segunda-feira, agosto 23, 2010
por Haron Gamal
Vespúcia do Sul, de Paulo de Paiva Serran, é um livro de aventuras. O narrador é um jornalista que vive constantemente na corda bamba, ameaçado de perder o emprego.Ao começar a contar sua história, diz: "Lá pela virada do milênio, quando eu tinha tudo na vida. Emprego, namorada, dinheiro, carro, eu tinha tudo.Menos vida".
A partir desse narrador decaído, que nos lembra detetives de romances noir, vamos saber a história de Emanuel, um velho caçador de tesouros, fanático por relatos de naufrágios. A narrativa se inicia em Cabo Frio, passa pelo Rio, depois segue para Pernambuco, aonde o personagem viaja com o intuito de produzir matéria sobre artes plásticas mas acaba investigando a suposta morte do velho capitão da embarcação Vespúcia do Sul.
O enigmático nome surge em homenagem a um dos primeiros desbravadores da costa brasileira, Américo Vespúcio. O continente, segundo Emanuel, deveria ter o mesmo nome do seu barco, porque, em todas as ocasiões, o sobrenome prevalece: "Pra começar: por que diabos América e não Vespúcia? Afinal de contas, não é Cristóvia, mas Colômbia. Não é Pedrália, mas Cabrália. O estreito é de Magalhães, e não de Fernão. Vespúcia combina muito mais e soa muito melhor!".
Na verdade Emanuel está atrás do tesouro que, segundo a lenda, vinha numa das naus da mesma expedição em que viajava Vespúcio, a nau capitaneada por Gonçalo Coelho, que naufragou nas proximidades de Fernando de Noronha. O tesouro, que estaria na nau capitânia, foi transladado para a nau de Vespúcio. Este, continuando a navegação rumo ao sul, teria costeado Cabo Frio e ancorado. Ali, teria desembarcado as peças valiosas dentro de uma arca e a enterrado nas imediações da antiga feitoria.
O autor segue a trilha aberta por Stevenson no clássico A ilha do tesouro, romance também de aventuras no mar em que o narrador Jim Hawkins passa por sérios perigos até alcançar seu objetivo. Em Vespúcia do Sul, João parte em busca não propriamente de um tesouro, mas de uma boa história capaz de lhe render algum lucro e de mantê-lo empregado no jornal. Na literatura brasileira, o périplo aberto por Stevenson encontra ressonância na obra do escritor brasileiro de nome dinamarquês Per Johns, sobretudo no livro Aves de Cassandra, ao qual o livro de Serran se filia.
Uma outra via que se pode seguir é a do romance noir, devido às peripécias vividas pelo narrador ao viajar para o Nordeste. A princípio, vai com o objetivo de fazer uma espécie de documentário sobre o artista plástico Francisco Brennand, mas casualmente se depara com um dos tripulantes que teria morrido no naufrágio da Vespúcia do Sul.Neste trecho da narrativa, ele vai se deparar com bandidos, prostitutas, pederastas, um menor infrator e até com uma senhora mafiosa que o intimará a deixar o Recife, caso não queira perder a vida. Não fica de fora o envolvimento amoroso, que acontece com Lindinha, mulher fatal, namorada e amante de vários outros personagens nada recomendáveis.
Vespúcia do Sul, segundo livro de Paulo de Paiva Serran, mostra a habilidade do autor em contar histórias com toda a riqueza que elas podem proporcionar, sendo estas tanto de extração histórica, de aventuras - devido às peripécias de Emanuel em busca de tesouros perdidos - de naufrágios, ou mesmo de natureza policial, o que move o fracassado jornalista ao perceber que os estranhos acontecimentos vivenciados por ele podem render uma boa reportagem.É bom deixar o restante como surpresa a ser descoberta pelo próprio leitor.
Também são dignos de louvor o cuidado gráfico e o fino acabamento editorial que o livro apresenta.
Fonte: Jornal do Brasil
terça-feira, julho 20, 2010
Obras de Frank Wedekind revelam conflitos e anseios da adolescência
Haron Gamal*, Jornal do Brasil
RIO - No posfácio à edição brasileira de O despertar da primavera, escreve Marcus Tulius Franco Morais: “No drama, jovens desabrocham para a primavera dos sentidos e se amam no seio de uma paisagem onírica, opondo-se aos preconceitos e ao conservadorismo das instituições”. Na época predominava o naturalismo, mas o dramaturgo conseguiu, através de seu texto teatral, introduzir a discussão sobre o despertar da sexualidade nos jovens e sobre a consequente repressão a que esta discussão era submetida. O esperado debate que a peça desencadeou foi duramente reprimido, ficando o autor durante muito tempo sem poder encená-la. O texto de Wedekind, escrito entre o final de 1890 e a Páscoa de 1891, foi visto como algo capaz de abalar as instituições e a autoridade.
Inspirada na própria vida do autor, que não viveria para gozar o título de um dos mais populares dramaturgos da Alemanha, a peça aborda o percurso dos adolescentes Melchior, Wendla, Moritz, Otto, Robert, Zirschnitz, Röbel, Lämmermeier, Bessel, Thea e Ilse, e é composta quase que inteiramente de diálogos entre eles. Estão presentes suas instabilidades psicológicas em consequência da chegada da puberdade, idealizações e angústias. Aparecem também, como personagens, os pais de alguns deles e os professores, todos extremamente repressores. Frank Wedekind, quando adolescente, teve dois amigos que se suicidaram, tendo prometido a um deles contar sua história. É o que faz através do texto. Moritz Stiefel não consegue viver sua identidade sexual, atravessa vários tipos de conflitos e acaba por suicidar-se. Melchior Garbor também quase se suicida, mas é salvo no final por um personagem simbólico chamado de o Homem Disfarçado. Wendla, uma menina de apenas 14 anos, morre em decorrência de um aborto.
A peça, que já foi encenada várias vezes nos palcos brasileiros – a mais recente delas em forma de musical, com direito à polêmica da aparição do seio da atriz Malu Rodrigues, de 16 anos – possui três atos com cinco cenas no primeiro, e sete no segundo e terceiro. Wedekind quando a escreveu chamou-a de “tragédia infantil”.
Já Mine-Haha, que tem como subtítulo Sobre a educação corporal das meninas, inicialmente foi escrito para ser um romance, mas seu texto não chegou aos dias de hoje. Em 1903, Wedekind publicou-o como um conto, com três capítulos e mais uma pequena peça denominada o “Príncipe dos mosquitos”, que passou a integrar também o texto. Na edição brasileira, tem 60 páginas. O texto é apresentado como se Wedekind fosse, na verdade, o editor. A autoria do manuscrito é atribuída a uma senhora que, prestes a morrer, o entrega a ele. Ela conta seus primeiros anos de vida, passados num parque, onde vários grupos de meninas e meninos são criados, e toda a educação é voltada para o corpo. Em momento algum há menção a respeito da educação intelectual. Também não se fala sobre pais e mães. Na maioria das vezes, as crianças chegam ali bem pequenas e dentro de uma caixa. Elas cuidam uma das outras, sob supervisão de uma criança mais velha. A partir de determinada idade os meninos são separados das meninas. Estas são educadas fazendo constantes exercícios físicos, aprendem acrobacias e a tocar instrumentos musicais. Próximas da adolescência, trabalham num teatro, único meio de se relacionarem com o mundo. O texto também é simbólico, transparecendo a lascívia dos frequentadores do teatro quando observam sugestões de cenas de sexo ou de sadomasoquismo.
Wedekind denuncia neste texto a exploração a que são submetidas principalmente as meninas, que vivem uma situação de quase servidão. O final é enigmático. Saindo do local pela primeira vez ao chegarem à adolescência, são apresentadas ao mundo formando pares com os meninos que conhecem naquele instante, e sob a expectativa de uma multidão eufórica.
Tanto em Despertar... como em Mine-Haha o que se percebe é a preocupação constante do autor com a consciência do estar-no-mundo das crianças e dos adolescentes, suas primeiras manifestações da sexualidade e a repressão e exploração a que são submetidos por intermédio dos adultos.
À primeira vista, pode parecer que os textos são datados e que se tornaram anacrônicos. Caso se consiga perceber que crianças e adolescentes ainda se autodestroem, enxergaremos uma mordaz crítica ao neoconservadorismo dos dias de hoje, fundamentado nas religiões, no preconceito social ou mesmo num suposto cuidado com a saúde. Não só a sexualidade continua submetida ao controle do poder, mas todo um modo de vida. Ao invés de negar e reprimir assuntos que dizem respeito à sexualidade, como nos dias em que viveu Wedekind, nega-se hoje o esclarecimento sobre os mecanismos perversos de perpetuação da ideologia, expondo-se crianças e adolescentes ao lixo cultural, fruto do mais acirrado meio de incentivo à violência: a voracidade desenfreada do capital.
* Professor e doutor em literatura brasileira pela UFRJ
Obra de Rüdiger Safranski analisa o romantismo alemão
Haron Gamal*, Jornal do Brasil
No prefácio de
As origens do romantismo, na Alemanha, começam com Herder lançado-se ao mar, isto é, embarcando num navio que o levaria para longe do seu país. Como diz o autor: “Fazer-se ao mar significou para Herder trocar o elemento vital: o firme contra o fluido, o certo pelo duvidoso; significou ganhar distância e amplidão”. A fuga da realidade encontra solo fértil na temática das viagens. O pastor luterano, ao despedir-se de sua comunidade, tinha a intenção de ver o mundo de um maior número de lados. Na verdade, a viagem ocorre devido à necessidade de busca de inspiração, fato que o racionalismo, que dominou o período anterior, não proporcionava. O pensamento romântico tem sua origem na idealização e no sonho.
Pode-se recorrer a uma frase de Hegel, uma geração mais tarde, quando ele fala sobre Kant: “O medo de errar poderia ser o próprio erro”. O homem romântico não se preocupará com o julgamento moral, mas tentará através de atitudes profundamente sintonizadas ao espírito encontrar um novo campo de significações.
A atitude de Herder acabou por incitar o culto ao gênio do Sturm und Drang (tempestade e ímpeto). Aquele que consegue fazer desabrochar sua criatividade seria considerado gênio. O próprio Goethe, num momento de reflexão tardia sobre aqueles anos, “impiedosamente” definirá o gênio como o termo geral para aquela “notória época literária de escolhidos e amaldiçoados, na qual uma massa de homens jovens surgira com toda a coragem e ousadia”.
Apesar de a revolução significar para alguns poetas o início da vulgarização que a modernidade expandirá, não há dúvida de que a Revolução Francesa serviu como estímulo para a derrubada do clássico nas artes. Mesmo que não se fizesse na Alemanha a revolução política, era possível fazer a revolução estética. A queda da monarquia, na França, era a queda do modelo clássico em troca do culto pelo nacional, pelas lendas, pelo folclore, enfim, pela mitologia local.
O olhar sobre a cultura e civilização, passando pela educação estética como um jogo – ohomo ludens, na definição de Schiller – apresenta uma das características marcantes de um período que tenta se afastar da visão estática preconizada pelo clássico. Na perspectiva da linguagem, esse jogo culminaria com a ironia, concepção romântica que permite ao homem aventurar-se com mais profundidade no terreno da linguagem. Além disso, o jogo e a figura do jogador sempre exerceram fascinação sobre o leitor. Na aposta, a vida e a sorte não deixam de estar por um fio. O jogo e a ironia vão se contrapor apenas aparentemente às concepções de religião pura e de amor exacerbado pela pátria. Uma vez que temos em muitos autores do romantismo a vida dupla, a ironia e o jogo estariam de acordo com este modelo de vida.
Outro ponto que preocupava os escritores era a questão da utilidade da arte. Chega-se à conclusão de que a arte é útil apenas a si mesma, e de que toda a sua conceituação fora desse âmbito nos remeteria ao que conhecemos na contemporaneidade como mercadoria. O romantismo foi um período em que se defendia com unhas e dentes uma arte pura, cuja magia emanasse da alma em toda sua plenitude.
Em contrapartida, o autor nos apresenta um capítulo em que há o subtítulo: “O século com nódoa de tinta”. Isso demonstra o ritmo intenso em que andava a produção literária, ou mesmo subliterária, chegando entre 1790 e 1800 a aparecerem 2.500 romances no mercado. Se por um lado existe a preocupação em combater os prenúncios da modernidade através do desprezo da vida real e de tudo que é considerado útil, por outro a máquina editorial cresce e proporciona lucros.
Um dos pontos altos da primeira parte do livro é o seguinte: “A despreocupação romântica antecipa sob certos prismas o posterior pós-modernismo. A diferença é apenas que aqui se brinca com o sentimento de ainda ter muito diante de si, enquanto o pós-modernismo acredita ter quase tudo atrás de si”.
Romantismo e pós-modernismo também se assemelham porque em ambos, apesar das vozes contrárias, tenta-se associar a arte ao lucro, apesar de, no romantismo, as vozes contrárias preconizarem a recusa à modernidade e à arte como mercadoria.
O autor discorre sobre os movimentos românticos existentes na história do Ocidente; agora, como atitudes de vida. Dentre estas posturas, aparecem reação a qualquer tipo de realismo; mobilizações nacionalistas que desencadearão a Primeira Guerra; peregrinação de grupos de jovens que ocorreu na Alemanha nos anos 20 visando a um modelo de vida baseado no dionisíaco; muitos anos depois, o Maio de 1968.
Apesar das contradições que o período traz em si, o que se pode observar é que toda vez que há afirmação violenta do racionalismo, movimentos românticos vêm à tona trazendo no bojo a perspectiva da fantasia. Talvez tenha sido essa a maior contribuição do romantismo: despertou no homem a urgência do sonho e da imaginação num momento em que a intempérie capitalista se anunciava e viria, um século depois, concretizar-se na forma mais avassaladora.
*Doutor em literatura pela UFRJ.
domingo, junho 27, 2010
Haron Gamal, Jornal do Brasil
RIO - André Martins, em Pulsão de morte?, traz para o debate uma das questões fundamentais da psicanálise, que é a teoria das pulsões. Como se pode deduzir pelo próprio título do livro, o autor apresenta a tese de que esse conceito freudiano é perfeitamente dispensável, ou melhor, a pulsão de morte não existiria, e o que se apresenta na linguagem do inconsciente é uma pulsão originária, de onde sairiam as consequentes dualidades. A base teórica do autor trafega em meio a referências filosóficas que não são novas, remetendo a Parmênides, no mundo antigo, e a Leibniz, às portas da modernidade.
Ainda na introdução, Martins afirma que Freud tomou esse conceito, o da pulsão de morte, como hipótese, e assim insinua que esta foi uma solução momentânea encontrada pelo criador da psicanálise no que dizia respeito ao problema do conflito psíquico, detectado na clínica psicanalítica. O texto induz o leitor a não levar a sério tanto a teoria freudiana das pulsões nem a pulsão de morte. O autor também tratará a questão como hipótese. Partindo de pontos de vista de Spinoza e Nietzsche, sobretudo a partir deste último, privilegiará a concepção trágica da humanidade e invocará o amor fati, originário de uma perspectiva dionisíaca de vida, como pressuposto para uma psicanálise da potência.
Impasse sem resposta
A visão trágica da humanidade implicaria uma postura de vida desidealizada, preconizada e presente na obra do criador de Zaratustra. Mas como coadunar a clínica psicanalítica de potência a partir do ponto de vista trágico da vida, assim como está presente na arte grega, ante a precariedade da existência e a ameaça constante da morte? O impasse, Martins não responde. Os princípios da clínica psicanalítica desenvolvidos por Winnicott como resposta não convencem, porque estão relacionados a casos sintomáticos e pontuais.
A afirmação freudiana de que a cultura é um meio de impedir a ação da natureza, a qual estaria sempre agindo de modo a levar o ser humano ao inorgânico, isto é, à morte, é contestada pelo escritor. Martins tenta demonstrar uma afirmação também problemática: natureza e cultura não estariam em pares opostos, mas a cultura seria um modo da natureza, possuidora esta de uma espécie de linguagem, detectável na sua própria organização e desenvolvimento.
Na primeira parte do livro, o pesquisador apresenta vários textos de Sigmund Freud relacionados diretamente à teoria das pulsões. Martins afirma que fará a leitura desses textos preso à própria letra freudiana. Sabemos, no entanto, que uma leitura totalmente pura, sem contaminação do pensamento e das teorias de quem escreve, é questionável. Ao contestar em Freud os conceitos duais como cultura versus natureza, pulsão de morte versus pulsão de vida, o autor implica num arcabouço teórico que acomodaria o ser humano numa perspectiva de vida em que o conflito não compareceria. Isso geraria dois problemas. O primeiro seria o de que estaria completamente ignorada a tese de que a inscrição do homem no mundo da linguagem o distinguiria dos outros seres da natureza. O segundo problema é que a teoria de uma clínica psicanalítica da potência não levaria em conta o conflito existente dentro do próprio universo da cultura – ou se não se deseja usar essa palavra, para evitar a distinção natureza/cultura – dentro da organização humana com código próprio de linguagem. Tal ponto de vista talvez seja consequência do caráter excessivamente hedonista e politicamente correto da contemporaneidade, em que o “prazer” é incentivado e, ao mesmo tempo, é estimulada a aceitação aparente dos considerados “diferentes”. A forte presença da mídia corroboraria tal concepção, porque induziria as pessoas à opinião de que se vive num mundo sem conflitos e de que todos, inclusive os aparelhos de poder, estão voltados para o bem estar do cidadão e da sociedade, isto é, da cultura.
Sistema único
Uma vez que a bipolaridade política esmaeceu e que foi imposto um sistema econômico único com seu consequente e também único modo de vida – o da felicidade que o consumo possibilita (pelo menos esses é um dos atuais disfarces da ideologia) – não é difícil perceber o caráter falacioso de um princípio que não distingue natureza de cultura. Talvez possamos exemplificar com o seguinte argumento: caso não mais exista conflito entre e indivíduo e cultura – ou mesmo entre natureza e cultura – será devido ao aniquilamento da subjetividade. A não ser que se queira atribuir à natureza uma subjetividade que substitua a subjetividade humana. Em termos psicanalíticos seria o mesmo que constatar o adoecimento de todos. Talvez por isso, Freud se preocupou tanto em explicar a origem da agressividade e buscar uma saída para a questão na pulsão de morte. Portanto, tamanha complexidade não poderia ser deixada de lado por quem descobriu (ou inventou) o inconsciente.
Freud também é acusado pelo autor de Pulsão de morte? de ser um pensador fortemente influenciado pelo romantismo e pelo germanismo, estando na filosofia de Schopenhauer a origem de sua visão negativa em relação ao homem. Após a exposição da argumentação de Martins, caso tivesse razão, sobraria muito pouco da teoria psicanalítica. A proliferação, porém, tanto da clínica como de escolas de psicanálise de exegese freudiana nos permite pôr em dúvida muitos dos argumentos utilizados no livro.
No final, com a proposta de que a pulsão não seja adjetivada como pulsão de morte ou de vida, mas que seja afirmada apenas como originária, permitindo abertura para as possíveis dualidades, não estaria o autor voltando aos princípios preconizados pelo criador da psicanálise?
*Haron Gamal é professor e doutor em literatura brasileira pela UFRJ
quinta-feira, maio 20, 2010
Há mais de vinte anos estive na cidade de M. Fora enviado pelo jornal; estava no início de carreira e já não lembro o que fui fazer lá. Ao caminhar no final da tarde na direção da rodoviária, um senhor bastante idoso, com ares de profeta, colocou-se à minha frente impedindo-me o caminho. Subitamente, pediu que pagasse um lanche. Não sou de fazer favores a pessoas necessitadas, confesso, tanto mais num lugar desconhecido como era aquela cidade. Mas acabei cedendo. Faltava mais de uma hora para o ônibus que me levaria de volta ao Rio. Entramos numa padaria. O homem após receber seu sanduíche e um copo de café com leite me agradeceu fervoroso. Tomei apenas um café, e já ia me afastando quando ele me pegou por um dos braços e disse:
“Espere!”
Assustei-me com o seu tom de voz; parecia uma ordem. Tentei me desvencilhar; seu olhar, porém, era firme, mastigava e mantinha os olhos voltados para os meus. Deu mais uma mordida no pão, limpou um dos cantos da boca e falou:
“Em gratidão, quero lhe fazer uma profecia.”
“Profecia?”, assustei-me.”
“Sim, uma profecia”, dessa vez sua voz soou afetuosa. “Não tema, não é nada de mal; se fosse, eu não diria.”
Assenti através de um ligeiro movimento com a cabeça.
“Vê aquele armazém, no outro lado da rua?”, pousou a xícara sobre o balcão e apontou na direção.
“Vejo, o que há de mal nele?”
“Em breve, vai deixar de existir.”
“E daí?”
“E daí que vai deixar de existir, ora.”
“Era essa a profecia?”
Mordeu o pão mais uma vez; após alguns movimentos com a boca, prosseguiu:
“Há mais uma coisa.”
“O que, então? Fale.”
“Calma, já vou falar.”
Tomou mais um gole de café com leite, levou a xícara mais uma vez, vagaroso, até o balcão.
“Vejo o senhor”, completou, “numa altura de mais ou menos quarenta metros, no espaço aéreo.”
Olhei para ele. Só podia ser louco. Joguei uns trocados ao empregado, paguei a despesa e parti.
Quando ia do outro lado da rua, ainda ouvi a sua voz:
“Quarenta metros, no espaço aéreo!”
Vinte anos depois voltei a M. A cidade havia-se tornada a capital brasileira do petróleo. Fora cobrir um evento importante, onde várias personalidades da área política e econômica compareceriam.
À noite, após tudo terminado, fui para o hotel. Retornaria ao Rio apenas na manhã seguinte. Afastei a cortina, olhei por trás da janela fechada e vi a cidade lá embaixo. Estava toda iluminada, em alguns pontos era possível ver prédios muito altos. Em determinado momento, jurei que via a padaria onde pagara o lanche ao profeta anos atrás. E o armazém, onde estaria? Tinha realmente desaparecido? Após procurá-lo com insistência, doeu-me a cabeça. Doeu-me ainda mais quando deduzi que poderia ter-se transformado no hotel onde eu estava. E eu me encontrava no décimo andar, a quarenta metros do solo, no espaço aéreo...
quinta-feira, abril 22, 2010
O drama de todos nós
Talvez o drama de todo poeta seja o mesmo: como transformar seu drama particular, talvez drama de todos, em poesia? Carlito Azevedo, em Monodrama, não deixa de nos remeter a tal reflexão. Ganhador do prêmio Jabuti em seu primeiro livro, o poeta carioca trafega pelo poético no seu mais recente (quinto) livro, conseguindo a mais alta afirmação. Com vinhetas com os dizeres rêve générale, o texto transita entre a constatação da realidade e a metafísica, como em Paraíso: “foi quando a luz / voltou e vimos / o rosto da jovem / que se picava junto / à mureta do Aterro, / a camiseta salpicada, / a seringa suja. / ‘Nenhum poema é mais difícil do que sua época’, / você disse / em meu ouvido / sem que eu soubesse / se era a ela que se / referia ou se ao livro / que passava das mãos / pra o bolso da jaqueta”. Num outro poema se fazem presentes o desejo e a excitação de um segurança por uma jovem de seios grandes: “a jovem / olhos de guepardo / leitora de Rilke / seios grandes / Entre tantos / manifestantes / é ela que arranca / a primeira / ereção do dia / do segurança / de óculos espelhados”.
Ora o poeta apresenta partes que se subdividem em vários pequenos poemas, os quais mantêm a coesão com os títulos, como em Emblema, O tubo, Dois estrangeiros, Margens e, sobretudo, em Monodrama, que dá título ao livro; ora sua voz ecoa em poemas isolados. Sempre, no entanto, mantendo o diálogo com a linha temática estabelecida pelos trechos que se intercalam, sobressaindo-se poemas como Garota com xilofone, As metamorfoses, Conto da galinha, Pequenas humilhações diárias e O anjo boxeador.
Uma característica da poesia contemporânea, que teve início ainda no século XIX e se fortaleceu com o Modernismo, é a demasiada aproximação tanto da temática como das palavras ao cotidiano. Como tornar poético aquilo que vemos e que vivemos no dia a dia? Como tornar mágicas as palavras que usamos na linguagem diária, linguagem banalizada pela pequenez de nossos afazeres? Carlito consegue transformar a língua corriqueira na mais alta expressão, intensificando o limite de tensão entre vocábulos, remetendo enunciação e enunciado a patamares sobre os quais poderíamos perguntar: o poeta tornou poética sua rua, seu bairro e arredores ou conseguiu tirar do inefável a poesia que sempre existiu ao seu lado? Um exemplo interessante há no poema “Purgatório”: “você lembra? / tínhamos dado no / máximo uns vinte / passos sobre o morro – / se abriu um buraco / no meio das nuvens, / um tubo ou coisa assim, / que trouxe até nós, / de cima: / o sol, brilhando / com os seus cem sóis, / e de baixo: / o fundo do abismo, / a cidade, / o torvelinho, / o renque de palmeiras / de alguma rua / irreconhecível / ao menos para mim”.
A resistência contraideológica da tradição poética em língua portuguesa não deixa de estar presente no poema “Drummond”: “Sabe que nada mais agora / poderá mover sua poesia. / Cruza a avenida Rio Branco, o Aterro, / a enseada, o túnel do Pasmado / (do mundo caduco, é a parte / que mais lhe agrada)./ Nem o vestido de flores da / filha do tipógrafo, nem os / pássaros de fogo que dele / partiam de vez em quando / (tudo perdido num antigo / crepúsculo itabirano)”. O gauchismo do poeta de Itabira é reforçado e coroado por Carlito Azevedo no verso: “havia um melro no alto / do muro de cantaria negra”.
Comovente a parte final do livro denominada “H”, em que o eu poético retrata seu drama particular: a morte da própria mãe e a consequente solidão em que se vê mergulhado. Por meio de um texto em prosa, difícil de definir a que gênero pertence, o relato, no entanto, em momento algum soa piegas:
“Passeio agora pela mesma casa de minha infância, adolescência e vida adulta, consolado pela idéia do descanso que ela [sua mãe] terá de agora em diante. Sem precisar de ajuda para levantar da cama, sem precisar de ajuda para tomar banho, sem precisar de ajuda para limpar a própria merda. Passeio pela mesma casa de então, do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o quarto e assim por diante, mas começo lentamente a perceber um sinal que me alarma: não tenho nenhum controle sobre meus passos e me será impossível parar de caminhar do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o quarto e assim por diante por decisão própria. A cada volta observo com cada vez mais apreensão as paredes, não sei se pelo temor de que me faltem a qualquer momento ou de que comecem a se estreitar sobre mim. Descubro desse modo bem cruel que não é assim tão fácil livrar-me de um medo que vem sendo o meu medo absoluto desde os quatro anos de idade”.
Mais adiante, para encerrar, há referência à literatura como tábua de salvação: “Venho escrever por medo de perder a razão, não pelo estardalhaço dos nervos, que não há, mas pelo seu contrário e sinuoso, a idiotia. Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo”.
Talvez seja isso, o poeta a sobreviver ao seu drama através da escrita. E nós, como leitores, ao experimentar o abandono e solidão em que ele se encontra, percebemos o drama em que todos nos irmanamos. Uma maneira também de nos salvar.
Monodrama
Carlito Azevedo
7 Letras, 152 páginas
terça-feira, março 30, 2010
Haron Gamal, Jornal do Brasil
RIO - Paulo César de Souza, tradutor de Freud, diz que na linguagem do criador da psicanálise talvez a metáfora mais célebre seja a chamada “metáfora arqueológica”. Nela, o inconsciente humano seria comparado ao subsolo de uma antiga cidade, “com seus estratos de construções soterrados”. Daí, o trabalho do psicanalista seria comparado ao de um arqueólogo: escavar o inconsciente com o intuito de encontrar na história de cada indivíduo “Atlântidas afundadas na psique”.
O trabalho do tradutor, na verdade, não se situaria fora dessa arqueologia. Vertendo a obra de Sigmund Freud diretamente do alemão, vez ou outra Paulo César se depara com situações semelhantes: a linguagem de Freud ora beira o poético ora beira as vias das ciências naturais, a seguir espraia-se numa terminologia intermediária, não predominando totalmente nem a função poética da linguagem (como diria Jakobson) nem a referencial, que no caso refletiria a linguagem propriamente científica. Portanto, a tarefa do tradutor é a de encontrar a nuance exata do vocábulo na língua de origem, mas também captar uma espécie de tonalidade desse mesmo vocábulo, para que ele não se afaste do contexto da enunciação. Se já se mostra exaustiva e muitas vezes problemática a arte da tradução, imagine-se quando se tem em mãos versões de obras que nos chegam não diretamente do idioma em que foram escritas, mas através de línguas pontes, como o inglês, francês ou mesmo o espanhol. Só agora, praticamente um século após a criação e o desenvolvimento da psicanálise, é que o leitor brasileiro terá acesso a uma versão fidedigna da obra de Sigmund Freud.
A Companhia das Letras pretende ser a primeira editora a publicar, no Brasil, a obra completa do autor de Futuro de uma ilusão traduzida diretamente do alemão e, ao mesmo tempo, organizada em ordem cronológica.
As obras completas serão reunidas em 20 volumes, sendo 19 de textos e um de índices e bibliografia. Estão sendo lançados os três primeiros volumes, de números 10, 12 e 14, que correspondem aos textos escritos entre 1911 e 1920. No segundo semestre de 2010 a editora vai lançar mais dois volumes, os de números 16 e 18, com as obras publicadas entre 1923-25 e 1930-36, respectivamente. A coleção prosseguirá com a publicação de um ou dois volumes por ano, a partir de 2011. A edição alemã que serve de base para a tradução brasileira é a Gesammelte Werke (obras completas), publicadas na Alemanha entre 1940 e 1952. O texto foi cotejado com a Studienausgabe (edição de estudos), publicada pela editora Fischer em 1969-75.
No primeiro livro publicado em nova tradução destaca-se, entres outros textos, “Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia” (“O caso Schreber”); no segundo, com textos de 1917-20, destacam-se “O homem dos lobos” e “Além do princípio do prazer”; e no terceiro, “Introdução ao narcisismo” e “Ensaios de metapsicologia”.
Ao mesmo tempo, a editora está lançando a nova edição revista do livro do coordenador e tradutor das obras completas de Freud em português, Paulo César de Souza, As palavras de Freud. O tradutor já é conhecido no meio editorial brasileiro, tendo ganhado duas vezes o Prêmio Jabuti por traduções de Friedrich Nietzsche e Bertold Brecht.
Paulo César, em seu livro (originalmente tese de doutorado) diz que ele “representa um esforço de revisão filológica da tradução de alguns termos centrais em Freud. São objetos dessa revisão os vocábulos 'técnicos' em torno dos quais tem havido controvérsia na psicanálise: Ich, Es, Besetzung, Verdrängung, Vorstellung, Angst, Nachträglichkeit, Verneinung, Verwerfung, Zwang e Trieb. Isto é feito a partir de uma análise das traduções francesa e inglesa das obras de Freud, tendo por principal referência os textos da 'História de uma neurose infantil' (1914) e dos 'ensaios metapsicológicos' (1915)”.
Na primeira parte, o autor discute o estilo e o vocabulário de Freud, apresentando questões sobre as traduções em ambas as línguas. O tradutor brasileiro opta pela análise filológica levado também pelo debate a respeito do caráter literário e científico do autor. Cita o Prêmio Goethe concedido a Freud em 1930, o que tornou o autor vienense festejado como escritor de estilo literário por grande parte da intelectualidade europeia. Ainda nessa parte, vários estudiosos de Freud são citados: Schönau, Roustang, Holt, Mahony, e Pörksen. Alguns tendem a reconhecer o caráter literário da obra freudiana, enquanto outras se prendem ao flanco científico.
Numa discussão preliminar, que notoriamente serviu de pretexto para que traduzisse toda a obra do fundador da psicanálise, Paulo César apresenta, na segunda parte, a importância e os problemas da edição standard inglesa: “A chamada edição standard das obras psicológicas completas de Freud, publicada na Inglaterra entre 1955 e 1974, constitui um dos mais formidáveis empreendimentos intelectuais de nossa época. Formidável, em primeiro lugar, por ter sido realizada por um homem, James Strachey, com ajuda de dois ou três auxiliares e bem poucos recursos materiais. Além de terem de traduzir o que ainda era inédito em inglês, Strachey revisou extensamente as traduções existentes (algumas dele próprio), buscando a homogeneidade estilística e terminológica, e redigiu um sem-número de notas, introduções e referências”. Mas, a seguir, há a contrapartida crítica: “Num obituário assinado por A. Grinstein (Strachey morreu em abril de 1967), sua realização foi avaliada do modo mais positivo. Mas já então apareceram críticas fundamentadas, de um ou outro psicanalista que lia Freud em alemão. Elas permaneceram vozes isoladas no 'coro dos contentes', porém. Somente em 1983, com a publicação do livro Freud and man's soul, de Bruno Bettelheim, passou-se a questionar abertamente a edição britânica. A publicidade em torno do livrinho de Bettelheim poderia ser comparada à ruptura de um dique holandês: desencadeou um dilúvio de objeções (ou, no mínimo, fez um vasto número de interessados acordarem para um problema que não percebiam)”.
Em francês, até meados da década de 1990, Freud nunca teve uma tradução rigorosa e completa de suas obras. E as edições que apareceram refletem muitas vezes de maneira caótica a doutrina psicanalítica dando mais importância ao que dela entendem seus exegetas do que propriamente ao pensamento do autor vienense. Quanto à tradução francesa mais recente das obras completas, Paulo César objeta que apesar da grandiosidade do projeto – a publicação de toda a obra de Freud em francês iniciou-se apenas em 1994 – apesar da gigantesca estrutura organizacional para a tradução e o caráter milionário do empreendimento, ela esbarra na seguinte questão: embora o texto em francês se atenha à letra freudiana, muitas vezes a tradução não corresponde à intenção dos organizadores. A obsessão a respeito de um purismo excessivo com o texto original acaba por deixar de lado um fato que ocorre em todas as línguas: as palavras não são um terreno tão seguro, elas podem ter várias nuances dependendo do contexto em que se encontram.
A empreitada editorial levada a cabo pela Companhia das Letras parte de uma posição privilegiada. Além de Paulo César de Souza ser um tradutor experiente, a edição brasileira chega num momento de intensa discussão teórica sobre a psicanálise e sobre a exatidão das traduções da terminologia utilizada por Freud. Portanto, o leitor brasileiro poderá ter em mãos uma edição que evita as vicissitudes e as escorregadelas ocorridas em outros idiomas.
08:24 - 27/03/2010
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Haron Gamal e Rafael Haddock-Lobo, Jornal do Brasil
RIO - Dentre as muitas epígrafes existentes no livro Nietzsche: o rebelde aristocrata, de Domenico Losurdo, a primeira é muito reveladora. Diz o seguinte: “Quem não o pode reivindicar? Dize-me apenas de que precisas e te encontrarei uma citação de Nietzsche. Pela Alemanha e contra a Alemanha, pela paz e contra a paz, pela literatura e contra a literatura” (Tucholsky).
A biografia intelectual e o balanço crítico do filósofo alemão serão discutidos exaustivamente nas 1105 páginas do livro. O historiador e filósofo italiano parte da formação do pensamento de Nietzsche, seus primeiros anos de juventude, sua judeofobia, o namoro com as idéias do musicista Wagner, abordando depois a maturidade intelectual do autor de O nascimento da tragédia, suas obras e a relação delas com o contexto histórico do período, mostrando que muitas das ideias e posições assumidas pelo filósofo, que se cristalizaram em aforismos e em outros tipos de explanações, faziam parte do pensamento “do tempo”.
Essas ideias, na verdade, devem ser debatidas numa linha de crítica da revolução, a não ser que se queira descartar, com sérios prejuízos para a história do pensamento, as obras de juventude do autor. Diante de uma intelectualidade contemporânea, que no século 20 tendeu a citar Nietzsche e a tirar proveito de sua obra sem lhe exigir contextualização e coerência histórico-política, o professor italiano apresenta com muita retidão de pensamento o tanto que é precipitada a abordagem ahistórica e apolítica do autor.
Um outro aspecto que se impõe é o da honestidade editorial quanto ao texto do filólogo-filósofo da Basileia. Comentando a edição “definitiva” Sämtliche Werke, Kritische Studienausgabe, organizada por Giorgio Colli e Mazzino Montinari (Dtv-de Gruyter, München, 1980), na qual Losurdo se baseia, cita-se Gadamer: “Muitos acreditaram que a nova edição crítica, publicada por Colli e Montinari, provocasse um novo e decisivo enriquecimento e aprofundamento da compreensão de Nietzsche. Ora é certamente verdade que pela primeira vez possuímos os cadernos de apontamentos de Nietzsche em forma criticamente segura e cronologicamente ordenada e que não dependemos mais da redação e da seleção em que a irmã de Nietzsche e os editores sucessivos tinham compilado os seus fragmentos póstumos, todavia é ingênuo crer que hoje, tendo o verdadeiro Nietzsche à disposição, estejamos definitivamente livres das preocupações que atormentaram os intérpretes anteriores”.
A seguir, continua o próprio Losurdo: “Embora bastante precioso, o trabalho editorial de Colli e Montinari não é aquela espécie de hermenêutica plenitudo temporum, religiosamente anunciada por intérpretes impacientes para desembaraçar-se de perguntas inquietantes que a leitura de Nietzsche contém. É a própria edição Colli-Montinari que confirma a presença, num filósofo aliás extraordinariamente rico e estimulante, de motivos que hoje não podem não suscitar ecos sinistros: celebração da eugenia e da 'super-espécie', teorização, por um lado, da escravidão, por outro, da 'criação' da 'espécie superior dos espíritos dominadores e cesáreos'; a invocação do 'aniquilamento das raças decadentes', e do 'aniquilamento de milhões de mal sucedidos', afirmação da necessidade de 'um martelo com o qual despedaçar as raças em via de degeneração e moribundas, com o qual tirá-las do meio para abrir o caminho para uma nova ordem vital'”.
Nietzsche: o rebelde aristocrata é divido em sete partes, possuindo ainda dois apêndices. Cada uma das partes contém em média sete capítulos, que por sua vez se subdividem em tópicos.
Losurdo opta por uma abordagem que privilegia a formação do pensamento histórico e político de Nietzsche, como aponta o título do primeiro capítulo: “A crise da civilização: de Sócrates à Comuna de Paris”. No trecho, o autor mostra que o filósofo alemão já vê em Sócrates a judeização do pensamento grego, o que afasta a cultura helena do preceito de “grecidade trágica” mergulhando-a numa crise a partir da concepção socrática de uma civilização que não mais privilegia o herói, mas o homem comum e em consequência a mundaneidade, o que já ameaça a aristocracia. Tal concepção anunciaria a perspectiva de igualdade, bandeira levantada pelo cristianismo, que, como sabemos, tem raízes judaicas. Losurdo afirma que o problema de Nietzsche não era com o judaísmo, mas, sobretudo, com a cristandade, pois esta é que faz a judeização da cultura. O tópico mais revelador no trecho é: “O suicídio da grecidade trágica como metáfora do suicídio do antigo regime”.
É na sexta parte, no entanto, que o livro de Losurdo se torna mais instigante. Em “No laboratório filosófico de Nietzsche”, o professor italiano pergunta: “Por que a denúncia e a crítica da revolução devem constituir o fio condutor da leitura de Nietzsche? De outro modo, não é possível 'salvar' o filósofo de sua inteireza. Quer-se ver nele o teórico de uma crítica afiada e impiedosa da ideologia que despedaça os mitos de germanismo e do antissemitismo? Salvo qualquer outra consideração, resta o fato de que esse tipo de interpretação comportaria a liquidação das obras de juventude, que ecoam temas teutômanos e judeófobos bastante difundidos na cultura do tempo e que, todavia, são extraordinariamente fascinantes. Quer-se ver em Nietzsche o campeão do 'espírito livre' e o teórico da reabilitação da carne em contraposição ao ascetismo do Ocidente cristão? De novo somos obrigados a cortes e renúncias dolorosas em prejuízo do discípulo de Schopenhauer, que exprime todo o seu desprezo pela galopante 'mundanização', evoca com acentos angustiados as consequências catastróficas do 'triste crepúsculo ateu' e defende contra Strauss 'o lado melhor do cristianismo', o dos eremitas e dos santos”.
Domenico Losurdo, da mesma forma, se contrapõe aos apologetas de Nietzsche que desejam proteger o filósofo de qualquer contaminação e revestem suas palavras com o recurso da metáfora. Ao falar sobre aniquilamento das raças decadentes e aniquilamento de milhões de mal sucedidos, o autor de Assim falou Zaratustra estaria demonstrando capacidade “bastante limitada de entender e de querer no plano político da análise histórica e política”.
Um tópico que merece muita atenção é o denominado “Nuremberg ideológico”. As concepções filosóficas de Nietzsche como a celebração do gênio e do super-homem, ou da necessidade da intervenção eugênica que serviram até certo ponto de embasamento ideológico ao 3º Reich, também circularam intensamente na cultura europeia e americana do final do século 19 e, em momento algum, nomes como o do americano Emerson e do inglês Galton são mencionados.
Talvez o extenso trabalho de Losurdo não agrade àqueles que veem um Nietzsche idealizado, apolítico e extemporâneo, filósofo do qual apenas retiram-se os trechos necessários ao desenvolvimentos de tiradas espetaculares para satisfazer a vaidade de autores que se seguem. Mas o trabalho do professor italiano se revela monumentoso não apenas em relação aos pormenores do percurso intelectual de Nietzsche, mas também sobre a trilha seguida por toda intelectualidade dos séculos 18, 19 e parte do 20, um momento em que a modernidade já está em curso e que poucos são capazes de enxergar o mundo que se anuncia.
Com sangue e com espírito
A relação com o corpo pode ser uma das mais interessantes chaves de leitura para se tentar compreender a cultura ocidental. E o mesmo pode-se dizer da filosofia. Desde Platão, a filosofia sempre dedicou esforços para tentar compreender e estabelecer o lugar do corpo em seus sistemas filosóficos. E, salvo exceções, deve-se admitir que esta relação, desde a Grécia antiga até o século 20, sempre foi muito mais tensa do que propriamente elogiosa. Não só em Platão, mas incluindo nesse movimento tipicamente filosófico a filosofia cristã e toda a filosofia de inspiração racionalista, a mente, a alma e a razão tiveram o privilégio do estudo, concedendo-se ao corpo um lugar secundário e, por isso, inferior.
Nesse sentido, Nietzsche inaugura a contemporaneidade ao tentar a todo custo trazer o corpo para um lugar de dignidade filosófica e, com isso, todos os atributos que antes o faziam ser menosprezado, como o desejo, os instintos e tudo mais que, para Nietzsche, engrandece a vida. E talvez seja impossível se aproximar de um pensamento como o de Nietzsche sem refletir sobre esse lugar de destaque que o corpo adquire em seu pensamento.
Tal é a estratégia bem sucedida de Nietzsche e o corpo, livro de Miguel Angel Barrenechea, que toma o corpo como fio condutor para apresentar o pensamento do filósofo alemão. Mas deve-se ter em mente que o termo fio condutor não pretende estabelecer uma unidade ou um sistema de pensamento assistemático por excelência, que busca justamente denunciar os grandes sistemas da tradição filosófica. “Tomar o corpo como ponto de partida é fazer dele o fio condutor, eis o essencial”, diz o próprio Nietzsche em um fragmento póstumo.
A ideia de Nietzsche, e que é tomada como fio condutor para o livro de Barrenechea, é a de que o corpo é um fenômeno de tal modo rico que pode servir como a melhor maneira de se alinhavar alguns dos temas mais importantes e reincidentes na filosofia nietzschiana, como a crítica ao dualismo, a noção de força, a relação com a vida, com a animalidade e com a dietética. Assim, seguindo esta linha que mais parece um fio de Ariadne do que um fio condutor, pois nos leva ao labirinto de um pensamento, o leitor é convocado a contra-assinar o livro que lê: pois nada mais vital (e, por isso, autobiográfico) do que a relação com o corpo e com o desejo.
E nada mais nietzschiano, como mostra Nietzsche e o corpo, do que exigir um leitor que leia com sangue (ecoando aqui a sentença de Assim falou Zaratustra que diz: “Escreve com sangue, pois sangue é espírito”). Nesse sentido, poucos filósofos provocam uma leitura desse tipo sanguínea como Nietzsche, na qual nosso corpo parece convocado a participar da leitura, sendo talvez ele mesmo o próprio órgão do entendimento. Uma leitura como a que costumamos fazer quando adolescentes, diriam alguns, e que somos desabituados ou talvez deseducados a ter, por alguma misteriosa razão.
E tal misteriosa razão não é nada mais do que aquilo que Nietzsche quer, como médico da cultura, denunciar: a conivência da razão com o rebaixamento do corpo, as atitudes constantes que visam seu enfraquecimento e toda uma glorificação de tudo que, em última instância, é pernicioso ao corpo e à “grande saúde”, para sermos fiéis aos léxico nietzschiano. Desse modo, a cultura ocidental acabou sempre exaltando ideias metafísicas, transcendentais e, nos termos de Nietzsche, falsas e mentirosas, ao invés de se voltar para o que de fato é saudável: o corpo.
Com isso, as metáforas dietéticas, as indicações das condições climáticas ideais para uma escrita, em um movimento absolutamente crítico de afastamento da postura dualista da filosofia ocidental, povoam o pensamento de Nietzsche, e são esses os elementos que Miguel Angel Barrenechea cuidadosamente alinha em sua escrita. Escrita, aliás, que recupera sem a menor vergonha o entusiasmo adolescente que tantos parecem esconder, e que acaba por contagiar o leitor. E não seria essa a mais coerente leitura? Não seria essa, ao menos, a que mais condiz com a postura nietzschiana? Talvez seja uma das possibilidades de se fugir da clausura que Nietzsche tanto denunciou, e que o livro de Barrenechea nos convida a percorrer. Com sangue – e com espírito.
08:22 - 27/03/2010
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Haron Gamal, Jornal do Brasil
RIO - Partindo do princípio de que os seres humanos deveriam dedicar todas as suas energias para o aumento da felicidade humana, expressão que não é propriamente sua, mas de pensadores tanto materialistas como também de pensadores místicos, Richard Rorty (1931-2007) desenvolve em Filosofia como política cultural uma espécie de pragmatismo. Segundo ele, deveríamos nos preocupar com as finalidades e não com reflexões abstratas, que, ainda conforme suas palavras, não levariam a nada. Como exemplo, um artifício utilizado no início do livro para sustentar sua argumentação descarta a perspectiva de classificar os seres humanos segundo raça, privilegiando uma abordagem geneticista. Em vez de “falarmos sobre raças diferentes, vamos falar sobre genes diversos”. Portanto, segundo Rorty, não deveríamos falar sobre coisas que não fazem sentido.
A espécie humana caracteriza-se pelo desenvolvimento do raciocínio e, a partir dele, pela construção tanto de obras concretas – como as possibilitadas pelas ciências físicas – como também pela elaboração de outro tipo de obras, estas abstratas, que existem apenas na imaginação e se concretizam em forma de textos, literários ou não. As teorias filosóficas, que se caracterizam pelas sutilezas do pensamento, muitas vezes servem mais como demonstração da engenhosidade humana do que como meios de estabelecer um propósito propriamente físico. Não é de se admirar que filósofos como Platão e Aristóteles tenham escrito obras com a intenção de que o ser humano obtivesse alguma vantagem. Mas mesmo tendo desencadeado intermináveis discussões, muitas delas de caráter controverso, não se podem abandonar as perspectivas abertas por esses filósofos, desejando que se discuta apenas o que possui lógica interna, útil para a melhoria da vida humana.
A própria discussão filosófica também serve como uma espécie de melhoria ao permitir às pessoas o desenvolvimento do pensar. Afinal, a obra dos grandes filósofos, mesmo que contestada, não deixa de ser um tipo de obra de arte, que merece apreciação em toda a sua plenitude. Na história da humanidade, todo homem que desenvolveu algum tipo de filosofia talvez tenha pensado que os seres humanos teriam como resultado um mundo melhor. O que acontece é que não se pode utilizar essa afirmação com o objetivo de demonstrar a perenidade e validade do pragmatismo.
Ao defender sua tese, Rorty pergunta: “Como deveríamos dividir a cultura em áreas para as quais a política cultural seria relevante e áreas que deveriam ser mantidas livres dela?”. Neste livro, com artigos elaborados, sobretudo, na última década, o filósofo norte-americano tenta responder a questão por meio da filosofia, mas despindo-a de qualquer resquício metafísico.
A primeira parte do livro tem o título “Religião e moralidade de um ponto de vida pragmatista”. No primeiro capítulo, Rorty afirma que se deve abrir mão da discussão sobre as crenças para que se possa esboçar um tipo de “comunidade cooperativa global entre as nações”. O descarte do apego às crenças e mesmo a existência ou não de Deus não deveria ser levado em conta quando se tem como meta o estabelecimento de um mundo em que o ser humano saia beneficiado. Voltando a John Stuart Mill e a Wiliam James, e seguindo o pensamento deste último, “a crença certa a ser adquirida é aquela que fará mais pela felicidade humana”.
No segundo capítulo, o livro quer demonstrar que a visão de mundo pragmatista está mais próxima do politeísmo romântico que do monoteísmo secular. A argumentação de Rorty, sempre voltada para a realização da felicidade, se bate às voltas com o discurso religioso como forma de afastar o homem do caminho da vida secular. Valeria a pena não se preocupar tanto com os fins religiosos, os quais preconizam a salvação numa outra vida, optando pelo aqui e agora, de modo que as nações convivessem de forma harmônica.
Na segunda parte, considerando pensadores canônicos, o autor afirma: “Quando Copérnico e Galileu extinguiram a imagem do mundo que havia confortado Tomás de Aquino e Dante, Espinosa e Kant ensinaram à Europa como substituir o amor de Deus pelo amor à verdade, e como substituir a obediência à vontade divina pela pureza moral. Quando as revoluções democráticas e a industrialização nos forçaram a repensar a natureza do vinculo social, Marx e Mill se apresentaram com algumas sugestões”. São discutidas questões que levam em conta mais uma vez a crença e opção materialista da vida humana. Rorty afirma que “as classes educadas da Europa e da América se tornaram complacentemente materialistas em sua compreensão de como as coisas funcionam. (...) Também se tornaram utilitaristas e experimentalistas em suas avaliações das iniciativas sociais e políticas propostas”. O autor traça um percurso filosófico em que prevalece a opção pelo descarte de princípios tanto teológicos como filosóficos que mantenham o ser humano afastado de fazeres que não privilegiam a vida em sociedade.
Na última parte, ele propõe a discussão entre a filosofia analítica e conversacional. O princípio de pensamento que não leva em consideração o diálogo e a interação com outras linhas de pensamentos não estaria condizente com o estabelecimento daquilo que ele chama de política cultural. Rorty refuta o conversacionalismo de Habermas, o qual, segundo ele, não atinge a proposta pragmatista ao não seguir perspectivas historicistas na mesma linha do autor de Filosofia como política cultural.
Após a leitura, fica a impressão de que os ensaios tentam responder a questões pontuais da cultura norte-americana. Ao procurar estabelecer uma forma de pensar que leva em consideração apenas soluções de problemas práticos, que na verdade privilegiam apenas as ciências físicas, não haveria lugar para a crítica que se mostrasse fora de um modelo de vida predominantemente tecnicista. Poder-se-ia dizer que o desenvolvimentismo empreendido pelos Estados Unidos deveria servir de modelo bem sucedido para toda a humanidade.
O que se pode estabelecer como crítica é que o pensamento pragmatista, preconizado por Rorty, não leva em conta as contradições sociais, negligenciando questões como a luta de classes e, sobretudo, os interesses de países que tentam alcançar o mesmo patamar das nações desenvolvidas. Através da mundialização atual, pode-se concluir que ser pragmático seria pensar e agir de modo a beneficiar seu próprio país e sua consequente população. Mas o que fazer quando levamos em consideração o acirramento dos interesses e a intensificação dos conflitos, sem ainda considerar a extensão do fundamentalismo tanto do Ocidente como do Oriente?
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
“Morava sozinho, não tinha dinheiro, minha saúde deixava bastante a desejar, não publicava nada em lugar algum fazia um bom tempo, ultimamente nem sequer escrevia. Meu destino parecia miserável. Acho que tinha começado a me acostumar com a autocompaixão.” Num determinado trecho de Estrela distante, Roberto Bolaño (1953 - 2003) faz o narrador dizer as palavras acima. Tudo funciona como se a literatura, ou a escrita do personagem – ele também é um escritor – estivessem a fracassar. Mas a história narrada, na verdade um romance dentro de outro, é que trará ao leitor a verdade. Então, o que seria fracasso acaba por se tornar revelação.
A narrativa inicia-se em 1973, às vésperas do golpe militar contra o governo de Salvador Allende. O autor apresenta um Chile pleno de força juvenil, onde a maioria dos personagens frequenta oficinas de literatura, sonha com um governo revolucionário e paquera as também jovens poetas, como as irmãs gêmeas Garmendia. No entanto, um jovem misterioso, inicialmente conhecido como Alberto Ruiz-Tagle, surgirá para desestabilizar o ambiente. Ele é um elegante e sofisticado participante numa das oficinas de literatura da Universidade de Concepcion, escreve até bons poemas segundo a opinião de algumas pessoas, e conquista o coração de uma das gêmeas. Após o golpe, saberemos seu verdadeiro nome: Carlos Wieder; na verdade, trata-se de um oficial aviador. Daí, ele passa a escrever com fumaça, nos céus do Chile, versículos bíblicos e poemas “enigmáticos”.
A questão primeira que o romance impõe é a literatura. Todos os jovens amigos do narrador são poetas ou pretendem sê-los, inclusive o militar infiltrado. Mais adiante, Bolaño faz um levantamento dos anos que se seguiram ao golpe, o que aconteceu com grande parcela da juventude chilena, a perseguição, a morte e o exílio. Sabe-se mais sobre o poeta aviador, sobre o furor que causou nos meios civis e militares do novo governo com suas piruetas e poesias aéreas. Mas, a seguir, também somos informados sobre sua saída de cena no momento em que não mais interessa ao governo.
Ainda a respeito da literatura, é importante observar outros pontos colocados pelo romance. Um deles é que, à primeira vista, todos os poetas são de esquerda. Apesar de seus poemas não serem diretamente políticos, a atitude de cada um dos escritores é de recusa ao status quo. A arte atua como instrumento de resistência. A partir daí se discute até que ponto pode existir uma arte de vanguarda patrocinada pelo regime, sobretudo sendo o regime militar e de direita. Após o golpe, há a debandada, quase todos os intelectuais ou poetas precisam deixar o país; há também aqueles que sucumbem. Outro ponto é a referência a grandes nomes da literatura universal, como Vitor Hugo, Balzac, Apollinaire etc, juntamente com autores desconhecidos ou mesmo criados por Bolaño, poetas ou prosadores que não só convivem com os clássicos mas representam (alguns deles) uma espécie de literatura marginal.
No começo do livro, o narrador conta a sua história e a de seus companheiros, de uma perspectiva distante. Diz que no ano de 1973 tinha apenas a idade de 18 anos. Logo vem os anos de exílio que perduram e parecem não acabar mais. A narrativa transforma-se numa espécie de escavação da memória quando relata sobre seus amigos e o destino que experimentaram. A maior parte da narrativa, no entanto, fixa-se em Ruiz-Tagle/Wieder, seu possível destino, sua aparição através de pseudônimos em algumas publicações menores e a tentativa de localizá-lo.
Nos três últimos capítulos “é então que entra em cena Abel Romero e eu volto a aparecer em cena”, o que revela a pouca importância que este narrador-poeta dá a si próprio. Há ainda uma frase pungente no mesmo parágrafo: “O Chile também se esqueceu de nós.” O personagem recém chegado é um ex-policial chileno que também está há anos no exílio, após vagar por vários países estabelece-se na França. Sempre tivera a fama de exímio investigador, chegando a desvendar os casos mais difíceis. No trecho, o livro assume ares de verdadeiro romance policial. Romero procura o narrador-personagem em sua casa, em Barcelona; encontra-o por intermédio de um ex-companheiro deste dos tempos do Chile, chamado Bibiano. Ambos eram inseparáveis na frequência às oficinas literárias e na vida boêmia de Concepcion. Bibiano jamais deixara seu país, tendo trabalhado durante muito tempo numa sapataria, para depois publicar e se tornar famoso, inclusive chegando a dar aulas em universidades americanas. Uma pessoa não identificada, que tinha enriquecido recentemente, pagava ao investigador e a quem ajudasse a encontrar Wieder uma significativa quantia, e “para encontrar um poeta ele precisava de ajuda de outro poeta. Eu disse que para mim Carlos Wieder era um criminoso, não um poeta.”
Romero segue o rastro de Wieder através dos vários nomes que este usara. Mergulhamos então numa rede que inclui fanzines de várias partes do mundo, não só de várias correntes literárias marginais como também publicações de skinheads, de grupos neonazistas e de torcidas de clubes de futebol. Aparece até uma rede de produção de filmes pornôs.
No capítulo final, é emocionante a viagem feita por ambos até uma estação turística na Catalunha, onde, segundo as investigações, mora o ex-poeta aviador. O objetivo é que o escritor exilado o reconheça, o restante estará a cargo de Romero.
O que se pode depreender no balanço geral da obra é todo um percurso que não só inclui a história recente do Chile, mas também um possível processo tanto de descrédito como de valorização da própria literatura. O narrador, numa vida muito semelhante à de Bolaño, está doente, não sobrevive de seus livros, até ali não obtivera reconhecimento e já passa dos quarenta anos. Acaba por aceitar a quantia oferecida para ajudar na captura do ex-agente colaboracionista do regime Pinochet.
A valorização está na elevação da poesia acima de qualquer outro tipo de arte literária, pois se trata de um enredo protagonizado por poetas. O próprio Bolaño parece fazer uma mea culpa, já que começou sua carreira como poeta e pouco a pouco foi abandonando a poesia para dedicar-se à prosa, sendo reconhecido afinal como grande ficcionista. Apesar de, aqui, a história ser contada por um poeta, não significa a negação da poesia; através de sua narrativa a História se mantém viva, a poesia se impõe e a arte assume, enfim, sua verdadeira função.
Estrela distante, Roberto Bolaño
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Companhia das Letras, 143 páginas.
