sábado, setembro 01, 2012

Estrangeiros

Reluto em colocar o título nesta crônica. Tal palavra sempre me soou forte. Além de me fazer lembrar dois livros, o de Camus, que traz a palavra no singular e antecedida do artigo, e Emigrantes, de Sebald, recordo meus antepassados que pisaram pela primeira vez nesta terra.

Quando criança, a síndrome do estrangeiro sempre rondou a minha casa. Meus pais, filhos de emigrantes, falavam entre si um idioma que eu e meus irmãos não entendíamos, principalmente quando não nos queriam na conversa. Nas visitas a tios e tias, acontecia sempre a mesma coisa. Todos falavam outra língua.

Meu avô conversava comigo em português, mas sua pronúncia era carregada. Apesar de ter falecido quando eu mal completara nove anos, ainda me lembro de algumas histórias que me contava, experiências vividas por ele em sua terra de origem. Às vezes penso que assim como ele falava mal o português, talvez não falasse sua língua como um nativo, pois a perdera cedo, junto com sua pátria. Viajou para o Brasil ainda muito jovem, acompanhado da mãe, de dois irmãos e de uma irmã.

Entre os garotos da mesma idade, os estrangeiros éramos eu e meu irmão. Destoávamos de tantos Josés e Joãos que compunham a turminha daquele pedaço de rua. Nossos nomes soavam estranhos, e nossas festas não eram as mesmas das deles.

Meus avós deixaram seus países em troca de um novo mundo. Queriam a paz e a perspectiva de uma vida melhor. Não sei se o conseguiram, não sei se no final da vida se sentiram recompensados. Por melhor que tenha sido o país adotado, por mais que se tenha progredido, sempre se é um estrangeiro.

Ao pisar no Brasil, tentaram dar continuidade aos costumes da terra de onde vieram. Reconheciam-se um nos outros, em meio a tantas levas de homens e mulheres que desembarcavam. Confraternizavam-se e comemoravam as festas religiosas. Foram morar no mesmo bairro, quando não nas mesmas vilas ou casas, plenas de quartos e de crianças correndo pelos quintais.

Hoje, quando todos já se foram, nos perdemos no individualismo bem sucedido dos descendentes, que não lembram, ou fazem questão de esquecer, o tanto que sofreram seus avós, tios e tias. Os emigrantes já ficaram distantes no tempo, assim como a odisseia a que se submeteram para atravessar o oceano e se adaptar à terra que os recém recebia.

Perdida a língua, perdidas as nacionalidades, a possibilidade de retorno já não existe. Ainda que algum descendente queira fazer o caminho de volta.

Vozes desses antepassados, vez ou outra, ecoam na minha lembrança. Mas, hoje, mesmo sem compreender sequer uma palavra, consigo sentir o drama do emigrante, seu lugar movediço e sempre transitório.

Sempre houve aqueles que herdaram a terra, mas é a memória a herança mais concreta.

Um comentário:

Alexandre Brandão disse...

Haron, crônica certeira, que trabalha com a ambivalência da questão do estrangeiro: por um lado indelével (para quem deixou sua terra), por outro, transitória (para os descendentes.
De todo modo, fiquei doido para saber detalhes de seus antepassados, de onde vieram, como vieram, em que negócios se meteram. Adoro essas histórias. Fica me devendo.