sábado, agosto 25, 2012

Eurípedes e os deuses

No Centro Cultural da Justiça Federal, no centro do Rio, está em cartaz uma peça chamada Medeia en Promenade. Não se trata de montagem da famosa peça de Eurípedes, mas um texto de Clara de Góes, cuja encenação apresenta uma Medeia que dá continuidade ao texto do dramaturgo grego. Uma mulher no exílio, que anda continuamente a esmo, seguida de uma criada que se nega a abandoná-la e do fantasma da mulher que se tornou a causa de toda a tragédia, a filha do rei, jovem por quem seu marido a trocou.

É praxe na literatura quando nos deparamos com textos de períodos que não o nosso, tentar-nos colocar no lugar do leitor/ouvinte contemporâneo ao autor que os produziu. Dando um salto no tempo até o barroco brasileiro, dou um exemplo. Como devemos ler e/ou ouvir a poesia de Gregório de Matos num mundo como o de hoje, pleno de ruídos, impregnado pela presença ostensiva da imagem, obstáculos que às vezes nos sonegam a audição atenta à sonoridade dos seus versos?

Em relação ao teatro, podemos dizer o mesmo. Como observar a Medeia, de Eurípedes, aproximando-nos dos olhos e do pensamento de um grego daquele tempo?  É essa questão que me aflige quando vou ao teatro assistir a espetáculos que fazem algum tipo de releitura de textos clássicos. Algumas delas acabam por colocar na voz dos personagens problemas que eles não tinham e não viveram.

Não me atrevo a avaliar o mérito ou demérito da encenação de Medeia en Promenade, apenas discuto algumas das questões colocadas pelo texto. Medeia, que parte para o exílio permanente após o assassinato dos próprios filhos, está, num primeiro momento, mergulhada no esquecimento. A ama que a segue, inclusive, faz de tudo para não lhe reavivar a memória e, numa espécie de monólogo inicial, se refere ao habitat perdido como um universo extremamente masculino e opressor. A personagem principal é alguém que vaga por entre tempestades, em meio ao frio intenso e à contínua procura por abrigo. O fantasma da filha do rei Creonte aflige a protagonista, pois para mostrar o apodrecimento dos seres vivos arrasta um cachorro morto, e acaba por revelar o próprio corpo também apodrecido, queimado por Medeia no ato de vingança. O esquecimento de Medeia sobre o crime terrível que cometeu, no entanto, é apenas aparente, na verdade ela está consciente de seu ato. Além disso, não o justifica como vingança contra o marido, mas como um modo de fazer perdurar seu nome ante às gerações vindouras.

Não só o teatro grego, mas todo teatro tem algum tipo de moral a transmitir, mesmo independente da vontade do autor. Quando escreveu Medeia, querendo ou não, Eurípides conseguiu nos dizer que o destino não estava tão seguro nas mãos dos deuses. Os homens, e também as mulheres, segurariam com mais firmeza o leme de suas naus, assim poderiam melhor aportar onde bem o quisessem. A tragédia da mulher que mata os próprios filhos por ciúme ao marido talvez fosse algo até menor diante desse fato.

Na atual montagem, quando acossada pela pergunta do fantasma da princesa (ela quer saber o que restou do crime que a mulher de Jasão praticou), Medeia grita-lhe em resposta seu próprio nome; a seguir, aponta para fundo da cena, onde da escuridão acendem em luz forte as letras que compõem o nome "Medeia". Percebemos, então, ainda que de modo precário, um dos pontos fundamentais da moral da antiguidade clássica, moral essa mais presente no teatro de Eurípedes do que em qualquer outro do período: a insurgência do humano contra a supremacia dos deuses.

Como sempre estamos presos a uma boa história, apressamo-nos em condenar alguém que tenha praticado crimes classificados como hediondos, alguém, sobretudo, que pratica o imperdoável ato de sacrificar os próprios filhos. Mas esquecemos de perguntar: e para os deuses, quantos foram os sacrifícios?

Medeia em Promenade talvez traga a premência não da crítica ao mundo masculino, ou da crítica ao racismo (no texto de Clara, Medeia é negra), ou mesmo à condição do estrangeiro (nas cidades da Grécia antiga, a quarenta quilômetros de onde se morava já era terra estrangeira), temas tão comuns hoje, mas quase impensáveis para o homem grego; mas a necessidade de se compreender o ser humano como senhor do seu destino.

O crime de Medeia é apenas o leitmotiv de toda essa questão. Depois de Eurípedes, o Olimpo já não seria o mesmo.

sábado, agosto 18, 2012

Ler por prazer

Na semana passada, escrevi sobre o ofício de leitor, mas para isso tive de falar também do ofício de escritor. Não disse, no entanto, o que me levou ao assunto.

Não faz muito tempo, li uma entrevista concedida à Folha de São Paulo por Carlos Heitor Cony. Em determinado momento da conversa, entre uma pergunta sobre sua vida de jornalista e outra sobre sua vida de escritor, a repórter soltou: “o que lhe agrada mais, ler ou escrever?” O acadêmico, com humildade, respondeu: “gosto mais de ler, escrever é o meu ofício”.

Interessante a resposta, porque mostra que o escritor coloca-se como qualquer ser humano normal, não escondendo certo tédio ou fastio por seu trabalho, mesmo sendo este um ofício que dá destaque ao ser humano. Caso fosse alguém muito vaidoso, diria que gosta mais de escrever, e que tal prática é tão necessária quanto é a respiração para a sua sobrevivência. Mas Cony sempre foi humilde, a notoriedade procurou-o, ao invés de ele procurar por ela.

O ofício de leitor sempre é mais prazeroso. Nada melhor do que pegar de modo despreocupado um livro, lê-lo com avidez ou mesmo abandoná-lo caso não agrade. Nada de dar satisfações a alguém sobre a leitura, nada de ter a obrigação de fazer comentários sobre a história, ou ainda o pior, ter de escrever uma resenha sobre o livro. O leitor de jornal lê um ensaio em dez minutos, mas não sabe quantas horas, ou mesmo dias, o autor precisou para articulá-lo.

Faz pouco tempo, como comentei aqui na coluna, adquiri a mais recente tradução do Ulysses, de James Joyce. Como quem não quer nada, comecei a ler o livro mais uma vez. Minha esposa falou: “esse livro não precisa ser lido por inteiro, há várias pessoas que o leem em partes, tiram dele só o que interessa”. Ela é psicanalista lacaniana, sendo assim, a falta, para ela, é muito pertinente. Mas fui avançando, página após página e, com o passar dos dias, não peguei em outro livro (às vezes leio dois ou três ao mesmo tempo). Só parei quando cheguei à página 1106, a última do romance. Pensei, então: está bom, um livro lido apenas por interesse e prazer, nada de escrever sobre ele.

Mas se passaram dois ou três dias e chegou o prazo de mandar a resenha para o número de setembro da Folha Carioca. Eu tinha uma matéria já escrita, sobre um livro da Martins Fontes, mas achei que não era o momento de publicar aquele texto. O que escrevo, afinal? Então, a leitura despreocupada foi por água abaixo. Comecei a escrever o texto sobre o Ulysses da Penguin Companhia das Letras.

Lembrei-me do Cony e do sua preferência pela leitura, lembrei-me também da minha tentativa de ler por prazer. Não demorou muito e o meu texto ficou pronto. Esperei o dia seguinte. Sempre espero o dia seguinte para melhorar um texto, durante a madrugada às vezes me surgem algumas ideias.

Ao amanhecer, fui de novo ao computador. Revisei a matéria e acrescentei aquilo que achei necessário. Mandei, enfim, a resenha para a revista. Depois, lembrei-me: dois os meus fiascos nestes últimos dias. O primeiro foi não ter conseguido ler um livro na paz dos leitores; o segundo, não ter escrito a crônica semanal. A matéria sobre o livro de Joyce foi escrita na quinta e na sexta, dias em que escrevo a crônica para o blog. O que fazer, portanto?

Uma semana sem crônica não faz mal a ninguém. Então, esta semana não temos crônica. Ou temos? 

sábado, agosto 11, 2012

Ofício de leitor

Falo do ofício de leitor, mas começo pelo ofício de escritor.

Nos dias de hoje, apesar da precariedade do público leitor, observa-se o aumento do número de candidatos a escritor. Nos grandes centros, sobretudo, muitos jovens procuram editoras, que, sempre em déficit no orçamento, apressam-se em recusar seus textos. Em consequência, vemos o crescimento de editoras fundadas pelos próprios autores, ou o surgimento daquelas que cobram para publicar. Tal fato não é novo nem peculiar ao nosso país, já tendo passado pela experiência diversos escritores, o mais famoso deles foi Marcel Proust.

Outro fato que reflete a febre pela publicação é o aumento das oficinas de literatura. Em qualquer caderno cultural dos jornais, pode-se ler sobre a existência delas e sobre os expoentes que as ministram. Para o escritor, nada mal completar seu temerário orçamento ministrando aulas nessas oficinas.

Há também revistas que publicam contos depois de zelosa seleção, e há muita discussão quando os nomes dos selecionados são anunciados.

Portanto, poderíamos achar que vivemos numa sociedade em que se disputa o livro a tapa nas portas e nos balcões das livrarias. No entanto, não é isso que acontece. Quando observamos nossos índices de educação, logo constatamos que a leitura, uma espécie de produto de luxo, vem sendo praticada por pouca gente.

Existem vários motivos que afastam as pessoas dos livros. Há aqueles que veem importância na leitura mas dizem não praticá-la por falta de tempo. Na verdade, para se tornar leitor é preciso ter disciplina, e não tempo. Devido à grande oferta de afazeres que a vida atual oferece, parar para ler é fato extremamente complicado, exige meticulosa organização. Há pessoas que percebem a importância da leitura, mas sucumbem após avançar algumas páginas, pois não estão acostumadas à concentração que o livro exige. E também há os que vivem tranquilamente sem ler, não vendo necessidade alguma em tal ato.

Mas, por incrível que pareça, sobrevive o batalhão de pretendentes a escritor. Caso as editoras não tomem providências, a porta de cada uma delas encontrar-se-á sempre abarrotada desses seres que insistem em se apresentar com seus manuscritos sob o braço.

Diante desse quadro, como deve ser o ofício de leitor? Aquele que gosta do livro, que entra nas livrarias e silenciosamente olha cada exemplar, observa seus autores, a nacionalidade, se o livro é de poesia, se de contos ou romance, se ficção ou ensaio; aquele que mergulha na solidão das bibliotecas e permanece horas a fio seguindo os passos das personagens, percebendo a sonoridade dos versos, as ideias de um filósofo. Quem se aventura a exercer este ofício anônimo e meticuloso?

Outro dia, um editor afirmou: “caso cada candidato à publicação que recebo em meu escritório comprasse um livro da minha editora, a situação seria bem melhor, estaríamos em condição de, até mesmo, lançar jovens autores”.

Será que cada candidato a escritor compra livros e lê o tanto que deveria? Será que cada um consegue transmitir a paixão pela leitura àqueles a sua volta?

Nos dias de hoje, quase todos desejam ver-se catapultados pela cultura de massa. Há quem acredite que uma boa matéria num jornal de grande circulação, ou mesmo uma reportagem na TV, poderá alavancar a leitura e promover a venda de livros. Isso pode até acontecer, mas o resultado não será duradouro. O que promoverá a leitura é uma forte política de distribuição do livro e de facilitação da leitura, principalmente nas escolas.

Escritores (ou a candidatos a) precisam saber mostrar a graça que o livro possui, a magia que o envolve, e quem sabe o consigam com mais facilidade caso frequentem escolas e bibliotecas públicas, para lerem junto com jovens e estimulá-los a perceber o prazer que a leitura oferece. Assim, estarão exercendo também o ofício de leitor.

sábado, agosto 04, 2012

Peregrinação à montanha mágica

Quando estudante da escola secundária, Susan Sontag era uma garota quase como outra qualquer, não fosse a altura (era sempre a mais alta entre as alunas da classe), não fosse o afã pela leitura. Ela mesma diz: “eu sempre fora uma leitora infernal desde a mais tenra infância”. Após morar em várias cidades do sul dos Estados Unidos, sua família – composta pela mãe, padrasto, irmã mais nova e ela – deixa Tucson, Arizona, e muda-se para o sul da Califórnia. Ali, a jovem Susan começa a ter consciência de seu futuro. Ela viria a se tornar uma das mais importantes ensaístas e intelectuais americanas da segunda metade do século 20.

Em Peregrinação, texto publicado pela The New Yorker em dezembro de 1987 e só agora traduzido para o português (Revista Serrote, nª 11, Instituto Moreira Sales), Sontag narra sua infância e parte da adolescência, até fixar-se num acontecimento marcante na sua vida: o encontro com Thomas Mann, no final de 1947.

Aos quatorze anos de idade, a então adolescente já levantava algumas questões, como o desinteresse dos jovens pela leitura, a “baboseira de colegas de escola e de professores” e o estrago que a incipiente cultura de massa da época, tendo como ponta de lança o rádio, já começava a insinuar: “os programas semanais de humor, ornados com risadas enlatadas, a pegajosa parada de sucessos, a histérica narrativa dos jogos de beisebol e das lutas – o rádio, cujo móvel enchia a sala de estar nas noites de semana e em boa parte dos sábados e domingos, era um tormento sem fim.” Mas é a visita a Thomas Mann no seu exílio nos Estados Unidos, que antecipa, como uma premonição, o futuro da intelectual e pensadora americana.

Em Los Angeles, a alguns metros do cruzamento da Hollywood Boulevard com a Highland Avenue, ela encontra sua primeira livraria. Passa a frequentá-la, onde lê em pé os livros que mais lhe interessam. Em algumas ocasiões, com sua parca mesada, compra um ou outro. Mas sabia que seu dia chegaria, e que em algum lugar havia pessoas que pensavam de modo semelhante a ela.

Aprecia a música de Stravinsky, que podia ser ouvida em alguns concertos que frequenta gratuitamente com um ou dois amigos de escola. Ouve também “os guinchos e as pancadas” de John Cage, porque sabia que os jovens de sua geração deviam gostar de “música feia”.

O que Stravinsky era para ela na música, Thomas Mann tornou-se na literatura. Em novembro de 1947, compra A montanha mágica. Começa a ler naquela mesma noite, e durante algumas das noites seguintes diz que sentiu falta de ar enquanto lia. “Pois aquele não era simplesmente mais um livro que eu adoraria, era um livro transformador, uma fonte de descobertas e reconhecimentos.”

Merril, um dos colegas de escola com quem ela sempre passeia, sugere que procurem na lista telefônica o nome de Mann, que mora na mesma cidade dos dois. Na Califórnia daquele tempo, mais precisamente em Hollywood, quem tinha muitos fãs eram os artistas de cinema, portanto, Thomas Mann, embora fosse uma figura pública, não seria difícil de ser contatado. Ele atende ao pedido e marca a visita para o domingo seguinte.

Susan mostra-se constrangida durante toda a entrevista, teme cometer qualquer tolice. Repara que Mann fala devagar. A jovem pergunta-se se não teria sido um erro visitá-lo, pois já o conhecia bem de seus livros. Talvez a vagarosidade de sua fala tivesse como causa o fato de o inglês não ser sua língua natal ou, quem sabe, ele desejasse que os estudantes o compreendessem bem.

A conversa a princípio gira em torno de literatura. Depois, sua mulher, Kátia, serve o chá. Mas a conversa continua. A jovem Sontag observa a mesa de trabalho do autor, os objetos de adorno, como estatuetas, fotografias, os quadros nas paredes, os livros; então, surpreende-se ante a primeira biblioteca particular que vê na vida.

Mais adiante, o escritor quer saber sobre eles. A jovem se constrange ainda mais. O que vai dizer? Tem vergonha da escola onde estuda. Já não ensinam Latim nem Shakespeare, há aula de autoescola e datilografia, há até um aluno que tem uma arma e assalta frentistas vez ou outra. Mas Mann precisaria saber dessas coisas? Ele já tinha problemas demais: o exílio, a destruição que o nazismo causara em toda a Europa; sua cidade natal, seu país, a Alemanha, ficavam muito longe. O romancista era um deus no exílio. Bom quando ele falou sobre o seu último livro, que estava sendo traduzido para o inglês naquele momento (Doutor Fausto), melhor quando citou A montanha mágica como sua principal obra até ali. Susan e o amigo se decepcionam quando ele diz que Hemingway seria o escritor americano mais representativo. Verdade? Será que o famoso Thomas Mann gostava de Hemingway?  Os dois não o tinham lido, não o apreciavam. Seu amigo diz gostar de Romain Rolland, pensando em Jean-Cristophe; de Joyce, do Retrato. Ela diz apreciar Kafka, de A metamorfose; Tólstoi, dos últimos escritos religiosos e dos Romances; cita Jack London para não faltar um escritor americano. Mann acha-os jovens muito sérios, talvez destoantes do espírito americano (“dizia que sempre gostara de conhecer jovens americanos, que mostravam o vigor e a saúde e o temperamento fundamentalmente otimista desse grande país”). Em certo momento, o autor de Os Buddenbrooks fala sobre o valor da literatura e a necessidade de proteger a civilização contra as forças da barbárie.

No final da tarde, a ainda quase menina Susan e seu jovem amigo partem, com um sol poente que parece bastante luminoso. Ou seria a impressão deixada pelo escritor?

Anos mais tarde, ao escrever Peregrinação, Sontag relembra o episódio como o fim de um ciclo. Sua entrada para a Universidade da Califórnia, em Berkeley, depois a transferência para a Universidade de Chicago, a opção pela filosofia e pela carreira de escritora, escolhas ainda impensadas quando estivera lado a lado com Thomas Mann. A era Roosevelt se encerrara, e a Guerra Fria estava começando. O escritor e a família definitivamente deixam os Estados Unidos depois de uma estadia de quinze anos, tinham até se tornado cidadãos americanos. Mann vivera na Califórnia mas, na verdade, seu pensamento jamais estivera ali.

Susan Sontag faleceu em 2004 e, assim como Mann, sempre acreditou na literatura e na filosofia, fez dessas matérias sua vida e usou a escrita para lutar contra as ortodoxias e preservar a liberdade, uma forma também de proteger a civilização contra as forças da barbárie. Ainda que isso não seja possível neste período de capitalismo tardio, que ao menos aconteça como na sua primeira leitura de A montanha mágica: que a literatura e a filosofia possam ser transformadoras, fontes de descobertas e de reconhecimentos.

sábado, julho 21, 2012

Personagens surpreendidos pela modernidade

Resenha de Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem, ed. Perspectiva 

Haron Gamal - especial para O Globo (Caderno Prosa e Verso), publicado em 21/04/2012

A obra literária – no caso, aqui, a narrativa – não apresenta sua potencialidade apenas no relato, por mais surpreendente que ele possa parecer. O modo utilizado para transmiti-lo é que o potencializa e surpreende. Assim se pode observar desde as narrativas homéricas, passando pela Bíblia, caso a encaremos como literatura, até desaguar nos autores que se tornaram clássicos. Dante, Shakespeare, Flaubert, Machado de Assis, Proust, James Joyce, entre outros, não surpreenderam apenas pelo conteúdo de suas obras. O que mais chama a atenção no que escreveram e que serve de fator determinante para torná-los imprescindíveis é, sobretudo, o artificio que utilizaram para contar suas histórias. A carpintaria narrativa, portanto, acaba por se tornar o fiel da balança quando se deseja emitir juízo de valor e apontar se uma obra pertence ou não ao universo da alta literatura.

Apesar de outras as circunstâncias e do caráter peculiar da cultura que representa, Scholem Aleikhem bem que poderia pertencer a esse restrito clube dos clássicos.

A edição em português de sua obra principal, Tévye, o leiteiro, é constituída de uma carta introdutória e nove capítulos. As narrativas apresentam-se em forma de falso diálogo. Durante as histórias que relata, o personagem-narrador se dirige a ninguém menos do que ao autor do livro, o próprio Scholem. Mas o autor-ouvinte, assim como o interlocutor de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, nada replica. Tal artifício proporciona à narrativa a característica de pertencer à oralidade. Então nos vem à mente o texto “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, do filósofo Walter Benjamim.  Como bem observa a professora da USP, Berta Waldman, na introdução: “Na novela de Scholem Aleikhem, o pretenso autor parece delegar ao narrador a autoria da obra, porque este, além de ser o depositário da experiência, estava, em algum momento, no mesmo nível de seus interlocutores”.

Para Benjamim, a ação de contar uma história fazia parte de uma experiência de sentido pleno, sentido que se tornava cada vez mais raro à medida que o capitalismo avança e se consolida.

Outro fator importante desse modo de narrar, com Tévye sempre a encontrar ou a fazer uma visita ao autor, é que essas cenas nos remetem a uma prática conhecida, surgida inclusive no meio judaico, a psicanálise. Há de se conferir que o jovem Freud é contemporâneo a Scholem, embora nada indique que se tenham conhecido nem que o criador de Tévye tivesse alguma informação sobre as primeiras experiências do médico vienense.

As narrativas do leiteiro são as de quem pertence ao universo do schtetl, uma organização comunitária pré-moderna e pré-burguesa, de economia fechada, situada no universo de uma Rússia ainda czarista. Percebem-se o riso, muitas vezes de si próprio, e a constante melancolia em que os personagens se veem mergulhados. A modernidade avança e surpreende o leiteiro através do comportamento de suas sete filhas – elas passam a querer ser donas do próprio destino. Ao mesmo tempo, o meio judaico sempre se sente ameaçado por pogroms e cercado pela miséria. Desta, o personagem quase sempre se safa com o auxílio de seu cavalinho. O animal não apenas lhe serve para puxar a carroça e levar os potes de leite, mas também de interlocutor. Scholem, num processo de animização da natureza, proporciona ao texto profunda reflexão sobre a solidão.

Tévye a todo o momento está a citar as leis sagradas, o Talmud e seus comentaristas. Mesmo sendo de pouca cultura, como a maioria dos judeus do schtetl, ele vê no estudo e na sabedoria um meio de superar seus oponentes.

As narrativas, publicadas inicialmente em forma de folhetim na imprensa ídiche da Europa oriental e depois na dos Estados Unidos, representam uma cultura que se desagrega devido ao aumento do antissemitismo e da imigração forçada. Essa cultura, pouco a pouco, passa a habitar apenas as prateleiras das bibliotecas, principalmente depois do avanço do nazi-fascismo.

Embora o périplo de Tévye tenha sido adaptado já em 1915 pelo próprio Scholem para a peça teatral que ficou conhecida como “O violonista no telhado”, a qualidade e o alcance dos textos narrativos originais publicados agora se situam num outro patamar. Na adaptação para o teatro, não foi possível o diálogo de Tévye com o próprio autor nem são bem resolvidas as situações em que a própria língua apresenta-se como uma das principais personagens.

Capítulo à parte teria de ser escrito a respeito da tradução de J. Guinsburg. O conhecido professor, autor e tradutor consegue recriar em português o ritmo e a sintaxe do ídiche, fazendo o leitor perceber, através de um texto em que o significante é ressaltado, o lugar sempre precário a que esteve submetido o povo judeu, sobretudo o do leste europeu.

sábado, julho 14, 2012

Silêncio e plenitude na narrativa de Per Johns

“As palavras nos atam ao já vivido. Só quando amadurecem em silêncio restituem-nos a plenitude prometida”, diz o narrador ainda nas primeiras páginas de Hotéis à beira da noite (Tessitura Editora – Belo Horizonte, 2010), o mais recente livro de Per Johns. A afirmação, grosso modo, não deixa de reiterar a literatura do autor brasileiro, que se desenrola também quase em silêncio, distante do burburinho, ou mesmo do ruído, espetáculo a que foi transformado todo tipo de arte. A obra de Johns, certeira, sem outros objetivos que não o próprio fazer artístico e a discussão da condição humana, temáticas sempre presentes nos grandes escritores, marcha sólida, sem precisar dos amparos da cultura de massa, incluído aí o cinema, modelo intelectual que alguns “pensadores” introduziram como imprescindível para discutir o mundo a partir do século 20. Grande parte deles chegou a se interrogar se a literatura ainda valia a pena, se, solitária, ainda teria capacidade de estabelecer e discutir questões. Vão espalhafato. A arte das palavras só perdeu terreno na mente incauta daqueles que se afiguravam positivistas e tecnocêntricos. Hoje, submersos na assepsia dos chipes e na velocidade dos circuitos, eles se perguntam: a serviço de que está a razão? Da reflexão ou do incremento cada vez mais inclemente de uma sociedade de massa voraz e lucrativa, em que o humano tornou-se apenas um detalhe?  Ri-se, enquanto isso, a literatura, na sua sólida e ao mesmo tempo movediça morada, no seu silêncio reverberador. Mesmo que não passem os ruídos, mesmo que perdure o festeiro e sedutor carnaval das imagens, cada vez mais presente e possível de ser manipulado pelo simples deslizar de dedos sobre o teclado, sempre pesará mais o lado daqueles que resistiram contra o irrefletido abandono da primazia das palavras.


Lembrando seus livros anteriores, sobretudo Aves de Cassandra e Cemitérios marinhos às vezes são festivos, não nos surpreende o personagem principal de Hotéis à beira da noite, alguém que se move continuamente, alguém sempre a mudar de hotel, hospedando-se primeiro no antigo Glória para, logo a seguir, embarcar para Zurique, e remar na canoa de Joyce – que ali viveu e deixou marcas –, chegando até mesmo a estabelecer diálogo com o autor de Ulisses. O mais famoso de todos os irlandeses lhe segreda: “Não diga nada. Fale comigo sem falar, essa gente gosta de mim, mas não gosta de minha verdade. Gosta de quem não sou.” E toda a narrativa de Hotéis vai jogar com esse duplo em relação ao personagem principal, alguém que é e não é, alguém que tem uma verdade que não é a verdade dos outros. Um homem que foge da pele de quem foi, tendo decretado a própria morte, e que tem no seu encalço personagens verdadeiros, digamos assim, gente de carne e osso, mas, ao mesmo tempo, seus fantasmas também estão a persegui-lo.

A viagem pode ser vista como uma experiência metafórica. O trajeto a ser percorrido apresenta, ao mesmo tempo, a inviabilidade. Tudo acontece como se o personagem constatasse ser impossível a existência. Então, é preciso fazer o caminho inverso: procurar referências no mundo afetivo e, sobretudo, no universo da literatura, estabelecendo diálogos com as grandes obras e autores. A arte se apresenta como único lugar em que a viagem é possível, “navegar é preciso, viver não é preciso” e navega-se nessas águas, às vezes turvas, como um meio de tentar encontrar o seu próprio eu. A literatura torna-se a trilha não só da busca a si mesmo, mas também sua razão de vida.
Coriolano Warming, o narrador protagonista, vai de hotel em hotel, até chegar à terra de seus antepassados, na antiga Dinamarca. Viaja já no limiar da existência, e está o tempo todo em busca de um sentido, embora tenha consciência de que, para a vida, não há sentido algum. A moradia sempre provisória revela a precariedade da condição humana, a solidão, enfim. Vez ou outra, procurado até mesmo por policiais, vive uma espécie de paranóia. O passaporte falso jamais é descoberto, mas as autoridades insistem em estar nos seus calcanhares constantemente à procura de uma pessoa que, na verdade, não é ele. Na lista de nomes, é confundido até mesmo com um suicida, e, numa tirada kafkiana, retruca: “O senhor diz que tenho que provar que estou vivo.”

O não lugar, problemática de seus outros livros, surge de novo de forma ainda mais contundente. Onde quer que Coriolano esteja, é estrangeiro. Os funcionários dos hotéis onde se hospeda olham-no com suspeição a ponto de confessar-lhe: “seu olhar é o de quem procura um pouso e não o encontra neste mundo de Deus, que nunca olha de frente, só de esguelha, um tanto temeroso, assustadiço.”

Se em Aves de Cassandra o autor nos oferece um romance de formação, e em Cemitérios uma narrativa da maturidade, neste Hotéis ele nos apresenta a inviabilidade, o beco sem saída. Não só em relação a Coriolano Warming, mas a todo ser humano que se põe a pensar com seriedade a questão existencial. O autor encontra apenas na arte o único lugar possível para questionar e esquadrinhar essa condição, em toda plenitude. Talvez Per Johns, na literatura brasileira, seja o único autor que levou mais a fundo a discussão de O mundo como vontade e como representação, de Schopenhauer.

De intensa densidade poética é a última parte do livro, denominada: “Pequenas prosas de um breviário”. A pretexto de procurar a paz, longe da civilização, o personagem se atira à sua ultima aventura: compra uma palhoça num recanto rústico do litoral paulista e vai viver entre os caiçaras locais. Na pequena casa, recebe de um morador, “uma espécie de pai de santo”, um breviário de um artista que morou na mesma casa e que desapareceu, deixando como vestígio apenas o caderno de notas. Já que a literatura permite vários artifícios, neste, Johns vai discorrer, com liberdade maior, sua veia poética e filosófica: “Desmobilize-se a casa herdada [...]. Mas deixem de fora as ruínas para que possam rebrotar como ervas de ninguém, levadas pelo oceano largo da vida...”

E, para terminar, fazendo um contraponto com o que afirmei no começo deste texto, quando situei a literatura de Per Johns como irmã do silêncio, demarcadora do duplo e, por paradoxal que possa parecer, mapeadora do não lugar, poderíamos ainda perguntar: mas, onde a literatura, em meio ao ruidoso mundo de hoje? Responderíamos com as palavras do próprio autor, no pequeno capítulo denominado “Terra Prometida”: “Ela está onde sempre esteve. Em todos os lugares e em lugar nenhum.”

sábado, julho 07, 2012

A febre da poesia

A ideologia avança sutil, desliza como o surfista hábil no cimo da onda maior, torna-se o que há de mais natural no mundo. Quando damos por nós, percebemos que não nos ocorreu perguntar: como a indústria, como o comércio das pranchas?

No universo das palavras, nada acontece de muito diferente. Elas se vão multiplicando como não houvessem os fatos, como se o que expressam não pesasse na sentença que proferem.

Alguém escreve um conto, um ensaio, um poema, ou mesmo um romance. No momento em que se dá o toque suave da ponta dos dedos sobre o teclado, não lhe vem à mente que suas ideias e palavras já foram por demais utilizadas, algumas vão até desbotadas, precisando de nova cor. Todos os textos que o pretenso escritor leu durante a vida, que ouviu, e mesmo os pedaços de frases que lhe passaram pelos olhos aqui e ali acabam de certa forma metabolizados naquilo que ele chama de sua obra original. Portanto, lutar com palavras é a luta mais vã. O que há de novidade? O quê, de repetição?

Para destronar a ideologia, somente a poesia, se mal que me exceda a rima. E veio um cineasta nos alertar sobre isso, sobre a ideologia. Logo alguém que lida com imagens. Já pensaram na primeira aula do curso de cinema? Cinema é feito de imagens. Truísmo? Mas é necessário dizer. Caso contrário, alguém filma um romance stricto sensu, inclusive mostrando as páginas do livro, e há de pensar que fez um filme. Mas, voltando ao cineasta. Veio ele para mostrar o que só cabe à poesia dizer. E as imagens? Não importam, o que vale é a poesia.

Assim me pareceu A febre do rato, de Cláudio Assis. Fui ao cinema meio temeroso. Qualquer tentativa de mexer em time que está ganhando, trata-se de pura loucura (exemplo da ideologia!). O mundo dos negócios, esse nosso. No entanto, a poesia surge na voz de um deserdado que desfila ora pelas ruas do Recife, num automóvel velho com alto-falante na capota; ora num barco rústico pelo rio, pelos canais, pelo Capibaribe. E a poesia é forte, ela tem a febre do rato.

O que seria essa febre, afinal? Vendo o filme, concluímos que é a potência das palavras, a celebração do não celebrável, o encontro com a alegria. Esta, como a poesia, só existe se fora do lugar.

Haverá quem diga que o filme privilegia cenas chulas, que banaliza o sexo, a figura da mulher e, sobretudo, que há uma escarrada de maconha e de cachaça. Portanto, como pode haver poesia nisso? Eu responderia: perguntem a Baudelaire.

Mas as cenas do longa de Assis, são apenas suportes para a poesia, assim como o corpo é suporte para o prazer e para a alegria. As cenas, na verdade, mostram a insignificância do cinema ante a poesia. E a voz do poeta, em constante vibração, quando soa social lembra João Cabral; quando musical, o santo Chico que está no céu. Não o de Assis, mas o Science.

E a ideologia? Está no subtexto, nas interseções de vários textos. Não sou partidário da semiologia, de releituras nem de transdisciplinaridades. Nomes tão em moda, porém mais velhos que Homero. Homero, o homem; não Homero, a obra. O único modo de denunciar a ideologia é mostrar a sua contraparte, a poesia. Mas não existe poesia ideológica? Respondamos não. Poesia ideológica, por mais escolhidas as palavras, por mais sonoras, não é poesia, ainda que a avalize alguma academia.


Daí, o que poderia ser mais contra-ideológico do que o corpo, utilizado para uma espécie de prazer total, o prazer não convencional? Alguns chegam a nomear as cenas do filme de orgiásticas. O prazer não é apenas a dois, mas a três, a quatro, a cinco. Entre jovens e velhos (ou velhas). Quando entra na história o amor monogâmico, entra Eneida, uma mulher, mas também uma obra. É a tragédia que se avizinha. Eneida, de Virgílio, tem uma viagem e uma guerra, a destruição de Troia e a fundação de Roma. Seriam lendas? Mas é do mito, da lenda, enfim, da narrativa, que se funda a ideologia. Mas quem virá a público denunciar suas pernas de barro?

Então, em cena o poeta de Claudio Assis. O cineasta conta que o descobriu nas ruas do mesmo Recife. Um poeta que canta sua poesia à viva voz na urbe, que a distribui num jornaleco montado a mão e copiado, um poeta que comemora a poesia no abraço entre amigos, em meio a copos de cerveja e copitos de cachaça. Tudo tão destrutivo... Que exemplo nefasto para a juventude! Frases de uma senhora que saía do cinema.

O que faz a ideologia? Perpetua a especulação na bolsa de valores? Perpetua a especulação imobiliária observável ao fundo, enquanto homens caranguejos explicam numa das margens do Capibaribe como fazem para tirar seu sustento da lama ribeirinha?

A febre do rato, de Claudio Assis, aponta o poder dionisíaco das palavras. A febre do rato não é cinema.

sábado, junho 30, 2012

Espetacularização e tecnologização da cultura

Segunda feira (25/06) no Roda Viva, na TV Cultura, Muniz Sodré afirmou: “na sociedade atual há espetáculo demais”. O ex-diretor da Biblioteca Nacional e professor emérito da UFRJ queria dizer, naturalmente, que a educação se vê prejudicada pelos excessos da indústria cultural e de sua divulgação cada vez maior através dos instrumentos da cultura de massa. Os entrevistadores lhe foram impiedosos nas perguntas, queriam a todo custo que ele respondesse qual a fórmula para o país vir a ter educação de excelência. Mas, como todos os intelectuais, o professor também não tinha a resposta. Ele chegou a citar como exemplo os colégios de aplicação das universidades federais. Mas não foi sobre eles que os jornalistas esperavam ouvir, queriam saber como faria caso dirigisse uma escola pública municipal ou estadual nas atuais circunstâncias; qual seria sua estratégia para que os alunos avançassem no estudo e na leitura, alcançando um patamar pelo menos satisfatório.

Um problema contra o qual toda a intelectualidade se depara atualmente e não vê saída é a tal espetacularização da cultura. Somos bombardeados dia e noite por chamados à audiência, sejam eles oriundos das mídias impressas, audiovisuais convencionais (se é que ainda se pode usar essa palavra) ou mídias digitais. Os apelos são tão intensos e colocados através de estratégias de tamanha sedução que acabam por convencer que o espetáculo é imprescindível. Chega-se a pensar que ele é totalmente natural e que não se pode pensar em outra forma de sociedade.

Outro problema que expande a questão acima é o crescimento do aparato tecnológico, como smartphones, notebooks, tablets e tudo mais que tem surgido através do desenvolvimento da microtecnologia. Está claro que não devemos nos opor ao progresso, mas nos dias de hoje quase não há reflexão sobre se a atualização constante e o consumo de todo esse aparato é mesmo imprescindível.

Quando observamos a utilização que a maioria das pessoas faz da tecnologia, ficamos assustados. São poucas que a utilizam com o real sentido de galgar conhecimentos que realmente lhes serão úteis, como os advindo do mundo acadêmico, o universo onde há método e fundamento para pesquisa e estudo. Querendo ou não, a escola é uma ramificação da cultura erudita, pois para se lecionar é necessário ter cursado a universidade. Mas eis que a tecnologização acaba levando as pessoas a utilizarem esses aparelhos não com fins de pesquisa, mas como distração e mesmo como meio de autoafirmação. Veja-se o narcisismo presente nas redes sociais; quase todos se tornam (pseudo) atores e atrizes da espetacularização de suas próprias vidas,  buscando também a audiência.

Quem há de se enfronhar numa biblioteca, sobretudo nos anos de formação, para ler um livro por puro prazer ante a avalanche de apelos ao consumo de instrumentos que proporcionam imagens em movimento, som, comunicação em tempo real, jogos, efeitos especiais e interatividade? Quem ainda desejará tatear o mundo da alta cultura como um meio de obter conhecimentos para a sua profissão ou mesmo para a reflexão sobre a vida? Melhor talvez fazer parte do oba-oba que as mídias alardeiam tentando envolver a todos, fazendo acreditar que, assim, cada cidadão é participante ativo da nova sociedade.

Ao invés do incentivo à leitura e ao estudo, o que vemos, no entanto, quando analisamos a questão, é a formação de um forte mercado consumidor de tecnologia muitas vezes desnecessária, o que acaba afastando ainda mais o ser humano do que ele realmente precisa.

Quem há de se colocar contra o apelo da tecnologização excessiva da cultura e sua consequente espetacularização? Quem há de mostrar que os argumentos utilizados por essa indústria apontam mais a pseudoverdades? A problemática em que estamos inseridos ainda é a mesma da discutida por Theodor Adorno e pela Escola de Frankfurt em meados do século passado, quando utilizaram como objeto de análise o cinema americano do período.

O pensador contemporâneo tem o dever de denunciar o exagero de tal empreitada consumista e mostrar que está imbuído do espírito de pesquisa e de crítica. Caso não o faça, sonegará à intelectualidade o papel de colocar as coisas nos seus devidos lugares.

Em qualquer sala de aula dos colégios de hoje, mesmo no ensino público, a maioria dos alunos possui grande parte desse aparato tecnológico, além de muitos também terem acesso à internet. Até aí tudo bem. Muitos professores, porém, já não conseguem convencer que internet não significa apenas jogos e redes sociais, traduzindo: divertimento.

É preciso sempre desenvolver o pensamento crítico e mostrar que o apelo da indústria tecnológica e cultural não é levar as pessoas ao mundo da alta cultura, um patamar em que a reflexão possa ser mais intensa e daí surgirem soluções para os problemas do mundo atual, inclusive soluções conceituais e de valores. Mas a intenção da ideologia é aproveitar o silêncio dos inocentes e impingir a produção e o consumo avassaladores.

Por isso as palavras do professor Muniz Sodré, no programa Roda Viva.

sábado, junho 23, 2012

Bloomsday

Na semana passada, mais precisamente no dia 16 de junho, foi o Bloomsday. A data é comemorada em Dublin, na Irlanda, onde é feriado nacional, e em quase todo o mundo onde se lê Ulisses, de James Joyce. Convencionou-se escolher esse dia porque é justamente nele em que se desenrola a ação do famoso romance que veio mudar a história da literatura. Bloom é o sobrenome de Leopold, o protagonista da narrativa, daí ter sido escolhido seu nome como o dia de exaltação ao livro. Em consequência, também se dignifica o herói moderno, aquele que vive a pequenez do dia a dia e, por suportá-la e nela encontrar sentido, descobre seu aspecto grandioso e heroico.

No Rio, este ano, a data foi comemorada duas vezes. A primeira aconteceu na Escola Letra Freudiana, uma escola de psicanálise que não despreza a literatura como objeto de discussão da subjetividade. Ali esteve presente a tradutora de uma das versões do romance (no Brasil acaba sair a terceira tradução de Ulisses), professora Bernardina Pinheiro. Ela apresentou, no evento, um tema interessante para a contemporaneidade: Joyce e a política, onde ressaltou através de passagens de os Dublinenses e de Retrato de uma artista quando jovem, trechos em que o autor irlandês discute o assunto. É bom saber que o pai de Joyce pertencia ao partido nacionalista irlandês e queria os ingleses longe da Irlanda. Os segmentos escolhidos foram dramatizados por um casal de atores, que soube personificar um Joyce preocupado não só com a literatura, mas também com a política na Irlanda de seu tempo.

No domingo, dia 17, houve outra comemoração, desta vez na Livraria da Travessa, no Shopping Leblon. Ali esteve presente, para o lançamento da terceira e mais recente tradução de Ulisses, o professor e tradutor curitibano Caetano W. Galindo. No mezanino da livraria, houve uma exposição de Galindo sobre a obra de Joyce e sobre as dificuldades de traduzi-lo para o português.

O que chama a atenção nesse volumoso romance de mais de mil páginas é o enredo, que praticamente não existe. Joyce retrata as vinte quatro horas na vida de um homem, o já citado Leopold Bloom. Como um livro dessa extensão pode ter “apenas” isso como trama? É simples, estão incorporados à obra quase todos os aspectos da natureza humana, como memória, ruminações interiores e sentimentos mais diversos de muitos personagens que aparecem no decorrer desse dia. Há também referência a outros livros e a clássicos da literatura, como Willian Shakespeare.

A completude e a totalidade, tanto na vida como na literatura, sempre foram objetos de discussão entre diversos autores, e o romance como gênero literário tentou inúmeras vezes dar conta da questão. Ao narrar uma história e, sobretudo, ao colocar o ponto final, todo autor, ainda que disfarçadamente, faz de conta que conseguiu tal façanha. Mas sabemos que o romance é um gênero aberto, que mais revela o caráter partido do ser humano do que sua totalidade. Temos exemplos de autores que criaram suas obras tentando dar continuidade a personagens de outros autores. Pensemos em qualquer livro de ficção que tenhamos acabado de ler. Por melhor ou pior que o classifiquemos, a vida dos personagens, pelo menos na nossa imaginação, continua. Portanto, mesmo quando mais extenso possível, conclui-se que esse gênero não pode dar conta da totalidade nem da completude, pois sempre há algo mais a dizer. É ponto pacífico que o ser humano deseja a totalidade. Talvez a própria necessidade da existência de Deus seja uma forma de atestar essa afirmação. Mas fiquemos apenas no universo da literatura.

Aí é que entra o Ulisses, de James Joyce. Por mais que recupere o mito grego presente na Odisseia atribuída a Homero, apresenta “apenas” as 24 horas na vida de Bloom. Para isso, contudo, precisou de mais de mil páginas, uma narrativa onde aparecem a grandiosidade e, ao mesmo tempo, a pequenez do ser humano. O Ulisses grego, cantado na antiguidade, viaja todo o mundo possível de seu tempo, passa por todas as experiências, chega a ir ao Hades e lá descobre seu pai morto, fato ocorrido enquanto ele, Ulisses, esteve na guerra de Troia e ainda não conseguiu volta para casa. A Leopoldo Bloom não é possível tal envergadura. Mas ao circular durante o dia 16 de junho pela Dublin de 1904, faz o percurso do herói moderno. E ainda que não seja tão grandioso como o de Homero, acaba acompanhando-lhe o vulto. Alguns críticos quiseram atribuir a Joice a especulação de que a heroicização do humano na contemporaneidade seria impossível. Mas pode-se dizer exatamente o contrário. O encontro do sentido de vida em um mundo industrial, longe dos alicerces humanistas, é o verdadeiro ato de heroísmo. Junto a essa questão, percebe-se outra, a incomunicabilidade entre os seres humanos. Por mais idiomas e por mais palavras que dominamos, nossa possibilidade de comunicação e cumplicidade de sentimentos quase não existe. Isso é comprovado pela intensa presença do corpo em todo o romance.

A monumentalidade que o romance atingiu, apesar da trama tão simples, não foi por acaso. Assim como um homem simples se torna o grande herói dos dias da modernidade, o escritor que consegue retratá-lo e contar-lhe os feitos torna-se também o maior clássico.

Por isso o Bloomsday, uma exaltação ao Ulisses moderno corporificado na pele de Leopoldo Bloom, talvez seja, no fundo no fundo, a celebração de todos nós. Vivemos nossas ânsias não realizadas, traímos, sofremos traições que mal disfarçamos e ainda assim insistimos cultuando a esperança. Somos homens e mulheres que avançamos estilhaçados, incapazes das certezas e dos grandes feitos homéricos, ou se ao menos atingimos as bordas, é através da celebração do nosso desejo.

sábado, junho 16, 2012

O mundo sem transgressão

Nos dias de hoje, a transgressão quase já não é possível. Quando falo nesse ato não discuto apenas ataques às instituições, como atitudes fora da lei, vandalismos e destruição, geralmente perpetrados por pessoas sem senso de responsabilidade pela vida em sociedade; também não me refiro a atitudes antes cerceadas mas pouco a pouco absorvidas e incorporadas à ideologia pela perversão sistêmica do capital. Mas à transgressão no sentido da tentativa de não compactuação, de não cumplicidade, de desvio ao caminho único que se afigura na pós-modernidade, esse modelo sempre difundido até a exaustão pelos telejornais mundo afora, durante as 24 do dia.

Nas tevês, sobretudo, propaga-se a diversidade, mas sabe-se que é só máscara. Na verdade, a tal diversidade não existe. Todos estão enfronhados num mundo em que se precisa trabalhar, ganhar dinheiro para sobreviver e consumir para gerar novos empregos. Caso alguém queira criar outro modo de vida, digamos um modo de vida contemplativo, logo é criticado e taxado de louco ou vagabundo. O bom sujeito é aquele que trabalha e não reclama.

Caso remontemos à antiguidade clássica, perceberemos que muitos filósofos trafegaram no contrassenso do modo de pensar da maioria de seus concidadãos. Vejamos Sócrates, Platão e até mesmo Aristóteles. Suas teorias, que hoje soam tão sensatas, estabelecedoras da civilização ocidental, não foram logo aceitas. Sócrates acabou condenado à morte; Aristóteles exilou-se no fim da vida para que a filosofia não sofresse a segunda baixa; e Platão, cronologicamente entre ambos, safou-se ao criar um sistema invisível que, na aparência, afigurava-se muito inofensivo. O que podemos salientar entre esses pensadores, no entanto, é que conseguiram pensar alternativas ao seu tempo.

Voltando ao mundo contemporâneo, pode-se perceber que o século 20 foi pleno de tentativas de vida alternativa conhecidas como utopias, e muito anterior à época do movimento hippie a vida em pequenas comunidades já tinha sido experimentada em vários cantos do mundo, inclusive no universo judaico. Mesmo antes de um capitalismo tão avassalador, já se percebia, porém, que tais comunidades estavam fadadas à dissolução. As fábricas, nos subúrbios das grandes cidades, necessitavam de mão de obra. O socialismo veio como consequência a esse chamamento, surgia com a intenção de humanizar o setor produtivo. Com a impressão de que os meios de produção eram propriedade coletiva, a vida talvez parecesse mais fácil de ser suportada, embora desde o começo ficasse claro que poucos seriam aqueles que realmente teriam o poder de mando, e que os bens do estado estariam sempre distantes do povo.

Finda as utopias, sobretudo as de caráter universalista, a esperança de vida alternativa ainda tentou sobrevier em pequenas comunidades espalhadas pelo mundo, mas a informação massificada, cuja expansão foi alavancada em meados do século 20 pelo surgimento de novas tecnologias, não deixou que essas comunidades sobrevivessem. Sempre seria melhor criar um imaginário em que todos pudessem se tornar felizes usufruindo os benefícios da civilização, e a reboque disso consumissem produtos que multiplicassem o capital de quem os produzia, potencializados estes ainda com a hipotética possibilidade de participação dos cidadãos no capital das empresas cujas ações são negociadas em bolsas de valores. O instrumento útil à propagação dessa ideologia foi inicialmente a imprensa escrita, depois o cinema, a seguir o rádio e, enfim, a TV. Hoje temos o computador, com a internet a propagar o que, no entender do mundo do Capital, está mais à mão de todas as pessoas, os produtos que supostamente tornam a vida mais confortável. E tudo está à distância de apenas um clique. A conta? Bem, isso a gente depois resolve.

Mas apesar do avassalador progressismo, ainda existe a vida contemplativa. Ela está presente em algumas sociedades que divulgam uma espécie de gozo interior com o estar no mundo, com a apreciação da natureza e de obras de arte “puras”. Como o nirvana do budismo, a união em um só ser entre o humano e a natureza. O budismo e as práticas que levam em conta a meditação vão por esse caminho, criando para o ser humano certo distanciamento dos apelos comerciais, que parecem não levar em conta outros modos de vida.

A vida cuja razão de existência seja a arte (mas não arte de especulação financeira), ainda que para pequeno público, como a leitura, a escrita de poemas e de romances, a criação de espetáculos teatrais e pictóricos, também se apresenta como alternativa. O ser humano se sentiria satisfeito pelo prazer proporcionado pelo processo de criação. Mais uma vez fugiríamos da reprodutibilidade, cujo motor inicial foi o processo de industrialização.

Refletindo sobre a questão da recusa a um modelo, ou modo único de vida, já estamos lucrando, porque aqui existe pelo menos a reflexão, fato que a engrenagem de produção e consumo tenta solapar.

Outra possibilidade de recusa e ruptura à via de mão única da contemporaneidade seria a loucura. Mas essa se tornaria problemática, porque o mundo dos loucos carece de sintaxe, ou se ela se apresenta é aleatória, em constante mutação, o que afastaria a possibilidade de qualquer tipo de organização social. Talvez o ponto positivo dessa hipótese seria especular sobre a série de surtos coletivos (uma espécie de sintoma) observados nas sociedades que vêm apresentando assoberbamento da neurose consumista.

O gigantismo e a complexidade de um mundo em que predominou a repetição através da industrialização em massa provocaram o modo de vida onde o mais importante é ocupar o imaginário das pessoas, não o território. Quanto mais imaginário conquistado, mas fãs e adeptos a determinados mecanismos de repetição guiados pela cultura de massa. Esta, enfim, chegou a um ponto de total expansão com a internet, mas por maior a ironia, seu gigantismo passou a autodevorar todo o sistema, todos os mecanismos criados anteriormente.

Ainda talvez não seja a hora, porque temos na rede mundial de computadores a repetição das audiências do chamado “mundo real”, como a dos jornais impressos, a das emissoras de tevê e até mesmo a das estações de rádio. Mas quando já tivermos distantes de tudo isso, e com a possibilidade de todos também serem “agentes”, as audiências tenderão a se pulverizar. Então, a saída será voltarmos às pequenas comunidades de interesses, e só sairemos delas nos poucos momentos em que precisemos procurar uma padaria para comprar o pão de cada dia.

Para que não sejamos tão céticos e catastróficos, um dia desses descobri um grupo de poetas que publica seus poemas em pequenas tiragens e os divulga apenas entre os amigos. Um deles falou que poesia não é para dar lucro. E ainda foi mais longe: a única transgressão possível é a da poesia, porque transforma a linguagem, o referencial com que o ser humano se entende, num terreno não tão seguro. Uma vez por mês reúnem-se para ler seus versos em voz alta. Talvez esse pequeno exemplo de comunidade possa servir de alternativa a quem almeja um mundo mais humano, sem preocupação com a audiência e, em consequência, sem o instinto exacerbado de competição.

Comecei discutindo a possibilidade de algumas atitudes de recusa ao mundo intensamente comercial em que vivemos, esse universo reprodutivo que devora todos os sonhos. E chego à conclusão de que, salvo essas pequenas e talvez importantes tentativas de insistir em opções alternativas, há a atitude mais drástica, talvez a chamada recusa total, às vezes utilizada por poetas e filósofos entre outros e outras, a maior de todas as transgressões: o suicídio, ainda que através do álcool e das drogas.

sábado, junho 09, 2012

“Memórias de uma guerra suja”

Na última terça-feira (05/06), quem assistiu ao programa “Observatório da Imprensa”, no canal Brasil, pôde testemunhar a longa entrevista concedida por Cláudio Guerra, ex-delegado do Dops (a polícia política dos anos de chumbo), a Alberto Dines. O assunto já não é novidade, porque está no livro Memórias de uma guerra suja, onde este mesmo personagem relata aos jornalistas Marcelo Medeiros e Rogério Netto sua ativa participação num dos mais tenebrosos episódios da nossa história, a ditadura militar que se instalou a partir do golpe de 1º de abril de 1964 e vigorou até meados dos anos 1980.

O que eu gostaria de ressaltar não é o avanço do direito ao esclarecimento sobre o paradeiro dos desaparecidos políticos. Está aí a Comissão da Verdade, em cujos componentes depositamos nossa confiança para que nos revelem os crimes e os excessos cometidos, sobretudo por quem detinha na época o poder. O que destaco é a atuação desse jornalista que, apesar da idade avançada, persiste vigoroso em seu trabalho. Dines viajou a Vitória para entrevistar o tal personagem, como viajaria a qualquer outro lugar se houvesse a perspectiva de fazer um programa esclarecedor e sempre a serviço do cidadão.

Nos dias de hoje, quando impera a busca desenfreada pela audiência a qualquer preço, o programa “Observatório da Imprensa” tem atuado no sentido de colocar em questão a própria imprensa, isto é, os meios de comunicação, incluindo aí as poderosas emissoras de TV. É sempre bom destacar o papel da TV Brasil, pois se trata de uma emissora pública que procura trazer à sua audiência programas de natureza cultural, plenos de apuro e sofisticação.

Vivemos num século dominado pelo consumo exacerbado, por isso muitos jornais, revistas, rádios e TVs existem quase que somente para corroborar essa ideologia. O Observatório, no entanto, fazendo crítica à imprensa, mostrando que publicações, rádios e TVs não devem se colocar como empresas comerciais quaisquer, traz ao espectador a consciência de que informação digna não é mercadoria que se fabrica de qualquer maneira e se vende a qualquer preço.

O ponto forte do último programa não foi apenas ouvir da própria voz as atrocidades cometidas pelo ex-delegado do Dops, mas também mostrar que, durante os anos em que estiveram no poder, não apenas os militares se beneficiaram, mas muitos civis sob a proteção deles abocanharam sua parcela de lucro sem precisar dar satisfação ao povo. Daí a dificuldade de se esclarecer os crimes da ditadura. Para muita gente, seria melhor que tudo ficasse esquecido. Como revelar a verdade do período se quem mais colaborou com os militares encontra-se hoje na crista da onda da audiência? O entrevistado deu nome a vários profissionais de imprensa e também a jornais, rádios e emissoras de TV. Árdua tarefa a de Dines, mas ele é um obstinado e apaixonado repórter. Seu programa continua a mostrar a qualidade que é possível existir mesmo numa pequena parcela da imprensa brasileira, incluindo aí a própria TV.

Assunto muito discutido atualmente, mas de pouco empreendimento, é a leitura. A própria TV gosta muito de anunciar que o brasileiro lê pouco. Mas, uma vez que as mesmas emissoras apelam para nos manter horas a fio hipnotizados ante suas programações, como a leitura seria possível, principalmente considerando a enorme audiência entre a população de baixa renda? Percebem-se ardilosas estratégias que objetivam manter o espectador com a TV ligada durante o máximo de tempo. Há espetáculos esportivos durante todo o dia, uma enxurrada de notícias desnecessárias, reality shows, passando inclusive por telenovelas e programas religiosos. Às vezes o espectador sente-se, ainda que inconscientemente, participante de uma irmandade da qual não se pode desligar porque, caso o faça, mergulhará num estado de mais profunda solidão. Com essa questão parece que me desviei do assunto inicial, mas tem tudo a ver.

Por mais importante que sejam todos os meios de comunicação, quando se deseja transmitir algo deveras importante, recorre-se ao livro. E foi isso que aconteceu. O torturador arrependido, em crise de consciência por causa de sua religiosidade tardia, recorreu a dois jornalistas que acharam melhor publicar sua confissão em livro.

Não esperem da grande imprensa, inclusive da TV comercial, grande destaque à questão. Não pela falta de importância histórica do assunto nem pelo fato de um país de leitores ameaçar a audiência das TVs. Mas porque existe algo de podre, difícil de levar para longe da porta da própria casa.

sábado, junho 02, 2012

Depois daquela cena

Um dia desses um amigo professor, numa conversa de bar, contou sobre um diálogo que tivera com uma de suas alunas. Sem motivo aparente, a jovem lhe perguntou: “professor, por que o senhor não namora a minha mãe?” Ele não se mostrou surpreso com a pergunta. Pois, atualmente, são muitos os (as) adolescentes que continuam, como nos velhos tempos, tendo relações platônicas com alguns de seus mestres. Não podendo realizar fisicamente o amor, transferem-no à mãe, ou a uma tia, mulheres que geralmente vivem sozinhas e em dificuldades. Um interlocutor, que também segurava o copo, perguntou se a aluna era bonita e por que ele não se aproveitara disso. Houve ainda alguém que insinuasse a boa ideia de dar uma namoradinha com a mãe da dita cuja só para saber se ela era gostosa.

Voltei para casa e a questão não se resolveu na minha cabeça. Alunos e alunas do ensino público são pessoas, sobretudo, muito carentes e, caso mal direcionadas, o problema lá na frente tende a aumentar.

Lembrei-me, então, de um professor universitário amigo meu. Após vivenciar um episódio arriscado, fez uma espécie de reflexão sobre o tempo em que vivemos.

Voltava ele da faculdade no seu Peugeot, havia acabado de deixar duas alunas que trouxera de carona. Ao parar no sinal luminoso junto ao Passeio, naquela avenida que cruza com quem vem da Praia do Flamengo em direção à Lapa, um garoto o abordou com uma faca. Ele, que já não é jovem e ainda por cima deficiente físico (seu carro é adaptado para quem não pode fazer uso das pernas), instintivamente tomou nas mãos a muleta, que jazia no banco ao lado, e, com a destreza de um bom esgrimista, começou a travar pela janela do carro uma renhida luta contra o agressor. O grotesco embate durou menos de um minuto. O desvalido, como não esperava a pronta reação, assustou-se e fugiu. Depois, o episódio serviu como motivo para um livro de crítica da cultura. Por que a nossa sociedade produz esse tipo de violência? Qual a nossa parcela de responsabilidade nisso tudo, já que temos o conhecimento? O professor, que como intelectual também não deixa de ser desvalido – suas armas são sempre precárias e duvidosas –, acabou concluindo depois de 300 páginas que nossa indiferença pode ser a causa de tudo.

Não sei se ele chegou ao cerne da questão, mas foi mais fundo do que o professor lá do início, o do chope com os amigos, que terminou sem reflexão e sem deixar qualquer tipo de recado. Ou, se deixou algum, é o de que sempre se pode tirar proveito de alguma situação.

E fomos todos ao cinema

Para completar, vi num shopping, em dia de semana, uma turma de adolescentes do ensino público. Eles estavam na fila de “Paraísos artificiais”, filme brasileiro dirigido por Marcos Prado. Pensei: se jovens do ensino público estão dispostos a assistir a um filme que trata de problemas pertinentes a eles, nem tudo está perdido.

“Paraísos” é um filme que aborda uma juventude sem perspectiva, ou mesmo sem ideologia. São pessoas cuja principal tarefa é aproveitar a vida e, dependendo da oportunidade, obter algum lucro: drogas de graça ou mesmo viajar ao exterior e ganhar um dinheirinho servindo de mula para trazer de Amsterdã algumas cápsulas de ecstasy.

Mas o filme não é só isso. Há belas paisagens, boas músicas, alegria e o entendimento de que, se usadas com esperteza, as drogas não são tão letais. Ou seria o contrário? Pode ser que eu não tenha entendido a história. Mas, ao mesmo tempo, não se pode dizer que o filme faz apologia às drogas. Apenas parte da ideia de que não há nada de errado em se aproveitar do assunto para se fazer um bom filme. Enfim, a arte pode abordar todos os temas porque, não sei se infelizmente, vivemos numa economia de mercado. Portanto, é preciso ganhar dinheiro.

Após a sessão, uma aluna gritava a outra: você é burra, por acaso não entendeu? O rapaz que sai da prisão é o pai do filho da DJ. Eles transaram naquela festa rave na Bahia. Ela trepava com o cara enquanto a amiga lésbica se enrolava numa overdose.

Como eu vira o filme, percebi que a garota tinha razão. Eu mesmo não havia prestado atenção nesse ponto. Nas idas e vindas do roteiro, a moça entendeu que o tempo é pura abstração. E era apenas uma aluna do ensino público.

Onde o professor que tomava chope e contava suas vantagens em cima da solidão das alunas? Onde o duelista e sua afiada muleta? Sobressaía agora alguém quase menina a quem, depois daquela cena, o mundo jamais seria o mesmo.

sábado, maio 26, 2012

Ipanema

Depois de vários dias chuvosos, saí de casa e reparei que um sol tímido se lançava vagaroso no céu. Nos primeiros passos sobre o passeio, fui abordado por um desconhecido, que vinha acompanhado de uma mulher. Assustei-me num primeiro momento, pois nos dias de hoje, pelo menos aqui no Rio, qualquer estranho que se dirija a outrem é motivo de suspeita, infelizmente. Mas o cidadão esbanjava simpatia, e foi logo perguntando como devia fazer para ir a Ipanema.

“É à praia aonde o senhor deseja ir?”, completei.

“Isso mesmo, à praia”, respondeu.

“Basta seguir a rua”, apontei a direção.

Estávamos na Joaquim Nabuco, próximos à rua Raul Pompéia. Ele e sua acompanhante agradeceram e se foram.

Segui o caminho contrário. Fui andar na orla de Copacabana. Fiz minha caminhada e, quando voltava, vi o casal novamente. Eles retornavam do passeio e pareciam muito felizes. Na minha costumeira discrição, não disse nada ao passar pelos dois, mas o homem se voltou para mim, sorriu e agradeceu mais uma vez.

Cheguei ao prédio onde moro mas não entrei, decidi continuar andando até Ipanema. Ao avistar a praia, lembrei-me, então, de um episódio que me aconteceu no começo dos anos 1980.

Naquele tempo eu e vários amigos costumávamos beber num bar da Visconde de Pirajá. Era um botequim bem simples, desses chamados nos dias de hoje de “pé sujo”. Bebíamos muito naquele tempo, e me recordo que na mesma noite já havia tomado duas ou três doses de cachaça. Lá pelas tantas me despedi e fui embora. Só que ao invés de ir para casa, resolvi andar na orla marítima de Ipanema.

Era madrugada alta quando comecei a caminhar na calçada da praia sob um ligeiro vento de fim de abril. Em frente à antiga rua Montenegro, desci à areia e fui ver a arrebentação. Ela estava forte, ondas altas e regulares estouravam à media distância. Ao me aproximar da beira d'água, comecei a sentir uma saraivada de respingos, uma espécie de chuva intermitente que se alterna após a explosão de cada onda. Foi então que apareceu uma mulher. Não sei de onde ela saiu, mas tenho certeza de sua presença. Aproximou-se e me perguntou:

“O senhor me pode fazer um favor?” Achei interessante o deslocamento do pronome. Ela certamente era alguém de fora, que passava alguns dias na cidade.

Olhei para ela e esperei que me pedisse.

“Vou dar um mergulho, o mar está uma delícia, o senhor toma conta pra mim?”

Antes que eu respondesse, ela pousou na areia uma pequena sacola, tirou o vestido que lhe cobria o corpo, dobrou e o colocou dentro da bolsa, depois correu para o mar. Surpreendi-me ante sua atitude. Não a de correr para dentro da água fria, mas porque ela não trazia roupa de banho sobre o corpo.

Depois de mais ou menos dez minutos, ela voltou. Seus cabelos lisos e compridos ainda escorriam a água do mar. Apesar da noite um tanto fria, não se mostrava incomodada; apenas juntou os braços cobrindo os seios e olhou sorrindo para mim.

“Você não está com frio?” perguntei.

“Um pouquinho”, foi sua resposta.

“Como vai se enxugar?” ainda lembro da minha última pergunta.

Ela apenas meneou a cabeça mais uma vez como se aquilo não fosse importante e esperou mais alguns segundinhos. Depois tomou nas mãos o vestido e o enfiou pela cabeça, pegou a bolsa, agradeceu e se foi.

Tantos anos, onde andará a moça agora? Será que ainda tem a lembrança viva, assim como eu? Será que ainda não sente pudor ao se mostrar nua ante a um estranho?

Cheguei à praia de Ipanema e decidi caminhar até o Arpoador. O mar não se lançava às areias tão bravio como naquela distante madrugada do começo dos anos 1980. O sol resolvera esconder-se atrás de algumas nuvens, e duas meninas pedalavam na ciclovia.

domingo, maio 20, 2012

A procura da poesia

Vinha no metrô e lia um livro de poesia, um belo livro por sinal, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa, cuja autora, Thereza Christina Rocque da Motta, recria livremente e em forma de poemas cartas trocadas entre o famoso casal que viveu um amor impossível em pleno século 12. Quando a composição aproximava-se da minha estação de destino, guardei o pequeno volume e observei as pessoas que viajavam ao meu redor. Reparei seis ou sete que usavam seus smartphones. Uns digitavam mensagens, outros pareciam conectados a alguma das redes sociais, havia ainda aqueles que ouviam música. Olhei se acaso alguém lia um livro, ou mesmo um jornal, tentei descobrir se havia quem pelo menos conversasse. Vi um casal de namorados, mas eles viajavam em silêncio, o rapaz teclava seu Iphone como se pesquisasse alguma coisa no Google; a moça parecia descansar, mas o celular permanecia em uma de suas mãos. Pensei comigo, nunca mais as pessoas lerão um livro como liam algum tempo atrás. Segundos depois, saí do trem e durante alguns dias não pensei mais no assunto.

Na ultima segunda-feira, compareci ao lançamento de um livro. O autor é um poeta famoso, professor aposentado da UFRJ atualmente lecionando na Universidade do Norte Fluminense. Durante o evento, uma aluna pediu para ele definir o que é poema e o que é poesia. Ele lhe revelou que poema era o texto literário, enquanto a poesia poderia estar em qualquer parte. Em consequência, ainda segundo ele, há poesia sem literatura e muita literatura sem poesia.

Saí dali pensando onde eu poderia encontrar a poesia em minha conturbada cidade, e fora dos livros raros que descubro e leio nos poucos momentos que tenho livre. Lembrei então de uma conversa que tivera com uma amiga. Discutíamos que, atualmente, quase não é possível pensar prazeres fora do círculo do consumo. Muitos querem frequentar shoppings e comprar o que há de mais bonito; outros desejam assistir a espetáculos para logo depois jantar em bons restaurantes; há ainda quem quer viajar ao exterior para, sobretudo, fazer compras. Daí, nos pusemos a pensar numa vida que escapasse a esse circuito perverso. Cheguei a falar que houve um tempo em que alguém era capaz de se sentir feliz por sentar e meditar, apreciar uma bela paisagem, ou mesmo ir a um museu e ficar horas diante de suas obras de arte favoritas. Mas no mundo atual, parece que tais ações já não fazem parte da vida de muitas pessoas. A leitura também já nos escapa. São poucas as pessoas que conseguem perder-se prazerosamente num bom livro.

Sei que muitas dessas ações implicam também o consumo. É preciso comprar ingressos para entrar em museus; algumas vezes é preciso pagar para estar num parque a apreciar a paisagem; pagar a condução que nos leva até lá; no caso da leitura, pagar o livro à livraria. Mas são tipos de consumo que tiram a gente da avassaladora tempestade do “mercado”. Talvez a poesia a que o poeta referiu-se seria essa, encontrar a beleza e a surpresa nos pequenos momentos em que se aprecia alguma coisa fora do ímpeto do consumo desenfreado.

E eis que procurando por livros e por poesia, deparo-me com uma pequena livraria em Copacabana, bem na rua Rainha Elizabeth. Realizava-se ali um evento chamado “Ponte de Versos”, atividade que já existe, segundo a organizadora, há mais de dez anos. Leram-se poemas de um autor presente, que lançava seu livro. A poesia, afinal, bradei em meio ao silêncio que o poema exige. Leram-se poemas diversos, de autores presentes e de ausentes. Alguns dos participantes, para minha surpresa, tiraram o celular do bolso e leram seus poemas. Que interessante, pensei, poemas no celular. Acho que um deles tinha toda a obra armazenada no pequeno aparelho, pois dali fez vir à sua voz várias composições.

Não discuto aqui a qualidade dos textos, mas achei, enfim, que a poesia não desaparecera, como eu já havia suposto. Lembrei-me, então, das pessoas que, no metrô, não liam livros mas manuseavam celulares. Quem sabe escreviam poemas dentro do silêncio frio dos vagões, em meio ao lamento agudo das rodas que deslizavam sobre os trilhos de aço?

Na livraria, apesar dos poemas nos smartphones, os livros nas estantes, atrás de cada participante, compunham o cenário. E, cada um que lia seus poemas, no fundo da alma tinha o sincero desejo de vê-los um dia publicados em livro, expostos na vitrine de entrada, bem arrumados nas estantes elegantes do local.

No final, alguém lembrou que o nome da livraria fazia uma referência a Shakespeare. Foi então lido um soneto do bardo. Shakespeare viveu há quatrocentos anos, num tempo em que não havia nenhuma tecnologia. Nos tempos de hoje, apesar dela, ainda (graças a Deus) se sofre pela falta de algo que só a poesia pode preencher. 

sexta-feira, maio 18, 2012

A paixão pelo jornalismo

Resenha: Os imperfeccionistas, de Tom Rachman

Os bastidores de um jornal e as perspectivas de sua sobrevivência num mundo de extrema competitividade, onde a internet passa a predominar cada vez de modo mais avassalador, são o tema de Os imperfeccionistas, livro de Tom Rachman. O jornal em questão é um diário internacional sediado em Roma e publicado em língua inglesa, com o objetivo de ser vendido no mundo inteiro. Qualquer semelhança com uma publicação fácil de ser encontrada nas bancas de Copacabana, Ipanema ou Leblon não é mera coincidência.

O autor, que já foi jornalista, retrata sem qualquer idealização a rotina e o ambiente confuso de uma redação. Aqui e ali pululam ambições e mazelas, falsas amizades, casos amorosos e traições. Há desde o correspondente em Paris, alcoólico, que já não consegue vender suas matérias, até o editor viciado em trabalho, primeiro a chegar e último a sair da redação, o que faz sua esposa abandoná-lo e ir morar com um italiano. As mulheres, como profissionais de jornalismo, também vivem os dois lados da moeda, como a repórter de economia Hardy Benjamin, eficaz no trabalho mas desastrosa nos relacionamentos; Kathleen Solson, que deixa a promissora carreira num diário de Washington para assumir o cargo de editora-chefe – numa noite regada a caipirinha ela acaba flertando com um jornalista de quem fora amante porém agora trabalha como assessor de imprensa de Berlusconi –; Ruby Zaga, além de egocêntrica, problemática e desprezada pelos colegas de trabalho, também naufraga na bebida e numa vida extremamente solitária. Outro curioso personagem é Winston Cheung, jovem americano de origem asiática que não sabe o que quer da vida nem jamais escrevera uma linha sequer em jornal algum. Ao descobrir que está vago o cargo de correspondente no Egito, tenta aproveitar a oportunidade. Entretanto esbarra em dois problemas: mal sabe árabe e lhe aparece pela frente um famoso jornalista americano que não consegue se fixar em jornal algum por ser temperamental. Ele, assim como Cheung, quer o cargo no Cairo.

Em cima de manchetes curiosas, que chegam a proporcionar ao romance ares humorísticos – “mentiroso mais velho do mundo morre aos 126 anos”, “aquecimento global é bom para sorvetes”, “a vida sexual de muçulmanos extremistas” etc. –, os capítulos são construídos sempre sob a ótica e a vida de cada personagem, podendo ora ser a editora-chefe, ora o correspondente em Paris, ora a repórter de economia, ou mesmo a leitora assídua que não perde um exemplar do periódico, obrigando a empregada a guardá-los exatamente em ordem cronológica para poder ler na íntegra todos os números.

Como um diário desse tipo se mantém? Não seria necessária a pergunta, mas ele é fundado e circula durante muitos anos por causa da paixão. Foi ela que, muitas vezes, moveu o jornalismo. E, aqui, é tão intensa que, apesar das constantes crises financeiras, mantém a publicação por várias décadas, fazendo o diário passar de pai para filho. O último, neto do fundador e integrante mais jovem da família que controla vários negócios entre eles o jornal, é enviado de Atlanta a Roma com a missão de reerguer e manter a publicação. Ele, porém, esbarra na falta de recursos, na falta de vocação e se perde no amor por seu cachorro. O livro nas suas 380 páginas retrata também a vida europeia contemporânea e, em fragmentos, os principais acontecimentos vividos pelo continente desde os anos 1950 até meados da primeira década do século 21.

Devido à reformulação por que passa toda a imprensa atual, o livro torna-se tanto mais interessante. Muitos jornais mundo afora desapareceram ou tendem a desaparecer, mantendo apenas exíguas versões digitais, como ocorreu com o Jornal do Brasil. É interessante perceber que muitas dessas publicações são apenas a ponta de lança de grandes grupos empresariais, situação que não torna melhor o jornal nem possibilita sua permanência caso ele não se mostre lucrativo.

Outro fato que também pode ser discutido a partir da leitura deste livro é a liberdade de imprensa. Como sua existência seria possível se os principais anunciantes são, na maioria das vezes, empresas cujo principal objetivo é o lucro rápido e fácil, deixando de lado questões como o meio ambiente, a qualidade de vida e os direitos humanos?

O livro Os imperfeccionistas, no entanto, não se prende a essas questões nem se preocupa em defender causa alguma. Num mundo que já não prima pela verdade, a trajetória de um jornal e a vida dos personagens que o produzem são seu foco principal.

Os imperfeccionistas
Tom Rachman – tradução de Flávia Carneiro Anderson
Ed. Record – 380 páginas

sábado, maio 12, 2012

Saber e adoecer

Um dia desses, conversando através do Skype com uma amiga que mora no exterior, veio à tona qual deveria ser o papel dos intelectuais brasileiros no atual momento político. Como resultado, tocamos no tema do adoecimento da sociedade. A partir do momento em que se perde o poder de criação e predomina a repetição, adoeceríamos. O exemplo característico seria o operário encarnado por Chaplin, em “Tempos Modernos”, homem que, em sua máquina, repete continuamente o mesmo movimento até o enlouquecimento. Minha amiga, que esteve no Brasil para defender sua dissertação de mestrado, acusava a classe intelectual brasileira de acomodada, de agir apenas de acordo com os próprios interesses no sentido de preservar seus cargos nas universidades públicas. Ao contrário de países onde intelectual, segundo ela, é sinônimo de pesquisador responsável pela apresentação de soluções para os desafios emergentes, em nosso país isso não ocorreria. Nossos intelectuais estariam compactuando com a corrupção política e, enfim, com as mazelas do poder.

Dias depois participei, como espectador, de um debate entre Francisco Bosco, colunista do jornal O Globo, Alberto Pucheu, professor da UFRJ e Roberto Corrêa dos Santos, escritor poeta-crítico-literário sobre quem Pucheu estava lançando um livro. Na assistência havia muitos alunos e outros tantos professores de várias universidades. O debate foi realizado no centro cultural Midrash, no Leblon.

Confesso que compareci ainda marcado pela conversa que tivera com minha amiga e, nesse sentido, desejava fazer perguntas sobre o papel da intelectualidade em momentos críticos da História. Mas não foi nessa direção que se desenvolveu o debate.

O colunista do jornal o Globo fez as apresentações, esclarecendo sobre a linha de pesquisa do professor e da obra do crítico-poeta. Sei que algumas pessoas devem achar estranha a expressão “crítico-poeta”, mas é isso mesmo, pois segundo a tese de Pucheu, o poema contemporâneo e, precisamente o do poeta presente, existiria enquanto “o ensaio teórico crítico-experimental”.  Um dos pontos centrais da discussão foi sobre a existência ou não do contemporâneo, sobretudo na literatura.

Ainda segundo o debate, a literatura modernista apresentou uma proposta de rasura à tradição clássica, introduziu algo novo, algo jamais experimentado. O Modernismo tinha ideologia, deixava esperança no coração e na mente das pessoas. Mas e o contemporâneo, como estaria manifestando-se? Estabeleceram-se, então, pontos de vistas divergentes. Houve quem o negasse. O contemporâneo já não seria possível porque não se apresentaria da mesma forma como, por exemplo, se apresentou a grande narrativa dos oitocentos. Com o Modernismo, consequentemente, essa narrativa já se teria perdido.

Discutiu-se também o conceito de tempo, já que esse vocábulo situa-se dentro do vocábulo maior, “contemporâneo”.

Bosco deu o exemplo do telefone. Segundo  ele, o telefone de discar não é um aparelho contemporâneo (um dia foi), enquanto o Iphone seria. A seguir, pediu ao poeta que respondesse como nas artes isso poderia ser exemplificado.

Terrível exemplo trazer a tecnologização da precária e ao mesmo tempo complexa sociedade em que vivemos e querer a partir daí fazer um paralelo com as artes. O poeta delicadamente não navegou nas mesmas águas do colunista. Para ele o tempo, em termos de artes, não existe e, por conseguinte, não existiria o contemporâneo. O que existe são efeitos de vários tempos que convergem num determinado momento, e essa manifestação é sempre incompleta. Poder-se-ia exemplificar como algo que se oculta, que se constrói e se descontrói constantemente. Caso exista, é num processo de “fazimento” e “desfazimento” constante.

Roberto Corrêa dos Santos ainda ressaltou que não via nada de novo (nem de contemporâneo) na tecnologia nem na web nem no facebook. O importante não é o que se está fazendo, mas como se faz e de que modo isso pode servir de rasura, de borrão. Especulou que a felicidade seria a constante do ser humano, enquanto os atritos contra ela nada mais seriam do que a tentativa de quebrar essa mesma felicidade. Assim, não seria preciso viver em função do porvir, não precisaríamos ter esperança quanto ao futuro, porque se viveria um presente constante e de plena potência. A consequência disso seria a abolição da ansiedade e, em consequência, de sua dobra, a angústia. Concluiu: não pensamos numa fraternidade do futuro, mas numa que já vivemos agora, com as pessoas que conhecemos e com os amigos com os quais convivemos.

Voltei para casa pensando nessas questões e achando que elas traziam algo novo. Além disso, a obra de Roberto não tem preocupações com o mercado. É composta por livros quase artesanais, que prescindem de grandes editoras e de livrarias conhecidas. Apesar da sua grande importância, está toda esgotada. Quando lança um novo livro, o próprio poeta o distribui entre os muitos amigos que possui. E não se trata de um jovem idealista, ele já está na estrada desde meados do século passado.

Voltando à amiga lá do início da conversa, minha conclusão é que a função atribuída por ela aos intelectuais deveria ser a de todas as pessoas que compõem a sociedade. Pois os intelectuais jamais poderão assumir a posição de um pai zeloso ou de uma elite iluminada que poderia ditar “saídas” para a sociedade em momentos de crise.

Se há alguma iluminação nisso tudo, esse brilho seria apenas o fugaz lampejo de um borrão do real, manifestação atemporal e simultaneamente tempo-convergente, atuando como efeito do ter sido e do que se é, algo impossível de ser nomeado e de ser medido. Talvez essa constatação seja uma das poucas certezas do intelectual, por ser ele o mais capaz de atestar a fragilidade que o conhecimento comporta.  Assim, saber já não seria adoecer.

sábado, maio 05, 2012

A nova classe média vai ao paraíso

Na última quarta-feira, na sua coluna de O Globo, Artur Xexéo falou sobre a quantidade de espectadores do atual cinema brasileiro. O articulista citou um melancólico desabafo do cineasta Fernando Meirelles, quando este foi homenageado no festival de cinema de Pernambuco. Eis o que Xexéo escreveu: “ele tratou de pôr uma dose de tristeza na comemoração. Decepcionado com a bilheteria de 'Xingu', o filme de Cao Hamburguer que ele (Meirelles) produziu e que, depois de três semanas em cartaz, só tinha conquistado 280 mil espectadores (a expectativa é que chegasse a um milhão), o diretor anunciou que desistiu de filmar 'Grande Sertão: Veredas', a adaptação do romance de Guimarães Rosa que seria o seu próximo projeto brasileiro.”

Meirelles ressaltou que um filme para fazer sucesso no Brasil precisa atingir a classe social que, segundo ele, está começando agora a frequentar o cinema. Ainda afirmou que se fosse lançar novamente “Xingu” faria outro trailer e outro cartaz, só para a chamada nova classe média.

Não entremos no mérito dessa discussão porque teremos aí muito pano para manga. O mesmo Xexéo escreveu várias vezes sobre isso. Pretendo destacar outro ponto de vista.

Meirelles não falou que faria novo filme, mas nova estratégia de marketing. Uma vez que é um profissional oriundo da publicidade, o diretor de “Cidade de Deus” acredita literalmente que a propaganda é a alma do negócio, modo de pensar peculiar de pessoas que trabalham nesse ramo.

Outro dia, lendo na internet o site do Observatório da Imprensa, descobri um artigo chamado: “A construção da realidade” de Carlos Tourinho. Não compactuo de todo com suas posições, às quais faria várias ressalvas. Mas o autor questiona o poder da mídia (e por extensão da publicidade) na sua capacidade de influenciar diretamente o comportamento do leitor/espectador/consumidor. E ele trabalha com televisão. É editor da TV Globo, no Espírito Santo.

Sabemos que os meios de comunicação de massa têm sua parcela de responsabilidade na construção da realidade. Mas caso pudessem tanto, seríamos apenas marionetes em suas mãos. Portanto, não existiriam levantes, insurreições ou mesmo revoluções. Ou esses eventos só ocorreriam sob seu patrocínio.

Antes, eram os militantes de esquerda os apontados como aqueles que acreditavam na capacidade total de manipulação das emissoras de TVs. Todas elas tinham uma salinha a partir de onde se exercia a tal manobra oculta e suspeita de falsificação da realidade. No artigo de Tourinho, esse fictício local é chamado de “sala da maldade”.

Entretanto, Fernando Meirelles e o pessoal da publicidade acreditam fielmente que, das salas onde funcionam seus escritórios de propaganda e marketing, é possível bolar estratégias que levem a nova classe média ao cinema. Não é preciso fazer um novo filme, apenas uma campanha de lançamento eficaz. Aí, o lucro seria certo. Em contra partida, lançamento equivocado, fracasso garantido. Onde, então, errou o cineasta? Ainda, segundo ele, o equívoco se deu porque ele fez publicidade visando à classe A, isto é, aqueles que ganham mais, enquanto o correto seria focar a classe C, os frequentadores dos cinemas dos shoppings de subúrbio. Assim, sua contabilidade cresceria. Ao invés dos 280 mil, ele teria um milhão de espectadores.

Xexéo ainda relativiza o fracasso (ou seria o sucesso?) ao mostrar que o filme brasileiro, caso comparado a filmes estrangeiros de maior orçamento, não sai perdendo. Cavalo de Troia, de Spielberg;  J. Edgard, de Clint Eastwood; ou O artista (com vários Oscar) tiveram bilheteria menor do que o filme do sr. Meirelles.

No final, soa um pouco pretensiosa a afirmação do cineasta, de que cancelou o projeto de filmar “Grande Sertão: veredas”. Em primeiro lugar, ele fala como se fosse fácil filmar uma literatura que tem como principal personagem a própria língua. Em segundo, já que teve prejuízo com “Xingu”, não pretende mais levar avante seu próximo projeto de filmar no Brasil. O cineasta comporta-se como se não tivesse ao seu alcance todos os recursos necessários para executar qualquer tipo de projeto.

A verdade é que o cineasta-publicitário ainda não se acostumou ao travo amargo do que é fazer cultura brasileira. Cultura tantas vezes ridicularizada por setores irresponsáveis da própria elite.

Talvez sejam mais nobres os projetos que levem em consideração as mesmas mercadorias citadas pelo produtor e que, também segundo ele, estariam mais próximas desta nova classe média, como a luzinha azul dos celulares 3G e os cartões de crédito. Produtos, aliás, tão alardeados por estratégias de marketing velhas conhecidas sua e que agora lhe servem de estorvo ao distraírem os tais consumidores deixando-os longe de seu filme e do cinema brasileiro.