domingo, maio 12, 2013

Ilíada e Odisseia, a fundação do humano e a inauguração da literatura

Pouco se sabe a respeito de Homero, até mesmo a cidade onde teria nascido é palco de controvérsias. O período em que a Ilíada e a Odisseia foram escritas também é outro ponto para discussão. Alguns pesquisadores acham que os poemas são do século VIII a.C., enquanto outros apontam o século VII e até mesmo o VI. O consenso é de que esses dois poemas épicos são os fundadores da literatura ocidental, ainda mantendo intensa atualidade.

A Ilíada descreve e narra a Guerra de Troia, desde as suas motivações, a genealogia dos deuses, dos heróis, os detalhes das batalhas e o intrincado conluio entre os habitantes do Olimpo e os homens. A Odisseia já trata da vida de um homem, Odisseu, mais conhecido como Ulisses, seu nome latino.

Atualmente, nas livrarias, é possível encontrar os dois livros em edições muito bem cuidadas. A Ilíada, em capa dura e arte final perfeita, traduzida por Odorico Mendes, famoso intelectual brasileiro que viveu no século XIX, é da Ateliê Editorial. A tradução é tão bem resolvida que se tornou modelo entre aqueles que desejam seguir essa muitas vezes ingrata carreira de tradutor. A Odisseia já aparece em edição mais simples, porém bilíngue e também muito bem acabada, traduzida pelo conhecido professor Trajano Vieira, com posfácio de Ítalo Calvino; a editora é a 34. Na Odisseia há ainda inúmeras notas, a geografia do Mediterrâneo à época em que se passaram a guerra de Troia e as viagens de Ulisses (calcula-se que a guerra tenha ocorrido entre 1300 e 1200 a.C., logo seis ou sete séculos antes de se transformar em literatura), e o sumário dos cantos.

O motivo da Ilíada, como todos sabem, é a fuga de Helena (mulher de Menelau, rei de Esparta) e Páris para Troia (alguns afirmam que ela teria sido raptada), o que motivou uma espécie de aliança entre várias cidades-estados da Grécia para acorrer à Ásia menor e trazê-la de volta. Só que, entre marchas e contramarchas, a guerra dura dez anos. Os gregos combatem sob o comando de Agamêmnon.

Já a Odisseia narra a volta de Ulisses a Ítaca, ilha governada por ele. Mas o herói, autor do cavalo de madeira que enganou os troianos e tornou possível aos gregos a vitória, leva vinte anos para conseguir retornar a sua ilha, somando o tempo que durou a guerra. Ele sofre no percurso todo o tipo de atribulações.

Enquanto a Ilíada é pungente porque além de cantar a vitória das hostes aliadas ressalta a desventura dos que morrem em terra estrangeira, a Odisseia nos aponta o percurso de um homem e sua solidão. Apesar do caráter heroico atribuído a Odisseu, não há quem não se identifique com ele quando se trata dos problemas humanos. O herói é levado cada vez para mais longe de casa; experimenta a ameaça de monstros inimigos, feiticeiras, sereias, tempestades e naufrágios. Seus companheiros vão pouco a pouco perdendo a vida pelo caminho e, quando consegue voltar para casa, Ulisses chega sozinho e em nau estrangeira. Além disso, precisa disfarçar-se para tramar a vitória sobre os pretendentes que assediam sua esposa. Como havia duas décadas que partira e jamais dera notícias, muitos achavam que ele morrera enquanto navegava de volta a sua Ítaca. A viagem de Ulisses é tão tormentosa que ele chega a ir ao Hades – na mitologia grega é a terra dos mortos –, onde reencontra muitos dos seus companheiros que pereceram no campo de batalha, como Ajax e Aquiles. Também descobre entre os mortos sua mãe, que ainda vivia quando ele partiu para a guerra.

Em algumas paragens, o herói também é recompensado com a lealdade e a amizade, como entre os feácios. Estes o acolhem, enchem-no de presentes e o transportam de volta a Ítaca.

Outro episódio interessante ocorre logo que ele desembarca e vai à própria casa apresentando-se como um estrangeiro que pede abrigo, disfarce para driblar os pretendentes de sua mulher. É reconhecido por Argos, seu cachorro, que já tem vinte anos de idade. O animal se agita ante a aproximação do herói, dá demonstração de fidelidade e morre logo em seguida. Uma criada também o reconhece. Uma vez que era costume entre os gregos ofertar banho aos estrangeiros, a criada que o leva reconhece a cicatriz que ele possui num dos joelhos, fruto de um acidente que sofreu quando criança ao acompanhar o avô na caça ao javali.

Apesar de ambas as histórias terem como pano de fundo a guerra, principalmente a Ilíada, vemos diversas demonstração de amor, lealdade e amizade. Ressalte-se o sentimento do herói, Ulisses, que nos ensina como é difícil viver como estrangeiro, pior ainda na própria terra.

Embora os leitores de primeira viagem possam encontrar alguma dificuldade no começo, a leitura de ambos os livros pouco a pouco se torna mais fluida e agradável. Ler esses dois clássicos da literatura acaba tornando-se não apenas uma questão de cultura, mas de humanidade.

sábado, abril 13, 2013

Livros de Benedito Vidigal passeiam pelo lirismo e recuperam o passado de todos nós


Roland Barthes, em A preparação do romance, diz que o cinema não é capaz de transmitir os cheiros, mas a literatura, sim. Antes, em Sade, Fourier, Loyola, ele havia negado a capacidade da literatura para tal representação. Talvez isso tenha ocorrido porque, naquele período, ele flertasse com a psicanálise lacaniana, e visse no princípio da denegação a impossibilidade de representação do real. No entanto, Em A preparação, Barthes parece mudar de ideia. Analisando as afirmações do escritor francês, chego também à mesma conclusão. Se pensarmos o cinema como uma linguagem organizada através de imagens, por mais criativas que sejam suas sequências de cenas, concluiremos que ele não é capaz de nos transmitir odores. Tomemos com exemplo a sequência de um filme que privilegie a imagem de várias flores. Em primeiro lugar, essas imagens causarão prazer aos nossos olhos, ficando sensações mais sutis, como o odor, em situação de desvantagem, tornando difícil ou mesmo impossível a sua representação. A abordagem de nossos sentidos através da visão acabará por nos marcar muito mais pelos contornos que a imagem sugere do que pelas eventuais propriedades que ela possa comportar. Já a literatura, não; uma vez que é constituída por palavras, desde que usadas com criatividade e esmero, poderia representar os cheiros. O bom escritor precisa nos conduzir, em primeiro lugar, a esses conceitos e sugestões, deixando as imagens para um segundo momento. Na literatura é plenamente possível explicar um perfume. É lógico que os cheiros presentes nas histórias não exalarão fisicamente através das páginas de um livro. O perfume que um personagem usa ou o aroma de uma comida no fogo poderão ser sentidos por nós porque, na verdade, há um misto de conceitos explanados por meio de palavras mais a experiência que vivemos no dia a dia. A verdadeira literatura vai muito além do filme que rola dentro da cabeça de cada um de nós.

Essa questão pode ser percebida nesses dois livros de Benedito Vidigal, Corações desatentos, de poemas, e Espelho d’água, de crônicas. Em ambos, somos conduzidos aos sabores e cheiros de uma juventude perdida no tempo. E também a situações contemporâneas, mas que não deixam de trazer um travo de sentimentalismo.

No livro de poemas, Vidigal toca em temas amorosos, eróticos, revisita amigos e canta as lembranças proporcionadas pela cidade de Valença à época em que estudou medicina. O eu lírico é um eterno apaixonado. Através de seu percurso, experimentamos toda a intensidade daquele passado.

Destaco algumas passagens de sua poesia, sempre marcada pelo caráter enxuto e elegante.

“Eu te olhava / enquanto dormia / Acordei por nada / ainda no começo da noite / por isso / eu te olhava de pertinho / sentia teu cheiro / cheiro de perfume / cheiro de amor...”, em “Detalhes”. O erotismo surpreendente predomina em “Pela segunda vez”: “Ela lambeu-me / a boca / como se fosse cadela / e saiu rebolando o traseiro / como se cadela fosse / a segui / pelas ruas sem fim / feito cão predileto...”, e também em “Fuxico”: “Um beijo / um cheiro / uma passada de mão / fuxicos ao pé do ouvido / outros beijos / suspiro / e a negação...”. Reparem a sinestesia em “Ermitão”: “A casa exibia / um caramanchão na entrada / lotado de jasmins estrelados / a perfumarem o ar / Cheiravam mais que as roseiras / ... lá dentro morava o desejo / desejo não revelado...”. Sobre as recordações, “Lembranças de Valença”: “Naquele dia / seduzido pela cidade / subi o jardim de baixo / desci o jardim de cima / e logo te encontrei / naquela rua / Destino!”. Por fim, Vidigal não deixa de fazer uma elegia a amigos e amigas da adolescência ao construir uma espécie de ciranda em “Our street”: “... Rodem / rodopiem / gente alegre / gente amiga / cujo destino / não nos pode roubar / o afeto...”

Espelho D’água também nos presenteia com histórias em prosa, na maioria das vezes plenas de poesia. São narrativas sobre amores roubados, lembranças de amigos e de entes queridos, encontros e separações. Dentre as vinte e quatro crônicas que compõem o livro, destaco as seguintes: “Espelho D’Alma”; “Colegas, Amigos”; “O Ballet das Almas”; “Sob o estigma do sobrenatural”; “Sem censura”; “Sonhar é preciso” e “Pe. Caio de Jesus”.

No final um inédito, “De mim para você”, escrito pela mãe de Vidigal sobre uma viagem que ela fez à terra natal. Esta crônica, pungente, recuperada e modelada pelo autor, demonstra o gosto e o talento da família de Benedito Vidigal pela escrita, pela poesia, enfim, pela literatura.

Corações desatentos, 119 páginas e Espelho d’alma, 99 páginas
Autor: Benedito Vidigal
Editora Kelps

quinta-feira, abril 04, 2013

A cultura de massa e a perfeita audiência

Seria interessante encontrar um poeta, romancista, cineasta, dramaturgo, músico, ou mesmo artista plástico que se contentasse com a audiência de meia dúzia de pessoas. Às vezes se ouve falar de autores que criam por necessidade. Segundo suas próprias palavras, não conseguiriam viver sem praticar algum tipo de criação artística. Será isso verdade, ou essas pessoas estariam sempre desejando a grande audiência e, em consequência, o estrelato?

Desde os primórdios da humanidade, muitas obras de arte foram reproduzidas. Quando se tratava de livros, logo apareciam os copistas, aqueles seres humanos que exerciam a mesma função de uma tipografia, só que a mão.

É lógico que quando se fala de teatro ou de artes plásticas, a situação é um pouco diferente. Uma vez que no teatro cada apresentação é única, ele não se propõe a mecanismos de repetição. Mas qual autor não gostaria de ver suas peças em cartaz anos a fio, como algumas produções da Broadway que permanecem em cartas durante anos ou até durante décadas? Em relação às artes plásticas também se percebe a mesma questão: cada obra de arte é única. Mas todo pintor ou escultor, quando alcança o sucesso, há de querer multiplicar sua produção para sair em turnê mundo afora, sem falar na possibilidade de reprodução através de álbuns de fotografia, a mais recente febre nas livrarias.

Limitemo-nos, porém, à escrita e ao cinema.

A primeira, desde Gutemberg, proliferou-se com a impressão de exemplares que continuaram a sair das máquinas de acordo com a perspectiva de expansão do produto. Sim, produto, porque faz tempo o livro se tornou um produto, um objeto de consumo muito bem acabado, sem nada a dever a qualquer outro produto desse nosso vasto mundo de negócios.

O cinema, já pela própria natureza, surgiu como ponta de lança daquilo que se costumou chamar de cultura de massa. Ele conseguiu massificar a literatura tornando-a acessível ao grande público, já que seria mais fácil assistir a filmes do que ler livros. Sei que muitos cineastas apontarão essa minha afirmação como um sacrilégio. Mas a ideia que se formou no mundo inteiro a respeito da sétima arte é de algo espetaculoso. A própria reprodução em larga escala das cópias de um determinado filme e sua consequente distribuição por todo o planeta configuram o cinema como um tipo de arte fadado à grande audiência.

Portanto, voltamos à questão inicial. Por que a necessidade do estrelato, por que a necessidade de uma grande audiência? Quem se propõe a ser um artista para si mesmo ou para um círculo pequeno de apreciadores? Sim, de verdadeiros e profundos apreciadores. Assim, penetraríamos na misteriosa afirmação de Machado de Assis no início do seu Brás Cubas, que contabilizava apenas uma meia dúzia de leitores como a sua perfeita audiência. 

sexta-feira, março 08, 2013

Resenha de "A montanha mágica", de Thomas Mann


Romance de Thomas Mann antecipa visões do Holocausto

Um jovem singelo viajava, em pleno verão, de Hamburgo, sua cidade natal, a Davos-Platz, no cantão dos Grisões. Ia de visita por três semanas. 
Mas de Hamburgo até essas alturas a viagem é longa, demasiadamente longa, na verdade, para uma estada tão curta. É preciso atravessar diversos estados, subindo e descendo, do planalto da Alemanha meridional até a beira do lago de Constança, cujas ondas saltitantes são transpostas de navio, por sobre abismos considerados insondáveis. 
A partir dali torna-se demorada a viagem que até  esse ponto se realizava rapidamente quase em linha reta. Há delongas e complicações. Na localidade de Rorschach, já em território suíço, voltamos a nos confiar à viação férrea; mas, por enquanto não se progride além de Landquart, pequena estação alpina, onde se precisa fazer baldeação. [...] A estação de Landquart acha-se situada a uma altura relativamente moderada. A partir dela, porém, entra-se na própria montanha, por uma estrada rochosa, áspera, angustiante.

Desse modo começa a viagem de Hans Castorp aos Alpes suíços, no romance “A montanha mágica”, de Thomas Mann. O personagem, um jovem recém-formado em engenharia naval, tem como objetivo visitar o primo, Joachim Ziemssen, que sofre de tuberculose e está hospedado num sanatório (uma espécie de hotel, como são os sanatórios da época) da pequena cidade. A narrativa situa-se na primeira década e em meados da segunda, do século 20.

O início do romance, ao descrever as agruras da viagem de Castorp, contrasta com o que vamos encontrar durante todo o texto, que situa a história num lugarejo da Suíça. Narrações e descrições fora dali existirão apenas na lembrança dos personagens. E não são muitas. A narrativa avançará sem movimentos bruscos, privilegiando o aparecimento dos personagens, seus pensamentos, suas ideias e o que eles nos têm a dizer.

Assim, desde o começo, será possível constatar, além do movimento e do aparente desconforto para se chegar à montanha, sobretudo devido aos vagarosos transportes da época, a oposição entre subida e promessa, uma vez que toda escalada cria a perspectiva de algum tipo de revelação.

O título “montanha mágica”, que poderia soar estranho, permite também análises diversas. A primeira delas esgota-se no que pouco a pouco nos é revelado, um local onde a permanência pode levar os enfermos à cura; a segunda, como aponta Antônio Cícero no prefácio dessa edição, remonta a uma citação de Nietzsche em “O nascimento da tragédia”: “Agora a montanha mágica do Olimpo como que se nos abre e mostra as suas raízes. O grego conheceu e sentiu os pavores e os horrores da existência: para poder não mais que viver, precisou conceber a resplandecente criatura onírica dos olímpicos.” Nesse sentido, não teremos no romance deuses olímpicos, mas seres humanos que vivem, estes sim, um novo aprendizado. Ele pode estar numa nova maneira de compreender o passar do tempo (se é que o tempo, ali, passa), ou, uma vez que não se tem aonde ir porque os passeios são sempre os mesmos, na viagem pelo mundo das ideias. Portanto, a montanha mágica torna-se mística não apenas por curar alguns de seus enfermos, mas por proporcionar ao nosso personagem central revelações sobre a vida e sobre a morte. Na verdade, o romance de Mann acaba por tornar-se um romance de formação.

E para a transformação desse jovem engenheiro, que se preocupava apenas com a técnica, num homem de pensamento, a montanha mostra-se promissora. Tentativa bem sucedida do autor em revelar, num princípio de século tomado por intensa febre tecnológica (um mundo futurista), que as ideias jamais podem ser abandonadas.

Há uma história curiosa sobre a família de Thomas Mann. Conta-se que, um dia, seu filho, Klaus Mann, ao voltar a Munique após uma viagem ao exterior, foi convencido por um dos empregados da casa a abandonar imediatamente o país, pois o avanço do nacional-socialismo colocava em risco a sua segurança e a de sua família. Klaus ainda espera até o dia seguinte quando, então, parte para um longo exílio. Após algum tempo, ele descobriu que o empregado era agente do regime e, naquele momento, não se sabe por que motivo, tentou livrar a barra dos patrões.

Em “A montanha mágica”, vemos desfilar uma série de adoráveis personagens, cada um representando uma ideia, ou um modo de vida. Um deles é Setembrini, a quem o autor nomeia de literato da civilização, isto é, um intelectual herdeiro do humanismo e da ilustração. Outro é o jesuíta Naphta, que trava com o italiano Setembrini um tumultuado embate intelectual. Ambos visam conquistar o espírito de Hans Castorp e tê-lo como discípulo. Há também Mynheer Peeperkorn, um holandês grandioso nos gestos e inconcluso na eloquência, mas cujas palavras revelam-no um tenaz conquistador. Mann o criou baseando-se num famoso escritor alemão do período, ganhador do prêmio Nobel de literatura. Desfila também a russa Mme. Chauchat, cujos olhos quirguizes seduzem o personagem central e o fazem lembrar uma paixão da época de colégio. Atente-se aqui para o tipo de paixão. Espalham-se pelo romance muitas informações acerca da medicina da época e da psicanálise, esta ainda no seu estágio de fundação, representada no romance pelo Dr. Krokowski.

A estada de três semanas de Castorp junto ao primo, em Davos-Platz, acaba demorando-se um pouco mais. As pessoas, praticamente todas enfermas, vivem um microcosmo da humanidade do período. Thomas Mann, como todo grande autor, adianta-se ao seu tempo quando diz pela voz de Naphta: “o segredo e a existência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do eu. O que ela necessita, o que deseja, o que criará é: o terror”.

O livro, publicado em 1924, muito antes da Segunda Guerra Mundial, dos campos de extermínio e dos atuais homens-bomba, mostra, ao contrário do apelido que carinhosamente Setembrini dá a Castorp, que os “filhos enfermiços da existência” estão muito além da montanha.

A montanha mágica
Thomas Mann (tradução de Herbert Caro)
Editora Nova Fronteira, 957 páginas

domingo, fevereiro 10, 2013


Resenha de 'O explorador de abimos - Vilém Flusser e o pós-humanismo'

Erick Felinto e Lucia Santaella partem do pensamento de Vilém Flusser para debater o impacto da tecnologia sobre a vida contemporânea

Por Haron Gamal*

Partindo de premissas do pensamento de Vilém Flusser, Erick Felinto e Lucia Santaella discutem a presença avassaladora da tecnologia e suas consequências sobre a contemporaneidade, no livro “O explorador de abismos — Vilém Flusser e o pós-humanismo” (Editora Paulus).

Flusser é um pensador que foge às amarras da filosofia tradicional, tendo adotado a visão transdisciplinar sobre a realidade muito antes de esta entrar em voga. Sua reflexão se entrega ao risco e ao fascínio com a multiplicidade do mundo, não se fixando em parte alguma. O problema que os autores do livro enfrentam, no entanto, é conciliar o pensamento nômade de Flusser, que não abandona o humanismo e navega até certo ponto nas mesmas águas de Heidegger, com o que chamam de pós-humano, isto é, a perda da centralidade do homem e o fim dos humanismos clássicos num mundo que passou a ser regido pela tecnologia.

O pós-humanismo abordado por Felinto e Santaella traz em muitos momentos a perspectiva da supremacia do maquínico sobre o humano, o que é sugerido pelos autores como o apagamento das fronteiras entre as instâncias da natureza e do artifício. Num futuro universo pós-humano, a tecnologia não apenas dividiria essa preponderância com o humano, mas estaria prestes a superá-lo. Em certas passagens, os autores não veem a questão como malefício, mas sim como um avanço.

Em meio à quantidade de informações disponíveis nos dias de hoje, quem seria capaz de organizá-la e acessá-la sem dispositivos? A partir dessa perspectiva, as subjetividades se veriam diminuídas em proporção à capacidade de atuação dos sistemas e do armazenamento de dados nos computadores. 

A obra desenvolve-se em sete capítulos. O primeiro apresenta “O mistério de Vilém Flusser”, investigando sua produção intelectual e a apropriação de sua filosofia pela teoria da mídia. O segundo, “O nascimento do pós-humano na cibernética”, estabelece como ponto de partida a complexidade e a prevalência dos sistemas de informação como base para a decadência do humanismo clássico, fase em que, pelo menos teoricamente, era o homem o centro do saber e do universo. O capítulo 6, polêmico mas necessário até para quem deseja contestar a obra, aborda a dissolvência dos humanismos.

Interessante nessa discussão é a conclusão de que os humanismos clássicos já não conseguem trazer à Humanidade soluções para problemas pontuais nem existenciais. Portanto, segundo os autores, há a perspectiva do maquínico assegurar um futuro em que, apesar do apagamento das fronteiras entre o humano e o tecnológico, os agenciamentos tornem-se mais eficazes.

Ainda segundo eles, um bom exemplo estaria no livro “Filosofia da caixa preta”, obra em que o pensador tcheco utiliza a máquina fotográfica como metonímia de toda tecnologia: “Na caixa preta de Flusser, manifesta-se uma espécie de dialética do senhor e do escravo. O fotógrafo domina o input e o output da máquina, sem todavia conhecer suas entranhas, sem entender realmente os processos que se efetivam no interior do aparato. Por desconhecer o seu funcionamento, é por ele dominado.”

O título, “o explorador de abismos”, revela o fascínio de Flusser pela reflexão sobre temas prementes e de difíceis soluções. Mas o filósofo aponta que a própria reflexão ainda é a contrapartida mais adequada para a sobrevivência do humano.

*Haron Gamal é professor de literatura e doutor em literatura brasileira pela UFRJ
Matéria publicada no Jornal O Globo, Caderno Prosa e Verso, em 09/02/13.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Doutor

O empregado do bar aproximou-se respeitoso da mesa onde se encontrava Arlindo.

– Doutor, tem uma moça aí querendo falar com o senhor.

– Que moça?

– Aquela – disse apontando para o fundo do bar –, que está perto do banheiro feminino.

O mercadão de Madureira começava o dia de terça-feira sem muito movimento. O local, que é visitado por todo tipo de gente e serve principalmente a quem procura mercadorias baratas, possui em seus pequenos boxes e lojas comércio bastante variado. Ali, vendem-se diversas bugigangas: material para festas, material de papelaria, artigos de armarinho, artigos religiosos, de cabeleireiro, flores, balas e doces (estes procurados por ambulantes que trabalham nas ruas e nos transportes coletivos), ferragens, pequenos animais, rações entre outras; ultimamente, já há até mesmo a presença de lan houses. Nas horas de movimento, lanchonetes e bares servem de refúgio àqueles que precisam de alguns minutos de descanso, desejam matar a fome ou saciar a sede através de um copo de refrigerante ou mesmo de uma cerveja.

Num desses bares, a presença de Arlindo, ou Doutor, como é mais conhecido, é diária. Sua mesa é forrada com uma toalha especial, toda quadriculada, e vez ou outra ele seca o suor da testa por meio de um guardanapo de pano, que, no local, é também exclusividade dele. Este senhor, um tanto gordo e vestido de terno de linho branco, controla o jogo no local. Dizem que a toalha quadriculada é para debochar dos policiais, já que estivera preso inúmeras vezes mas sempre se saíra bem, tornando-se cada vez mais próspero.

– Diga a ela que é pra vir aqui.

O empregado fez um leve movimento com a cabeça e se retirou. Instantes depois, a moça se aproximou.

– Bom dia – disse entre tímida e enigmática.

– Bom dia, sente-se, tenha a bondade.

– Obrigada.

– Está servida? – perguntou enquanto enchia meio copo, com água mineral.

– Não, não, obrigada – agradeceu mais uma vez.

– Em que posso lhe ser útil?

– Gostaria de pedir um favor ao senhor.

Arlindo assentiu num gesto largo e bonachão; repousou o copo sobre o mesmo lugar onde estivera e a mirou por cima dos óculos de leitura, que ele raramente retirava.

– Qual a sua graça?

– Lindimar.

– Lindimar, bonito nome. Lembra-me das vezes em que trabalhei em Niterói.

– Uma amiga indicou-me o senhor.

– A mim? – pareceu surpreso.

– Sim. Diz que o senhor é muito afetuoso e, cá entre nós, não resiste às mulheres bonitas.

Arlindo desfez a posse e se pôs a rir, alisou de modo automático um pequeno trecho do forro da mesa e a olhou de novo, voltando à seriedade anterior.

– Está calor, peça alguma coisa – dirigiu-se a ela como que para quebrar o constrangimento.

– Não, não desejo nada, obrigada.

– Então me fale, vai, qual é o favor que desejas de mim?

– Uma pulseira de ouro.

Doutor, que já passara por quase tudo na vida, não achou surpreendente o pedido. Ainda repetiu as duas últimas palavras da moça, só que em forma de pergunta:

– De ouro?

Ela meneou a cabeça afirmativamente e se fez de encabulada.

– Já que seu pedido é irrecusável, fechamos o negócio.
Sinalizou ao garçom e pediu mais uma garrafa de água.

***

A Estrada do Portela é avenida de tráfego intenso a qualquer hora do dia. O viaduto, que atravessa a linha férrea, tem como cenário quase permanente ônibus e automóveis, o que intensifica a paisagem urbana de modo irremediável. Imagine-se o local às duas horas da tarde, num dia de verão.

O dia era o seguinte ao encontro no bar do mercadão. Arlindo e Lindimar atravessaram pela passarela. De cima, puderam observar o fluxo de pessoas nas ruas principais e na própria estação de trens. Ao desceram no lado oposto, caminharam durante alguns minutos pela calçada estreita. Fazia muito calor. Doutor não abandonava o lenço branco, que trazia em uma das mãos; vez ou outro o usava para secar o suor. Seguiram por uma rua secundária, acompanharam o casario antigo e depois entraram num velho sobrado. No segundo andar, havia uma tabuleta: Jóias – ouro e prata – Irmãos Xavier.

O homem de terno de linho branco cumprimentou um rapaz, o único funcionário do local. Ao reparar o ilustre visitante, pediu que aguardasse e desabou numa assustada correria em busca de um dos sócios da loja. Alguns minutos depois, entrava Seu Moysés, um senhor de mais ou menos sessenta anos, corpo magro, cabelos brancos, óculos estreitos. Procurava sempre demonstrar muito interesse sobre tudo que vendia; agia como se cada objeto fosse verdadeira relíquia.

– Doutor, que grande prazer tê-lo aqui, quanto tempo! O senhor não vai ficar de pé, aí, entre, sente-se, aqui atrás do biombo há uma poltrona confortável, tenha a bondade.

– Não, obrigado. Agradeço a gentileza. Estou com pressa. Peço que atenda a moça. É gente minha. Ela quer uma pulseira. De ouro, seu Moysés, de ouro.

– Oh, claro, pode deixar, será um grande prazer tê-la como cliente.

Arlindo cumprimentou-o apenas com um breve gesto, depois sorriu para Lindimar e disse:

– Procure-me guando tiver tempo.

Ela agradeceu com ligeiro sorriso.

Depois, Arlindo desceu a escada, seus passos eram firmes e compassados;
esfregava o rosto com o pequeno lenço.

***

Alguns dias depois, recebeu de novo a visita de Lindimar.

– E, então, gostou da pulseira? – perguntou como que surpreso.

– É linda! Adorei. Vim pra mostrar a você.

– Oh, que beleza! – exclamou enquanto tomava nas mãos o braço da moça –, é realmente maravilhosa.

– Também vim até aqui para agradecer.

– Não há de quê. Sempre que desejar alguma coisa e isto estiver a meu alcance, pode contar comigo.

Lindimar parecia querer dizer algo mais, mas não se sentia à vontade. Depois ensaiou algumas palavras.

– Sabe o que é? Vim lhe fazer outro pedido.

– Outro? Tenha a bondade...

– Quero que compareça a uma festa que vou dar lá em casa.

– Oh, queira me desculpar, mas não sou homem de festas.

– Será algo bastante simples e reservado.

– Olha, sabe o que acontece?, as pessoas me aborrecem, todos me conhecem, sempre querem algum favor.

– Ninguém lhe pedirá coisa alguma, garanto. E a festa será bastante íntima.

– Íntima?

– Isso, íntima!

– Então, é de se pensar, é de se pensar...

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Ricardo Piglia discute em seu romance a natureza da literatura

Tardewsky, personagem de Ricardo Piglia no romance Respiração artificial, afirma: “a natureza não existe mais, só nos sonhos. Ela, a natureza, só se faz notar sob a forma de catástrofe ou então se manifesta na lírica. Tudo o que nos rodeia é artificial: tem as marcas do homem.” O livro, agora em edição de bolso, foi publicado recentemente pela Companhia das Letras.

O autor quando diz, através de seu personagem, que dos dois lugares possíveis para a manifestação da natureza um deles é a lírica, ou seja, a própria literatura, ele quer dizer que essa literatura passa a ter enorme responsabilidade. Então, é necessário aprofundar a questão.

A natureza, como algo absoluto, apresenta-se como total impossibilidade. No filme “Matrix”, dos irmãos Wachowski, no momento em que toda a parafernália tecnológica para de funcionar, alguém diz: “Bem vindo ao deserto do real”. Logo, retirada toda a ilusão criada pelo homem, mesmo as ilusões mais concretas, a natureza seria o deserto, o mar revolto, a densa floresta onde nenhum humano penetrou, ou algum tipo de desastre natural impossível de ser contido pelos seres humanos e por seus artifícios. Partindo-se do princípio de que nos dias de hoje tudo pode ser previsto e medido, estão aí os instrumentos cada vez mais precisos oriundos da avançada tecnologia, pelo menos se tornou possível orientar as pessoas a dirigirem-se a abrigos, ou mesmo aconselhá-las a abandonarem os locais de risco na iminência de catástrofes. Diminuída a surpresa de a natureza manifestar-se, resta a ela a literatura. Como isso, no entanto, poderia acontecer?

A meu ver, de dois modos distintos. O primeiro através da poesia, do teatro e da narrativa, mesmo representando toda a violência que a natureza humana é capaz de comportar; o segundo por meio da idealização daquilo que costumamos nomear de catástrofe, ou seja, do sublime kantiano.

A natureza habita com pleno direito de posse, desde a mais longínqua antiguidade, o espaço literário. Por outro lado, é certo que essa mesma natureza, quando crua, é devoradora. Basta dizer que morreríamos caso fôssemos abandonados a seus cuidados. Em um mundo onde tudo funciona a partir de um clique, obter fogo com dois pedaços de madeira ou mesmo nos defender de animais ferozes não seriam nossas especialidades.

Isso, no entanto, é uma questão apenas adjacente no livro de Piglia. O que a narrativa aborda e discute é a natureza da literatura.

Um jovem escritor extremamente culto, que acaba de publicar o seu primeiro livro, recebe carta de um tio que mal conheceu e que se encontra desterrado. Ele deseja contar-lhe novos fatos, já que o livro do sobrinho tem como tema a própria família. “Ninguém jamais fez boa literatura com histórias de família”, afirma. A partir deste fragmento, vamos descobrindo como se deve fazer literatura. Não apenas por causa do conselho desse tio chamado Marcelo Maggi, mas através das situações que Piglia nos apresenta.

Cartas vão sendo trocadas até que o personagem-escritor Emilio Renzi resolve viajar a Concordia, cidade da Argentina na Província de Entre Rios. Sua intenção é encontrar o tio. Mas quem vai recebê-lo na estação ferroviária é Tardewsky, um imigrante polonês que fugiu do nazismo e vive exilado no país desde o começo da Segunda Guerra Mundial. Alguém que joga bem o xadrez e que conheceu James Joyce. Ele, porém, é um homem deslocado, definitivamente fora de sua terra, despossuído de sua língua materna. Tardewsky ocupa o lugar sempre movediço e transitório do imigrante, espaço visceral de estranhamento, isto é, ocupa na verdade o não lugar, o mesmo lugar itinerante da própria literatura.

O eixo narrativo do romance situa-se na década de 1970, período em que vigorou uma ditadura militar das mais sanguinárias que chegaram ao poder na Argentina. Renzi, além de receber uma caixa com escritos de Enrique Ossorio, papéis que possibilitariam recuperar parte da história do país, discute não apenas política, mas, sobretudo, literatura nacional contemporânea e mundial.

Num trecho, somos surpreendidos pela seguinte afirmação: “a literatura argentina não existe mais”. “E Borges?”, retruca o interlocutor. “Borges, disse Renzi, é um escritor do século 19.” Aqui é introduzido Roberto Arlt (1900-1942), escritor argentino descendentes de imigrantes europeus pobres a quem se atribui o título de introdutor do Modernismo no país e que promoveu a renovação nas letras portenhas. Arlt abandona o beletrismo reinante até então, quando se cultivava uma espécie de purismo parnasiano, tentativa de manter a identidade da literatura nacional. Seus textos abordam a sordidez do homem comum, que vive em meio a dificuldades e num constante flerte com a vida fora da lei. Seu estilo narra as vilezas e as grandezas de personagens que poderiam ser chamados de indolentes. Hoje, ele é considerado o mentor de grandes autores latino-americanos, como Bolaño e o próprio Piglia.

Nas discussões sobre literatura, entre os personagens e nas próprias cartas trocadas entre Marcelo e o sobrinho, desfilam também Proust, Joyce, o filósofo Wittgenstein e principalmente Kafka, a quem é atribuído um diálogo com Hitler, no Café Arcos em Praga entre 1909 e 1910, quando o precursor do nazismo era um obscuro pintor e desertor do serviço militar. “Kafka faz em sua ficção, antes de Hitler, o que Hitler lhe disse que ia fazer”.

Assim como o xadrez de Tardewsky, jogo passível de inúmeras variações, onde as peças só estão em local fixo no início da partida, a literatura permite infinitas combinações, e aquelas que revolvem os sedimentos da nacionalidade acabam por potencializá-la.

Respiração artificial
Ricardo Piglia, tradução de Heloisa Jahn
Companhia das Letras, 197 páginas

sábado, dezembro 01, 2012

Raduan Nassar, um clássico da literatura

Escrever sobre escritores clássicos contemporâneos não é tarefa fácil, pois nada melhor do que o passar do tempo como método eficaz para avaliar as obras. O crítico deve comportar-se como um juiz experiente, não pode julgar sob o clamor das ruas, ou sob o reflexo desse clamor, que sempre transparece nas listas dos livros mais vendidos. Terry Eagleton, intelectual e escritor inglês, ex-professor da Universidade de Oxford, afirma que ao assumir a cátedra de literatura inglesa em 1992 na mesma universidade, a literatura estudada até então chegava apenas ao início de 1900. Os professores, que ocuparam a mesma cátedra antes dele, consideravam que a distância ideal para a aventura crítica seria em torno de um século.

Faço essas conjecturas no momento em que pretendo alinhavar um artigo sobre Raduan Nassar, autor brasileiro que se consagrou com a novela Um copo de cólera e, sobretudo, com o romance Lavoura Arcaica. Raduan nasceu em 1935, em Pindorama, São Paulo, publicou seus dois principais livros em meados da década de 1970 e, em 1984, abandonou a literatura para viver recluso num sítio, no interior do mesmo estado.

É consenso entre a crítica afirmar que o autor de origem libanesa, apesar de vivo e de obra pequena e recente, já se tornou clássico. Seus livros estão traduzidos em muitos idiomas. Nas faculdades de letras do Brasil e mesmo em muitas do exterior, já se tornou obrigatório estudá-los.

Não precisamos, portanto, ter a mesma precaução dos circunspectos professores de Oxford, que achavam suspeita a literatura recente. Sobre a obra de Nassar, esse argumento é frágil e fácil de ser refutado.

Mas, para isso, perguntamos: o que torna clássico um autor? Mais precisamente: o que tornou Raduan Nassar um clássico da literatura brasileira?

Em primeiro lugar, um clássico é avaliado como tal pela profundidade que sua obra alcança ao abordar temas que se relacionam com a vida, isto é, com o âmago do humano. Uma obra também torna-se clássica quando o autor consegue trabalhar a linguagem e elevá-la ao nível do “sublime”. Nesses dois pontos, o autor de Lavoura arcaica é mestre.

Na abordagem da família de características patriarcais, Raduan consegue dissecar o sistema nervoso de um grupo de imigrantes que procura sobreviver através do próprio ethos. Um pai tenta impor sua moral, sua fé, enfim, sua lei, à mulher, aos filhos e a todos que o cercam. Mas ele tem a visão turva, não conta com o dissenso. Talvez aqui se apresente uma das principais características do ser humano: o direito à liberdade. Quando ela não é respeitada, surge o conflito. Portanto, a princípio, teríamos um clássico porque o autor expõe com maestria a questão da liberdade. Isso, no entanto, não seria suficiente para elevá-lo ao panteão dos melhores escritores. Ainda faltariam o trabalho com a linguagem e a elaboração da estrutura narrativa. Mas Nassar sabe trabalhá-las com perfeição, conduzindo a língua portuguesa a meandros onde predomina o mais absoluto requinte. Poderíamos dizer que o seu poder narrativo invade a seara da poesia, e a sua prosa convive de modo harmonioso com o gênero lírico.

Há ainda um elemento a mais, e talvez fundamental em sua obra. Raduan Nassar explora o mito e o trabalha de modo bastante eficaz ao tocar em concepções conceituais formadoras da civilização.

Um parêntese. Todo autor que se tornou clássico navegou nessas águas, sobreviveu a tempestades e muitas vezes a naufrágios. Foi assim com Homero, Eurípedes, Dante, Shakespeare, Dostoievsky, Joyce e, para citar mais um brasileiro, com Nelson Rodrigues. Claro que há muitos outros, a nível nacional e universal, mas interrompo a lista nesse último para não me tornar enfadonho.

O autor de Um copo de cólera mergulha em alguns dos principais mitos de formação e manutenção da sociedade civilizada. Um deles é o da negação ao incesto. Numa sociedade que precisa voltar-se para fora, que necessita de relações extrafamiliares, o incesto isolaria os indivíduos não permitindo o intercâmbio, a negação e/ou a aceitação das diferenças. Outro ponto que os seus livros mostram é o predomínio da pulsão, melhor dizendo, da pulsação dos desejos, enfim, da violenta manifestação da emoção sobre a razão.

Um assunto que pode ser bastante explorado na obra de Raduan Nassar é o da tentativa de formação da razão e de sua superação através do transbordamento dos desejos, até mesmo dos mais recônditos. Na história da humanidade a razão sempre se mostrou frágil, sempre se apresentou como uma construção. Na verdade, a razão realiza-se para poucos, e acaba por sobreviver apenas como teoria. Talvez o racionalismo nunca tenha existido, e isso serviria de munição suficiente para dinamitar as teorias ditas pós-humanas, que pretendem atestar a morte do "Racionalismo Clássico".

Na Oréstia, de Ésquilo, em determinando momento, um dos personagens grita: “queira a ira de todos os homens contra si, mas não a ira de um dos deuses”. Se até mesmo os deuses gregos se mostraram irados, desequilibrados e tomados pela emoção, como poderia o humano viver a razão pacificamente?

Logo, quando desejamos verificar se um autor tem a dignidade de um clássico, precisamos observar se suas obras trabalham o fracasso da razão; se soube mostrar que a razão é apenas uma construção sustentada por alicerces extremamente frágeis. Assim é a vida humana, assim é a humanidade. E Raduan Nassar, através da ira do patriarca, mostra que o ser humano sempre esteve mais próximo de colocar tudo a perder do que de erigir um mundo sólido. Ou melhor, nos dias conturbados de hoje, é lícito afirmar que a solidez do mundo, ou seja, o predomínio da razão, é apenas uma questão de crença. Isso não quer dizer que devemos abandoná-la (a razão). Essa é a tensão que sustenta o humano, a mesma tensão que mostra a necessidade de cada obra de arte.

sexta-feira, novembro 09, 2012

"Matéria de memória"


Livro lançado pela primeira vez em 1962 mantém força visceral

Às vezes, no afã de procurar novidades em matéria de literatura, perdemos a oportunidade de ler o que se convencionou chamar de clássico. É o que pode acontecer caso deixemos de lado o romance de um ótimo autor que, apesar da idade avançada (86 anos), ainda se mantém ativo tanto escrevendo crônicas para a Folha de São Paulo, como fazendo comentários para a rádio CBN. Falo de Carlos Heitor Cony. Trato aqui de Matéria de Memória, sucesso editorial desde os anos 1960, que hoje se encontra na sexta edição.

Podemos perguntar: por que um livro torna-se clássico? Talvez a resposta não seja apenas porque conta uma boa história, mas por estabelecer e tentar responder questões que muitos outros não conseguiram.

Lançado pela primeira vez em 1962, a obra imediatamente alcançou sucesso de público e de crítica, fazendo Gilberto Amado comentar: “trata-se de um momento especial na nossa literatura”, levando-o a comparar o romance com A náusea, de Sartre. Só que com vantagem para o livro de Cony.

O enredo em especial resume-se à vida de três personagens. O pintor de quadros Tino, alcoólico inveterado; Selma, mulher independente que, durante o voo de volta da Europa para o Brasil, faz o balanço de sua vida; e João, membro disciplinado do Partido Comunista, a quem a esposa desprezou por considerá-lo homossexual.

Os três mantêm laços entre si, mas é bom que o próprio leitor descubra que ligações são essas. Apesar de o romance ser ambientado no Rio de Janeiro, durante a maior parte do tempo na zona sul carioca, a história poderia ter acontecido em qualquer grande cidade do Ocidente.

Num momento em que a literatura acomodou-se à forma consagrada do best-seller e que muitos autores já não tentam inovação alguma, Cony estabelece uma narrativa dividida em três partes, onde cada um dos personagens assume a narração fazendo transparecer seus desejos, suas frustrações e também suas idiossincrasias.

Começando por Tino, passando à Selma, a João, e por fim voltando ao primeiro personagem, a narração desenvolve-se com os personagens falando, sobretudo, da solidão e do abandono em que vivem. Apesar dos subterfúgios que a sociedade sempre pôde oferecer para que os problemas sejam esquecidos, os personagens, mesmo quando abastados, batem-se contra certa náusea de viver. Podemos aproveitar o famoso axioma do psicanalista Jaques Lacan: “a relação sexual não existe”. Isto é, as pessoas são incomunicáveis, não sendo possível nenhum tipo de relação.

Tino é considerado pela crítica especializada um pintor em decadência. Sheila foge de seus fantasmas viajando para o exterior, permanecendo três anos longe de todos. João esconde-se, de modo medíocre, em meio às fileiras de um partido político que, na verdade, já não apresenta nada de novo, pois ambos, o partido e ele, tornaram-se verdadeiros burocratas.

Quem se salva, talvez, conseguindo uma ponta de felicidade, é a empregada doméstica Enedina. Contratada por Tino para trabalhar apenas no período da manhã, acaba aceitando, a princípio em troca de dinheiro e depois por afeto, tornar-se sua amante.

Apesar de o romance dissecar o lado psicológico de cada personagem, eles transitam pelas ruas de um Rio de Janeiro de meados do século 20. Paira no ar certa expectativa do que a vida na cidade é capaz de oferecer como solução existencial e material para cada um. No fundo, o que sobressai, no entanto, é um profundo mal-estar. Nem mesmo dinheiro, bebidas, automóveis, sexo, viagens – ou qualquer outro artefato que a sociedade dos bem sucedidos oferece – podem lhes tirar o travo amargo da existência e do abandono.

É interessante ler esse romance no atual momento em que a intensa tecnologia se propõe como solução para muitos dos problemas dos seres humanos, mas esbarra na mesma náusea em que os personagens de Cony vivem submersos.

Deve-se prestar muita atenção às primeiras frases do livro, principalmente quando Tino afirma: “Não tenho mais nada. A rigor, talvez nunca tenha tido realmente coisa alguma”. Frases emblemáticas que apontam a trajetória fugaz não só do pintor, mas de cada um dos personagens retratados no romance. Por mais que se pense nos bens materiais, ou mesmo na possibilidade de alguém ser suprido pelo afeto, a narrativa de Cony desmente.

Para essa trajetória travada, há a ligeira insinuação de que pode haver uma saída. Ela estaria entre os humildes empregados e empregadas, que ainda acreditam na amizade, no afeto, enfim, no amor. A matéria de memória estaria, assim, não apenas na lembrança do que se poderia ter vivido, mas também nesse sentimento sutil e ao mesmo tempo visceral, que é capaz de manter no ser humano o gosto pela vida.

Matéria de Memória
Carlos Heitor Cony
Ed. Alfaguara, 195 páginas

sábado, outubro 20, 2012

As "bibliotecas" das escolas públicas

Afirmar que as bibliotecas escolares são de fundamental importância para o desenvolvimento do gosto pela leitura e pelo consequente aprendizado das crianças e dos adolescentes é um lugar comum. Mas não parece que entendem assim alguns governos estaduais e tantos outros municipais. Basta rápida visita a algumas escolas públicas para constatarmos o descaso com que o assunto é tratado.

Na maioria das vezes as bibliotecas, quando existem, transformaram-se apenas em depósitos de livros didáticos, tornando os livros de leitura inacessíveis a muitos jovens. Em alguns lugares, instalam-se no local até mesmo monitores de TV, revelando a vitória da cultura de massa sobre aqueles que deveriam ser seus críticos, os profissionais de educação. Outro ponto que deixa a desejar é a falta de pessoas qualificadas para assumir tanto a função de bibliotecário como, em escala menor, a de auxiliar de biblioteca.

Enquanto em quase todo o mundo as bibliotecas tornaram-se locais de extremo dinamismo, com a realização de rodas de leitura, palestras de escritores convidados, festas literárias etc., é comum, em nossas escolas, encontrarmos nesse setor a mais absoluta inércia, ficando muitas delas fechadas durante grande parte do horário diurno ou noturno por falta de funcionários ou pela impropriedade do local de funcionamento. Quando, de alguma forma, funcionam, é graças a professores que, apesar de afastados de sala de aula por motivos de saúde, dedicam-se voluntariamente a favor da leitura.

No momento em que muitos veem a solução para o aprendizado na presença maciça da informática nos meios educacionais, a guarda, a exposição de livros e o estímulo pela leitura não recebem o mesmo tratamento. Muitas escolas do município de Macaé tem pequeno espaço, insuficiente para o funcionamento de uma biblioteca. Tanto isso é verdade, que é comum nomear o local como “sala de leitura”. Outro problema premente é a falta de condições a muitos professores em estimular a leitura entre seus alunos, o que muitas vezes acontece devido à fraca estrutura física e cultural da escola.

Profissionais de educação tentam refletir, no mundo inteiro, sobre a melhor maneira de transformar a escola em local prazeroso, o que facilitaria muito a aprendizagem. Programas de mestrado e doutorado das mais diversas universidades têm disponibilizado recursos para a pesquisa no sentido de tornar a educação transformadora, mas ainda esbarramos em atitudes primárias, que revelam o amadorismo de gestões políticas. Tais administradores quando demonstram alguma preocupação querem saber apenas sobre números, não investindo na melhoria da qualidade do ensino.

Os gestores escolares, aproveitando o período de renovação nos municípios proporcionado pelas últimas eleições, deveriam dedicar-se à solução dessas questões. Não podemos nos orgulhar de uma educação de qualidade se não temos bibliotecas nas escolas, nada podemos fazer de bom para os alunos se amontoamos os livros em locais inadequados que chamamos de sala de leitura, muitas vezes com funcionamento precário e com pessoal despreparado.

Governadores, prefeitos, secretários de educação e cultura, diretores de escola e também professores precisam demonstrar que também são leitores, exigindo a implantação de bibliotecas equipadas em todas as escolas e zelando pelo seu bom funcionamento. Caso isso não aconteça, estarão demonstrando falta de cultura e revelando que ocupam suas funções apenas por interesses particulares, e não pelo bem da educação, da cultura, enfim, da construção de uma sociedade mais justa.

Um dado além: o descaso a que são relegadas as bibliotecas das escolas públicas está se alastrando também para as chamadas salas de informática, onde ao invés de as recentes conquistas tecnológicas proporcionarem proveitoso avanço cultural e social acabam por revelar que os investimentos estão sendo jogados na lata de lixo.

sexta-feira, outubro 05, 2012

A perpétua busca da literatura


Novo livro de Magalhães estabelece diálogos entre poetas, musas e períodos literários

Por Haron Gamal

Publicar resenhas sobre livros de literatura brasileira está se tornando um grande problema. É vasto o número de autores que se arriscam nessa seara, mas pouco o espaço para discutir suas obras. Uma das questões que angustiam muitos ficcionistas e poetas é a pouca divulgação dos seus trabalhos, o que faz muitos buscarem apadrinhamento no vasto aparato da cultura de massa, como nos jornais de grande circulação ou mesmo na TV. Em contrapartida ao grande número de publicações, observa-se que a nossa literatura, embora de nível elevado, carece na atualidade de escritores geniais.

Um autor que engrossa a média, podendo tornar-se genial daqui a alguns anos é Jorge Eduardo Magalhães. Além de escrever também para teatro, ele já está no seu quarto livro de ficção, tendo até agora como o de maior sucesso o cult: Vagando na noite perdida.

Seu último livro, O retrato de Perpétua, apresenta trama muito interessante. Um poeta solitário, que vende seus livros boca a boca, sobretudo à noite, encontra num sebo a obra de Ribeiro Gomes. Segundo o narrador, trata-se de um poeta da literatura portuguesa da primeira metade do século 19, autor que escrevia poemas a uma mulher idealizada, cujo nome é Perpétua. Ao mesmo tempo, o poeta de hoje descobre nas imagens de TV uma repórter muito semelhante a tal Perpétua do romantismo português. Assim como o poeta esquecido, o atual escreverá poemas para a sua musa da pós-modernidade. O que o livro apresenta de mais instigante é que o autor criou não só dois poetas, mas também dois tipos de literatura: uma nos moldes românticos, outra sob o ceticismo da contemporaneidade. O personagem chega a procurar sua musa na emissora de TV com o objetivo de presenteá-la com os poemas dedicados a ela, mas o encontro nunca se realiza.

O que se pode dizer é que a tensão interna deste pequeno romance é o diálogo entre a literatura do poeta esquecido, que viveu a maior parte do tempo em Portugal, e a do poeta dos dias atuais, homem que se relaciona com uma portuguesa pela internet, que frequenta centros de lazer masculino para namorar as prostitutas e que, mesmo assim, amarga uma tremenda solidão, vagando dias e noites pelas ruas do centro do Rio, tendo como companhia apenas a febre, que reaparece a cada anoitecer.

O que se pode sugerir para que Jorge Eduardo torne-se um autor de destaque na literatura brasileira contemporânea? Aconselho maior cuidado com a linguagem, sobretudo com a revisão, já que sua editora, a Multifoco, não é uma casa voltada para o fino acabamento de nenhum tipo de livro. Quem se aventura nesse mercado, não pode enviar para as lojas livros com erros grosseiros, como o que aparece logo no início e que está corrigido com corretor manual. Um autor, além de criador, não tem como dar conta de todas as etapas de sua publicação, por isso a necessidade de um bom revisor e de uma boa casa editorial. Isso evitaria erros como “imacular”, ao invés de “macular” (p. 68), “esquecia”, no lugar de “esquecida” (p. 69) etc.

Um problema estrutural, que poderia também ter sido sanado com olhar mais atento, ocorre na página 5. O narrador diz “Fazia quase dois anos que não via Priscila”; três parágrafos abaixo, está escrito: “Naquele mesmo ano, um pouco antes de conhecer Priscila...”. O que se deduz é que, no momento da primeira referência à mulher, o narrador encontra-se no presente, e que, na segunda, faz um flashback para contar como conheceu Priscila. Um bom revisor tiraria o segmento “naquele mesmo ano”  e tudo estaria resolvido.

A ideia de Jorge Eduardo é boa. Eu mesmo, como leitor experiente, fui averiguar sobre a suposta existência do poeta citado no livro. Como nada encontrei, escrevi ao autor, que me confessou ter sido tudo criação sua.

Uma vez que Magalhães tem verve para criar e citar autores fictícios, enganando até mesmo o resenhista, acredito que seu talento seja maior para olhar a própria obra com mais cuidado. Assim, daqui a algum tempo, não tardará a lermos um autor genuinamente carioca, que saberá retratar com esmero e minúcia as paixões e os sofrimentos dos habitantes desta cidade.

É digna de nota a passagem do livro em que o poeta está prestes a encontrar sua musa, a repórter de TV. Ela apresenta uma matéria ao vivo numa igreja ameaçada de desabamento, no centro da cidade. Na verdade, ele quer entregar-lhe, em mãos, o livro de sonetos que escreveu inspirando-se nela. Mas, num último momento, hesita:

“Não, uma musa não deve ser tocada. O poeta nunca deve se aproximar de sua amada. A musa deve ser sublimada, inatingível. Aquela era uma mulher bonita e qualquer contato, por menor que fosse, poderia desmistificá-la. Sentou no meio fio, escreveu uma breve dedicatória na contracapa do livro e pediu ao motorista da emissora para entregar a P.H. Agradeceu e foi andando sem olhar para trás. Tinha certeza de que Ribeiro Gomes nunca se aproximou de sua Perpétua.”

O retrato de Perpétua
Jorge Eduardo Magalhães
Anthology – Editora Multifoco, 89 páginas

sábado, setembro 22, 2012

Repetição e recepção

Os protestos que têm sacudido os países árabes nos últimos dias não são resultantes apenas da provocação partida de uma pessoa desqualificada, ou mesmo fruto do preconceito religioso contra o Islã. A questão é outra e mais profunda. Trata-se de consequência da opção desenfreada do mundo ocidental pelo fetiche proporcionado pela tecnologia e pela possibilidade do lucro cada vez mais multiplicador oriundo de tal escolha.

Inaugurado o mundo industrial, com a repetição avassaladora que as máquinas passaram a oferecer, não se pensou como essa opção coexistiria em sociedades que não privilegiam a ciência, mas os valores morais e/ou religiosos. Sabe-se que, em milênios de existência, parte da humanidade não enveredou por vias que diretamente compactuassem com a hegemônica, que é a da técnica.

As conquistas ocidentais, sobretudo as da área tecnológica, são frutos da liberdade. Intelectuais, técnicos e até mesmo burocratas não poderiam chegar ao nível de produtividade atingido caso não lhes fossem permitida a liberdade de pensamento, de pesquisa e de expressão. Acrescente-se também a concepção de que, pelo menos a princípio, privilegiar-se-ia a vida material, isto é, a concepção de existência cuja ética não mais levaria em consideração os valores metafísicos.

É certo que em muitos lugares, mesmo nos mais distantes e de cultura muitas vezes diversa, assimila-se o que foi produzido pelo Ocidente e, através de toda essa produção, consegue-se o sucesso almejado.

A partir dessa premissa, podemos pensar por dois flancos. O primeiro deles é que o mundo ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos, sempre desejou estar à frente na ciência, não deixando de expandir por todo o globo os seus inventos, objetivando de imediato os consequentes lucros advindos deles. Não há país que não queria ganhar dinheiro, cobrar royalties por suas patentes, mas são poucas as vezes em que há o cuidado de se pensar se esses produtos farão bem ou mal a outros povos. Portanto, a partir do momento em que se possibilitou a disseminação do computador pessoal e, pouco tempo depois, da internet, não houve a preocupação com nenhum tipo de estudo sobre o impacto dessas tecnologias mundo afora, sobretudo em locais onde os valores não são semelhantes aos do Ocidente. Por outro lado, os países islâmicos, que assimilam a técnica produzida fora de sua órbita e a adotam para o seu progresso, precisariam refletir a respeito da origem dessa nova ciência. Ao adotarem o computador pessoal e os sistemas operacionais oferecidos por americanos e europeus, estão compactuando, ainda que tacitamente, com as crenças dos vendedores. É muito fácil utilizar a tecnologia estrangeira que, até certo ponto, serve de resposta às necessidade locais, mas, ao mesmo tempo, esquecer que essa mesma tecnologia não existiria em condições adversas à liberdade de pensamento, de pesquisa e de expressão.

Daí é que se há de refletir sobre a responsabilidade de tantas mortes ocorridas depois da exibição no Youtube de parte do filme dirigido por esse “suspeito” senhor americano. Apesar de seus antecedentes, não se pode nem se deve jogar sobre seus ombros toda a culpa de tantas atrocidades cometidas nos protestos em defesa de uma determinada concepção religiosa. A responsabilidade deve recair também sobre aqueles que pensaram a economia em termos mundiais e não imaginaram que vender significasse não apenas lucros, mas também perdas, muitas vezes contabilizadas através de vidas humanas,

Parte da responsabilidade deve ser atribuída ao outro lado. Caso não desejem compartilhar os mesmos valores do mundo ocidental, como os de liberdade de expressão (e mesmo o da não existência de Deus), deveriam manter-se alheios às tecnologias.

É muito fácil ao Ocidente impor seus produtos à roda do mundo como fetiche e como uma das possibilidades de hegemonia. Ao mesmo tempo, também é fácil ao mundo islâmico usufruir dessa mesma tecnologia e até certo ponto lucrar com ela mas não querer pagar o preço. Portanto, dividam-se as responsabilidades. O Ocidente com seu desenvolvimentismo desenfreado, e o Islã, caso queira privilegiar suas concepções religiosas e existenciais, que não se aproxime nem faça uso dos instrumentos que divulgam aquilo que chamam de blasfêmia.

Quem se utiliza dos dispositivos advindos de uma sociedade altamente tecnológica, que atropelou Deus e a metafísica, não pode exigir em contrapartida posições justificadoras.

sábado, setembro 15, 2012

Em todos os lugares, a todo momento


A potencialização da audiência e a celebração da imagem

Ao observarmos as celebridades do momento chegamos à conclusão de que elas só existem, na maioria das vezes, por causa daquilo que costumamos chamar de instrumentos de reprodução da cultura de massa.

É importante uma breve viagem pela História para entendermos como sempre ocorreu, ao longo do tempo, a divulgação e a manutenção das ideias que regeram e ainda regem o comportamento dos seres humanos.

Da Antiguidade até a Idade Média foram as religiões que fizeram esse trabalho. Os oráculos, ou os sacerdotes, tinham a função de divulgar a existência, a moral e a vontade dos deuses. Quando ainda não havia nenhum tipo de meios de comunicação, a voz daqueles que se incumbiam dos templos era o instrumento que formava a base de pensamento de cada povo. Na Grécia, escapando um pouco a esse costume, a discussão em academias e mesmo nas praças públicas fez determinadas ideias avançarem devido à ação de homens não religiosos. Assim surgiram os primeiros filósofos. O saber que transmitiam era de outra ordem e muitas vezes contrariava o que diziam os sacerdotes. A escrita foi o primeiro meio de comunicação para todo esse pessoal, uma espécie de modo de perpetuação do que tentavam transmitir. Mesmo com a maioria da população pouco letrada, a escrita fez as ideias desses pensadores sobreviverem.

O Império Romano, tendo a religião como estofo, expandiu duas ciências distintas, a militar e o direito; por muitas vezes paradoxais em suas atuações. Ambas tiveram força de persuasão e de convencimento, muitas vezes fazendo crer que o Império era justo. É bom lembrar que o direito tem certo sabor de religião, porque as primeiras leis foram baseadas em códigos consuetudinários, na verdade oriundos das crenças.

Na Idade Média a Igreja Católica tornou-se a grande mídia, e teve forte poder de convencimento. Além de se arvorar como representante de Deus na Terra, tinha o poder de vida e de morte, principalmente sobre aqueles que a contestavam. Mas, em dias de paz, o púlpito das igrejas era o que formava a ideologia. Os padres, sempre bons oradores, deram embasamento teórico às ações dos homens, mesmo que muitas delas escapassem ao que pregou Cristo: o perdão.

Com a invenção da imprensa e a perspectiva de reprodutibilidade das ideias, começou-se, ainda que de modo suave, a se anunciar o que estava por vir. As publicações, ao colocar em evidência seus autores, passaram a lhes proporcionar fama e respeito. Com a invenção da máquina a vapor, equipando as gráficas com velocidade antes impensada, os homens de letras viveram sua época de ouro.

A fotografia, ao ser criada, já possuía todo o aparato para lhe servir de suporte e catapultar o que anunciava de mais precioso: a reprodução da imagem, enfim, a publicidade. A perspectiva dessa reprodução em escala industrial constituiria, pouco a pouco, toda uma mitologia que superaria até mesmo as da Antiguidade, incluindo aí os deuses do Olimpo.

Quando Walter Benjamin discutiu as perspectiva de reprodutibilidade da arte a partir da fotografia, os integrantes do Nacional Socialismo, na Alemanha, já sabiam o que fazer com isso, só que não foi bem a arte que eles reproduziram. O filósofo, que morreu em terra estrangeira, viu na fotografia o meio de as obras de artes tornarem-se acessíveis a todas as pessoas. Claro que essas obras perderiam algo de essencial – que ele nomeou de aura –, mas estariam próximas aos trabalhadores, às pessoas do povo. Assim, todos poderiam usufruir dos bens culturais da humanidade.

Theodor Adorno já vai por outra via. A partir da análise do cinema americano de meados do século 20, observa que a indústria cultural não serviria para lhes alavancar a vida numa perspectiva de libertação do poder do capital, mas causaria o deslumbre em seus espíritos. As pessoas que manipulariam esses equipamentos de transmissão da cultura passariam a ter intenso poder sobre as massas, poder esse até mesmo capaz de manipular os desejos das pessoas.

Com o advento primeiro do rádio e depois da TV, a ideologia dominante teve a sua atuação potencializada. E é bom ressaltar, passou a funcionar com uma espécie de força inercial incapaz de encontrar quem lhe opusesse resistência.

Essa reflexão me veio à mente em meio às observações de como surgem as “celebridades” na vida contemporânea. O futebol é um bom exemplo. No começo era um esporte amador (jogava-se por amor), depois se tornou extremamente lucrativo, propiciando a muitos atletas mais fama do que a cientistas e homens de estado. O mesmo aconteceu em relação a outros esportes. A razão disso é a seguinte: com a entrada em cena das mídias eletrônicas, os atletas transformaram-se em potenciais vendedores, estando presentes em todos os lugares, a todo momento. Quando não vendem diretamente produtos, vendem audiência.

Não escapam a esse círculo o mundo artístico nem as celebridades de ocasião, como as reveladas até mesmo em incidentes inesperados, como uma eventual perseguição social ou racial, ou sobreviventes de desastres, como aconteceu recentemente numa mina no Chile.

Quando teremos um mundo justo, com as pessoas (e/ou os conceitos) em seus devidos lugares, um mundo em que os mais esforçados e criativos (“para o bem da humanidade”) sejam os mais valorizados e até os melhores remunerados?

Para o futuro próximo, não existe essa chance. A reprodutibilidade da imagem levada às últimas consequências é de uma força quase fascista. Só que o Fascismo foi, até certo ponto, contido. Aqui, ao contrário, a perspectiva mostra-se avassaladora.

sexta-feira, setembro 07, 2012

Jogafora, o azarão de Leopold Bloom


Ulysses, de James Joyce, traz uma passagem em que um dos personagens, lá pelo entardecer, numa conversa de bar, comenta com alguns amigos a aposta certeira de Bloom no azarão Jogafora, na Copa de Ouro, uma espécie de grande prêmio do turfe local. Eis o diálogo:

      – O Bloom, ele falou, o negócio do tribunal é fachada. Ele botou umas moedas no Jogafora, e foi recolher os shekels.
      – Aquele cafre de olho branco? O cidadão falou, que nunca apostou num cavalo só de raiva.
      – É pra lá que ele foi, o Lenehan falou. Eu encontrei o Garnizé Lyons indo apostar naquele cavalo só que fiz ele desistir e ele me disse que o Bloom que deu a dica. Eu aposto o que vocês quiserem que ele levou cem xelins pra cinco com essa. Ele é o único sujeito de Dublin que se deu bem. Um azarão.

O episódio também é pertinente quando pretendemos falar sobre o livro, essa epopeia moderna, que, em algumas edições, ultrapassa as mil páginas. Ulysses é um livro sobre o qual muitos falam, mas poucos o têm lido. Às vezes, é possível observar que faz parte da biblioteca de muitos intelectuais, mas quando perguntamos sobre sua leitura, recebemos como resposta alguma hesitação. O que se depreende é que foram lidas algumas partes, e que o livro, como um todo, ainda aguarda debruçar mais dedicado e atento.

No Brasil, já se chegou à terceira tradução. A primeira é de Antônio Houaiss, editada pela Civilização Brasileira; a segunda, da editora Alfaguara, é de Bernardina Pinheiro; a terceira, de Caetano Galindo, foi publicada pela Penguin Companhia das Letras. Por que todas essas traduções quando se trata de um livro de difícil leitura, obra que aparentemente dá mais notoriedade às editoras do que compensação financeira? Um fato curioso: a edição da Penguin Companhia é uma espécie de edição de bolso, com o preço abaixo dos cinquenta reais.

Na verdade, quem consegue ler Ulysses até o final sente um certo gostinho de vitória, porque são muitos os desafios. Só assim se percebe a beleza que há nos desvãos daquele 16 junho de 1904 (dia retratado no livro), e nos percursos de Leopold Bloom e de Stephen Dedalus. Fica a impressão de que os conhecemos minuciosamente (de corpo e alma); também não deixam a desejar os que os cercam, principalmente Molly Bloom.

Durante a leitura, porém, a sensação é outra. Muitas vezes, ao mergulhar no universo psicológico de cada personagem, perdemo-nos. Sentimos então a necessidade de voltar para retomar o fio da meada, mas, quando não encontramos esse fio, temos vontade de abandonar o livro. Caso nos aventuremos a ir em frente custe o que custar, o novelo parece mais embaraçado. Há todo tipo de percalço: diálogos que parecem intermináveis, referências difíceis de serem decifradas sem a ajuda de especialistas e fatos que só compreendemos como possíveis quando os atribuímos às fantasias criadas pela mente dos personagens. Na tradução da professora Bernardina, há grande número de notas finais e inúmeras explicações sobre cada momento da narrativa. Mas elas acabam provocando efeito contrário, porque se nos apegamos a todos os esclarecimentos, já não faz sentido ler a obra como ficção. Inclusive poderá haver aquele que, munido das tais notas, discuta o livro como se o tivesse lido.

Para que se possa perceber a grandeza do romance, é preciso entender o momento em que Joyce o escreveu e quais as questões que geraram a necessidade da obra no universo da literatura.

O autor irlandês aproveitou todo tipo de narrativa existente até então para criar o seu Ulysses. Ele parte da narrativa realista, navega nas águas da oralidade, passa pela estrutura do texto teatral, por poemas, abusa na formação de neologismos, até desemborcar naquilo em que mais inova: o livre mergulho na interioridade de alguns personagens, sobretudo na de Leopold Bloom. Em determinado parágrafo, um narrador em terceira pessoa descreve a cena, mas logo a seguir o próprio personagem retratado assume a direção da narração tornando-a de primeira pessoa. Deixa de existir o que a teoria da literatura convencionou chamar de foco narrativo. Em contrapartida, há uma grande vantagem nisso, o leitor pode acompanhar o romance a partir de múltiplos pontos de vista.

Será, no entanto, agradável esse modo de contar histórias? Para respondermos, precisamos saber primeiro como o leitor entende o ato da leitura. Caso deseje uma narrativa linear, arrumada, com todo o percurso facilitado, é lógico que não vai gostar. Mas caso seja um leitor calejado, velho de guerra e de bibliotecas, perceberá que Ulysses instaura algo novo no horizonte da literatura. É certo que o livro não é para neófitos. Também não se trata de leitura direcionada a intelectuais, como alguns críticos gostam de ressaltar.

Ao escrevê-lo, Joyce traz a seguinte questão: a impossibilidade de o real ser representado pela literatura ou por qualquer outro tipo de arte. Somente frações do real são passíveis de representação, por isso as “apenas” vinte e quatro horas na vida dos personagens, por isso personagens como pessoas comuns, com todas as fragilidades e vícios inerentes à natureza humana, por isso a fragmentação. Uma história jamais poderá ser contada em toda a sua plenitude.

E onde ocorre a ação? Na cidade de Dublin e em quase todos os lugares possíveis, interiores e exteriores, físicos ou imaginários. Parte-se de casa, passa-se pela igreja, cemitério, jornal, rua, biblioteca, bares, praia, hospital, e até mesmo por um bordel.

Lendo Ulysses, podemos nos perguntar: o que a literatura é capaz de retratar, até onde pode ir, como pode apresentar seus personagens, qual o limite deles, como suas histórias podem ser contadas?

Retomando o início dessa matéria, percebemos que a aposta e o acerto de Bloom no seu azarão acabam por se tornar uma metáfora da aposta e do acerto do autor no seu Ulysses, na aposta de que a literatura, ainda que fraturada, é possível.

Não se deve ler Joyce com a intenção de se encontrar uma boa história, mas para saber, talvez, a razão de todas as histórias.

Ulysses, James Joyce
Tradução: Caetano W. Galindo
Penguin – Companhia das Letras, 1106 páginas


sábado, setembro 01, 2012

Estrangeiros

Reluto em colocar o título nesta crônica. Tal palavra sempre me soou forte. Além de me fazer lembrar dois livros, o de Camus, que traz a palavra no singular e antecedida do artigo, e Emigrantes, de Sebald, recordo meus antepassados que pisaram pela primeira vez nesta terra.

Quando criança, a síndrome do estrangeiro sempre rondou a minha casa. Meus pais, filhos de emigrantes, falavam entre si um idioma que eu e meus irmãos não entendíamos, principalmente quando não nos queriam na conversa. Nas visitas a tios e tias, acontecia sempre a mesma coisa. Todos falavam outra língua.

Meu avô conversava comigo em português, mas sua pronúncia era carregada. Apesar de ter falecido quando eu mal completara nove anos, ainda me lembro de algumas histórias que me contava, experiências vividas por ele em sua terra de origem. Às vezes penso que assim como ele falava mal o português, talvez não falasse sua língua como um nativo, pois a perdera cedo, junto com sua pátria. Viajou para o Brasil ainda muito jovem, acompanhado da mãe, de dois irmãos e de uma irmã.

Entre os garotos da mesma idade, os estrangeiros éramos eu e meu irmão. Destoávamos de tantos Josés e Joãos que compunham a turminha daquele pedaço de rua. Nossos nomes soavam estranhos, e nossas festas não eram as mesmas das deles.

Meus avós deixaram seus países em troca de um novo mundo. Queriam a paz e a perspectiva de uma vida melhor. Não sei se o conseguiram, não sei se no final da vida se sentiram recompensados. Por melhor que tenha sido o país adotado, por mais que se tenha progredido, sempre se é um estrangeiro.

Ao pisar no Brasil, tentaram dar continuidade aos costumes da terra de onde vieram. Reconheciam-se um nos outros, em meio a tantas levas de homens e mulheres que desembarcavam. Confraternizavam-se e comemoravam as festas religiosas. Foram morar no mesmo bairro, quando não nas mesmas vilas ou casas, plenas de quartos e de crianças correndo pelos quintais.

Hoje, quando todos já se foram, nos perdemos no individualismo bem sucedido dos descendentes, que não lembram, ou fazem questão de esquecer, o tanto que sofreram seus avós, tios e tias. Os emigrantes já ficaram distantes no tempo, assim como a odisseia a que se submeteram para atravessar o oceano e se adaptar à terra que os recém recebia.

Perdida a língua, perdidas as nacionalidades, a possibilidade de retorno já não existe. Ainda que algum descendente queira fazer o caminho de volta.

Vozes desses antepassados, vez ou outra, ecoam na minha lembrança. Mas, hoje, mesmo sem compreender sequer uma palavra, consigo sentir o drama do emigrante, seu lugar movediço e sempre transitório.

Sempre houve aqueles que herdaram a terra, mas é a memória a herança mais concreta.