro. Ela comia e bebia vagarosamente, quase não fazia movimento algum. Tudo parecia ser repetição da cena que presenciei no primeiro dia.
Na manhã de quinta-feira, não mais a encontrei no restaurante durante o café da manhã. Provavelmente partira, pensei. Durante a tarde, no entanto, a avistei num dos bancos do parque. Senti vontade de me aproximar, mas não tive coragem. Ela, no entanto, sem desviar a vista do que ainda lia, me dirigiu algumas palavras. A princípio não compreendi. Mas depois de alguns instantes, percebi que me cumprimentava. Parei e retribuí-lhe a atenção. Surpreendi-me novamente quando me dirigiu as seguintes palavras:
– Sente-se um pouco, ainda é cedo para a hora do chá.
– Oh, não tolero chá – respondi.
– É por isso que nunca o vejo no restaurante à tarde.
Não falou mais nada. Ainda demonstrei certo desconforto devido ao silêncio que se estendeu dali em diante. Ela não se moveu. À hora do chá, pediu licença, levantou-se e se foi.
Eu partiria no dia seguinte. Concluí, então, que não seria possível estabelecer algum tipo de relação com ela. Durante à noite, porém, acordei com alguém batendo à porta do meu quarto. A princípio, estranhei. Depois fui abrir. Surpreendeu-me a presença dela. Ainda usava os óculos escuros e se podia perceber que tinha chorado. Pedi que entrasse. Apontei uma cadeira junto ao aparador. Ela abaixou a cabeça e permaneceu durante muito tempo naquela posição.
– Ainda não sei seu nome – experimentei.
– Elizabeth – proferiu num tom de voz suave.
– O que houve?, algum problema?
– Não, não houve nada.
Foi só o que respondeu. E novamente mergulhou num longo silêncio.
Apaguei a luz do quarto. A claridade ofuscava-me. Deixei acesa apenas a luz de um abajur lateral.
– Você é um escritor famoso, não? – perguntou.
– Escritor, sim; famoso, nem tanto.
– Li seus dois livros.
– O segundo foi muito criticado.
– Sei, acompanhei a polêmica – resumiu com voz embargada.
– Você bateu aqui às duas da madrugada para discutir literatura?
– Não, nem tanto – chegou a sorrir.
– Você acredita que os personagens poderiam ser pessoas reais? – continuou.
– Como assim? – surpreendi-me.
– Por exemplo: aconteceria tanta coisa a Leopold Bloom, em um dia, se ele fosse um homem de carne e osso?
– Ele era de carne e osso.
– Se fosse uma pessoa como qualquer um de nós? - ela insistia.
– Essa é uma questão complexa.
– Como assim?
– Creio que seria inútil conversarmos sobre isso agora.
– Descobri que você vai embora amanhã.
– E você, mora aqui?
– Vou-me embora à tarde.
Levantou a cabeça e fixou o rosto em minha direção.
– Podemos nos ver em outra ocasião, em outro lugar – arrisquei.
– Responda-me só uma coisa: você acredita que a trajetória de um personagem poderia ser real?
– O real é discutível - redargüi.
– Muitos falam assim.
– Sim. A maioria das coisas são construções. Vivemos mais de histórias. O que corresponde ao real, ou à realidade, no espaço de um dia? Você daria conta de absorver através de seus sentidos tudo que está à sua volta, ao natural? Estamos aqui nesse hotel. Vemos o jardim, o restaurante, o quarto. Suponhamos que essas coisas sejam reais. Será que só vivemos dessas visões? Lembramos, pensamos, articulamos. O que são essas coisas? São experiências diretas ou estão misturadas ao que nos disseram, nos contaram ou lemos? Mesmo que algumas tenham sido experiências diretas, não são reais. Passam pelo crivo dos conceitos que criamos. Como eu falei no início, é uma questão muito complexa. Há os jornais, o rádio, a TV. Estamos mais cercados dessas coisas do que desse seu real...
– O real não é meu, – interrompeu – é um fato.
– Se você considera que tudo que nos chega é real...
– Nem tudo.
– Dê um exemplo.
– Será que eu sou real? Sou, você não acha?
– Depende. Você representa uma realidade. O real é uma outra coisa.
– Que coisa?
– Talvez o deserto, como diz aquele filme.
– Seus livros não são reais?
Comecei a perceber que ela brincava. Apaguei a luz e disse a ela.
– O que você vê agora?
– Nada.
– Então, isto é o real. Se acendo a luz, não há mais real. A própria lâmpada é uma construção. E também tudo que você verá em volta.
– Não acenda a luz – me pediu.
Senti que ela deitou-se a meu lado. E, talvez ironicamente, acrescentou:
– Vamos viver o real, mesmo que seja por uma noite.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Knopt

Numa tarde de sexta-feira de novembro as águas agitadas do Knopt levaram um menino. Ele brincava com outras crianças junto à margem direita. Corria. De repente debruçou-se na amurada, seu corpo projetou-se adiante e mergulhou nas águas geladas do rio. Os bombeiros foram logo acionados. Duas embarcações ligeiras procuraram durante horas o pequeno. Alguém avisou por telefone à cidade seguinte. Se ele fosse encontrado lá, no entanto, já se sabia que não estaria vivo. Em todo caso, a sobrevivência era difícil devido à baixa temperatura. Várias pessoas se aglomeraram no ancoradouro de Humpt. Muitos saltaram à velha embarcação que permanecia amarrada a toras e olhavam em todas as direções tentando descobrir algum vestígio do desaparecido. Crianças assustadas correram para junto de suas mães. A ponte Triestgarden abrigava vários homens e mulheres que em vão voltavam-se às águas lamacentas e rápidas que escorriam abaixo. Jovens revoltados formaram uma milícia e apedrejaram o posto de fiscalização que ficava também sobre a ponte. Pessoas presentes tentaram contê-los, mas a indignação era maior. Após discurso inflamado contra a administração local feito por um deles, outras pessoas aderiram aos revoltosos e multiplicaram-se as mãos que arremessavam projéteis improvisados contra a guarita. O guarda de plantão precisou fugir. Marcharam depois em direção à Câmara, mas foram contidos a tempo e dispersados por policiais avisados do que acontecia.
Como entardecia cedo naquela época do ano, as buscas tiveram de ser suspensas. Um clima de tristeza abateu a cidade. Ninguém tinha o que dizer. O acidente não fora o primeiro, sofria-se, porém, porque a vítima era uma criança.
Normalmente às sextas havia mais transeuntes no centro velho. Bebia-se animadamente até altas horas. Mas àquela noite a cidade ficou de luto. Após escurecer, as pessoas se dispersaram. Uns poucos se dirigiram às bodegas da margem direita, enquanto outros desapareciam embarcando nos transportes sobre trilhos, peculiares na cidade.
Entrei no bar de Greend. Dei-me com dois conhecidos. Meneei a cabeça cumprimentando-os. Eu e Greend éramos velhos amigos. Cumprimentou-me e, sem que eu precisasse dizer palavra alguma, serviu-me.
Às oito horas, Blend, morador de Munch, chegou à cidade. Até então eu não o conhecia. Vinha elegantemente vestido, trazia uma pequena valise. Entrou na bodega e pediu uma dose de uísque. Depois de tomar a segunda dose, tentou estabelecer diálogo.
– Soube que houve uma tragédia hoje.
– Sim – afirmei.
– A cidade está deserta. Não é costume estar assim às noites de sexta.
Usava uma gravata estreita sob o paletó preto, que continuava abotoado. Pendurara o grosso casaco logo que entrara.
– Venho de Trebic, viajo a negócios. Sempre pernoito aqui uma vez por mês, mas nunca vi o senhor – disse, continuando a se dirigir a mim.
Apresentei-me e permanecemos conversando. Parecia ser um homem alegre, feliz. Aos poucos, sob o efeito da bebida, foi se soltando. Contava casos engraçados sobre os moradores das cidades que sempre visitava. Ressaltava de maneira caricata o exótico, alguma pilhéria, ou alguém idiota e estapafúrdio. Começamos a rir. Inicialmente de modo acanhado, mas depois já à vontade. Até mesmo esquecidos da recente tragédia. A seguir falou sobre Malbork, cidade onde eu estivera há alguns anos e que me trazia boas recordações.
– Você conhece o Hotel Wensck?
– Conheço – respondi.
O Wensck era uma hotel antigo. Tinha três andares, mas não possuía elevador. Situava-se num lugar pitoresco. Suas janelas davam para as montanhas que permaneciam durante grande parte do ano com os cumes cobertos pela neve. A cidade não abrigava esportes de inverno; quem quisesse praticá-los devia se dirigir a uma outra povoação, a mais ou menos duzentos quilômetros de distância, para então começar subir as montanhas. Isso proporcionava à cidade atmosfera tranqüila e a deixava longe de turistas predadores que só viriam estragar-lhe o caráter de refúgio para aqueles que gostavam de se isolar do resto do mundo.
– Estive lá essa semana.
– Esteve no Trwarbovar?
– Claro! Você acha que eu ia perder essa? – disse com entusiasmo, enquanto mostrava o copo vazio a Greend.
– É o único lugar da cidade onde se pode ter uma boa bebida e uma boa comida – afirmei.
Ele assentiu com a cabeça, enquanto levava à boca mais uma dose de uísque.
– Conheci ali uma mulher. Sempre estive lá, mas nunca dei pela existência daquele ser fabuloso.
– Como se chama? – perguntei curioso.
– Apenas Anne, pelo que pude depreender.
Imediatamente me veio à mente a imagem de uma mulher com quem há anos me relacionara. Ele demorou-se durante algum tempo a descrevê-la e não tive mais dúvida de que se tratava dela mesma. Partira de onde estávamos havia três anos. Mudara de nome. Escondia-se em Malbork. Na ocasião da partida, dissera-me que seria a última tentativa. Durante toda a vida não se adaptara a lugar algum. Decidira dar mais uma chance a si própria. Era, a meus olhos, uma mulher atormentada. Isso ainda a tornava mais bela. Não disse nada a ele. Esperei que continuasse a conversa.
Um casal entrou na taberna de forma atabalhoada. O homem puxava a mulher pelo braço. Ela usava um vestido negro reluzente, que pude perceber quando tirou o casaco. Parecia estar bêbada. Tentava se libertar do braço dele. Mas ele a segurava com força, até que conseguiu fazê-la sentar em um dos bancos, junto a uma pequena mesa.
– Vamos comer algo, você precisa se alimentar, já bebeu demais – dizia a ela, se esforçando em transmitir-lhe carinho ou cuidado.
A mulher, porém, queria mais um dose de vodca. Insistiu tanto que Greend acabou levando-lhe a bebida. Tomou tudo de uma só vez. Ergueu a cabeça voltando os olhos para cima, como se apreciasse o teto do bar. Deu uma sonora gargalhada, depois se acalmou.
Blend reatou nossa conversa.
– Como eu ia dizendo, ela se chama Anne. Você a conhece?
Meneei a cabeça negativamente, enquanto bebia mais um pouco.
– Conheci-a nesta semana. Prometi voltar. Passamos uma noite juntos. Logicamente com muito respeito, no Trwarbovar. Ela me disse que mora no Wensk. Como é possível morar num hotel? Mas ela disse que mora e gosta muito. A rotatividade dos hóspedes parece que lhe causa excitação.
– O Wensk é propício a esse tipo de vida – consegui dizer algo, tentando não tropeçar nas palavras. Não queria que ele descobrisse a antiga relação que tivéramos.
A verdade é que eu a conhecera em Gunsk há oito anos. Ela estava em férias lá. Tentava se recuperar de mais uma de suas crises. Descobri que morávamos na mesma cidade. Quando voltou, estabeleci contato. Tivemos um romance. Fiz tudo naquela ocasião para ficarmos juntos, mas ela não era mulher de permanecer muito tempo com ninguém, nem permanecer no mesmo local. Quando partiu para Malbork, fui me despedir dela. Disse que um dia iria visitá-la, mas nunca fui.
– Disse que conheceu a obra de Schrobell – continuava ele com entusiasmo. – Parece que é um poeta excelente. Leu até alguns poemas para mim.
Eu o ouvia. Mas aquela conversa acabou por provocar-me forte impressão. Não pelo próprio Blend, mas pela lembrança de Anne. As inúmeras doses que eu já consumira também contribuíam para isso. A atmosfera do bar me sufocava. Outras pessoas entraram. Fumaça de cigarros se espalhava por todo o ambiente. A mulher bêbada recostara no ombro de seu homem. Parecia dormir. Embora Blend continuasse falando, eu já não ouvia suas palavras. Mudara de assunto. Contava sobre outros lugares, outras pessoas. Meus olhos estavam voltados para ele, meus pensamentos, entretanto, não mais se encontravam ali. Voltara-me para Anne.
Sim, iria até ela. Na próxima semana, viajaria a Malbork.

sábado, dezembro 02, 2006

O Buderwais
O buderwais ainda não recebera os habituais freqüentadores. Suas luzes vermelhas e azuis podiam ser vistas através da porta de vidro e já iluminavam com sutileza o interior do pequeno restaurante.
Anoitecera havia pouco. Joj Reed permanecia rente ao balcão lateral. Tinha um pequeno copo à frente e parecia, até aquele momento, sóbrio. Trajava uma surrada camisa grossa de mangas compridas, cinzenta, calças de brim, bota marrom com fivela de couro. Seu casaco jazia dependurado, por enquanto sozinho, na parede junto à porta de entrada. Estava quente ali dentro, mesmo assim, na cabeça, não dispensava o tradicional boné azul. A roupa apertada deixava transparecer que Reed estava realmente gordo. Tinha um rosto de menino, apesar dos cinqüenta e poucos anos. Demonstrava constante interesse por qualquer tipo de assunto. Punha-se a ouvir qualquer história atentamente. É lógico que não acreditava em todas. Mantinha-se sempre informado sobre tudo que acontecia em Kempt, embora o distrito tivesse crescido para o sul, lugar onde ele nunca estivera. Era um bom sujeito. Estava sempre pronto a ajudar alguém, desde que a necessidade não fosse dinheiro. Juddy aniversariava. Ele sabia que em breve a casa estaria lotada, por isso não tardara.
Todo final de outono havia festa no Bud. A data era conhecida por todos. Juddy fazia questão de não esquecer amigo algum. Pagava a despesa prazerosamente. Convidava até mesmo alguém que por acaso vira uma só vez. Era mestra em fazer amigos. E todos aproveitavam. Conhecidos e desconhecidos.
Um dos garçons tomava conta de um grande assado que havia horas parecia girar no forno improvisado. Ali não era habitualmente lugar de muita comida, era mais um bar do que um restaurante, mas aquele era um dia especial. Todo cuidado era pouco. E ele não queria decepcionar os convidados.
– Completa pra mim – mostrava o copo vazio ao ocupado garçom –, daqui a pouco você nem conseguirá ouvir minha voz.
O empregado o olhava enviesado. Mostrava-se nada simpático. Aquele freguês antes da hora o incomodava. Pegou bruscamente uma garrafa e completou sem disfarçar a fisionomia de desagrado.
Joj levantou o copo como se quisesse olhar através do vidro translúcido. Admirou a bebida transparente. Depois, rapidamente, em apenas um gole, despejou-a goela abaixo.
Devido ao frio, não havia mesas na parte externa, sobre o estreito calçamento. Era comum ocuparem aquela área. Até mesmo uma parte da pequena rua, em dias de temperatura amena, quando o bar lotava. Por enquanto, porém, algumas mesas permaneciam desarmadas, na área posterior. Talvez mais tarde, quando a bebida esquentasse homens e mulheres, alguém se lembrasse de armá-las e provavelmente muitos nem se importariam com o frio intenso.
Jefrey Santon acabava de chegar. A porta rangera. Joj virou o rosto e percebeu a entrada de um homem com fisionomia aborrecida. Não perdeu o humor:
– Veio sozinho, Santon? Deixaram você livre hoje? – deu uma gargalhada estridente.
Era por causa da mulher, que nunca o deixava em paz. Sempre que saía, ela imediatamente vinha atrás. O rosto do amigo – na verdade não podiam ser chamados de amigos quando estavam sóbrios – permaneceu impassível. Santon, a princípio, ignorou-o completamente. Joj nada falou. Mas pôde perceber que saía em vantagem com a blague. Sabia que depois da segunda ou terceira dose ele viria falar-lhe e tudo acabaria bem.
Após pendurar o casaco, tirar o gorro e enfiá-lo em um dos bolsos, olhou ao redor. Parecia desaprovar o ambiente. Acabou por pedir uma dose de uísque.
– Pode aproveitar, Santon, hoje não é por nossa conta – gargalhou Joj.
O garçom gritou por alguém que vinha lá de dentro. Mostrava-se por demais ocupado para atender bebedores, segundo ele, adiantados. O empregado pegou a garrafa e quando ameaçou entornar a bebida em um pequeno copo, deparou-se com as grossas mãos de Santon a cobrir o recipiente. Como já o conhecia, ia servir-lhe o uísque que bebia em dias comuns.
– Do legítimo, por favor - sussurrou de modo nada amistoso.
Depois de ser atendido e ainda observar durantes longos segundos a bebida que só podia usufruir em dias de festa como aquele, levou o copo ao nariz querendo sentir primeiramente seu odor. Após uma menção cordial a Joj, como desejasse a ele, ainda que em silêncio, saúde – tentava devolver-lhe o deboche –, virou o copo à boca.
A chegada de um casal despertou o interesse daqueles até então poucos freqüentadores. Era Célia Grifth acompanhada de um homem mais jovem, devia ter, no mínimo, dez anos a menos que ela. Vieram de modo sorrateiro. Entraram. Sentaram-se em silêncio junto a uma das mesas laterais, próxima à janela. O vidro estava bastante embaçado. A mulher procurou na bolsa uma carteira de cigarros. Tirou um, tateando sem pressa as extremidades do maço. Em seguida procurou fogo. Como custava encontrá-lo, Joj pensou em se adiantar, mas não foi necessário. Ela tinha um isqueiro. Ainda olhando ao acompanhante, que talvez se surpreendia com sua contida teatralidade, acendeu o cigarro e deu um longo trago. Os cabelos louros e um tanto embranquecidos – ela não usava tintura – se destacaram. Era bela. Não seria necessário apontar-lhe a idade para que se gostasse dela. Mesmo um tanto envelhecida, muitos não deixariam de desejá-la. O acompanhante, com pequenos olhos, perscrutou todo o recinto; vislumbrou o grande relógio acima do balcão principal; os copos virados e dependurados; as garrafas amontoadas a um canto sem preocupação de ordem ou harmonia; a fisionomia enfastiada do garçom e seu auxiliar; de esguelha investigou Joj e Santon. Quando o cigarro já atingira a metade, ouviu-se a voz de Célia, como que ao acaso. Dizia: "Bud, onde todos vêm, mas nunca se encontram". Acabou rindo alto da própria pilhéria. De repente falou ao acompanhante:
– Não vai pedir nada? Não tenha medo. É a Juddy que aniversaria. Daqui a pouco ela chega. Convidou os amigos e os amigos dos amigos. Não se preocupe. É por conta dela.
Ele, abrindo um pouco mais os olhos, a olhou. Sussurrou um tanto tímido a ela:
– Stanhagger e água mineral.
– Stanhagger? Bebida de profissional. Mas água mineral? Não me parece – disse sorrindo gostosamente. – Mas não é a mim que você deve pedir, eu não sou o garçom – falava enquanto apontava ao balcão mostrando o empregado da casa. Ela continuava com o rosto alegre e jovial.
Aos poucos as pessoas foram chegando e às 9:30 grande parte dos convidados já se encontrava no Bud, como era conhecido pelos freqüentadores usuais. O interior do bar estava quente. Embora a temperatura caísse ainda mais, alguns homens não se intimidavam e já se esparramavam pela parte exterior. A bebida contribuía para que carregassem as pequenas mesas para o lado de fora. Outros preferiam permanecer de pé. A aniversariante ainda não chegara. Mas era aguardada com muita ansiedade. Alguém ensaiava as primeiras notas musicais em um pequeno teclado. Um microfone mal regulado assobiou, sendo logo contido.
– Você precisa entender, Rich, que ele nos roubaram. Se tivessem de pagar tudo que nos tiraram, teríamos dinheiro para receber durante o resto da vida.
– Calma, Lionel, hoje é dia de festa. Não precisamos falar nisso. Bebamos do melhor.
– Não, isso jamais poderá ser esquecido – vociferava – fomos roubados. Criaram até leis para nos achacar.
Lionel saíra para junto às pessoas que se aglomeravam no passeio. Entre o vozerio, carregando seu eterno caneco de cerveja, acabava sempre no mesmo assunto. A venda das usinas de Kempt. Como a maior parte das pessoas que estavam ali, trabalhara lá.
– Eu disse na época – continuava –, quem apóia esta ação está enforcando-se, está atirando em si próprio. Mas não acreditaram. Achavam que tudo ia melhorar. Torpedearam até mesmo as ações do sindicato. Ilusão. Veja no que deu.
– Ele tem razão – bradou Kinsk um tanto turvo. – A questão são os índices. Lembram dos expurgos? Nunca recebemos aquele dinheiro. A justiça se arrasta até hoje entre marchas e contramarchas. Como pode o governo reconhecer a atualização de cinqüenta por cento dos índices para as indenizações e não fazer o mesmo sobre os salários que nos pagavam há quinze anos? E olhem que só reconheceram cinqüenta por cento – fazia questão de frisar, cuidando para que a bebida que trazia no copo não entornasse.
– Por que os novos compradores não nos pagaram ou não nos pagam agora? Se isso acontecesse, mesmo que em parcelas, todos teríamos dinheiro para receber durante o resto de nossas vidas. Lionel tem razão. Isso jamais deve ser esquecido. Essa campo de batalha jamais deve ser abandonado.
Célia já falara com a maior parte dos presentes. Acendera o quinto cigarro. Bebia, no entanto, pouco. E somente cerveja. Apesar de fazer questão de cumprimentar a todos num estado de constante alegria, não esquecia seu acompanhante. Fazia questão de se voltar para ele, sempre mostrando-se gentil. Procurava não deixá-lo isolado no local, já que ele estivera somente uma ou duas vezes ali em outras ocasiões e não conhecia pessoa alguma.
– Você já ouviu falar nas antigas usinas de Kempt, não? – perguntou Célia a ele.
– Claro. Quem não ouviu?
– Aqui há muitas pessoas daquele tempo. Praticamente todos ficaram sem emprego após a venda. Mas deixemos esses problemas de lado. Hoje não é dia de se falar nisso.
Sinalizou ao garçom que já não conseguia contentar a todos. Pedia que pegassem as bebidas junto ao balcão. Mas a de Célia., fazia questão de levar.
De repente alguém gritou:
– Vem aí a Juddy!
Todos se levantaram e puseram-se a cantar animadamente para a aniversariante.
A festa tomou maior vigor com a chegada de Juddy. Vários brindes foram feitos. Ouviam-se o tilintar de copos, taças e canecas. Um festival de beijos e abraços acontecia junto à aniversariante. O homem da pianola começou a entoar uma música que era do agrado de todos os presentes. O vozerio se fez maior na tentativa de acompanharem a canção.
O homem que viera com Célia sentia-se feliz por estar ali. Não esperara por aquela festa num final de domingo. Observava as pessoas, e embora silencioso, achava-as simpáticas. Quando a balbúrdia amainou e todos tentaram retomar a conversa que acontecia antes da chegada de Juddy, ele pode observar três homens que discutiam sobre um maço de folhas que um deles tinha às mãos.
– A poesia de Schrobel acabará se perdendo – dizia –, isso precisa ser publicado.
– Você já esteve com ele? – indagava após apanhar com um ar de satisfação um caneco de cerveja que jazia sobre o balcão. – Você já conversou com ele sobre isso?
– Não, apenas o conheço – respondeu o outro. Este era magro e usava cavanhaque.
– Tweeth já falou com ele diversas vezes – interferiu o terceiro. – Ele não dá importância. Disse que se a literatura o quiser que bata à sua porta.
Os três gargalharam.
– É engraçado – dizia o último –, mas a coisa é séria. Isso é muito bom, precisa ser preservado.
– Ele escreve como se estivesse brincando. É impressionante – refletiu em voz alta o que começara a falar.
– O perigo é que há inúmeras folhas soltas por toda a cidade. Amanhã ou depois, quando se quiser juntar tudo, vai ser difícil. Vai ser preciso comprovar a autoria – Tweeth redargüiu.
– Nosso velho complexo de cão menor e vagabundo. Um dia reconheceremos que não tivemos poeta melhor do que ele – essa voz foi a de um intruso que acabara de chegar e tomava um copo cheio de vodka. Todos o olharam admirados e se surpreenderam. Mas acabaram gostando da opinião.
– Aqui também se discute Schrobel! – exclamou admirado o acompanhante de Célia.
– Você o conhece? – ela indagou.
– Li alguma coisa dele, mas ainda não há livros. Folhas esparsas circulam por aí. Principalmente pelos bares do Centro Velho.
– Eu não o conheço pessoalmente – continuou Célia –, mas dizem que ele é intratável. E pior de tudo é que bebe demais e sempre está envolvido em confusão.
– Mas o que escreve é de primeira – o amigo retorquiu.
Um homem de seus sessenta e poucos anos andava de um em um e parecia oferecer alguma coisa. Até que alguém respondeu de maneira nada amistosa.:
– Você vem à festa e ainda quer vender essas bugigangas?
– Não são bugigangas, são jóias - rebatia, olhando nos olhos do interlocutor.
– Hoje não é dia de trabalho. É dia de festa, vê se não aborrece.
Ele fingiu que não escutou e continuou sua peregrinação. Ia de um em um. Não demonstrava incômodo com as palavras rudes que às vezes recebia.
Reed e Santon agora cantavam juntos, acompanhados pelo homem da pianola. Já tinham bebido em demasia, mas agüentavam o tranco. Nunca foram tão amigos. Estavam perfeitos até na voz, bastante afinada. A platéia apreciava e tentava cantar junto com eles.
O amigo de Célia olhou o relógio. Já era madrugada de segunda, e a hora ia adiantada. Fez menção de partir.
– Não, senhor, você não vai embora.
– Já estou muito cansado. Bebi demais – dizia ele.
– Por isso, mesmo. Vamos descansar em minha casa.
– Já é segunda. Início de semana... – insistia.
– E o que tem isso? – indagou Célia. – Por acaso alguém trabalha em Kempt? Lembre-se que as usinas foram vendidas. Estão fechadas. O aço vem da Ásia. É mais barato para o governo pagar trezentas coroas de seguro desemprego a cada um de nós.
Riram os dois e mais quem ouviu a piada, aliás, não era piada. Era verdade. Pediram mais uma dose. E agora serviam champanhe. Não iam perder essa oportunidade.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Kempt
O Knopt fluía tranqüilo naquela tarde de domingo. O frio era intenso, mas ainda insuficiente para congelar as águas cinzentas do rio. Na margem oposta ao ancoradouro de Humpt, uma velha embarcação permanecia amarrada junto a toras. Não se via pessoa alguma. Virei-me para a straat Kourbuse e continuei caminhando cidade adentro. A taberna Kaiser permanecia fechada. O velho Greend, seu proprietário, sempre desaparecia no início da tarde para dormitar durante uma ou duas horas. A antiga tabuleta, junto ao postigo, dependurada a uma marquise tão antiga quanto ela, além de identificar o local, trazia logo abaixo o nome de Greend. A primeira transversal, seguindo pelo estreito passeio, era a Tair Anderson, pequena viela que ligava a rua onde eu me encontrava à Deigth Lusckern, uma rua maior, que também permanecia totalmente deserta. Ergui um pouco o rosto logo que entrei na Deigth e pude observar os sobrados que se enfileiravam. Serviam como depósitos, muitos estavam abandonados, eram mais que centenários e percebiam-se várias alterações na construção original. A arquitetura sofrera modificações conforme as necessidades de cada época. A Tair dera-me consciência de minha solidão, na Deight essa consciência se ampliou. Inspirei com mais vigor e ao soltar o ar me senti gelado. Grandes latas de lixo ainda se encontravam junto a portas de alguns estabelecimentos comerciais que funcionaram até tarde na noite anterior. A limpeza pública as havia esvaziado, mas a presença delas tornava o local um tanto inóspito. Tentei perceber a presença de alguém, porém não consegui descobrir sequer uma alma. Um ruído, inicialmente distante, fez-se ouvir; gradativamente foi crescendo até se transformar num pequeno ônibus que saiu da Liev Kroubin. Esta rua serve de ligação aos bairros populares da zona oeste. O veículo vinha em marcha lenta. O condutor usava um boné azul marinho inclinado para o lado esquerdo. Ele olhou-me como perguntando se eu subiria. Fiz um pequeno sinal com o braço direito. Ele parou. Entrei fazendo um aceno silencioso com a cabeça. O ônibus partiu vagarosamente. Pertencia a uma linha que circulava no centro velho da cidade, seguindo até a margem direita do Knopt. Não atravessava a ponte que ligava aquele setor da cidade aos bairros mais nobres. Dali ele voltava e trafegava novamente o centro velho até se perder na periferia de Kempt, bairro antes proletário, próximo às antigas e extintas indústrias da zona central, que agora se tornara pleno de bares e bodegas, habitado por homens e mulheres que tentavam sobreviver de pequenos serviços autônomos. Aos domingos a empresa reservava àquela linha apenas um veículo. Não havia praticamente pessoa alguma que transitasse para o centro velho e para as margens do rio, principalmente devido ao tempo frio. Dentro do veículo ia apenas, além do motorista, uma mulher. Era uma senhora. Usava a cabeça coberta por um pequeno lenço à holandesa. Seus cabelos castanhos podiam ser observados porque escorriam até abaixo dos ombros. Usava óculos. Fingi não tê-la percebido. Ela me olhou de soslaio e continuou mergulhada em si. Íamos aos solavancos, enquanto eu me surpreendia com a cidade desabitada. O ônibus enfiou-se por mais ruas desertas, senti-me deprimido. Pensei um tanto absurdamente que uma bomba de gás poderia ter explodido. Apenas eu o motorista e aquela mulher seríamos os sobreviventes.
- O senhor ouviu cair uma moeda?
A voz da mulher cortou a tarde silenciosa desviando-me os pensamentos. Pareceu soar numa língua estranha Assustei-me. Depois me virei. Só então entendi o que ela perguntava. Recolhi uma pequena moeda sob um dos bancos, entregando-lhe a seguir.
- Obrigada – retribuiu lançando-me um curto sorriso. Fiz apenas uma leve menção com a cabeça, voltando-me à rua em que agora íamos. Estávamos já beirando o campanário de Kempt. O veículo começava a retornar em direção ao centro velho. Reparei que a mulher não descera. Permaneceria ali fazendo novamente todo o percurso. Voltaria, absorta, pelas mesmas ruas até o outro extremo da linha. Senti vontade de perguntar aonde ia. Mas depois conclui que eu fazia o mesmo. Entrara no ônibus por entrar, sem rumo, apenas para passar o tempo e me esquivar do frio. Ninguém adentrara durante todo aquele percurso.
- O senhor também faz como eu... - iniciou a frase e a interrompeu subitamente me dirigindo o rosto, como que ouvindo minhas anteriores conjecturas. Tentava iniciar um breve diálogo.
- Como a senhora? - demonstrei não ter entendido.
- É, como eu - continuou -, fujo todas as tardes de domingo, não agüento ficar em casa. É uma desolação.
- Sim - acrescentei sem ter mais o que dizer. Demonstrei desânimo em relação à conversa que se iniciava.
- Às vezes fico no ônibus a tarde inteira. Quando começam aparecer os primeiros moradores de Kempt, vou para casa.
- ...
Ela notou que eu não correspondia, mas continuou:
- Quase sempre não há ninguém. Hoje o senhor apareceu...
- É... - proferi mais um vez, me desculpando pelo longo silêncio.
- Na semana passada o motorista me deixou às margens do Knopt. Atravessei a ponte às quatro da tarde e me dirigi ao setor leste, mas me decepcionei.
- Por quê? - animei-me em perguntá-la.
- Os bebedores de cervejas de Kempt são mais interessantes. Às vezes fazem barulho. Isso me diverte.
- E os do setor leste?
- Lá não há ninguém. As ruas são ainda mais desertas e as bodegas comuns não existem. Me arrependi. É sempre mais animado em Kempt.
Estávamos novamente na straat Korbuse. Olhei o velho Greend na porta de sua bodega. Fiz menção em me levantar para descer. Ela deteve-me.
- O velho Greend cheira mal. Vou levar você a um lugar melhor. Não desça.
Permaneci indeciso. Um desconforto abateu-me. Mas perguntei:
- Aonde?
- A Kempt. Lá sempre é melhor. E hoje à noite há uma pequena comemoração no Buderwais.
- No Buderwais?
O Buderwais era uma espelunca que se destacava das outras devido à sua parca iluminação. Pequenas lâmpadas azuis e vermelhas tremeluziam durante a noite, criando uma atmosfera bruxuleante. Vez ou outra algum artista local se apresentava no estreito palco improvisado, à direita da entrada principal.
- Não se preocupe, venha comigo, é por conta da casa.
Concordei emitindo um monossílabo, enquanto observava a fumaça que saía de minha boca em direção à fresta de uma das janelas recém aberta.
As luzes brancas e frias da avenida se acenderam. O condutor não se surpreendeu porque continuávamos no veículo. Fez o contorno na Tair Anderson; novamente trafegava na Deigth Lusckern, em direção a Kempt. Agora, sob as primeiras sombras da noite.

sábado, novembro 04, 2006

Baudelaire

Eu estava sentado à mesa de um bar. No lado oposto, havia uma mulher loura, de cabelos compridos. Fumava um cigarro longo, desses raros, que os jovens já não procuram. Aspirava-o sôfrega, retinha a fumaça durante algum tempo, depois a soltava natural, de modo que esta subia e se perdia no ar. O cigarro entre os dois dedos e o sorriso constante atraíram-me. Esperei. Queria me certificar de que ela estava só. Entre desejos intempestivos de lhe enviar um bilhete, consegui aquietar-me: "você é linda", escreveria "e o cigarro lhe dá um charme terrível". Mas aguardei. Não queria quebrar-lhe o encanto. Sua idade? Não sei, nem importa. Levei o copo de chope à boca, mas não desisti de acompanhá-la a distância. Meus olhos eram lanternas inseguras em noite de desacertos. Ela também bebia, mas era algo que beirava o rubro, e havia uma colherinha dentro do copo. Uma mulher feliz, pensei. O garçom chegou-se a ela, ouviu-lhe silencioso palavras mágicas e se retirou solícito. Sobre minha mesa, segurei uma das rodelas de chope e a girei sobre a toalha quadriculada. Já havia bebido demais, mas não perdera a lucidez. Quando o garçom voltou, sussurrou-lhe algo que a tornou fada encantada. Desisti de interpelá-la. Não a tocaria nem que me sobrassem versos de um Camões ensandecido, ou mesmo de um Bocage perdido nas trevas da contemporaneidade. O relógio luzia-me duas da madrugada. Horas dos boêmios cônscios de que sempre foram sós e de que aos sós não existe remédio. Não sei se sua presença lançava-me em mar de velas abertas e enfunadas ou de vagas irregulares sob céu sem estrelas, intempérie das horas tardias.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Desemprego

Cruzava eu o movimentado Largo da Carioca numa manhã ensolarada de dezembro quando, subitamente, senti um toque às costas. Voltei-me. Era Agnaldo, e qual não foi o seu espanto:
- José, como vai? O que tem feito? Há quanto tempo ... - e mais perguntas triviais de alguém que há muito não vê o amigo.
Trabalháramos juntos durante alguns anos, fôramos verdadeiros amigos; ele confiava em mim e me contava até mesmo seus segredos mais íntimos. Depois a empresa me demitiu alegando excesso de funcionários; então, desapareci.
Após alguns instantes de hesitação, meio sem jeito, fez a pergunta crucial:
- Em que você está trabalhando atualmente?
Num gesto brusco, joguei minha maleta entre seus braços e mantive as mãos levantadas como se não a quisesse de volta.
- Vendo malas, valises, maletas - dizia enquanto ele, assustado, tentava segurá-la.
Me olhou espantado já abraçado à pequena mala, tentava dizer alguma coisa. Sorri e continuei:
- É da melhor qualidade, couro legítimo, vários compartimentos, pode observar, não há melhor no mercado.
Agnaldo me olhou de novo, agora comovido. Fez que ia comprar. Talvez pensasse sobre minha situação, talvez quisesse me ajudar. Eu já fora um bom funcionário, ganhara bem, mas naquele momento... Fez menção de me devolver a mala para tirar o dinheiro do bolso, mas, de repente, exclamou:
- A mala está cheia de coisas, veja isto!
Dei uma sonora gargalhada e então respondi:
- É tudo brincadeira, não vendo mala alguma, vamos tomar um café - convidei.
Respirou aliviado, me devolveu o artefato e caminhamos para o bar mais próximo.
Irônico, acrescentei:
- O café é por minha conta.

segunda-feira, outubro 02, 2006

In extremis

Continuava sentado junto à mesa tentando ordenar as idéias. Naquele dia, inspiração era algo difícil; nada me vinha à cabeça. Havia prometido uma matéria sobre determinado assunto, mas a folha virtual ia branca. Fui até à janela algumas vezes, acendi e apaguei vários cigarros. Fumei cada um deles até pouco mais da metade. O ar da sala tornara-se insuportável. De repente, uma mulher próxima à janela, no outro bloco do edifício. Havia muito que trabalhava naquele lugar e nunca a observara. E como era bonita. Segurava algumas folhas de papel, parecia estar lendo ou examinando algum documento. A postura dela era de uma planta altiva e elegante que derramava galhos pleno de flores recentes. Permaneci no mesmo lugar por mais algum tempo. Tive a esperança de receber de volta seu olhar, mesmo que ao acaso. No entanto, não aconteceu. Voltei-me após ela desaparecer. Mergulhei novamente nos temas que tinha em mente. Cheguei a tocar no maço de cigarro mais uma vez, mas reparei o cinzeiro cheio de pontas. A proteção de tela já aparecera. Pequeno avião atravessava céu azul informático. Era o efeito do tempo. Em breve, o monitor ficaria negro. Proteção quase in extremis; ainda me restava o automático, inação total. Era o espelho de minha mente naquele momento. A tarde já avançava. Logo escureceria e a cidade começaria a fervilhar, as pessoas deixariam os grandes prédios do centro: umas voltariam a suas casas, outras iriam aos bares, restaurantes, conversariam, ririam...
Fui ao banheiro; lavei as mãos e dei com minha fisionomia no espelho. Não me lembrava qual a última vez em que me observara tão de perto. Os olhos pareciam mais fundos; a testa tinha rugas que me lançavam na incerteza dos anos...
À janela, a mulher do outro lado reaparece; agora me olha. Percebo em suas mãos papel límpido com alguns algarismos; mapa desenhado a números. Detenho-me ante a possível alucinação.
A mulher: planta de caule delicado, folhas finas, flores amarelas.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Tabaco
Quando na Grécia os deuses ainda vinham se misturar com os homens, não havia o arranha-céu que sobe lavado pela chuva.
João atravessou a rua munido de dois maços de cigarros. Seria suficiente para toda a noite. Na praça ainda havia algumas pessoas, sobretudo homens que carteavam. Lembrou-se da simplicidade desses jogadores de fim de vida. Mas quem sabe o que seja fim ou o que seja vida? Olham reis, damas, valetes e outras cartas que passam rápidas, muito rápidas.
Um ônibus que vinha do Centro anunciou sua presença com o ranger de freios; alguém saltou, depois o veículo continuou vagaroso, o motor era fera coagida em cidade de domadores.
Camões, grande Camões quão semelhante teu fado ao meu quando os cotejo... Olhou à porta vizinha, silêncio. Nem mesmo um ruído. O bêbado parara a vinte metros, encostara a uma árvore. Saberia ele sobre Camões?, saberia sobre outro poeta?. Camões grande Camões..., a voz diminuiu de volume até desaparecer.
Quando girou a chave, pensou que entre os gregos talvez não houvesse a solidão. Ao chegar à sala, o guardador de rebanhos: um quadro na parede; quem lhe dera o nome? Quando comprara, já viera assim. Mas ali, guardador, só de automóveis...
O cinzeiro estava cheio de pontas. E o anúncio de que o cigarro faz mal à saúde. Fumava havia sessenta anos. E se parasse? Talvez morresse. Acendeu mais um. Num ligeiro movimento, esbarrou no telefone silencioso; tocava uma vez na semana: a mulher da lavanderia. Caminhou até a janela e viu a loja em frente: um bar; um homem chegou à porta, trazia à mão um copo de cerveja. Acenou-lhe da calçada erguendo breve o braço desocupado. Retribuiu-lhe. Era o Esteves. O mundo reconstruiu-se. Observou a fumaça que subia pelo quarto. Uma coisa banal, mas que também o restituía ao mundo. Viu na pouca névoa a imagem de uma mulher, pequena prostituta em frente a Mercês de Cima; dádiva de corpo na tarde cristã. Esmeralda, a última que estivera ali, e fazia mais de um ano. Cheiro forte de tabaco, foi o que pronunciou. Achou engraçado alguém pronunciar a palavra tabaco. E ela tinha o aspecto tão jovial. No mar tanta tormenta e tanto dano... Novamente o mendigo. Na terra tanta guerra... Esmeralda levantou-se, vestiu-se rápida e não voltou.

sábado, setembro 02, 2006

Sozinhos
“O senhor então sentiu vontade de voltar a ver-me?”
Lúcio olhou ao redor tentando levar a conversa a outro destino. Seta atirada sem premeditação, não calculara o risco de ter descoberta a posição.
“E então?”, a voz da mulher continuava a ressoar pela sala; revelava alguém incólume a desvios e com plena consciência das intenções do homem à sua frente.
“Bem...”
Percebendo que ele titubeava, não o socorreu. Deixou que o prolongado silêncio revelasse todo o embaraço em que se metera. Na verdade, nau à deriva, não notara que desde a chegada girava em torno de si próprio; e quanto mais tentava retornar a terra, mais se perdia em maré turva.
“Quando éramos meninas eu e minha irmã íamos à casa de seu pai. Você ainda não havia nascido. Gostávamos do lugar, gostávamos de ouvir sua avó; ela nos contava histórias maravilhosas. Pena não tê-la conhecido. Você não seria um homem tão perdido e ao mesmo tempo tão enredado em si mesmo”.
“Bem...”
“....”
“Bem...”
“Jerusalém era então uma terra distante, não sonhávamos com outro lar”.
“Ah, sim , Jerusalém...”
“Tivemos de fazer viagem mais longa, demoramos a reencontrar os amigos; hoje, onde estão? Quase todos já partiram”.
Havia uma jarra de flores sobre a pequena mesa. Ao observar que ele olhava naquela direção, deu alguns passos e, com gesto hábil, proporcionou mais elegância a um rosa.
“Não venha aqui em busca de sentido.”
“Mas... mas não tenho essa intenção.”
“Todos somos sós. Ninguém há de nos ter apreço, com exceção de nós mesmos”.
“Eu tenho apreço a você; ou melhor, gosto... gosto muito...”
A revelação ecoou precipitada e fora de tom.
“Agradeço, mas fiquemos nesse ponto. Olhe bem para mim. Estou bem, e nem tenho mais idade...”
Alguém passou tilintando a sineta: “hora do chá!, hora do chá”!.
Ester levantou-se. Lúcio quis amparar-lhe o braço, ajudá-la na caminhada até o restaurante. Mas ela, polidamente, recusou.
Ele então ouviu-lhe a voz, encantadora e baixa:
“Vamos tomar o chá”.

sexta-feira, agosto 18, 2006

High society

O cabelo caiu-lhe sobre a testa quando estendeu o fósforo aceso. A noite ainda amparava-se nas últimas sombras. Acendi o cigarro e continuei olhando um ponto indefinido no horizonte. O pensamento entretanto não se mantinha ali.
Voltei-me para Gilberto, mas ele não percebeu. Eu ainda pensava na mulher que havíamos deixado desacordada dentro da casa.
Não sabíamos o que ocorrera. Pedi a ele que lhe tomasse o pulso. Não acreditei quando me disse que nada ouvia. Tentei ampará-la, apalpá-la; mas a senti fria; os lábios pouco a pouco perdiam a cor.
"Vista-a!", ainda gritei revelando todo meu desespero.
"Vamos embora, vamos!", foi tudo o que disse.
"Vamos procurar ajuda".
Minha proposta não encontrou eco.
"Não há quem possa nos ajudar, e logo vai amanhecer; estaremos encrencados".
Alguma coisa crescia dentro da casa, nos revolvia o estômago; o ar faltava, faltava-nos fôlego. Abandonamos tudo e corremos até o outro lado da estrada. As estrelas luziam indiferentes; um resto de lua nos aguardava, paradoxos de um mundo distante, paraíso tenebroso. A mulher ainda quase menina talvez morta.
O cigarro acesso indo e vindo a meus lábios acalmava-me. Cheguei a pensar que se o tempo parasse ali talvez fôssemos felizes.
"Eu lhe disse, ela não estava acostumada, não devia ter nos acompanhado".
"Agora não adianta mais", soltou a fumaça junto às palavras e atirou longe a ponta de cigarro.
Eu procurava uma saída que antecedesse às primeiras luzes. Queria não acreditar no que vivíamos, mas tudo era vão. Explosão precipitada de mina plantada por nossas próprias mãos.
"Vamos", Gilberto gritou de dentro do carro.
"Vou ficar".
"Você está louco?"
Desceu do jipe, me pegou pelo braço, tentou me arrastar. Uma das mangas do agasalho ficou em suas mãos. Pegou-me então pelo pescoço.
"Você tem que ir, precisa ter sangue frio neste momento, não podemos mudar o que aconteceu".
"Mas a mulher está morta!", meu grito se perdeu no ar.
Conseguiu que eu entrasse no carro. Depois, o ronco do motor.
Ao manobrar, a poeira da estrada misturou-se à neblina.
Partimos.
Descemos a serra sem mais palavras.