segunda-feira, abril 30, 2012

Escritores não tocam violino

Quinta à noite fui com minha esposa à Livraria da Travessa, no Shopping Leblon. Participamos do lançamento do livro Paris: a festa continuou, de Alan Riding, e aproveitamos para assistir ao debate entre o autor e o intelectual Fernando Gabeira.

Chegamos cedo, olhamos os livros, especialmente os de ficção, que é a minha praia. Até selecionei um ou dois títulos para pedir a O Globo, com o objetivo de fazer resenha.

Às sete e meia, no andar superior, próximo ao bonito café da livraria, sentamos e aguardamos o início do debate. O autor, um senhor de mais de 60 anos, chegou e cumprimentou os presentes. Passaram-se alguns minutos e entrou, no pequeno salão, Gabeira, sempre com seu inconfundível ar juvenil. Ao contrário da fisionomia marcada do antigo repórter do New York Times (o autor do livro, para quem não sabe), Gabeira, apesar dos anos que lhe pesam, esbanja uma jovialidade que parece nunca o abandonar.

O livro de Riding fala da cultura francesa durante a ocupação alemã. Como o próprio título ressalta, a festa continuou, apesar da ocupação. Isto é, a efervescência cultural em Paris não esmoreceu com a presença nazista.

O debate desenvolveu-se de modo didático, com o autor referindo-se ao período e relatando como fez sua pesquisa. Gabeira interferiu algumas vezes, numa delas para falar sobre o momento em que os próprios alemães eram admiradores da cultura francesa e desejavam preservá-la.

Discutiu-se também o papel dos intelectuais no momento da ocupação. Houve referência a pessoas que não eram propriamente intelectuais mas trabalhavam no meio cultural, como músicos, atores, encenadores e profissionais afins que tentaram continuar praticando sua arte, apesar do país nas mãos dos nazistas.

Não deixou de haver referência ao antissemitismo. Este, como disse Riding, não era um fenômeno francês, mas europeu. Os intelectuais franceses não se uniram nem se manifestaram quando o país foi obrigado a mudar suas leis raciais, o que implicou na perseguição e prisão de quase toda a população judaica. A impressão que ficou em quem presenciava o debate foi que escritores, artistas e produtores de cultura da época preocuparam-se apenas em preservar suas atividades sob o regime nazista.

Alguém chegou a fazer um paralelo entre a atual Comissão da Verdade, que dá os primeiros passos para tentar revelar os bastidores do regime militar no Brasil, e uma possível comissão da verdade no pós-guerra, na França, para apurar quem realmente colaborou.

No final descemos, eu e mais as vinte e poucas pessoas que presenciaram o evento, e permanecemos para a noite de autógrafos. Houve também um coquetel. Comprei o livro, Paris: a festa continuou.

E continuamos a participar de debates e de coquetéis, mesmo que não tenhamos respostas para a maior parte de nossas perguntas.

No sábado fui ao teatro com minha esposa, no Maison de France. Não por coincidência uma casa pertencente à mesma França. O espetáculo em cartaz chama-se “Em nome do jogo”, do inglês Anthony Shaffer. Trata-se de uma trama policial muito boa. Para quem gosta de admirar bons atores no palco, é possível se deleitar com a atuação de Marcus Caruso e Emílio de Mello.

O que me remete a esse espetáculo não é elogiar a sua qualidade. Isso renderia matéria à parte. Mas destacar uma fala que tem a ver com o assunto que me fez iniciar a crônica: o papel dos intelectuais em meio aos problemas do seu tempo.

Num determinado momento da peça, um dos personagens afirma: “quem diz que gosta de romance policial são os intelectuais”. Certamente o autor escreveu esta fala porque o romance policial sempre foi discriminado no meio literário. O mesmo personagem, no entanto, no momento seguinte indaga: “e os burros, do que gostam?”

Voltando à França ocupada, surpreende-me o fato de que, num país com intelectuais de porte de Albert Camus, Jean Paul Sartre e Michel Foucault, ninguém tenha conseguido perceber o genocídio que se anunciava; ou se percebeu, nada pôde fazer.

O próprio Gabeira mencionou ainda no debate: "houve aqueles que publicaram livros sob o nazismo mas, ao mesmo tempo, escreveram clandestinamente na imprensa da resistência." Apesar disso, todos nós sabemos que não se ganham guerras com ideias e palavras.

Talvez, em meio a uma guerra, o que intelectuais e artistas devam fazer em primeiro lugar é fugir; em segundo, para aqueles que puderam ficar, o que lhes resta é dar continuidade à festa. Então, já não se pode separar "burros" de intelectuais, como Shaffer faz no seu teatro. Aqui já não se trata de saber apreciar um bom romance policial, mas de ter de viver sob um estado policial.

Um violinista quer continuar tocando mesmo que na plateia estejam alguns oficiais do Reich, o importante para ele é praticar sua arte. Mas os escritores, para que público costumam escrever?

Escritores, com raras exceções, não tocam violino.

domingo, abril 22, 2012

Automóveis, futebol e a promessa do poeta

Um dos grandes aborrecimentos para quem possui carro no Rio é levá-lo à vistoria anual no Detran. Essa obrigação imposta pelo Governo Estadual não faz parte do calendário dos Departamentos de Trânsito de muitos outros estados brasileiros. Além disso, ela não contribui para evitar a poluição nem diminui o risco de acidentes. Todos sabemos dos jeitinhos existentes em nosso país para burlar a lei sem que o poder público incomode. Nas rodovias, principalmente, é possível encontrar caminhões e veículos de transportes, como ônibus e vans, sem a mínima condição de trafegar.

Apesar de contrariado, chegou o dia em que eu deveria ir à benfazeja vistoria. Um motivo a mais de sobressalto é que tenho um veículo antigo, sempre na mira de impetuosos e aborrecidos fiscais. Como de praxe, fui na expectativa de uma longa espera. Deixei livre toda a manhã de quinta-feira e levei comigo um livro, 200 crônicas escolhidas, de Rubem Braga. O posto designado foi o Machado de Assis, no Catete. Fiquei a matutar se não teria sido melhor levar a obra completa do fundador de nossa aclamada Academia Brasileira de Letras.

Ao dobrar à direita após a praça José de Alencar, deparei-me com o posto do Detran. Uma enorme fila vinha de lá de dentro até quase sobre a calçada. Parei ainda na rua, junto ao meio-fio, e esperei que a fila se movimentasse para eu avançar posto adentro sem obstruir a travessia dos pedestres. Mas o motorista de um enorme automóvel, acho que desses importados (ou meio importado, não sei, dizem que as peças são fabricadas em outros países e o carro montado aqui), pôs-se a buzinar para que eu me adiantasse. Ainda assim esperei, indo à frente apenas quando pude parar dentro do posto, no final da fila. Olhei o retrovisor e constatei o apressado motorista atrás de mim, obstruindo o passeio. Enquanto isso, um ágil motociclista veio pela contramão e entrou no posto, parando sua moto bem à minha frente, como se eu e os outros que estavam atrás não existíssemos.

A fila andou com certa lentidão, a princípio. Enfim, chegou a minha vez de apresentar os documentos na guarita de entrada. Depois fui autorizado a dar a partida e posicionar meu carro na fila que me levaria à aguardada vistoria.

Parti para essa segunda etapa e encontrei quatro ou cinco veículos posicionados à minha frente. Achei então que era o momento de abrir meu livro. Sempre acreditei que a leitura faz o tempo passar mais rápido. Além disso, eu não me angustiaria com o pensamento de o meu carro, velho de guerra, ser reprovado na inspeção. 

Li em primeiro lugar a crônica “Passeio à infância”, em que Rubem Braga mescla presente e passado. No episódio, ele convida uma amiga a voltar à meninice e se portar como criança. Assim, os dois poderiam ser mais felizes. Depois mergulhei na crônica seguinte, “A companhia dos amigos”. Aqui, o autor narra um jogo de futebol marcado para as areias da praia de Copacabana no longínquo dezembro de 1946. O jogo seria entre o time do próprio bairro contra o de um combinado de Ipanema e Leblon. No time de Copacabana, desfilavam nomes como o de Di Cavalcanti (no gol), o próprio autor (na zaga), Augusto Frederico Schmidt, Fernando Sabino, Orígenes Lessa, Newton Freitas, Moacir Werneck de Castro, o escultor Pedrosa e o crítico Paulo Mendes Campos. Ia eu pleno de interesse pela partida. Acompanhava pernas que ora acertavam a pelota, ora acertavam as pernas dos amigos, bolas chutadas por cima da baliza, mesmo que nem baliza houvesse, faltas que não eram marcadas porque, como diz o autor, não havia juiz, “o que facilitou muito a movimentação da peleja”, quando ouço alguém me chamar. Era um dos fiscais. Eu devia adiantar o veículo, estava na hora da minha vistoria. Nem pude satisfazer a minha curiosidade em saber o resultado final de tão honrosa pelada.

Veio aquela chateação toda. Primeiro acelerar a dois mil e trezentos giros e manter a aceleração para que se pudesse medir a emissão de gazes. Depois tive de testar lanterna, farol baixo, alto, esguicho de água no para-brisa, luzes de alerta, setas, luz de marcha-ré. O que mais? Ah, sim, extintor, triângulo e estepe. Surpreendi-me ante a presteza do fiscal, que era jovem e simpático. Ainda alertou-me que, caso eu tivesse comprado o dito extintor em tempo recente, que fosse à loja reclamar, porque o carregamento estava encima da marca mínima, o que não o invalidava, mas deixaria o tempo de sua funcionalidade reduzido.

Voltei a casa feliz por ter a aprovação na vistoria, mas preocupado. Queria saber o mais rápido possível o placar daquela peleja. Que não me acontecesse nada pelo caminho, nem um mínimo acidente (já pensaram, morrer sem saber quem ganhou?). Logo ao entrar em casa abri o livro e pude constatar que a valente equipe de Copacabana vencera os dois jogos, 1 x 0 e 2 x 1, e que foram jogados em três tempos. Consta ainda que, apesar de ausentes, Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Afonso Arinos de Melo Franco reforçariam o Copacabana num próximo encontro. Enquanto isso, o combinado Ipanema-Leblon aguardava por Fernando Tude e Édison Carneiro. Esses não faço a mínima ideia de quem foram, mas espero que não tenham decepcionado.


segunda-feira, abril 16, 2012

O destino do revisor 

Resenha de Variações em vermelho, de Rodolfo Walsh


Haron Gamal - especial para o Jornal do Brasil

“Sei que é um erro – talvez uma injustiça – arrancar Daniel Hernandez do sólido mundo da realidade para reduzi-lo à personagem de ficção”. Assim começa Variações em vermelho – livro constituído de cinco narrativas policiais publicado pela primeira vez em 1953 e que daria notoriedade a Rodolfo Walsh na literatura argentina.  Ainda nesse prólogo, denominado “Advertência ao leitor”, o autor revela a profissão de Daniel: revisor de provas numa editora de nome curioso: Corsário. Walsh aproveita para afirmar a proximidade do trabalho do revisor com o do detetive, pois ambos precisam da observação minuciosa, da imaginação e, muitas vezes, da compreensão de sintaxes que aparentemente não se articulam. A seu ver, literatura é investigação, e esta, para ser bem sucedida, teria de seguir os trâmites da leitura literária. Os amantes do gênero poderiam tranquilamente afirmar: literatura policial é literatura maior. Portanto, já não seria um erro nem uma injustiça transformar Daniel Hernandes em personagem de ficção.

A primeira história, “A aventura das provas de prelo”, tem como personagem Raimundo Morel, escritor cuja carreira está em plena ascensão. Misteriosamente, no entanto, ele aparece morto no apartamento onde mora, poucas horas após ter deixado a sede da editora. A polícia, capitaneada pelo delegado Jiménez, apressadamente declara ter solucionado o caso. O escritor teria sido vítima de um acidente quando limpava a própria arma, presente de um oficial americano da época em que ambos estudaram em Harvard. Mas, quase ao acaso, Hernandes, o revisor, que conversara com Morel na editora havia poucas horas, percebe algo errado nas provas que este levara para revisar em casa. Daí em diante, o caso caminha para um desfecho totalmente inesperado.

“Variações em vermelho”, segunda narrativa, é uma espécie de homenagem a Conan Doyle, autor de “Um estudo em vermelho”.  O mundo das artes plásticas e seus personagens ora temperamentais ora partidários da mercantilização da arte desfilam num ambiente em que jaz morta uma bela e misteriosa mulher, a amante e modelo do artista plástico Duilio Peruzzi. Já que um dos suspeitos do crime é o próprio pintor, o conto insiste na plasticidade do ambiente. Mais uma vez Daniel Hernandes solucionará o caso; ele, agora, já uma espécie de companheiro do delegado Jiménez, é sempre convocado quando os casos mostram-se dúbios. Na verdade, o revisor de provas é um detetive cerebral que, com uma visão não contaminada, diversa da visão dos policiais, consegue enxergar o detalhe que somente um especialíssimo leitor não deixaria passar.

Em “Assassinato à distância”, narrativa seguinte, Hernandes está numa espécie de casa de praia como convidado especial. Mas, na verdade, o convite tem segundas intenções. O dono da casa deseja que ele desvende um caso já dado como encerrado pela polícia. No episódio, é digna de nota a participação do delegado Jiménez, possível de ser identificado apenas no final do episódio, e com atuação também decisiva.

“A sombra de um pássaro” retrata um crime ocorrido no universo da alta sociedade, onde algumas pessoas pensam ter o poder sobre tudo e sobre todos. Um pequeno detalhe, porém, a tal sombra do suposto pássaro, levará Daniel a descortinar o crime de modo diferente da pretendida solução policial.

O hilariante último conto “Três portugueses embaixo de um guarda-chuva (sem contar o morto)”, mostra que, não apenas no Brasil, mas também em terras portenhas, os habitantes do extremo oeste da península ibérica sempre convidam a uma boa piada.

Rodolfo Jorge Walsh nasceu em 25 de janeiro de 1927 na província patagônica do Rio Negro, numa família de origem irlandesa. Em 1941, após instalar-se em Buenos Aires e trabalhar em várias profissões, como lavador de pratos e limpador de janelas, é contratado ainda com dezessete anos de idade pela editora Hachette. Nessa casa, exerce primeiro a função de revisor para, logo depois, tornar-se tradutor do inglês. No período verte, sobretudo, vários livros de literatura policial. Em 1950, Walsh estreia na literatura com o conto “Las três noches de Isaías Bloom”, que receberá menção honrosa no concurso da revista argentina Vea y Lea, tendo nos jurados escritores como Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares. Walsh aventura-se em diversos gêneros literários até que, a partir de 1956, começa a escrever jornalismo investigativo. Publica, então, um livro-reportagem chamado Operação massacre, que desvendará um obscuro episódio da ditadura do general Aramburu.  O escritor aproxima-se da esquerda e torna-se um intelectual inconformista, sempre pronto a usar a escrita em favor da justiça e da liberdade.

Ao contrário do que dissera sobre seu personagem no preâmbulo de Variações em vermelho, arrancado do universo da ficção para a realidade, Walsh não tem a mesma sorte do revisor de provas. Após escrever um artigo denunciando os crimes da ditadura militar que se estabeleceu na Argentina com o golpe de 1976, o autor cai numa armadilha preparada por um comando da Escuela de Mecánica de la Armada e morre metralhado. Seu corpo jamais apareceu, engrossando o rol dos desaparecidos do período. O criador de Daniel Hernandes – decifrador de enigmas e dublê de detetive – não teve o poder de sobreviver à violência militar que se seguiu em seu país na segunda metade dos anos de 1970, mas sua obra goza, nos dias de hoje, cada vez mais prestígio não apenas na Argentina, mas a nível mundial.

Variações em vermelho
Rodolfo Walsh
Tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni
Ed. 34 – 239 páginas

domingo, abril 15, 2012

Felicidade sobre duas rodas

Vinha eu de bicicleta pela ciclovia, em Ipanema. Era manhã de sexta-feira. Um sol morno aquecia os felizardos que podiam andar ali àquela hora. Enquanto iniciava minhas suaves pedaladas e me perdia nas primeiras reflexões, um cidadão, aproveitando o estreito espaço entre mim e o calçamento, fez uma ultrapassagem pela direita. A ponta do seu guidom chegou a tocar nas minhas costas. Além de me assustar e me tirar durante alguns segundos o senso de direção, o esbaforido e repentino ciclista ainda me olhou com cara de mau, como se fosse eu o culpado. E não era ele um jovem afoito atrás do súbito aparecimento da garota dos seus sonhos, mas um senhor de meia idade. Continuei meu passeio-exercício pela orla. Pedalei até o Leblon, onde fiz a volta e comecei a retornar ao Arpoador. A partir do quase acidente passei a observar, de modo mais apurado, ciclistas e pedestres. Mesmo usando a bicicleta como esporte ou lazer, o ciclista apresenta todos os vícios que vemos diariamente nos motoristas do Rio. Além da ultrapassagem pela direita, pude observar outras “infrações”.

Os entregadores de gelo param seus triciclos de modo abrupto, não se incomodando se ocupam grande parte da pista e impedem a passagem de ciclistas, patinadores ou skatistas. Não sobra espaço nem mesmo para quem vem na direção contrária. Pode-se observar que, no trânsito de bicicletas, também impera a lei do mais forte.

Outro obstáculo são os que pensam que a ciclovia é pista de corrida. Eles “pilotam” suas bikes em extrema velocidade, não se importando com o risco que criam.

A falta de respeito aos sinais luminosos, que também são para os que transitam na ciclovia, é outro problema. O pedestre, que já tenta escapar dos ônibus e automóveis velozes na avenida, se depara, logo a seguir, com ciclistas enfurecidos. Estes fazem de conta que os semáforos não fazem parte da paisagem.

Podem ser vistos também corredores. Eles são permitidos na ciclovia, desde que corram à direita. Mas há aqueles que teimam correr em dupla, o que toma metade da pista.

O último obstáculo é o pobre coitado do pedestre. Caso venha de longe, geralmente nada sabe sobre as regras da ciclovia e a atravessa sem olhar, ou mesmo caminha nela. O perigo é redobrado quando se veem crianças soltas, longe das mãos de seus responsáveis.

O passeio sobre duas rodas acaba por me trazer à mente “O garoto da bicicleta”, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. No filme, Cyril (Thomas Doret) é um menino criado pela avó, mas com a morte dela passa a viver num internato. Ele foge e sai à procura do pai, que se recusa a recebê-lo. Aproveita também para perguntar o destino de sua bicicleta (do menino). Mais tarde ele descobrirá que o próprio pai a vendeu para saldar algumas dívidas. Acidentalmente, esbarra com Samantha (Cécile de France) que, apesar do caráter agressivo do garoto, acaba acolhendo-o. A cena em que os dois pedalam numa espécie de orla parisiense além de ser antológica transmite aqueles breves instantes de sonho e de liberdade que só o cinema e, até certo ponto, o ato de pedalar podem proporcionar ao ser humano.

Mas voltando ao nosso Rio, cidade tão aprazível, convidativa à contemplação da natureza e à paz de espírito, não deixamos de ser um pouco o pequeno e abandonado Cyril. Buscamos num simples passeio à beira mar, apesar de todos os obstáculos, um momento de sonho e felicidade, ainda que no fundo o saibamos sempre efêmero.

sexta-feira, março 16, 2012

Resenha de 'Crítica da moral cansada', de Ronaldo Lima Lins

Por Haron Gamal - especial para o Blog Prosa online, 12/03/2011

Crítica da moral cansada, de Ronaldo Lima Lins, Ed. da UFRJ, 249 páginas. R$ 38

Em um trecho de “Irmãos Karamazov”, Dostoiévski diz, pela voz de Ivan, um dos protagonistas do romance: “se não existe Deus nem a imortalidade da alma, tudo é permitido.” Durante muitos séculos, o principal pilar da moral foi a religião. Do século XVIII aos nossos dias, quando a existência de Deus e a da alma passaram a ser colocadas em dúvida ou mesmo negadas, surgiu um novo problema, talvez ainda maior: como a organização política e social poderia se realizar levando-se em conta apenas aspectos inerentes a si mesma?

Kant, nas suas três críticas, sobretudo na da razão prática e na da faculdade do juízo, já antecipava tal questão. Havia a necessidade de uma filosofia moral que prescindisse dos aspectos metafísicos da existência. Após chegar à conclusão de que Deus era uma questão de crença, o que restava ao ser humano era a própria reflexão, regida esta por alguns parâmetros que nomeou de imperativos categóricos. A filosofia, embora negasse a moral como fim último, já não escapava de ser um de seus componentes. Remontando aos primeiros filósofos da Antiguidade, a prática do pensamento comportaria uma espécie de beleza e, caso a polis se espelhasse nela, tornar-se-ia bela da mesma forma. Portanto, desde o começo, a filosofia arrasta atrás de si o lastro político.

No período em que vivemos, conhecido como pós-moderno, Ronaldo Lima Lins constata em seu mais recente livro, “Crítica da moral cansada”, que a filosofia perdeu seu potencial crítico, e que a intelectualidade se mantém à sombra dos dilemas do tempo. Citando inúmeros pensadores, como o já mencionado Kant, continuando num outro extremo com Sartre, que através de seu existencialismo questionava também a premência da atuação do filósofo no aqui e agora, o professor da UFRJ, autor de vários outros livros de crítica da cultura, desenvolve uma extensa exposição sobre a formação da sociedade, as possíveis origens da violência, e a capacidade que a teoria crítica deveria ter, senão em apontar soluções, pelo menos em não esmorecer na sua própria capacidade de criticar. Na verdade, o que o escritor quer dizer é o seguinte: os intelectuais jamais devem silenciar.

Fazer o levantamento de questões é tão ou mais importante do que encontrar as respectivas respostas. Tal premissa foi uma das características da Escola de Frankfurt, com Theodor Adorno e companhia. E esse é o caminho percorrido por Lins, que afirma: “insatisfação e crítica promovem o surgimento de novas concepções, delirantes ou não, pouco importa, porque sabemos que as concepções delirantes levaram, muitas vezes, os homens para frente.”

Sabe-se que as insatisfações e tensões são inerentes ao ser humano, e que devido a elas as sociedades avançam. Como, porém, conciliar este ponto de vista hegeliano, em que os conflitos são necessários para o avanço da História, com os ideais de convivência harmônica, ou mesmo de paz entre os seres humanos?

No capítulo “Sobre controles e descontroles”, está escrito o seguinte: “O fundamento de uma filosofia moral visava o estabelecimento de uma consciência que diminuísse os riscos do descontrole e ajudasse a desmontar armadilhas.” Ao mesmo tempo se constata que com o fim das utopias vive-se um paradoxo: como conciliar paz e solidariedade com um modo de vida em que predomina a violenta competição? Vide a ditadura dos mercados financeiros e das crises que surgem após todo período de grande especulação. Quando governos se dispõem a interceder e sanear falcatruas de grandes corporações, na verdade o fazem com o dinheiro dos cidadãos, que mesmo muitas vezes sem consciência de tais ações e sem sentir de imediato o golpe, não deixarão de sofrer as consequências.

Por conseguinte, surge a questão fundamental de “Crítica da moral cansada”. A indústria cultural não só contaminou a grande massa, mas também grande parte do segmento social que transita no universo da alta cultura. Muitos intelectuais se deixaram fascinar pelos produtos dessa indústria (incluindo os tecnológicos), demonstrando total adesão ao mercado, procurando, com suas narrativas, não mais praticar qualquer tipo de crítica, mas contabilizar os próprios lucros e se espraiar num hedonismo perverso. Aqui não escapam filósofos, ficcionistas ou poetas.

HARON GAMAL é doutor em literatura brasileira pela UFRJ

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Uma chance para a literatura

No prefácio de Mercado de Pulgas, há um bom argumento para se publicar em livro muita coisa boa que aparece na internet. Segundo as palavras do autor, referindo-se a uma pesquisa do Google Analytics, um visitante fica em média num site apenas durante três minutos: “O problema, na internet, é o dedo indicador impaciente que, no mouse, está sempre em busca de algo a mais.” O livro, no entanto, é para ser lido com calma. Por isso, Renato Alessandro dos Santos publica em livro uma seleção dos melhores textos que colocou no seu site: www.tertuliaonline.com.br.

O livro começa com uma epígrafe de Andre Breton, “Sempre vou lá (no Mercado de Pulgas) à procura desses objetos que não se encontram em nenhuma outra parte, fora de moda, fragmentados, inúteis, quase incompreensíveis, perversos, enfim, no sentido que entendo e amo...”, e não deixa de ser muito interessante. Após a leitura, fica a saudade de um período da vida que a gente gostaria de viver de novo mas sabe que não mais voltará. O autor explora de modo sutil e pungente o velho gênero conhecido como crônica.

Dividido em oito partes, começando por blog, trecho em que relata fatos de seu cotidiano, passando por cinema, entrevistas, futebol, literatura, livros, música, Renato pouco a pouco conquista o leitor, que dificilmente não demonstrará uma ponta de insatisfação caso tenha de interromper a leitura. Há ainda uma última parte denominada Work in progress, com um belo conto. O livro é finalizado com um ensaio cujo título é: “A literatura como vício”.

Na verdade, como explica Alessandro da Silva, o site “Tertúlia” começou como um fanzine nos anos 1990. Desde então, ele põe em prática seu gosto pela escrita. Em 2009 o fanzine voltou, mas na rede.
Num livro de crônicas, é  sempre arriscado destacar algumas, corre-se o risco de apontar não as melhores, mas aquelas que caíram no gosto do resenhista.

O ponto alto do livro são as entrevistas que Renato fez com escritores brasileiros, a maior parte durante uma feira do livro em Ribeirão Preto; outras, durante a visita de alguns deles a bibliotecas públicas para encontro com leitores; e há ainda uma matéria em que ele acompanha uma palestra de Cristovão Tezza, o autor do premiadíssimo Filho eterno, numa sociedade psicanalítica do interior paulista. Entre os autores entrevistados encontram-se Milton Hatoum, Xico Sá, Pedro Bandeira, Marcelo Mirisola, Michel Laub, Lourenço Mutareli, Daniel Galera, Ignácio de Loyola Brandão e Moacyr Scliar.

Outra parte, muito sedutora, é a de livros e de literatura, praia do autor de 39 anos, já que ele é um leitor voraz e professor da mesma disciplina. Talvez aqui o texto de maior destaque seja: “A redoma de vidro de Silvia Plath”, onde o autor discute o único romance escrito pela poeta de língua inglesa, que se suicidou aos 30 anos. No começo do artigo, Renato pergunta: “o que quer uma poeta, utilizando um pseudônimo (Victoria Lucas), ao escrever não um livro de poemas mas um romance?” Através da vida da personagem principal, Esther Greenwood, ele aponta traços biográficos que coincidem com os de Silvia. “J. D. Salinger não mora mais aqui” aborda a obra e a vida reclusa do autor de O apanhador no campo de centeio: “quem nunca ouviu falar de Holden Caulfield, o pequeno diabo de Salinger. É um personagem inseguro, insatisfeito, questionador, inconformista, inquieto...” Um texto também fundamental é “O que você anda lendo ultimamente?”, onde Renato conta sua experiência de iniciação à literatura ainda na adolescência e enumera vários autores imprescindíveis para a criação do gosto pela leitura e formação do leitor. O já citado “A literatura como vício”, na parte final do livro, complementa este texto e apresenta, entre outros assuntos, não só a descoberta da literatura, mas também o poder que ela tem de se tornar motivo de vida de determinadas pessoas.

Apesar dos textos mais culturais (digamos assim), o livro emociona quando o autor nos conta sobre acontecimentos de sua vida familiar, como o nascimento de seu filho, a chegada das férias, ou o dia em que ensinou o menino a andar de bicicleta, experiências narradas com muito lirismo e sensibilidade. Referências a futebol também têm sua poesia, como na crônica sobre o dia em que o XV de Piracicaba foi a Batatais, cidade onde vive o autor, e venceu pelo placar de uma a zero a equipe da casa, o também Batatais, conhecido popularmente como o Fantasma da Mogiana.

Em meio a todo esse painel apresentado pelo livro, perdas e ganhos contabilizados, sobressai a intensa paixão pela literatura.

Mercado de Pulgas germinou na internet e lá pode ser adquirido. Basta que se entre no site do autor.

Mercado de Pulgas – uma tertúlia na internet
Renato Alessandro dos Santos
Download blogs – Ed. Multifoco, 269 páginas

terça-feira, janeiro 24, 2012

Resenha: Dois Rios, Tatiana Salem Levi, Ed. Record, 220 páginas.

Nas mãos de autores que já  antecipavam a modernidade, o personagem-narrador tornou-se componente eficaz, produzindo na maioria das vezes artifícios que acabaram por se tornar uma das questões fundamentais dos romances. A literatura brasileira apresenta numerosos exemplos nesse sentido, que podem ser constatados ainda no Romantismo e, mais adiante, no nosso principal clássico, Machado de Assis, sobretudo em Memórias póstumas, Dom Casmurro e Memorial de Aires. Na contemporaneidade, temos dois exemplos de autores que souberam tirar o máximo proveito desse personagem: Milton Hatoum, em Relatos de um certo oriente e Bernardo Carvalho, em Nove noites. Tatiana Salem Levi entra pelo mesmo atalho, tentando dar aos narradores de Dois Rios o fôlego necessário para levar sua história até o fim.

Mas a empreitada, aqui, torna-se arriscada. Construir um romance em primeira pessoa com dois narradores implica dois problemas. O primeiro é o sacrifício de um arrojo poético maior em prol da objetividade do que cada um tem a dizer. O segundo exigiria muito do escritor, porque as palavras desses narradores teriam de insinuar a psicologia e as idiossincrasias de cada um deles, logicamente elas não poderiam ser as mesmas. Numa leitura mais apurada, o que se pode constatar é que os dois personagens-narradores são muito semelhantes, senão os mesmos.

O romance, dividido em duas partes, apresenta na primeira uma mulher chamada Joana. Ela relata sua vida e o passado da família. Na segunda, um homem, mais precisamente seu irmão gêmeo, Antônio, se põe a narrar parte dos mesmos fatos, acrescidos de outros que viveu longe da irmã. Apenas um acontecimento os diferencia: o homem parte, enquanto a mulher fica (ao menos temporariamente) e acaba tendo de cuidar da mãe, que pouco a pouco vai enlouquecendo. Um segmento da narrativa ambientado à época da ditadura militar colore o romance com tintas fortes, não deixando de lado o cinzento período da história do Brasil.

Dois rios, segundo livro de Salem Levi, segue, em parte, o mesmo gênero do primeiro, A chave de casa, que é a memória. Claro que, quando se trata de romance, o que predomina é a ficção. Mas o retorno constante ao passado, o trágico e inesperado término da infância, a saudade pelo que se foi, o amor e a promessa de eterna união entre os dois irmãos permeiam muitos momentos do texto. Mais à frente, no entanto, com a adolescência e a idade adulta, haverá a separação e o amor por outra pessoa. A descrição de paisagens marítimas e imagens noturnas revelam momentos de intensa beleza da narrativa.

Uma terceira personagem, a francesa Marie-Ange, mesmo sem querer, acaba por unir as duas pontas do que se havia rompido, a ligação entre os dois irmãos. Joana e Antônio, após a morte do pai, tornaram-se inimigos. Ambos se apaixonam pela mulher, só que vivem os momentos dessa paixão em geografias e tempos diferentes.

Dois rios, além do nome do livro e do lugarejo onde acontece boa parte da história, serve também como referência aos dois irmãos, porque, na verdade, eles deságuam na mesma foz: Marie-Ange.
O leitor de romances, mesmo ao negar sua face conservadora, normalmente gosta de, no fim da leitura, ver equacionadas algumas das tensões que lhe desfilaram durante a narrativa. O livro de Tatiana nos revela um ponto certeiro. Ambos, irmão e irmã, concluem que, ficando ou partindo, estarão sempre na mais completa solidão. O surgimento da francesa ajudou cada um a superar o nó que os impedia de viver com mais plenitude. Joana deixa de lado a culpa e a mãe, e começa a viver a própria vida; Antônio, que sempre fugiu dos problemas da pequena família, retorna para encará-los de frente.

Um episódio, no entanto, mostra-se incoerente. A segunda parte do livro ocorre num período de tempo quase simultâneo à primeira, mas há um momento em que se situa à sua frente. Nela, Batistine, avó de Marie-Ange, morre, fato que é narrado por Antônio. Quando Joana viaja com a francesa, num momento posterior à volta do irmão, ambas encontram a personagem ainda viva. Talvez a transgressão temporal sirva para mostrar que descobertas prescindem de cronologia.

Haron Gamal: doutor em literatura brasileira pela UFRJ
Artigo publicado no caderno Prosa & Verso de O Globo, em 07/01/2011.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

O escritor na torre de marfim 

Charque, o mais recente livro de Marcelo Mirisola, não deve ser lido como uma obra autobiográfica. Talvez a gênese de toda confusão em torno do autor, no momento de cada novo lançamento seu, resida neste ponto, um princípio elementar na seara da literatura. Como o próprio escritor afirma: “eu uso a primeira pessoa, não falo na primeira pessoa”, e, logo a seguir, “no jardim de infância da literatura, a primeira lição que aprendemos é: Eu é outro”.

O livro tem subtítulo: uma autobiografia, vá lá. Expressão por demais irônica. Levando-se em conta as duas últimas palavrinhas, percebe-se o deboche com o próprio pseudogênero escolhido.
Não é novidade no universo da ficção a existência de autobiografias ou mesmo de biografias de pessoas que jamais existiram. Borges escreveu resenhas de livros que nunca foram publicados. Desde o surgimento do romance, passados os estilos dos oitocentos, como o Romantismo e o Realismo, obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas e mesmo Dom Casmurro, ambas de Machado de Assis, foram recebidas por muitos como portadoras da mais absoluta verdade. Portanto, por que o tema e o gênero escolhidos por Mirisola na maioria de seus livros, como também neste último, provocam sempre tamanha estupefação?

Outro aspecto deve ser destacado: o gênero ficção está aberto a todo tipo de invenção, mesmo que o reinventado seja o próprio autor, mesmo que ele atribua ao narrador as duas iniciais do seu nome civil. Mas os MM do protagonista de Charque indicariam verdadeiramente as iniciais do autor? Quem há de garantir? E se assim o fosse, qual o problema?

O trocadilho é fruto do Modernismo, e a prosa de Mirisola tem origem neste movimento inaugurado no momento em que as letras nacionais estavam congeladas, o vernáculo amordaçado, a língua elitizada e trancada em de torres de marfim. Não é por acaso que o protagonista de Charque tem um pequeno apartamento no centro de São Paulo, chamado por ele também de torre de marfim. Quem se esconde/revela, o autor ou a língua utilizada por ele? O que deve e pode ser criticado em Mirisola é o débito na originalidade. Ele não é o inventor de tal tipo de literatura.

Há quem afirme que o Pós-modernismo é o período em que são respeitados os vários tipos de discurso. Seria melhor afirmar que, se existe mesmo o Pós-Modernismo, com todo o respeito àqueles que fizeram ou fazem opções destoantes da maioria, não há a conclamada diversidade nem o respeito aos diferentes. O que existe é a pseudoaceitação da diversidade. Por isso, a prosa de Mirisola recebe tantas críticas.

Não é de se estranhar o motivo que leva sua escrita a causar tanto escândalo junto ao bom mocismo e ao politicamente correto de grande parte da atual literatura brasileira. O que existe de mais vigoroso em suas narrativas é o afã em ridicularizar os lugares comuns, os postos ocupados por aqueles que julgam ter atingido a merecida consagração. Seus personagens têm o direito de remar na contracorrente e de chamar de despachantes os escritores de botequim, ou de armazém. Também não há pecadilho algum quando o narrador de Charque diz que odeia as “acadimias”, mas entraria na disputa da cadeira de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras, caso ela estivesse vaga.

Charque trata da vida de um escritor desde os anos de 1960 até 2011. E não deixa de fazer um acurado e arrasador levantamento deste período histórico, onde cada um a seu modo tentou ser bem sucedido procurando apropriar-se dos mecanismos que tinha à mão, como a especialização, o compadrio, ou mesmo a trambicagem. Tudo com o objetivo de conseguir seus fugazes momentos de fama. O narrador é mordaz nessa crítica, levando-nos a crer que a intelectualidade ao perder sua base teórica, ao se deixar levar por tantos conceitos heterodoxos, já não consegue fazer a devida leitura de mundo; elaborar propostas viáveis talvez seja ainda mais difícil. O que resta a essa intelectualidade é partir para o jogo com o que tem à mão, o que torna as apostas cada vez mais temerárias. Aí é que entra uma das questões fundamentais do romance: Charque já não seria apenas o nome do livro, mas significaria o modo que cada um encontrou para se autopreservar. O que vale 
para a maioria não é arriscar, mas manter os lugares conquistados.

Charque, de Marcelo Mirisola, ed. Barcarola.

Haron Gamal - doutor e literatura brasileira pela UFRJ
Publicado no caderno Prosa e Verso, de O Globo, em 19/11/2011.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Angústia, de Graciliano Ramos, comemora 75 anos

Há livros que, publicados, não se apresentam como o autor pretendia, mas acabam saindo do jeito que os leitores gostam. Foi o que aconteceu com Angústia, de Graciliano Ramos. O autor tinha a intenção de revisar os originais mais uma vez e achava necessário eliminar pelo menos um terço da narrativa. Mas as circunstâncias não permitiram, Graciliano estava encarcerado como preso político nos porões do Estado Novo.

Para a comemoração dos 75 anos de lançamento do romance, a editora Record traz a público nova edição deste que é o terceiro livro do autor de São Bernardo, acrescido de sua fortuna crítica. Resenhas e textos contemporâneos ao lançamento ou mesmo matérias sobre o livro, que apareceram no decorrer do século 20, fazem parte de um apêndice, no final da edição.

Participam autores do porte de Otávio Tarquinio de Souza, Adonias Filho, Nelson Werneck Sodré, Otávio Dias Leite, Jorge Amado, Peregrino Junior, Rachel de Queiroz, Álvaro Lins, Ferreira Gullar etc., incluído Nicolao Montezuma, pseudônimo atribuído a Carlos Lacerda. Dentre todos esses textos, destaca-se o de Jorge Amado. O autor baiano afirma: “Esse romancista nordestino sabe bem o que quer fazer. Porque a impressão inicial que Angústia nos dá é de livro onde nada é inútil, nada é forçado e onde também nada falta.” Adiante, continua: “Sei de alguém que não conseguiu passar da página 30 desse romance com medo de enlouquecer.” Há também referência a um texto de Antonio Cândido, que classifica o livro como: “romance excessivo [que], de certo modo, contrasta com a discrição e o despojamento dos demais, o mais ambicioso e espetacular.” Dois posfácios, um de Otto Maria Carpeaux e outro de Silviano Santiago, fecham o livro.

Angústia reflete o drama de todo artista marcado pelo destino, alguém que prevê o próprio futuro grandioso mas, para sobreviver, precisa sucumbir ao ridículo e comezinho do dia a dia, vendo-se obrigado a emprestar seu talento a escritores de repartição, ou mesmo alugar sua pena àqueles que desejam rascunhar algum elogio fútil a seus superiores. Na verdade, o grande drama de Luís da Silva, protagonista e narrador do romance, não é a perda da mulher, que nem chegou a amar, nem o crime que cometeu contra Julião Tavares, esnobe filho de comerciantes abastados. Sua tragédia pessoal é a própria obra que se avizinha, disfarçada de simples relato, fazendo crer que o narrador é o escritor, como é comum às narrativas em primeira pessoa. Por isso, não é à toa que a história possa ser percebida, já nas primeiras páginas, como tentativa literária de um autor fracassado. A angústia acaba se tornando a perspectiva de não saber empreender o próprio talento, sempre urdido (nos grandes autores) em meio a intenso sofrimento e à vida trágica. Graciliano Ramos soube captar bem este lastro do seu tempo e viveu na pele a própria tragédia.

Outro aspecto que pode ser observado, como bem salienta Elizabeth Ramos na introdução, matéria também de uma revista norte-americana sobre o livro, é o seguinte: trata-se da “crônica da condição do intelectual nos países subdesenvolvidos da América Latina.” Questão premente, porque todo intelectual que se pretende livre, que não pertence aos círculos universitários nem aos círculos do poder, se vê condenado à solidão e ao silêncio.

O livro tem estrutura circular, começa pelo final. Luís da Silva já está se recuperando e relembra o último ano de sua vida, quando tudo parecia ir bem até conhecer Marina, uma moça que se mudou para a casa ao lado da sua. O narrador conta sobre sua vida de funcionário público, sobre os tipos locais, a luta política, o avanço do autoritarismo, a hipocrisia do meio intelectual em que está inserido, a vida nos cafés, o cinema local e o bordel. Também é assaltado por lembranças da infância. Aqui comparece a característica pela qual Graciliano Ramos se tornou mais conhecido, e que, neste romance, ocupa espaço periférico: a vida do sertanejo nordestino.

Angústia, no entanto, mostra um Graciliano totalmente compatível com a vida na capital, privilegiando a introspecção muito antes de ela virar moda e ter sido explorada até as últimas consequências por uma escritora como Clarice Lispector.

O que se pode concluir é que Angústia não perdeu nem ameaça perder tão cedo a atualidade. Lido 75 anos depois de lançado, o romance também parece abordar, até de modo mais acurado, uma entre as principais questões dos dias de hoje: as doenças psíquicas, ou mesmo a loucura. Sem conhecimento profundo de Freud e de seus seguidores, ausente ainda Focault, o autor constrói um narrador que mergulha nas sutilezas da alma ao descrever sua “doença”, e consegue dissecar aquela espécie de mal que ronda o homem moderno, a solidão e a melancolia.

Angústia, Graciliano Ramos
Editora Record
382 páginas