terça-feira, agosto 16, 2011
Jornal do Brasil - Haron Gamal
Nada melhor do que uma ilha do Caribe, que só não foi esquecida devido às várias tragédias recentes, para fazer refletir sobre o hibridismo cultural de nosso tempo. Sobretudo se essa ilha-país obrigou os seus filhos – escritores, jornalistas e intelectuais – a partirem para o exílio num passado não muito distante.
A vida em terra estrangeira, ao mesmo tempo em que provoca o distanciamento geográfico do exilado em relação ao seu local de origem, permite sua aproximação à cultura “perdida”, através da imaginação e do pensamento. Volta-se de modo mais intenso à infância, às lembranças queridas, aos amigos que ficaram. É o que acontece com a prosa de Dany Laferrière, em País sem chapéu.
Não que o livro seja uma espécie de “em busca do tempo perdido” no universo haitiano. Mas a reflexão de um homem que retorna ao seu país vinte anos depois de ter partido, redescobrindo em cada objeto uma espécie de sabor primitivo que mesmo a passagem do tempo e a convivência com os costumes adquiridos, na sua peregrinação pelo mundo, não conseguiram fazer esquecer. Ainda que os problemas de seu país natal tenham se multiplicado por dez e o sofrimento seja tamanho a ponto de ele dizer que no Haiti todos estão mortos, como afirma ao explicar o porquê do nome do livro: “país sem chapéu, é assim que se chama o lado de lá no Haiti, porque nunca ninguém foi enterrado com o seu chapéu.”
Laferrière, nascido em 1953, foi obrigado deixar o Haiti, aos 23 anos de idade – exercia a profissão de jornalista – e exilar-se no Canadá, devido à ditadura de Duvalier (Baby Doc, 1971-86). Caminho semelhante já havia trilhado seu pai, também exilado, mas por Duvalier pai (Papa Doc, 1957-71). Essas passagens são muito bem retratadas no livro, que, apesar de se dizer ficção, tem muitos trechos com experiências da vida do próprio autor: “Aos dezenove anos, tornei-me jornalista, em plena ditadura dos Duvalier. Meu pai, também jornalista, foi expulso do país por François Duvalier. O filho deste, Jean Claude, levou-me ao exílio. Pai e filho, presidentes. Pai e filho, exilados. Mesmo destino.”
Trecho pungente acrescenta-se quando o narrador relembra a fala de seu pai, procurado por ele uma única vez na vida, no Brooklin, em Nova York: “– Quem está aí? – Teu filho – respondi. – Não tenho filhos, todos os meus filhos morreram. – Sou eu, pai, vim ver você. – Volte para o lugar de onde veio, todos os meus filhos morreram no Haiti. – Mas eu estou vivo, pai. – Não, só há mortos no Haiti, mortos ou zumbis.”
A literatura híbrida, ou anfíbia, caracteriza-se pelo desenraizamento ora geográfico, ora cultural, ora provocado pela loucura. E essa questão é urgente na narrativa de País sem chapéu. O autor, que pinta com cores fortes o país sonhado, não esquece de mostrar uma legião de deserdados, mais mortos do que vivos, no país real.
Dany Laferrière surge como escritor propriamente no exterior. Expressa-se numa língua que não é a sua (a língua materna do autor é o créole), e vive num país estrangeiro. Momento certo para descobrir que a escrita seria a única forma de o manter vivo, de manter viva a cultura de onde viera, de mostrar que vida pode significar o registro do amor e da dor, e a morte pode ser o completo esquecimento.
Enfim, o que são países, como o Haiti, com homens e mulheres oriundos da África e destinados a serem escravos no ocidente, que serviram como força de trabalho para que potências europeias promovessem a exploração e o colonialismo para depois abandoná- los ao deus-dará no momento em que tal empreitada já não era lucrativa? Ainda assim a herança deixada no país pela França serve como instrumento de inserção cultural no mundo “civilizado”, uma tentativa empreendida pelos intelectuais haitianos de resgatar, igual por igual, o que lhes foi tirado. A escrita em francês de Dany Laferrière não seria uma opção pela francofonia, pois essa palavra tem raízes políticas (como diz o autor), mas um modo de afirmar que a língua absorvida pelo colonizado tem, muitas vezes, o vigor primitivo que a do colonizador já não possui.
Embora o narrador, neste retorno, reconheça o seu país, seu olhar é cindido, percebe que algo se rompeu, sente-se como se já não fizesse parte daquela paisagem humana. Assim pode observar melhor e tirar suas conclusões quase como um estrangeiro.
A maior marca de hibridismo cultural que esse livro comporta acontece, ao meu ver, na simbologia entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Um personagem pergunta ao autor-narrador: “Desculpe a franqueza, mas gostaria de saber como o senhor pode escrever sobre os mortos se nunca morreu.” A mesma experiência de Ulisses (este também só retornou à sua ilha vinte anos depois) ao visitar o Hades e de lá voltar vivo, o narrador vivenciará, agora com o objetivo de restaurar a antiga cultura que os primeiros negros haitianos trouxeram da África, escrevê-la, para que, recuperando-a, talvez seja capaz de aproximar dos deuses um povo que não pode perder o seu passado.
terça-feira, agosto 02, 2011
Haron Gamal - Jornal do Brasil
Damon Galgut, nascido em 1963, é escritor sul-africano de língua inglesa. Lançou seu primeiro livro, Sinless season, em 1984, mas tornou-se conhecido internacionalmente apenas em 2003 com o romance The good doctor, traduzido para o português pela Companhia das Letras como O bom médico. Ambientada no pós-Apartheid, a narrativa explora, num hospital de interior, a constrangedora amizade entre dois homens muito diferentes. Com esse livro, ele ganhou o Commonwealth Writers Prize de 2003 (melhor livro para a região da África), e foi finalista do Man Booker Prize (também em 2003) para ficção, e em 2005 do International Dublin Literary Award.
O impostor foi publicado em 2008 e é o segundo livro do autor traduzido para o português. Como The good doctor, também reflete as violentas tensões que permeiam o país após o longo período de segregação racial.
Galgut é escritor de origem europeia, mas descreve com detalhes a exploração e ganância tanto dos brancos como dos negros numa África do Sul em que todos querem levar a maior fatia de lucro, tudo mascarado por um falso desenvolvimentismo, que não perdoa nem a natureza nem as obras arquitetônicas remanescentes dos séculos anteriores.
O livro começa numa estrada, com uma cena muito familiar aos leitores brasileiros. Um policial escondido atrás de uma árvore multa um motorista que cometera uma infração de trânsito. Mas logo se percebe que o objetivo é outro. Por um quarto do valor da multa, o agente da lei diz: “podemos esquecer todo esse problema.”
Mas a questão vai muito além de um simples caso de corrupção policial. Adam, perdido o emprego e desiludido com o insensível progressismo de seu país, está deixando a cidade grande. Dirige-se ao interior, onde pretende construir uma nova vida. Ao mesmo tempo, deseja voltar a escrever, já que na juventude lançara um livro de poemas bem recebido pela crítica. Vamos testemunhar, daí para frente, um dos pontos que estará presente em todo o romance: o embate entre a sensibilidade e um pragmatismo desenfreado – alguém que busca na poesia um modo de fugir do salve-se quem puder econômico que vigora no país. Em contraponto, seu irmão Gavin, extremamente materialista e engajado em empreendimentos nem sempre éticos, insiste para que ele procure outro emprego e leve uma vida comum, como as outras pessoas. A mulher de Gavin, Charmaine, transita entre o conforto proporcionado pelo marido e um quê de misticismo, incluindo visões, leituras de aura e sensitismo para energias tanto positivas como negativas.
Ao se estabelecer no lugarejo almejado, Adam mora numa casa que simboliza a derrota do homem na luta contra as forças inóspitas da natureza. As ervas daninhas, sempre mais numerosas e presentes no quintal da casa, avançam continuamente apesar da luta constante do personagem contra elas.
Dois outros homens e uma mulher mudarão a vida do personagem. Um deles é um morador solitário. Adam se refere a ele como o homem do macacão azul, alguém que mora ao lado e pouco a pouco tenta uma infrutífera amizade com o recém-chegado. O outro é Canning, que se apresenta como seu ex-companheiro de escola dos tempos de adolescência, embora Adam não se lembre dele. Canning esbarra no amigo numa loja onde este fora comprar ferramentas para debelar as invencíveis ervas daninhas. Através do reestabelecimento da antiga amizade, Adan presenciará toda uma trama que envolve políticos, empresários, um imigrante mafioso do leste europeu, e até mesmo prostitutas. O título O impostor a princípio parece soar mal e apontar para uma narrativa de subliteratura, mas no final da narrativa percebe-se a sua justeza.
O que muitas vezes se cobra de escritores como Damon Galgut, oriundo de países onde vigorou (e ainda vigora) intensa luta política, racial e étnica, é o engajamento do artista nas questões subjacentes a todo esse conflito. O autor, de certa forma, consegue cumprir o seu papel, mas não deixa de apresentar a intensa luta interior de personagens que gostariam de cultivar a própria subjetividade em meio ao rolo compressor das ideologias e das máquinas que avançam por todos os lados na construção de hotéis, suntuosos edifícios e campos de golfe para os ricos, ou em empreendimentos imobiliários enganosos e de terceira classe, onde jorra o dinheiro público e as conseqüências são as que estamos acostumados de longa data.
Mas Galgut consegue se sair bem nesse embate entre o público e o privado, ressaltando quase sempre a lama que mancha esse privado, conquistado na maioria das vezes com uma robusta parcela do dinheiro público. O autor mostra que os ricos e os políticos parecem não se incomodar com todo esse lodaçal.
Outro ponto que merece destaque é o sentimento de culpa do qual Adam não consegue se libertar, apesar de suas atitudes sempre éticas. Talvez o autor queira nos dizer que o longo período de dominação e exploração empreendidas pelo colonizador europeu, no continente, criou raízes tão fortes que contaminou tanto os brancos descendentes como os nativos negros, e está muito distante o dia em que existirá algum tipo de perdão.
quarta-feira, julho 06, 2011
Jornal do Brasil - Haron Gamal
Um texto torna-se literário, na maioria das vezes, ao refletir o estranhamento em que o ser humano se encontra. O ato de contar uma história não é necessariamente literatura. Mas quando nessa mesma história comparece algo inesperado, inusitado, quando essa estranheza torna-se contraponto e, a partir dela, se estabelece um outro texto, pleno de variantes e muitas vezes polissêmico, aí está a literatura.
O cronista, primeiro livro de Bolívar Torres, tem essa característica. São seis contos de extensão média, que prendem o leitor, sobretudo devido a soluções inesperadas para situações banais. É o que não nos deixa esquecer suas histórias. O autor além de, como todo aquele que se pretende a escritor, narrar e descrever situações diversas com muita habilidade, nos propõe personagens profundamente cindidos.
Na quarta capa do livro, alguns conhecidos especialistas em ficção elogiam em Bolívar o desconcerto que as situações, apesar de banais, apresentam. Flávio Braga chega a falar em Kafka e Nabokov. Estão corretos em suas avaliações. Mas há algo além. A originalidade do autor também está na construção desses personagens divididos, em conflito consigo mesmo, seres que, a todo momento, monologam nas entrelinhas, demonstrando a impossibilidade senão de uma ética, ao menos de uma inteireza.
Não é que se vá aqui retomar a tradição que a modernidade instaurou ao inaugurar o personagem fragmentado. A fragmentação do sujeito está presente na cultura ocidental desde a tradição helênica. Os personagens homéricos dialogam o tempo todo consigo mesmo, vivendo uma espécie de autopolêmica ao demonstrar a impossibilidade do sujeito ante o imponderável destino. Daí o conhecido culto à tragicidade. Como a cultura helênica não é unívoca, em Eurípedes, no entanto, o humano apresenta-se como insurgente ante a inexorabilidade da existência. O autor de Medeia irá mais longe ao retratar o herói na tentativa de deixar essa subserviência. O herói euripidiano quer, desesperadamente, transformar-se em senhor do próprio destino. Não é à toa que Eurípides tornou-se um desconforto dentro da tradição clássica (quase apolínea), tradição esta submissa a inexorável moira.
Os contos de O cronista esbarram nessas características insurgentes. São homens e mulheres que não desejam submeter-se. Mas, devido à intensa luta interior, acabam profundamente marcados. É impossível ver neles algum tipo de vitória. Sobressaem-se com mais destaque as cicatrizes.
Em “Aborto”, primeiro conto do livro, acompanhamos uma adolescente levada pela mãe a uma clínica onde fará a asséptica cirurgia que a livrará da gravidez indesejada. Mas a tal gravidez incomoda mais a mãe do que a ela. A jovem apaga ao ser anestesiada e sonha com a prima a lhe oferecer um berço que flutua numa pequena lagoa. Maria, assim chama-se a personagem, tenta chegar ao bebê, mas a corrente de água é mais forte.
Em “O Cronista”, conto que dá título ao livro, um famoso colunista social frequenta festas de casamento povoadas por “famílias” bem sucedidas que desejam aparecer nas suas páginas festivas. Mas o personagem pede licença para ir ao toalete, e lá, devido à urina empedrada, sua diante do mictório. Urina e toalete acabam metáfora da hipócrita vida social para a qual ele precisa sorrir e da qual não consegue se livrar.
“Debutantes” focaliza o mundo festivo das patricinhas prestes a estrear na vida social. São tutoradas por senhoras tipo a tal Meneghetti, sempre a lhes lembrar que o sucesso depende delas e que um futuro cor de rosa as aguarda, basta que não desistam. Numa espécie de “country club”, experimentam o vestido da futura festa e agrupam-se para tirar fotos. Mas a pseudoplasticidade da imagem juvenil é maculada por duas jovens: uma se sente estranha e tenta escapar à artificialidade reinante correndo através do clube; a outra foge para fumar maconha e diz à primeira já ter lido Nietsche.
“Homem de Jaqueta”, ao contrário da beleza resplandecente da alta sociedade, retrata a vida dos motoristas e cobradores de ônibus. Num final de domingo, durante a última viagem, enquanto seu time está perdendo, um cobrador luta para conter a ansiedade de chegar em casa para comer um bife preparado pela esposa que o aguarda, enquanto observa um passageiro desfocado, diferente dos outros, o próprio homem de jaqueta. De quem é a distorção, do cobrador que tem como perspectiva apenas o estômago e vê as cores do domingo se esvaindo ou do assustado personagem que irrompe ônibus adentro e salta no ponto final para desaparecer misterioso dentro da noite?
“Estrada do Mar” narra a viagem de um bem sucedido empresário no seu automóvel através do Rio Grande do Sul. Ele vê uma jovem à beira da rodovia, para o automóvel e lhe oferece carona. Daí em diante, numa rememoração proustiana, vai viver sentimentos que transitam entre o êxtase e o nojo.
No último conto, “Dona Eva”, uma senhora idosa, mostra um álbum que retrata toda a sua vida a uma criança cujos pais a visitam com o objetivo de ver o terreno que está à venda. Ele, o menino que a escuta e ainda não tem dez anos, virá a se tornar o narrador da trágica história desta mulher, uma colecionadora de perdas. O álbum apresenta o diálogo entre razão e paixão, mostrando que as pessoas são impotentes diante da ameaça de arrebatamento a que sempre estão sujeitas.
No final, chegamos à conclusão de que se ao ser humano não é permitido aproximar-se dos deuses, como já tinham constatado os gregos da antiguidade, ao menos lhe será tolerado experimentar – ainda que apenas através da literatura – algum tipo de imortalidade. Então, ao cronista e a seu fotógrafo, não caberia a missão de retratar as festas dos novos ricos e a destreza destes no mercado financeiro, mas a resistência humana, tendo como espelho a arte, ainda que fugaz, eterna enquanto dure.
Parodiando a frase presente no final da página em que aparece a ficha catalográfica desta bela edição de capa dura e com criativas gravuras de Carolina Veiga: que a literatura dure até antes do fim do mundo.
O cronista, de Bolívar Torres. Editora Oficina Raquel. Páginas: 115. R$ 35.
quinta-feira, junho 23, 2011
Em Todo terrorista é sentimental, livro de estreia do jornalista Márcio Menezes, dois amigos, indignados com o traiçoeiro sistema político, decidem fazer justiça com as próprias mãos
Jornal do Brasil - Haron Gamal
Sobre determinados livros, não se deveriam escrever resenhas. Não pelo fato de serem maus e não merecerem justa apreciação. Mas porque perderia alguma graça falar sobre eles. Todo terrorista é sentimental, de Márcio Menezes, é um livro desse tipo. Qualquer comentário mais extenso pode colocar a perder a boa leitura. Mas o que se há de fazer? Vamos com cuidado, tocando num ponto ou noutro e tentando manter a curiosidade pela leitura, não da resenha mas do próprio romance.
A narrativa é ambientada na década de 90 do século passado. Dois amigos, estudantes de jornalismo, sentem-se indignados quando uma vendedora de biscoitos tem um enfarte e morre em seus braços. Os dois, no entanto, não demoram a descobrir que a causa da morte da mulher é outra, fruto do “Escândalo da Amarelinha, caso em que a máfia dos laboratórios revendia ao Estado remédios falsificados por preços acessíveis”.
Estão envolvidos um deputado federal e alguns vereadores da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Uma vez que estamos num período em que as pessoas se indignam mas não tomam atitude alguma e as CPIs nunca dão em nada, Gonzáles e Cito, os dois amigos, decidem fazer justiça com as próprias mãos. Criam uma organização cujo nome é: Comando Terrorista Anticorrupção.
Não vamos dizer que se trata de romantismo adolescente ou juvenil. O tal comando vai se municiar de muita dinamite. Quase ao acaso, seus dois únicos integrantes (ao menos no início, porque depois se juntará a eles uma mulher fatal) travam relações com dois veteranos do ETA, um vive clandestinamente no Rio de Janeiro, o outro está apenas de passagem. Eles tornam-se úteis ao Comando, sobretudo quando a necessidade é o conhecimento e manuseio de explosivos. Acabam colaborando sem segundas intenções, e até mesmo ignorando o que os jovens almejam. A partir daí, nos tornamos todos terroristas. Quem não quer ver um político corrupto "voar" pelos ares?
Muito corajoso o escritor ao discutir a questão do terrorismo num período pós-11 de Setembro. É digna de louvor a iniciativa da editora Record, que possibilitou a publicação. Habitássemos um país de caça às bruxas, dir-se-ia que o romance faz apologia à luta armada. Mas nada disso. A literatura não tem esse poder e, ao mesmo tempo, não pode negligenciar qualquer assunto.
O romance é composto de prólogo e três partes. Ambientado no Rio de janeiro, em sua maior parte nos bairros de Botafogo, Ipanema, Leblon e Gávea, onde seus personagens transitam entre bebedeiras, sexo, drogas, muito rock’n’roll, alguns clássicos da MPB, jazz e também Chico Science.
Desfilam mulheres esculturais, gays, lésbicas, um policial corrupto e trupes de teatro. Não faltam cenas vividas nos bares do baixo Gávea e filmes do circuito Estação. O futebol também dá o ar de sua graça com jogos do Botafogo no Maracanã, já que os dois protagonistas são botafoguenses doentes.
Contando em primeira pessoa, o narrador, ao antecipar alguns acontecimentos, cria um artifício que faz o leitor não querer abandonar o livro. No final, ao se descobrir onde esse narrador se encontra, percebe-se, porém, um ligeiro problema. Ele, por pelo menos duas vezes, não poderia saber, num espaço tão curto de tempo, tanta coisa que não presenciou.
A intromissão de Crime e castigo, de Dostoievski, lido pelo personagem Cito e base teórica da ação do Comando, também é problemática, porque ao leitor que não conhece a obra do escritor russo fica a impressão errônea de que ele incentiva o terror. Como, no entanto, a literatura não tem grandes compromissos com a realidade, pode-se olhar tudo como farsa.
Apesar de ser o primeiro romance de Márcio Menezes, o livro tem grandes chances de se tornar um best-seller. Surpreende que as livrarias não o apresentem nos estandes de entrada nem a editora se preocupe em fazer uma divulgação mais intensa da obra. Afinal, quem tem medo da literatura?
Todo terrorista é sentimental, de Márcio Menezes. Grupo Editorial Record. 352 páginas. R$ 42,90.
segunda-feira, junho 06, 2011

Haron Gamal
Escrever uma biografia envolve sérios riscos. O primeiro deles é a demasiada paixão pelo biografado, a ponto de fazer o pesquisador não se reservar o direito a certo distanciamento crítico. O segundo é que, na maioria das vezes, é preciso tomar decisões sobre o caminho a seguir, uma vez que ao biógrafo não são oferecidas as margens plácidas da neutralidade. João Paulo Cavalcanti Filho, ao escrever o extenso livro Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia, conseguiu sair ileso de ambos os problemas.
Talvez o que tenha de mais original – e que deve ser elogiado – nesta nova biografia sobre o autor de Mensagem é a inserção de escritos de sua própria lavra, fazendo o livro parecer, como ressalta o subtítulo, “uma quase autobiografia”, permissões, quem sabe, da pós-modernidade. Cavalcanti deixa o escritor falar, e nos alerta: “Este livro, pois, não é o que Pessoa disse, ao tempo em que o disse; é o que quero dizer por palavras dele. Com aspas é ele, sem aspas sou eu”. E segue a obra. João Paulo confessa que constrói períodos com estrutura parecida aos do poeta, com o objetivo de imitar-lhe o estilo.
O biógrafo pernambucano demonstra ter feito vasta pesquisa não apenas bibliográfica, mas saiu a campo, como se pode observar nos minuciosos relatos sobre os lugares onde Pessoa viveu e transitou. Remanescentes que presenciaram os últimos anos do autor, sobretudo descendentes de seus tios, irmãos e amigos próximos, foram entrevistados, com o objetivo de se chegar sempre mais perto de sua figura e da Lisboa em que viveu. Mas percebe-se que Pessoa é sempre fugidio. O melhor dele ainda está na própria obra.
Vários – Fernando Pessoa, segundo a obra, teve 127 heterônimosO detalhado livro é dividido em quatro partes, nomeadas atos, como no teatro: Em que se conta dos seus primeiros passos e caminhos; Em que se conta da arte de fingir e de seus heterônimos; Em que se conta de seus muitos gostos e ofícios; Em que se conta do desassossego e do seu destino.
Na primeira parte, os fatos mais importantes na vida do futuro poeta são as marcas deixadas pela perda do pai e da pátria, com ele ainda criança. O novo casamento da mãe com um homem que assumiria na África do Sul a função de cônsul interino de Portugal obriga a família a viajar para longe, fixando-se no continente africano (África branca, como diz Cavalcanti Filho). Fernando Pessoa vive por lá o restante de sua infância e parte da adolescência.
Fica para trás Lisboa, uma espécie de paraíso perdido, e aflora a saudade, tema sempre presente na poesia portuguesa e em muitos dos poemas do autor: “Nunca voltarei./ Nunca voltarei porque nunca se volta. / O lugar a que se volta é sempre outro”. Nessa primeira parte também somos apresentados a Ophelia Queiroz, sua eterna namorada. Ela sempre teve esperança de se casar com o poeta, mas a aliança não se concretizou. A amizade com Mário de Sá-Carneiro também lhe é marcante, “seria a mais sólida e duradoura amizade, a única a que verdadeiramente se entregaria”. O suicídio de Mário em Paris, em 1916, o afeta profundamente.
Marca maior de originalidade em Fernando Pessoa é a criação dos heterônimos, tema estudado no segundo ato. Seu mais recente biógrafo chega a enumerar 127 deles, fazendo um levantamento do que escreveram e de suas biografias (quando tiveram).
É lógico que os de obras e biografias mais extensas são a de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Alexander Search, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Mas há também heterônimos que só escreveram um fragmento de texto, ou mesmo alguns que são apenas citados mas nada escreveram.
Havia apenas planos para eles nos escritos deixados pelo poeta. Estes últimos não são contabilizados. Fernando Pessoa, ele mesmo, também é tratado como um heterônimo. “Você, quando escreveu em seu próprio nome, não foi menos heterônimo como qualquer um deles”, disse, numa ocasião, Jorge de Sena. Talvez muita gente não saiba, mas nos encontros com Ophelia, com outros escritores e com amigos mais próximos, o poeta muitas vezes se apresentava como Álvaro de Campos, ou mesmo como algum outro heterônimo.
Um capítulo de destaque ainda na segunda parte é O poeta é um fingidor. No trecho, o autor discorre sobre as características da obra de Pessoa, como a precisão da linguagem, o rigor da forma, a ironia, o discurso de contradições, o uso do oxímoro, e a arte de fingir como estética, o que permitiu a existência de tantos heterônimos.
No capítulo As revistas, é descrita a participação de Pessoa nas revistas literárias, já que ele publicou mais nesses periódicos do que em livro durante toda a vida. Também é contada em pormenores a história da principal revista que mudou o destino da literatura portuguesa no século 20, a Orpheu, com apenas três números, mas o suficiente para fazer história.
O périplo do livro Mensagem, o único em português publicado em vida por Fernando Pessoa, também é narrado em capítulo à parte, ressaltando-se o concurso em que obteve um segundo lugar, na verdade arranjado por Antonio Ferro, seu amigo e um dos responsáveis pela disputa. Ferro abriu uma brecha no regulamento para criar uma espécie de segundo prêmio na categoria poesia. Assim, Pessoa pode ser contemplado, já que os jurados, numa postura pró-Salazar, não optaram em lhe dar o prêmio. Hoje se sabe que ele, naquele tempo, mudara sua postura e passara a atacar o ditador.
José Paulo Cavalcanti Filho procura investigar a vida, a obra e a morte de Fernando Pessoa por todos os ângulos. Explora desde o suposto homossexualismo, do qual discorda, até suas dificuldades, a caótica vida financeira. Não foge também da questão do alcoolismo, sob o qual viveu Pessoa até o fim da vida, e investiga os últimos dias do poeta e as causas de sua morte.
Fernando Pessoa, é bom ressaltar, não viveu de literatura, foi uma espécie de tradutor comercial, e morreu pobre. Foram poucos os acadêmicos de seu tempo que deram o devido valor que sua obra merecia. Após a morte, tornou-se reconhecido e estudado, tendo hoje praticamente toda a sua obra publicada.
Interessante é que Cavalcanti Filho, apesar de ser escritor e de escrever sobre um dos maiores poetas da literatura em língua portuguesa, não é da área de letras, mas advogado. Portanto, percebe-se que a poesia maior consegue romper o círculo dos professores e estudantes de literatura e chegar a pessoas de outros interesses profissionais.
Fernando Pessoa – Quase uma autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho. Editora Record, 736 páginas. R$ 79,90.
domingo, maio 15, 2011

"O irmão gêmeo de Sigmund Freud"
A burguesia alemã da primeira metade do século 20, caso espelhada no doutor Gräsler, protagonista de O médico das termas, bem que mereceu o destino que lhe veio bater à porta. Arthur Schnitzler (1862-1931), que já apareceu traduzido outras vezes para o português, como em Crônica de uma vida de mulher, mais uma vez brinda o leitor com uma novela em que através de apurada análise psicológica desvenda as mais sutis características da alma humana. O autor vienense chegou a ser chamado de irmão gêmeo de Sigmund Freud. Se em Crônica ele centrou a vida europeia no universo feminino através de Therese Fabiani, neste último ele apresenta uma narrativa sob a ótica masculina, e sob a máscara de um médico, Emil Gräsler, alguém sempre invejado e, teoricamente, pleno de respeito.
O texto começa com um navio prestes a zarpar, o que não deixa de ser um indício sintomático do comportamento volúvel do próprio doutor Gräsler, alguém sempre à beira de tomar uma decisão que é adiada continuamente, até ser atropelado pelos acontecimentos e perder o domínio do seu próprio destino. Isso acontece durante toda a narrativa, começando por sua partida de uma estação de veraneio, onde atuava como médico de um hotel, até o final, quando, depois de um ano de titubeios e incertezas, de três mulheres que lhe passam pelas mãos, está de novo a chegar ao lugar de onde partira. Na verdade, uma história circular.
Ainda no início, o gerente do hotel está no cais a se despedir do médico, agradece-lhe efusivamente a presença, lamenta a morte da irmã – sim, o doutor Gräsler tinha uma irmã, que também era sua governanta, mas ela se suicida misteriosamente na estação de veraneio, lá pelo final descobrem-se os motivos – a e a dizer que, ansioso, o espera para a temporada do próximo ano.
O médico passa por Berlim e retorna à pequena cidade onde costumava exercer sua clínica médica durante o restante do ano. O que mais faz, no entanto, é levar uma vida de bon vivant, almoçando, fumando charutos caros e debatendo futilidades com os amigos da mesma espécie. Ele, que está à beira dos cinquenta anos, nunca atendeu nenhum caso mais sério no seu consultório de província. Até que lhe esbarra pelo caminho Sabine, uma jovem mulher muito culta, de 26 anos e bem mais madura do que ele.
Ela procura-o devido a uma indisposição sofrida pela mãe. Com o correr do tempo, o médico, muito espertamente, passa-lhe a frequentar a casa. O pretexto para tais visitas é que ele deseja informações sobre o estado de saúde da senhora sua mãe. A família trata-o bem, e é composta pelo pai, que foi cantor de ópera, tendo deixado a profissão por motivos de saúde, a mãe, Sabine, que estudou teatro mas tem queda pela enfermagem, e o irmão, ainda um jovem estudante.
O doutor Gräsler torna-se íntimo de todos e passa até mesmo a participar dos almoços de domingo. Após as refeições, passeia com Sabine pela floresta que há nas redondezas, já que a casa onde a família mora é a da antiga guarda florestal.
Mas aproxima-se o momento em que o doutor terá de tomar uma decisão, tanto profissional como sentimental. E decisões não é o seu forte.
No comportamento com as mulheres é que se pode notar o caráter mesquinho do médico. Sabine chega a se oferecer a ele em casamento. Tudo que ela deseja é que o doutor adquira um hospital decadente, reforme-o e se torne o médico responsável. Ela oferece ainda o dinheiro para a compra e para as obras, caso ele não o possua e, com o intuito de ajudá-lo, propõe ser a administradora. Mas Gräsler é um covarde, a pecha de médico de termas nunca há de desgrudar-lhe. Parte para Berlim alegando ter de resolver problemas relativos ao testamento da irmã, pede um tempo para responder às propostas de Sabine. Demora a decidir. Enquanto isso, na cidade grande, cai de amores por uma outra mulher, Katharina, balconista de uma loja de luvas. Convida-a para o teatro, presenteia-a com chocolates e algumas jóias, leva-a, enfim, para morar em sua casa enquanto ele pensa no que vai fazer da vida.
A narrativa de Arthur Schnitzler é leve, irônica e vai-se realizando em ordem cronológica. É desenvolvida apenas a partir de um núcleo, o da vida do médico das termas, e progride de acordo com suas andanças, por isso melhor chamá-la de novela. Há mergulhos no passado quando o protagonista desvenda, através da descoberta de um pacote de cartas, a vida pregressa e secreta da irmã.
O escritor vienense apresenta-nos um personagem que, apesar de médico, em momento algum deixa de se colocar em primeiro plano, sente-se sempre injustiçado, vítima do destino, não repara que pessoas como ele, Gräsler, ao negligenciar pequenas decisões, negligenciam o papel que deveriam assumir na vida coletiva. A Europa fervilha à sua volta, e a própria febre que vez ou outra ele tenta debelar nos seus pacientes é, na verdade, a febre que consome todo um continente. Apenas ele não a percebe.
O médico das termas
Arthur Schnitzler (tradução - Marcelo Backes)
Ed. Record
sexta-feira, abril 29, 2011
Lúcia e o céu de diamantes
Esses jovens executivos sabem tudo, ou pelo menos sabem fingir. É possível surpreendê-los, mas precisa-se de tirocínio. A palavra é tão antiga, que o processador aponta erro na grafia. Mas existe, e é assim a escrita. Eles, jovens de terno impecável, conhecem todos os indicadores financeiros, as estatísticas, os índices das bolsas de valores, o que está por vir e o que não está. Em nada lembram a antiga cartomante. Que também adivinhava mas tinha romantismo. Eles nos levam a bares de balcões prateados, mesas siderais, copos em forma de torpedo. Nos oferecem bebidas e cogumelos. Não os produzidos pela natureza, mas os das explosões. Fortes esses jovens, destruidoras suas bebidas. Um paradoxo, mas são elas que os mantêm vivos. Quanto ao amor? Talvez não seja essa a palavra, mas existe alguma coisa parecida. Não lhes bastam o corte do terno italiano nem os carros japoneses. Chegam, miram-nos, e lançam o dardo. Geralmente certeiros. Sabem sorrir, embora assépticos os sorrisos. Nenhum vírus. Mergulha-se em seu mundo, que não tem céu nem diamantes – que saudade da Lucy, ela está morta. Ficamos apenas os dois, eu e meu jovem, mente brilhante do mercado de dados, homem arrasador, frações de segundo e milhões acariciam-lhes as mãos. Em que moeda? Basta escolher. Há de tudo, farta a cesta. Leva-me em seu carro. De fora, mesmo em movimento, parece que não vai com viva alma. Ele o dirige com arrojo, em pleno centro de São Paulo, mas tem o coração de um principiante. Sim, ao menos no amor, são garotos inexperientes. Trepam com as cifras do mercado, com o risco que sempre dobram, já com uma mulher... Bem, com uma mulher precisam de mais um reforço. Saltamos na garagem de um prédio de trinta andares, nos Jardins. Já bebemos todos os metais, metais azuis, verdes e vermelhos. Falta-nos o que caracteriza o humano: pele e músculos. Nossas roupas de fibra nos escondem. Subimos. O álcool já nos deixou lá em cima, mas ainda faltam os andares. O último é o dele, a cobertura, plataforma de lançamento, visão perfeita sobre a cidade-mundo que matou todos os cães. Sobre os outros prédios, agudas antenas inúteis levam bilhões em mercado futuríssimo, mas nenhuma esperança de mulher, nenhum verso de Camões. Cervantes e Shakespeare morreram, mas esses jovens nada sabem sobre isso. Acumula-se uma montanha de ouro, não há quem, no entanto, possa dizer o que fazer com ela, apenas sugere-se que se compre outra, e ainda outra, e mais outra. Mas voltemos à adrenalina, a todos os nossos ácidos. Ainda falta o último. Sempre estamos em busca do derradeiro. No nosso caso, o gozo sobre a mureta, com a cidade lá embaixo. Meu jovem executivo despe-me. Não o sabe fazer sem rasgar-me. Enfim, aponta-me uma pistola. Bela a arma, reluz quando a cidade espoca seus holofotes, astros trêmulos ante meu recente e audaz cavaleiro. Obriga-me a deitar sobre a mureta do trigésimo andar. Depois trepa e cavalga sobre o meu corpo. Onde vamos os dois? Deixo que me leve e que goze à beira do despenhadeiro. Gozo agora ou deixo para o momento em que estivermos bem próximos do chão, nossos corpos ainda a flutuar... no ácido e no ar? Oh, a morte, ou a proximidade dela, uma espécie de orgasmo. Tanto maior quanto mais alto o precipício.
domingo, abril 17, 2011

Aventura Religiosa
Andrea Frediani, em seu romance Jerusalém, narra a primeira cruzada empreendida pela cristandade empenhada em recuperar a terra santa em poder dos árabes. O ano é de 1093. Aproveitando todos os recursos disponíveis à ficção, o autor coloca lado a lado personagens históricos e personagens fictícios. O resultado é bastante positivo. Também é boa a sua pesquisa sobre a geopolítica do início do segundo milênio, quando a Europa ainda engatinhava num precário equilíbrio, situação tanto mais conturbada quando se voltava para o oriente, sobretudo considerando-se as derrotas infligidas pelos turcos ao Império Bizantino.
Para tornar a história ainda mais apimentada, Frediani remonta a um antigo manuscrito que sobreviveu a todas às intempéries vividas pelo povo judeu. O texto, passado de geração a geração, teria sido um diário escrito por Tiago, suposto irmão de Jesus Cristo e o herdeiro da igreja primitiva após o martírio. No romance, há interesse do papa em recuperar o documento – há notícias de que ele se encontra dentro da cidade sagrada, Jerusalém – pois revelaria verdades incômodas ao cristianismo, como sobre quem foram os verdadeiros responsáveis pela condenação e morte de Cristo. O manuscrito assinalaria ainda que o Cristo tal qual o conhecemos foi uma vitória das concepções religiosas de são Paulo, que atenuou em Jesus suas características mais judaicas, universalizando seu pensamento e levando-o para o mundo helênico. Mas, é lógico, esse manuscrito nada mais é do que um artifício literário.
O romance ao mesmo tempo em que narra a preparação e execução da cruzada relata os pormenores dos conflitos de interesses entre os reinos do velho continente, Igreja e as ambições da então nobreza que se dispões a participar do evento. A mola mestra da mobilização é a possibilidade de maior enriquecimento proporcionado pelos possíveis tesouros que Jerusalém abriga. Os comandantes prometem a seus soldados maior parte no butim a partir do momento em que eles consigam vencer as muralhas da cidade sagrada. O objetivo religioso da cruzada, na verdade, era uma questão menor.
Outro assunto bastante pertinente à época de hoje é o caráter tolerante da cultura árabe, sempre diminuída e negligenciada pelo ocidente, mas, aqui, valorizada pelo autor através da figura de um emir, Jamal. Utilizando argumentos sensatos, ele consegue explanar sobre a beleza e sabedoria existentes no Alcorão, um livro que, ainda segundo ele, incita à paz e à tolerância, mesmo num momento de guerra.
Os judeus, sempre perseguidos e dizimados, ocupam boa parte da narrativa, tendo na sua sombra a pseudotolerância da Igreja Católica, que nunca os deixou de culpar pela morte de Cristo. Mas o livro tenta recuperar outra realidade. Duas irmãs, Sara e Rebeca, protagonizam essa aventura, sendo a segunda extremamente culta e capaz de sustentar acalorados debates tanto com os padres, com os árabes ou mesmo com os próprios rabinos. Ao mesmo tempo, ela acaba tornando-se uma das guardiãs do manuscrito de Tiago, que lhe chega às mãos através de um peregrino que vai à Mogúncia à procura de seu pai, um rabino na região do Reno. Após a morte deste, num extermínio executado por cristãos a caminho do Oriente, ela e a irmã são salvas por um cavaleiro até então desconhecido, fugindo a seguir para a Palestina e se estabelecendo no bairro judeu de Jerusalém. Na ocasião, a cidade sob domínio muçulmano, está quase com os cruzados às suas portas.
O romance é dividido em quatro partes denominadas: Caminho, Assalto, Assédio e Conquista. O autor, especialista em história medieval, soube transformar o assunto em uma bela narrativa, que segue o esquema de romance de aventura. Os protagonistas são os personagens que na verdade não exercem papel determinante na História, mas suas condutas revelam uma ordem de valores que não frequentava a mesa da dominação vigente, tanto a exercida pela Igreja, como pelos reinos europeus. Embora a história seja escrita pelos vencedores, aqueles que não fizeram parte deste grupo contribuíram para mostrar que a verdade quase nunca está do lado do vencedor.
Um episódio interessante ocorre quando um dos árabes negligencia o poder dos cruzados após a primeira tentativa de assalto, que se tornou frustrada. Jamal, que caíra antes como prisioneiros dos cristãos e fugira diz: “o que os torna perigosos é que eles nada têm a perder nem têm para onde voltar.” Tal passagem denuncia as cruzadas como movimentos de mobilização que puderam levar para longe os problemas que muitos reinos e a própria Igreja tinham nos seus calcanhares.
No final do livro, apesar dessa primeira vitória da cristandade, que recuperou Jerusalém ainda que por poucos anos, fica a impressão de que a lama que respingou na Igreja Católica por causa do massacre no momento da conquista jamais desapareceu. Por outro lado, veem-se com certa simpatia os povos árabe e judeu, que na narrativa cooperam um com o outro e sofrem juntos as investidas da Europa cristã.
Jerusalém, de Andrea Frediani.
Editora Bertrand Brasil. 574 páginas.
R$ 55.
sábado, abril 02, 2011

O difícil percurso do olhar
O poema, sempre difícil de ser analisado, ou mesmo percebido, constante obstáculo para o leitor, eis que surge e se oferece à decifração. Mas se não o deciframos, não seremos por ele devorado. O poema não é uma esfinge. Ou me engano? Desejam-se as suas palavras como se deseja a placidez de um rio caudaloso em estação de estio. Mas logo sobrevém a tempestade, e a mesma paisagem, que tanto nos acalmava, torna-se ameaçadora, a ponto de nos arrancar de onde a observávamos, lugar que antes julgávamos seguro. Oh, impossível o sublime kantiano, acompanhar a tempestade, em toda sua plenitude, fora dela. Seria bom se a poesia tivesse a mansidão desse rio, qual o rio de Heráclito, mesmo que nele não fosse possível ver duas vezes nossa própria face. Seria bom ler poesia sem se deixar contaminar, sem termos de levar para casa, ainda que tão somente, uma gota de toda essa lama.
Assim, umas vezes como placidez, outras tantas como tempestade, chegam-nos os versos de Tanussi Cardoso. Em Exercício do olhar, como assegura o próprio nome do livro, exercita-se os vários modos de percepção da subjetividade, exercita-se nossa capacidade de sobrevida dentro da arte poética, ou mesmo – talvez o impossível – a capacidade de sobrevivência humana fora de toda essa tormenta.
Iniciando-se com “Óvulo I”, a poesia se apresenta como larva. Então, perguntamos? Do que é capaz uma larva? Já sabemos a resposta. Afinal, tudo começou com uma larva. Eis o início: “que bicho se abrirá em palavra?” Através desse pequeno verso, viaja-se não apenas pela história humana, mas também através da literatura em língua portuguesa. Lá está Camões, com o seu bicho da terra tão pequeno, depois Drummond, que retoma Camões e apresenta esse bicho ainda bem pequeno, mas como protagonista de outras viagens, odisséias modernas. O autor de Exercício do olhar atualiza o tema e o lança à posteridade, pois a viagem continua, e a poesia-larva há de se multiplicar abrindo-se em palavras, constituindo novos mundos, constituindo a própria liberdade, que é o que caracteriza o ser humano. Nada melhor para mostrá-lo livre do que o ato criador, no caso do poeta, sua escrita, tema do segundo poema, “Certas palavras”. Vai assim o desenrolar do livro, versos falando da língua, das palavras, da arte, de outros autores e de todas as possibilidades e impossibilidades.
O bom poeta nunca cabe em si próprio. Aliás, ninguém cabe em si próprio, mas, melhor do que o poeta para expressar tal preocupação não há: “porque todos os mistérios são santos, / não nomearemos o nome das / coisas.” Mas o que é o fazer poético senão o ato de nomear, mesmo negando-o? Escreve-se, nomeia-se, caso não se o faça com o nome conhecido, cria o autor uma nova maneira de dizer, um novo nome. Logo, nomeia-o do mesmo modo, embora à sua maneira. E assim avança Exercício do olhar.
O livro divide-se em três partes: o tempo, os dias, as noites. “Constrói o tempo teias e ruínas”, e nada melhor do que a poesia para fazer esse inventário, mostrando que o tempo também é construído por palavras: “O olho no olho do poema / que se anuncia / o olhar nosso de cada dia.”
Em “os dias”, confessa o poeta: “quando na superfície / o verbo / vem da falta.” Talvez pudéssemos, aqui, conjecturar que a poesia vem tentar preencher o que nenhuma outra atividade humana conseguiu. É possível dizer que, se os outros ramos do conhecimento dessem conta da vida, não necessitaríamos da arte, nem da poesia. Mas se apresenta o artista e, para causar vertigem nos estudiosos das outras áreas do saber humano, diz: “porque partimos / cegos / não há luz sol estrelas.” O poeta ou cantor, mesmo cego, como Homero, vem lembrar a existência da luz, feito que esses outros, portadores de técnicas capazes de erigir engenhos tecnológicos, não foram capazes de perceber. “Os dias” ainda mostram a carnalidade da poesia: “a palavra / orgasmo / abre-se tônica / bem no / meio / da carnalidade”, e, mais adiante, a carne vai irmanada à transcendência: “voo cego / de águia / desmaio / salto no / abismo / sem ar”.
Entre palavras discutindo as próprias palavras, palavras expressando o corpo e o amor, chega-se à ultima parte, “as noites”, em que a escrita revela, em “as sombras são”: “as sombras se esquecem / de si mesmas / e saem a espantar / as coisas, / à noite.” Espanta-se o poeta, espanta-se o leitor, a constatarem a poesia, esse fio tênue, capaz de atingir senão o cerne das coisas – hoje, duvida-se de que as coisas tenham cerne –, ao menos a levar ao ato de reflexão máxima, à descoberta surpreendente do que é estar vivo: “a cada poema / que se faz / adia-se a morte / até a manhã / de um novo / poema.”
Difícil falar mais sobre um autor de extensa e diversa obra – Boca maldita, 1982, Beco com saídas, 1991, Viagem em torno de, 2000, A medida do deserto e outros poemas revisitados, 2003, Exercício do olhar, 2006, e 50 POEMAS escolhidos pelo autor, 2008, – com elogios de inúmeros autores conceituados, como o do prestigiado acadêmico Antônio Carlos Secchin: “um dos pontos altos é o belo tom elegíaco que você empresta a tantos poemas" (sobre o livro: Viagem em torno de).
Retornando ao início dessa matéria, poderíamos perguntar: a poesia de Tanussi devorou o leitor, caso ele não a tenha decifrado? Certamente, não. Às vezes, como em toda escrita poética, a decifração torna-se difícil, e sabe-se que, para ela, não há apenas uma possibilidade de leitura, mas múltiplas. Então, não mais se teme a esfinge, admira-se e louva-se a sua beleza.
Exercício do olhar
Tanussi Cardoso
Editora Fivestar, 145 páginas.
segunda-feira, março 28, 2011
Era o verão de 1972, uma época boa, tínhamos esperança quanto ao futuro e queríamos a liberdade absoluta. Uma vez que recusávamos as grandes cidades, morávamos em acampamentos à beira de praias distantes. Outras vezes íamos para locais de difícil acesso, no interior. As pessoas nos chamavam de hippies, e nós, até certo ponto, acabamos gostando do nome. Embora no mundo inteiro o movimento entrara em declínio, não queríamos pensar nisso. Andávamos de um lado para outro quase sempre em festa. Alegres, preocupávamo-nos apenas com o dia em que estávamos vivendo. Caso tivéssemos o que comer, beber e fumar naquele momento, estava bom.
Fui parar não sei como numa praia do norte da Califórnia. Se perguntar hoje onde fica essa praia, não sei dizer. Sei que havia um camping, e entre os acampados viviam alguns rapazes e moças. Os rapazes eram mais numerosos. Notava-se que eram de boas famílias, mas decidiram largar o conforto do lar e adotar aquela vida. Montavam e desmontavam barracas, subiam e desciam a serra, viajavam de carona. Com que dinheiro viviam? Não sei. Acho que alguns arranjavam com os próprios pais; outros se orgulhavam em dizer que eram artistas: pintores, escultores, artesãos etc. E vendiam o que produziam. Juntei-me a eles.
Um dos rapazes tornou-se meu amigo; depois, meu namorado. Aonde quer que eu fosse, ele me acompanhava. Naquela época eu tinha vinte e seis anos, nunca trabalhara, deixara para trás a cidade do interior em que nasci e viera me aventurar em Los Angeles. Tinha apenas uma pequena mala com poucas roupas.
No acampamento também apareciam pessoas em férias. Diziam gostar da vida em meio à natureza. Não era difícil fazer amizade com elas e até mesmo ganhar alguma coisa, como um prato de comida ou mesmo mantimentos para cozinhar nas nossas barracas. Os turistas gostavam de nos ajudar, acho que queriam ser como nós, mas não tinham coragem. Então, facilitavam-nos a vida.
O rapaz, meu amigo, era calado, não agia como os outros, que participavam de divertimentos, como jogos de vôlei e de futebol. Ele gostava de ficar na praia, principalmente ao entardecer, olhava o horizonte, pensativo. Eu o acompanhava nessas horas, nada falava, deixava-o entregue à sua meditação. Às vezes andávamos durante algum tempo pelas areias da praia. Lembro que na época eu não tinha biquíni. Tivera um, mas me roubaram no acampamento. Assim, não entrava no mar quando ele insistia. Dizia para eu tirar a roupa e mergulhar nua. Mas eu não tinha coragem.
Ele era muito jovem, acho que seis ou sete anos menos que eu, e tinha casa, pai e mãe. Mas não queria voltar para lá. Também não pensava muito como ia fazer dali para frente.
Certa vez, disse a ele:
“Você deve pensar bem sobre o seu futuro. É muito bonita essa vida, mas não é possível sobreviver assim por muito tempo. É preciso ter dinheiro, ou se morre de fome.”
Ele me ouviu, mas nada comentou. Começou então a rolar um amor entre nós. Mas sem combinação alguma. Não tínhamos compromisso um com o outro nem sentimento de posse. Acabei dormindo com ele. Nas primeiras noites, nada aconteceu. Mas, depois, começamos a fazer amor. Era muito comum na época a expressão, “fazer amor”. Dali em diante, passamos a ficar juntos, dias e noites. Divertíamo-nos muito. Seus amigos nos observavam e lhe diziam que se afastasse de mim, que eu não era boa companhia. Mas era tudo brincadeira. Na época, fumava-se muita maconha, cheguei até a experimentar ácido. Eu não era exceção. Ele, no entanto, não tinha a tendência de fumar muitos baseados. Dizia que preferia o ar puro das manhãs, e sempre carregava livros, principalmente de poesia, também escrevia.
Um belo dia – fazia uns três ou quatro meses que vivíamos juntos – quando estávamos prestes a partir mais uma vez sem destino, senti que tudo aquilo começava cheirar a um romantismo barato demais. Não sei se surtei, mas resolvi dar um basta.
“Você acha que dá mesmo para viver assim, sair viajando por aí de carona, sem dinheiro no bolso, sem destino?”, havia filmes na época que incentivavam nosso imaginário.
“Sempre dá”, eram poucas as suas palavras.
“Não vou com você, me entende? Não vou, já tenho dez anos de estrada, sei como é essa vida, não estou mais para isso.”
“O que você vai fazer?”, seus olhos sempre me transmitiam alguma melancolia.
“Vou com a Shirley. A mãe dela me ofereceu para morar com eles. Ajudo no serviço da casa, depois tento arranjar um emprego, quem sabe estudo...”
“Você vai ser empregada doméstica?”
“Não é isso, vou morar com ela, ajudar em alguma coisa.”
“E onde ela mora?”
“Ainda não sei, acho que num subúrbio, me dê um número que depois eu informo a você”, sugeri.
“Está bem, então vá”, não opôs resistência e ficou olhando na direção do mar.
Para dramatizar a situação e tentar comovê-lo, ainda falei:
“Tem mais uma coisa.”
“O que é?”
“Vou morrer cedo.”
“Morrer, como você sabe?”
“Fiz um exame do coração faz algum tempo, o médico é amigo meu, falou que não tenho muito tempo de vida.”
“Poxa, verdade?”, foram suas últimas palavras.
“Verdade”, levantei-me e saí dali chorando, sem olhar para trás. Ele não percebeu.
Hoje, penso onde andará toda aquela geração... Alguns se engajaram no mercado de trabalho, prosperaram, enquanto outros morreram, ou enlouqueceram devido ao consumo excessivo de drogas.
Sempre quando vou a uma livraria, olho os livros de poesia e procuro o seu nome sobre a capa de um deles. Mas nunca encontrei.
Quem sabe agora com o Facebook ou com o Google eu consiga localizá-lo? Ele vai se surpreender. Pode ser que tenha entrado para uma universidade, se formado, se tornado alguém importante. Pode ser realmente um poeta. Eu é que não tive até hoje competência para encontrar um livro seu.
“Você não falou que iria morrer logo?”
Terei que inventar uma desculpa.
sábado, março 26, 2011
sexta-feira, março 11, 2011

O poder ultrajovem
Reedição de crônicas de Carlos Drummond de Andrade surge num momento em que o gênero se encontra negligenciado
Era bom quando tínhamos um poeta maior que, além de produzir extensa e múltipla obra poética, também escrevia três crônicas por semana no antigo JB. Bons tempos que não voltam mais. Um poeta que não estava só a surpreender os costumeiros leitores do gênero, mas também àqueles que não liam poesia.
Talvez com Drummond, em termos de Brasil, a poesia se tenha tornado até certo ponto popular. Quem nunca ouviu falar de “José”, de “No meio do caminho”? O poeta, que tratava a palavra com tamanha maestria, não a renegava na crônica, gênero até certo ponto, conforme nos ensinam os manuais, fugaz.
Crônica vem de Cronus, deus do tempo na antiguidade clássica, também conhecido como Saturno, aquele que devorava os próprios filhos. Quem escreve crônicas não está apto a falar de deuses, mas de assuntos do tempo, desse tempo que passa muito rápido, deixando-nos com traços no rosto e mais próximos do fim. Logo, a crônica também acaba passando. Mas não é isso que acontece com o gênero quando se trata de Carlos Drummond de Andrade.
Caso procuremos nos muitas vezes soturnos departamentos de letras das universidades públicas, vamos encontrar dissertações e teses que tentam provar que a crônica drummondiana é do mesmo quilate de sua poesia. Quer dizer, poesia e crônica, quando se trata do autor de A rosa do povo, não possuem diferença. Portanto, é de se louvar e desejar que sempre se reeditem as crônicas de Drummond. É isso que faz a editora Record com a nova edição de O poder ultrajovem, conjunto de textos escritos pelo poeta por volta do final da década de 1960 e início da seguinte. Neles, predominam sutileza, leveza e sensibilidade. Mas não deixam de fazer profunda análise tanto do ser humano como da época.
O livro começa com histórias protagonizadas por crianças ou adolescentes, que, na sua vontade férrea, como o ferro das calçadas de Itabira, conseguem dobrar os adultos: a menina a convencer o pai, no restaurante, de que tem o direito de escolher o próprio prato; o caso das crianças desconfiadas, que, muito a contragosto, deixam o autor segurar suas pastas escolares, ele que vai sentado no banco de um ônibus lotado; a mãe que acompanha o filho até uma casa abandonada para que ele recolha algo dali, caso contrário será objeto de escárnio entre os colegas da escola; a professora que tenta fazer um plebiscito na sala de aula para saber se deve lecionar usando calça comprida, mas chega à conclusão de que ser democrática dá muito trabalho; a história da adolescente que recorre ao poeta porque seu cãozinho comeu a capa e as primeiras páginas de um livro de Fernando Pessoa emprestado a ela pelo namorado. Ela quer o autógrafo de Drummond, não importa que não seja ele o autor do livro, o que vale é não desagradar o namorado.
Dentre muitos assuntos, algumas crônicas abordam outros escritores, como Cecília Meireles, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Guimarães Rosa.
Cecília é comparada a uma deusa, que chegou e se foi em novembro. Ela fez tudo que deveria ter feito para ter as feições de um ser humano, mas, na verdade, tratava-se de uma deusa. “Mulher bela? Sim, foi mulher bela. Grande poeta? Claro, foi grande poeta. Mas foi principalmente... deusa. Ah, o sorriso olímpico de seus olhos verdes, mas quem disse que o sorrir dos deuses é promessa de comunhão com os homens?”
Mário de Andrade é outro contemplado. O cronista rememora os vinte cinco anos da morte do autor de Macunaíma. “Até hoje não é fácil aceitar a perda de tudo que em Mário de Andrade foi criação e expansão humana.” Sobrepõe-se, no final do texto, a imagem do modernista de primeira hora morto, mas é um morto que ri, “junta os dedos em cacho e movimenta-os, exclamando: A própria dor é uma felicidade.”
Outro lembrado é Manuel Bandeira. Ao completar um ano de sua morte, Drummond escreve: “O poeta morreu coisa nenhuma. É abrir ao acaso qualquer de seus livros e tirar a prova.” O cronista relata três episódios interessantes. O primeiro, durante um almoço com Bandeira, em que este lhe diz que não se pode julgar com justiça os concursos literários, “tão melhor avaliar um poema, quando a gente o lê sem intenção de julgar.” Outro episódio é a revelação súbita de Bandeira: “Carrego comigo duas tristezas, nunca amei uma portuguesa nem uma negra.” E ante a surpresa de um admirador, que lhe pergunta na rua sobre o segredo de sua mocidade apesar da idade avançada, Bandeira responde: “Sofrimento.”
E nesse ritmo vão as crônicas. Para não ficarmos apenas nos episódios que relembram amigos que já se foram, há momentos que revelam humor e ironia, como na crônica “Assalto”, em que uma senhora, ao pronunciar a explosiva palavra diante do preço exorbitante do chuchu, numa feira livre, põe a rua em polvorosa.
Há crônicas de espírito bem carioca, como a que registra o aparecimento de dois operários num andaime, ante a janela do autor. Este oferece a eles um cafezinho, e logo descobre que um dos pintores é compositor. O homem entoa um samba, sobre o próprio andaime, e acaba muito aplaudido pelo público, as outras pessoas que aparecem nas janelas do prédio de escritórios.
Como vivíamos o início dos anos 1970, não poderiam faltar referências ao futebol, à copa do mundo, e à ditadura militar, que aparece várias vezes sofrendo crítica velada, como no último texto do livro, o poema denominado “Copa do mundo 70”: “e de repente o Brasil ficou unido / contente de existir, trocando a morte / o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste / por um momento de grandeza.”
O poder ultrajovem
Carlos Drummond de Andrade
Ed. Record, 287 páginas
sábado, fevereiro 19, 2011

O pai da psicanálise e de muitos segredos
Entre fofocas e verdades, o destaque são os últimos anos de vida de Freud
Em A fuga de Freud há um capítulo em que o autor, David Cohen, comenta de modo muito eficaz o último livro escrito pelo criador da psicanálise. Apesar de dizer que Esboço de psicanálise não é um livro fácil, e que o pequeno volume não se destina a principiantes, Cohen acaba por tecer saborosos comentários sobre a obra, permitindo até mesmo ao leitor comum, que só conhece Freud ou a psicanálise de nome, a compreensão de certos princípios que regem o inconsciente. Então, A fuga de Freud não é apenas o retrato de uma fuga física de Freud e de sua família da Viena ocupada pelos nazistas, mas uma fuga – ou quem sabe uma escapulida inconsciente do próprio Cohen – em que o melhor da narrativa está nos assuntos adjacentes, e não propriamente no que o autor realmente desejava abordar. Assuntos como complexo de Édipo, sexualidade infantil, transferência, espaço da análise como lugar em que os pacientes não precisam ser civilizados soam com muita clareza.
O livro começa com menção a Anton Sauerwald, um Kommissar, funcionário designado pelos nazistas na década de 1930 para administrar e controlar empresas e bens de proprietário judeu. Ele passou a controlar não só os bens de Freud, mas também o seu destino. O psicanalista também era proprietário da editora Internationaler Psychoanalytischer. Apesar de a editora ser um desastre financeiro, o funcionário nazista foi acusado, depois da guerra, de se aproveitar de sua posição para apoderar-se não apenas dos livros, mas também do dinheiro da família Freud e de outros bens, como manuscritos, obras de arte e muitas outras coisas de valor.
Cohen também afirma que seu livro explicará “por que um nazista como Sauerwald tinha todos os motivos para esperar que a filha (Anna) e os amigos de Sigmund Freud fossem em seu socorro” depois da guerra, quando foi julgado pelos americanos no tribunal popular de Viena. Essa questão, no entanto, torna-se menor no livro. O que o autor faz é escrever mais uma biografia de Sigmund Freud, detendo-se nos últimos anos da vida do psicanalista. O kommissar da SS é mencionado apenas em quatro dos quinze capítulos que compõe o livro.
A principal queixa de David Cohen, logo no segundo capítulo, é sobre as restrições em vigor para consultas ao arquivo Freud, depositado na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Segundo ele, lá estão abrigadas 153 caixas de correspondência entre Freud e membros da família, amigos e pacientes. Há também anotações e outros documentos, mas nem todo o material pode ser lido. Alguns arquivos, diz o autor, só poderão ser abertos em 2020, 2050 ou 2057. Existem também arquivos fechados em caráter perpétuo.
Das biografias sobre Freud, Cohen se detém sobre o principal biógrafo do autor, Ernest Jones. Há indícios de que áHH o próprio Freud o nomeou como seu biógrafo porque sabia das dificuldades que ele teria para ser objetivo. A principal crítica do autor de A fuga de Freud a Jones é de que este tendia à idolatria, tendo evitado assuntos polêmicos sobre a vida do pai da psicanálise. Consta que o austríaco incentivou seu biógrafo a se tornar psicanalista porque ele vinha das hostes cristãs, e a terapia freudiana era acusada de ser uma ciência judaica. Cohen também afirma que praticamente nenhum dos biógrafos de Freud, nem mesmo Peter Gay, se detiveram nos últimos anos de sua vida, período que deve ser investigado com maior atenção.
Como não poderia deixar de acontecer, o livro também focaliza a ascensão do Nazismo e sua influência, sobretudo na Áustria, e tenta explicar por que muitos austríacos teriam aderido ao partido hitlerista a ponto de apoiarem a anexação da Áustria pela Alemanha. Podemos ler trechos da correspondência de Freud com intelectuais amigos seus, que partiram para o exílio, entre eles Arnold e Stefan Zweig.
Cohen além de comentar a produção intelectual do autor de A interpretação dos sonhos também esmiúça sua vida financeira, mostrando que Sigmund Freud não a negligenciou, e que, contra as leis em vigor na Áustria de então, possuía dinheiro no estrangeiro para caso de uma emergência.
Há insinuações sobre o relacionamento de Freud com várias mulheres. A primeira é com Anna, sua própria filha; depois vem Minna Bernays, irmã de sua mulher. Também é mencionada a constante atuação da princesa Marie Bonaparte (sobrinha-bisneta de Napoleão I, da França) para ajudar os Freud nos momentos em que os nazistas estiveram em seus calcanhares.
A ressalva que se pode fazer ao livro é de que o autor muitas vezes se prende a fatos que não podem ser comprovados por documentos, como diz no começo: “Há quem afirme que Freud e Minna eram amantes e que ela teve que fazer um aborto”. Outro ponto também polêmico é sobre um tio de Freud que foi preso na segunda metade do século 19 acusado de falsificar dinheiro. Tais passagens revestem o livro, vez ou outra, em ares de fofoca.
Uma questão importante está no capítulo “As contas bancárias secretas”, onde Cohen explica como o sistema bancário suíço se aproveitou do dinheiro dos judeus que pereceram no Holocausto. O trecho vale como uma boa crítica, mostrando que houve muita gente que lucrou sob a sombra hitlerista e não pagou o preço quando o Nazismo foi derrotado.
Deve-se louvar a inclusão de dois apêndices. Um com o elenco de personagens, incluindo toda a família Freud, desde seus pais e tios até os descendentes. Depois são enumerados o primeiro grupo de psicanalistas, os médicos de Freud e os principais nazistas que tiveram alguma ligação com a psicanálise e com a família Freud.
A fuga de Freud, de David Cohen. Ed. Record, 320 páginas.
sábado, fevereiro 12, 2011

Com calibre para virar best-seller
Novo livro de Salvo Sottile prende o leitor ao discutir o destino das organizações mafiosas italianas no mundo conemporâneo, além de mostras as sutilezas da luta entre a polícia e a máfia
É sempre bom que se escrevam livros sobre o combate à criminalidade, sobretudo quando se trata de romances que têm como tema a neutralização dos mais diversos tipos de máfias. Observamos que, no Brasil, várias organizações – não apenas cujos componentes pertencem às classes desfavorecidas – são ativas no tráfico de drogas e de outras mercadorias proibidas. Sofremos na pele o alto custo para combatê-las.
Salvo Sottile escreve uma narrativa com todos os ingredientes necessários para prender o leitor do início ao fim. Ágil no jornalismo, sobretudo na própria Sicília e depois em Roma, teve grande sucesso de público e crítica com o seu primeiro livro, Maqueda, que está se tornando filme. Agora, no segundo, Mais escuro que a meia-noite, escreve mais um capítulo sobre o combate à temida Cosa Nostra, mostrando suas ramificações na Europa e nos Estados Unidos.
Inicialmente a luta é entre duas facções, Corleoneses contra Palermitanos. Qualquer semelhança com o que vivemos em nosso Rio de Janeiro é pura coincidência. Mas a justiça italiana está na mira dos criminosos através da inflexível juíza Elvira Salemi e do comissário Matteo Di Giannantonio.
O livro descreve a especialização da justiça e da polícia italianas para tratar do caso que é prioridade nacional, o combate à Máfia. Foram efetuadas mudanças nas leis no sentido de tornar mais rigorosas as penas para os integrantes desses grupos. O autor também cria situações em que há a participação de presos que entraram para o programa de proteção àqueles que pertenceram aos grupos criminosos e resolveram colaborar com a justiça em troca da diminuição da pena (ospentitos, arrependidos, em português), no sentido de levar à prisão seus principais chefes. Mas há também um ardil: muitas vezes alguns se fazem de arrependidos para confundir o andamento das investigações.
Tanto no lado dos criminosos como no dos agentes da lei há inúmeras emboscadas, o que torna impossível deixar o livro de lado. Os traidores são cruelmente punidos, os policiais, vez ou outra, são atraídos e vingados com requintes de perversidade. Não é possível a nenhum juiz, ou a comissários sérios andarem sem escolta. A qualquer momento, é possível que um tiro de grosso calibre ou a explosão de algum artefato bélico faça tudo ir pelos ares.
Muitos desses livros são escritos com o objetivo de se tornarem filmes, o que faz a narrativa de Sottile, em alguns momentos, espetacular. E quem desejar filmar sua história não terá muita dificuldade para escrever o roteiro.
Salvo Sottile costura mais uma situação que normalmente tornará o livro um best-seller. Há casos de amor entre integrantes das duas facções, e mesmo amigos e ex-amigos que transitaram em lados opostos veem-se frente a frente, ora por necessidade, ora por algum laço de afeto. O ponto alto é o casamento de um chefão corleonês com Rosa, mulher pertencente à facção derrotada, a dos Parlemitanos. Durante o desenrolar da narrativa, o sucesso de um irmão dela em Nova York, entre a máfia local, gerará uma tentativa de reviravolta, o que colocará em risco sua vida.
A juíza Salemi também vive um caso amoroso, embora sempre se mostre fria e indiferente, com um comissário de polícia, de quem ela passa a desconfiar quando ouve a história relatada por um pentito.
O que também torna o livro atrativo, não apenas por quem se interessa por narrativas policiais plenas de complicações, é a discussão sobre o destino que muitas dessas organizações criminosas passaram a ter nos dias de hoje. Talvez as constantes crises econômicas mundiais possam servir como termômetro de que há algo de podre nesse universo. Máfias de diversos tipos abandonaram o que mais as incriminavam para atuar num mercado até certo ponto legal, em crescimento em diversos países, sobretudo na América do Norte. Computadores e Internet também se transformaram em ferramentas de lucro para essas “empresas”.
A única reparação a ser feita é a mesma que é comum à literatura policial, a maioria dos personagens é estereotipada, a exceção são os policiais em fim de carreira, aqueles que tiveram uma vida arriscada e miserável mas não perderam a capacidade de sonhar.
Eis um trecho interessante da narrativa:
O esquadrão móvel de Palermo parecia um Maracanã. Havia uma fileira de policiais debruçados nas janelas, que improvisavam coros de torcidas e faziam a ola. No balcão empoeirado, no centro do alojamento, de onde sobressaía o mastro com a bandeira italiana, alguém tinha amarrado na balaustrada um lenço branco, com o V da vitória riscado à caneta.
O Croma blindado da juíza Salemi parou diante do imponente portão cor de ferrugem e se fez anunciar com duas pequenas buzinadas.
A sentinela de uniforme esticou-se na janela da guarita e correu para levantar a trave.
O carro deslizou lentamente para dentro do pátio.
Elvira desceu de um dos bancos de trás.
Um policial à paisana reconheceu a juíza, afastou-se do grupo de colegas com quem conversava e foi ao seu encontro.
– Bem vinda, doutora, quer que a acompanhe até o comissário?
– Não, obrigada – respondeu ela, cortês –, não se incomode, conheço o caminho...
A juíza Salemi subiu dois lances de escada e caminhou na direção do longo corredor que a levava à seção “Catturandi”. O vozerio da comemoração era tal que podia ser ouvido pelo caminho.
Mais escuro que a meia-noite
Salvo Sottile, tradução de Ana Resende
Bertrand Brasil, 373 páginas
terça-feira, janeiro 18, 2011
Espere aí que vou à revistaria
Alessandra caminhava no Casa Shopping com Álvaro, era quarta-feira à tarde. O rapaz sugerira uma loja de produtos para casa.
“Essa loja é de muito requinte, veja, cada coisa linda”, disse ele enquanto a moça acompanhava-o na investigação.
“Realmente, cada coisa maravilhosa, mas tudo isso é pra quem já tem a vida definida, uma carreira, um apartamento no Plano Piloto; veja o preço de uma garrafa térmica, cento e vinte reais...”
“Repare as máquinas de café expresso.”
“Estou vendo”, reparou Alessandra, “a mais barata custa oitocentos e trinta.”
“Mas vale a pena, já pensou uma cozinha com isso?”, Álvaro apontou para copos longos, algumas taças, todos de cristal.
“No final da loja há taças de fibra, imitação de cristal, de longe nem parece, mas é caro do mesmo jeito.”
“Já vi que vai ser difícil encontrar um presente aqui pra minha mãe”, ele resmungou.
“Sua mãe não é uma pessoa tão sofisticada para exigir um presente desses.”
“Verdade, é uma pessoa simples mas muito especial pra mim, queria comprar alguma coisa daqui, sei que ela vai ficar muito feliz.”
“Ali, algumas bandejas com atrizes dos anos cinquenta, sessenta, coisas a la Andy Warrol, Marylin Monroe, será que ela não gosta?”
“Ótima ideia, vamos ver.”
Depois do presente comprado andaram um pouco pelos corredores do shopping, todas aquelas lojas com sofás, estantes, mesas, quartos e salas, cozinhas. Enfim, encontraram um café, no centro de uma das alas, defronte à Marieta.
“Quer comer alguma coisa?”, convidou Álvaro.
“Não, apenas café, já comi demais no almoço.”
Dali era possível ver a livraria.
“Ah, vamos depois à Cultura, quero ver a revistaria”, disse Alessandra.
“Vamos, sim.”
“Na verdade, tenho de ter cuidado, já comprei quatro livros antes do Natal.”
“Para o concurso?”, quis saber Álvaro.
“Não, por puro prazer. Dois de escritores brasileiros, um português e outro americano.”
“Pra que tanto livro?”
“Você sabe que meu maior prazer é ler.”
“Mas você está em época de estudar, Ale, assim não vai conseguir.”
“Consigo, é apenas para as horas vagas.”
“Mas quatro livros para horas vagas, e em período de estudos...”
“Não vou ler todos de uma vez, nem vou parar tudo para lê-los, sei a programação que tenho de cumprir.”
“Tomara que você consiga.”
“Consigo, sim, não precisa se preocupar, vou passar no concurso do Executivo.”
“Assim seja. Quando eu terminar a faculdade, vou parar tudo, vou estudar dia e noite para o concurso da Câmara.”
“Isso, se prepare, você também vai conseguir.”
“Que tal o Judiciário, ao invés do executivo?”, Álvaro olhou para ela e depois parou diante do primeiro estande de livros, assim que entraram na Cultura.
“É outra opção, mas prefiro o Executivo.”
O rapaz esperou que duas senhoras passassem, depois tomou nas mãos um livro que tinha a história do rock, ou dos Rollings Stones.
“Você e sempre o rock. Aqui em Brasília, a terra do rock. Não sei, mas pode ser um atraso”, Alessandra e suas insinuações.
“Depois que estivermos lá, compramos o que precisamos”, ele não alimentou a polêmica.
“Compramos o quê?”
“Garrafas térmicas, bandejas com retratos de Monroe, máquinas de café expresso, quadros para a sala e estofados, mesas maciças...” ainda Jagger nas mãos.
“Ah, é mesmo, a loja de produtos para o lar.”
“Compraremos quase todo o Casa Shopping...”
“Bom, quase todo, mas enquanto isso espere aí que vou à revistaria.”
domingo, janeiro 09, 2011
Parte da Solução, Ulrich Peltzer
Os países europeus nunca couberam dentro de si próprios. Essa questão, muito contemporânea por sinal, está presente em Parte da Solução, de Ulrich Peltzer. Por outro lado, poderíamos perguntar: o que caracterizaria uma literatura nacional na atualidade? Encontrar a resposta seria difícil. Logo, a literatura alemã dos dias de hoje (assim como qualquer outra literatura ocidental) poderia ser chamada de literatura apenas, porque a problemática discutida é comum a todo o mundo ocidental.
Estamos em Berlim nos primeiros anos do século 21. A narrativa começa com dois velhos amigos, Christian e Jakob, vendo um documentário sobre os anos 1970. Mais precisamente sobre a turbulenta Itália daquele período, assassinatos políticos e as Brigadas Vermelhas. O primeiro é um jornalista que vive de frilas, está escrevendo um romance que não consegue levar adiante, mora de favor no apartamento da ex-mulher e tem algumas dívidas; o segundo pertence ao mundo acadêmico, é professor universitário, dá aulas sobre o Romantismo Alemão e também sobre Focault e Deleuze. Na mesma universidade há um professor de filologia românica que nos anos de juventude pertenceu à luta armada, chama-se Carl Brenner. Christian quer que seu amigo sirva de ponte para que este último coloque-o em contato com um ex-líder brigadista. Na verdade, está interessado numa matéria jornalística visando à autopromoção.
Nos dias de hoje, quando se pensa que a juventude aderiu por completo ao mundo do consumo, Peltzer nos apresenta uma Berlim plena de resistência política. Uma resistência subterrânea, é bom dizer, em que militantes das mais diversas organizações agem de modo a enganar as autoridades, como sabotar empresas públicas, colocar obstáculos a câmeras que devassam a privacidade das pessoas, danificar máquinas de venda de bilhetes do metrô, pichar vidraças de lojas famosas, tudo com a razão de que ainda existe algo digno por se lutar.
Mas Crhistian deseja uma entrevista com aqueles homens que no século 20 abalaram o poder e o mundo com violentos atentados políticos, ou atentados terroristas. Para a justa definição depende de que lado se esteja. Onde estarão hoje aquelas pessoas? Como sobrevivem? Então, sabemos que muitos vivem numa espécie de limbo, entre a clandestinidade e uma legalidade até certo ponto permitida. Outros abandonaram as hostes de luta e entraram para a vida burocrática de uma universidade. Também percebemos que ora é conveniente ao governo permitir-lhes asilo, ora é melhor extraditá-los, ou pedir a extradição, como assim fez Berlusconi numa espécie de campanha política.
Mas o romance não se resume apenas nisto. Entra na história uma mulher, estudante, bonita por sinal, chamada Nelly. Inicialmente é orientada por Jakob no seu trabalho de término de curso. Através de seu professor conhece Christian, aproxima-se dele e acabam se relacionando. O velho amigo de Jakob quer um contato com alguém que pertenceu às Brigadas Vermelhas, mas, guardadas as devidas proporções, tem ao seu lado uma mulher capaz de atos também belicosos. Só que Christian vai demorar a descobrir essa face de sua namorada. Nelly pertence a uma organização de resistência senão política, ao menos ideológica. A esquerda europeia desfila diante de nossos olhos.
O romance não faz concessão alguma ao leitor. Há uma pequena introdução, que é seguida de três partes. Uma espécie de escrita em bloco, que muda de foco constantemente de modo intercalado. Acompanhamos Christian em sua vida diária, Jakob, Nelly, Brenner, e os homens da segurança que tentam descobrir os integrantes das organizações clandestinas. O trabalho destes é frustrar as ações antes que elas aconteçam e juntar provas para condenar aqueles que atentam contra o bem público ou privado.
Nas ações da atualidade, retratadas no livro, nada igual às explosões e aos assassinatos de três décadas passadas. São ações pontuais, mais simbólicas do que de efetivos resultados. A juventude revela que sempre está pronta para protestos seja em Berlim, seja em Zurique, em Paris ou mesmo em Roma. Às vezes ardem alguns automóveis, nada muito além do que um prejuízo a mais para as companhias de seguro.
O mais interessante no livro, no entanto, não é propriamente todo esse périplo político. Mas os pequenos fracassos ou pequenos sucessos de cada personagem, tanto na atuação pública quanto na esfera de suas vidas privadas, a convivência do existencial como o ideológico.
É digna de nota a parte final do romance, chamada Belleville, bairro de Paris, onde Christian acompanhado de Nelly está prestes a conseguir sua entrevista. Um fato ocorrido em Berlim horas antes, porém, ameaça colocar tudo a perder.
Salutar a discussão, porque a partir dela chega-se à conclusão de que o mundo não acabou depois da queda do Muro.
Parte da solução, Ulrich Peltzer, 472 páginas, Estação Liberdade

