domingo, maio 15, 2011



"O irmão gêmeo de Sigmund Freud"

A burguesia alemã da primeira metade do século 20, caso espelhada no doutor Gräsler, protagonista de O médico das termas, bem que mereceu o destino que lhe veio bater à porta. Arthur Schnitzler (1862-1931), que já apareceu traduzido outras vezes para o português, como em Crônica de uma vida de mulher, mais uma vez brinda o leitor com uma novela em que através de apurada análise psicológica desvenda as mais sutis características da alma humana. O autor vienense chegou a ser chamado de irmão gêmeo de Sigmund Freud. Se em Crônica ele centrou a vida europeia no universo feminino através de Therese Fabiani, neste último ele apresenta uma narrativa sob a ótica masculina, e sob a máscara de um médico, Emil Gräsler, alguém sempre invejado e, teoricamente, pleno de respeito.

O texto começa com um navio prestes a zarpar, o que não deixa de ser um indício sintomático do comportamento volúvel do próprio doutor Gräsler, alguém sempre à beira de tomar uma decisão que é adiada continuamente, até ser atropelado pelos acontecimentos e perder o domínio do seu próprio destino. Isso acontece durante toda a narrativa, começando por sua partida de uma estação de veraneio, onde atuava como médico de um hotel, até o final, quando, depois de um ano de titubeios e incertezas, de três mulheres que lhe passam pelas mãos, está de novo a chegar ao lugar de onde partira. Na verdade, uma história circular.

Ainda no início, o gerente do hotel está no cais a se despedir do médico, agradece-lhe efusivamente a presença, lamenta a morte da irmã – sim, o doutor Gräsler tinha uma irmã, que também era sua governanta, mas ela se suicida misteriosamente na estação de veraneio, lá pelo final descobrem-se os motivos – a e a dizer que, ansioso, o espera para a temporada do próximo ano.

O médico passa por Berlim e retorna à pequena cidade onde costumava exercer sua clínica médica durante o restante do ano. O que mais faz, no entanto, é levar uma vida de bon vivant, almoçando, fumando charutos caros e debatendo futilidades com os amigos da mesma espécie. Ele, que está à beira dos cinquenta anos, nunca atendeu nenhum caso mais sério no seu consultório de província. Até que lhe esbarra pelo caminho Sabine, uma jovem mulher muito culta, de 26 anos e bem mais madura do que ele.

Ela procura-o devido a uma indisposição sofrida pela mãe. Com o correr do tempo, o médico, muito espertamente, passa-lhe a frequentar a casa. O pretexto para tais visitas é que ele deseja informações sobre o estado de saúde da senhora sua mãe. A família trata-o bem, e é composta pelo pai, que foi cantor de ópera, tendo deixado a profissão por motivos de saúde, a mãe, Sabine, que estudou teatro mas tem queda pela enfermagem, e o irmão, ainda um jovem estudante.

O doutor Gräsler torna-se íntimo de todos e passa até mesmo a participar dos almoços de domingo. Após as refeições, passeia com Sabine pela floresta que há nas redondezas, já que a casa onde a família mora é a da antiga guarda florestal.

Mas aproxima-se o momento em que o doutor terá de tomar uma decisão, tanto profissional como sentimental. E decisões não é o seu forte.

No comportamento com as mulheres é que se pode notar o caráter mesquinho do médico. Sabine chega a se oferecer a ele em casamento. Tudo que ela deseja é que o doutor adquira um hospital decadente, reforme-o e se torne o médico responsável. Ela oferece ainda o dinheiro para a compra e para as obras, caso ele não o possua e, com o intuito de ajudá-lo, propõe ser a administradora. Mas Gräsler é um covarde, a pecha de médico de termas nunca há de desgrudar-lhe. Parte para Berlim alegando ter de resolver problemas relativos ao testamento da irmã, pede um tempo para responder às propostas de Sabine. Demora a decidir. Enquanto isso, na cidade grande, cai de amores por uma outra mulher, Katharina, balconista de uma loja de luvas. Convida-a para o teatro, presenteia-a com chocolates e algumas jóias, leva-a, enfim, para morar em sua casa enquanto ele pensa no que vai fazer da vida.

A narrativa de Arthur Schnitzler é leve, irônica e vai-se realizando em ordem cronológica. É desenvolvida apenas a partir de um núcleo, o da vida do médico das termas, e progride de acordo com suas andanças, por isso melhor chamá-la de novela. Há mergulhos no passado quando o protagonista desvenda, através da descoberta de um pacote de cartas, a vida pregressa e secreta da irmã.

O escritor vienense apresenta-nos um personagem que, apesar de médico, em momento algum deixa de se colocar em primeiro plano, sente-se sempre injustiçado, vítima do destino, não repara que pessoas como ele, Gräsler, ao negligenciar pequenas decisões, negligenciam o papel que deveriam assumir na vida coletiva. A Europa fervilha à sua volta, e a própria febre que vez ou outra ele tenta debelar nos seus pacientes é, na verdade, a febre que consome todo um continente. Apenas ele não a percebe.

O médico das termas
Arthur Schnitzler (tradução - Marcelo Backes)
Ed. Record

sexta-feira, abril 29, 2011

Lúcia e o céu de diamantes

Esses jovens executivos sabem tudo, ou pelo menos sabem fingir. É possível surpreendê-los, mas precisa-se de tirocínio. A palavra é tão antiga, que o processador aponta erro na grafia. Mas existe, e é assim a escrita. Eles, jovens de terno impecável, conhecem todos os indicadores financeiros, as estatísticas, os índices das bolsas de valores, o que está por vir e o que não está. Em nada lembram a antiga cartomante. Que também adivinhava mas tinha romantismo. Eles nos levam a bares de balcões prateados, mesas siderais, copos em forma de torpedo. Nos oferecem bebidas e cogumelos. Não os produzidos pela natureza, mas os das explosões. Fortes esses jovens, destruidoras suas bebidas. Um paradoxo, mas são elas que os mantêm vivos. Quanto ao amor? Talvez não seja essa a palavra, mas existe alguma coisa parecida. Não lhes bastam o corte do terno italiano nem os carros japoneses. Chegam, miram-nos, e lançam o dardo. Geralmente certeiros. Sabem sorrir, embora assépticos os sorrisos. Nenhum vírus. Mergulha-se em seu mundo, que não tem céu nem diamantes que saudade da Lucy, ela está morta. Ficamos apenas os dois, eu e meu jovem, mente brilhante do mercado de dados, homem arrasador, frações de segundo e milhões acariciam-lhes as mãos. Em que moeda? Basta escolher. Há de tudo, farta a cesta. Leva-me em seu carro. De fora, mesmo em movimento, parece que não vai com viva alma. Ele o dirige com arrojo, em pleno centro de São Paulo, mas tem o coração de um principiante. Sim, ao menos no amor, são garotos inexperientes. Trepam com as cifras do mercado, com o risco que sempre dobram, já com uma mulher... Bem, com uma mulher precisam de mais um reforço. Saltamos na garagem de um prédio de trinta andares, nos Jardins. Já bebemos todos os metais, metais azuis, verdes e vermelhos. Falta-nos o que caracteriza o humano: pele e músculos. Nossas roupas de fibra nos escondem. Subimos. O álcool já nos deixou lá em cima, mas ainda faltam os andares. O último é o dele, a cobertura, plataforma de lançamento, visão perfeita sobre a cidade-mundo que matou todos os cães. Sobre os outros prédios, agudas antenas inúteis levam bilhões em mercado futuríssimo, mas nenhuma esperança de mulher, nenhum verso de Camões. Cervantes e Shakespeare morreram, mas esses jovens nada sabem sobre isso. Acumula-se uma montanha de ouro, não há quem, no entanto, possa dizer o que fazer com ela, apenas sugere-se que se compre outra, e ainda outra, e mais outra. Mas voltemos à adrenalina, a todos os nossos ácidos. Ainda falta o último. Sempre estamos em busca do derradeiro. No nosso caso, o gozo sobre a mureta, com a cidade lá embaixo. Meu jovem executivo despe-me. Não o sabe fazer sem rasgar-me. Enfim, aponta-me uma pistola. Bela a arma, reluz quando a cidade espoca seus holofotes, astros trêmulos ante meu recente e audaz cavaleiro. Obriga-me a deitar sobre a mureta do trigésimo andar. Depois trepa e cavalga sobre o meu corpo. Onde vamos os dois? Deixo que me leve e que goze à beira do despenhadeiro. Gozo agora ou deixo para o momento em que estivermos bem próximos do chão, nossos corpos ainda a flutuar... no ácido e no ar? Oh, a morte, ou a proximidade dela, uma espécie de orgasmo. Tanto maior quanto mais alto o precipício.

domingo, abril 17, 2011


Aventura Religiosa

Andrea Frediani, em seu romance Jerusalém, narra a primeira cruzada empreendida pela cristandade empenhada em recuperar a terra santa em poder dos árabes. O ano é de 1093. Aproveitando todos os recursos disponíveis à ficção, o autor coloca lado a lado personagens históricos e personagens fictícios. O resultado é bastante positivo. Também é boa a sua pesquisa sobre a geopolítica do início do segundo milênio, quando a Europa ainda engatinhava num precário equilíbrio, situação tanto mais conturbada quando se voltava para o oriente, sobretudo considerando-se as derrotas infligidas pelos turcos ao Império Bizantino.

Para tornar a história ainda mais apimentada, Frediani remonta a um antigo manuscrito que sobreviveu a todas às intempéries vividas pelo povo judeu. O texto, passado de geração a geração, teria sido um diário escrito por Tiago, suposto irmão de Jesus Cristo e o herdeiro da igreja primitiva após o martírio. No romance, há interesse do papa em recuperar o documento – há notícias de que ele se encontra dentro da cidade sagrada, Jerusalém – pois revelaria verdades incômodas ao cristianismo, como sobre quem foram os verdadeiros responsáveis pela condenação e morte de Cristo. O manuscrito assinalaria ainda que o Cristo tal qual o conhecemos foi uma vitória das concepções religiosas de são Paulo, que atenuou em Jesus suas características mais judaicas, universalizando seu pensamento e levando-o para o mundo helênico. Mas, é lógico, esse manuscrito nada mais é do que um artifício literário.

O romance ao mesmo tempo em que narra a preparação e execução da cruzada relata os pormenores dos conflitos de interesses entre os reinos do velho continente, Igreja e as ambições da então nobreza que se dispões a participar do evento. A mola mestra da mobilização é a possibilidade de maior enriquecimento proporcionado pelos possíveis tesouros que Jerusalém abriga. Os comandantes prometem a seus soldados maior parte no butim a partir do momento em que eles consigam vencer as muralhas da cidade sagrada. O objetivo religioso da cruzada, na verdade, era uma questão menor.

Outro assunto bastante pertinente à época de hoje é o caráter tolerante da cultura árabe, sempre diminuída e negligenciada pelo ocidente, mas, aqui, valorizada pelo autor através da figura de um emir, Jamal. Utilizando argumentos sensatos, ele consegue explanar sobre a beleza e sabedoria existentes no Alcorão, um livro que, ainda segundo ele, incita à paz e à tolerância, mesmo num momento de guerra.

Os judeus, sempre perseguidos e dizimados, ocupam boa parte da narrativa, tendo na sua sombra a pseudotolerância da Igreja Católica, que nunca os deixou de culpar pela morte de Cristo. Mas o livro tenta recuperar outra realidade. Duas irmãs, Sara e Rebeca, protagonizam essa aventura, sendo a segunda extremamente culta e capaz de sustentar acalorados debates tanto com os padres, com os árabes ou mesmo com os próprios rabinos. Ao mesmo tempo, ela acaba tornando-se uma das guardiãs do manuscrito de Tiago, que lhe chega às mãos através de um peregrino que vai à Mogúncia à procura de seu pai, um rabino na região do Reno. Após a morte deste, num extermínio executado por cristãos a caminho do Oriente, ela e a irmã são salvas por um cavaleiro até então desconhecido, fugindo a seguir para a Palestina e se estabelecendo no bairro judeu de Jerusalém. Na ocasião, a cidade sob domínio muçulmano, está quase com os cruzados às suas portas.

O romance é dividido em quatro partes denominadas: Caminho, Assalto, Assédio e Conquista. O autor, especialista em história medieval, soube transformar o assunto em uma bela narrativa, que segue o esquema de romance de aventura. Os protagonistas são os personagens que na verdade não exercem papel determinante na História, mas suas condutas revelam uma ordem de valores que não frequentava a mesa da dominação vigente, tanto a exercida pela Igreja, como pelos reinos europeus. Embora a história seja escrita pelos vencedores, aqueles que não fizeram parte deste grupo contribuíram para mostrar que a verdade quase nunca está do lado do vencedor.

Um episódio interessante ocorre quando um dos árabes negligencia o poder dos cruzados após a primeira tentativa de assalto, que se tornou frustrada. Jamal, que caíra antes como prisioneiros dos cristãos e fugira diz: “o que os torna perigosos é que eles nada têm a perder nem têm para onde voltar.” Tal passagem denuncia as cruzadas como movimentos de mobilização que puderam levar para longe os problemas que muitos reinos e a própria Igreja tinham nos seus calcanhares.

No final do livro, apesar dessa primeira vitória da cristandade, que recuperou Jerusalém ainda que por poucos anos, fica a impressão de que a lama que respingou na Igreja Católica por causa do massacre no momento da conquista jamais desapareceu. Por outro lado, veem-se com certa simpatia os povos árabe e judeu, que na narrativa cooperam um com o outro e sofrem juntos as investidas da Europa cristã.

Jerusalém, de Andrea Frediani.

Editora Bertrand Brasil. 574 páginas.

R$ 55.

sábado, abril 02, 2011

Tanussi Cardoso

O difícil percurso do olhar

O poema, sempre difícil de ser analisado, ou mesmo percebido, constante obstáculo para o leitor, eis que surge e se oferece à decifração. Mas se não o deciframos, não seremos por ele devorado. O poema não é uma esfinge. Ou me engano? Desejam-se as suas palavras como se deseja a placidez de um rio caudaloso em estação de estio. Mas logo sobrevém a tempestade, e a mesma paisagem, que tanto nos acalmava, torna-se ameaçadora, a ponto de nos arrancar de onde a observávamos, lugar que antes julgávamos seguro. Oh, impossível o sublime kantiano, acompanhar a tempestade, em toda sua plenitude, fora dela. Seria bom se a poesia tivesse a mansidão desse rio, qual o rio de Heráclito, mesmo que nele não fosse possível ver duas vezes nossa própria face. Seria bom ler poesia sem se deixar contaminar, sem termos de levar para casa, ainda que tão somente, uma gota de toda essa lama.

Assim, umas vezes como placidez, outras tantas como tempestade, chegam-nos os versos de Tanussi Cardoso. Em Exercício do olhar, como assegura o próprio nome do livro, exercita-se os vários modos de percepção da subjetividade, exercita-se nossa capacidade de sobrevida dentro da arte poética, ou mesmo – talvez o impossível – a capacidade de sobrevivência humana fora de toda essa tormenta.

Iniciando-se com “Óvulo I”, a poesia se apresenta como larva. Então, perguntamos? Do que é capaz uma larva? Já sabemos a resposta. Afinal, tudo começou com uma larva. Eis o início: “que bicho se abrirá em palavra?” Através desse pequeno verso, viaja-se não apenas pela história humana, mas também através da literatura em língua portuguesa. Lá está Camões, com o seu bicho da terra tão pequeno, depois Drummond, que retoma Camões e apresenta esse bicho ainda bem pequeno, mas como protagonista de outras viagens, odisséias modernas. O autor de Exercício do olhar atualiza o tema e o lança à posteridade, pois a viagem continua, e a poesia-larva há de se multiplicar abrindo-se em palavras, constituindo novos mundos, constituindo a própria liberdade, que é o que caracteriza o ser humano. Nada melhor para mostrá-lo livre do que o ato criador, no caso do poeta, sua escrita, tema do segundo poema, “Certas palavras”. Vai assim o desenrolar do livro, versos falando da língua, das palavras, da arte, de outros autores e de todas as possibilidades e impossibilidades.

O bom poeta nunca cabe em si próprio. Aliás, ninguém cabe em si próprio, mas, melhor do que o poeta para expressar tal preocupação não há: “porque todos os mistérios são santos, / não nomearemos o nome das / coisas.” Mas o que é o fazer poético senão o ato de nomear, mesmo negando-o? Escreve-se, nomeia-se, caso não se o faça com o nome conhecido, cria o autor uma nova maneira de dizer, um novo nome. Logo, nomeia-o do mesmo modo, embora à sua maneira. E assim avança Exercício do olhar.

O livro divide-se em três partes: o tempo, os dias, as noites. “Constrói o tempo teias e ruínas”, e nada melhor do que a poesia para fazer esse inventário, mostrando que o tempo também é construído por palavras: “O olho no olho do poema / que se anuncia / o olhar nosso de cada dia.”

Em “os dias”, confessa o poeta: “quando na superfície / o verbo / vem da falta.” Talvez pudéssemos, aqui, conjecturar que a poesia vem tentar preencher o que nenhuma outra atividade humana conseguiu. É possível dizer que, se os outros ramos do conhecimento dessem conta da vida, não necessitaríamos da arte, nem da poesia. Mas se apresenta o artista e, para causar vertigem nos estudiosos das outras áreas do saber humano, diz: “porque partimos / cegos / não há luz sol estrelas.” O poeta ou cantor, mesmo cego, como Homero, vem lembrar a existência da luz, feito que esses outros, portadores de técnicas capazes de erigir engenhos tecnológicos, não foram capazes de perceber. “Os dias” ainda mostram a carnalidade da poesia: “a palavra / orgasmo / abre-se tônica / bem no / meio / da carnalidade”, e, mais adiante, a carne vai irmanada à transcendência: “voo cego / de águia / desmaio / salto no / abismo / sem ar”.

Entre palavras discutindo as próprias palavras, palavras expressando o corpo e o amor, chega-se à ultima parte, “as noites”, em que a escrita revela, em “as sombras são”: “as sombras se esquecem / de si mesmas / e saem a espantar / as coisas, / à noite.” Espanta-se o poeta, espanta-se o leitor, a constatarem a poesia, esse fio tênue, capaz de atingir senão o cerne das coisas – hoje, duvida-se de que as coisas tenham cerne –, ao menos a levar ao ato de reflexão máxima, à descoberta surpreendente do que é estar vivo: “a cada poema / que se faz / adia-se a morte / até a manhã / de um novo / poema.”

Difícil falar mais sobre um autor de extensa e diversa obra – Boca maldita, 1982, Beco com saídas, 1991, Viagem em torno de, 2000, A medida do deserto e outros poemas revisitados, 2003, Exercício do olhar, 2006, e 50 POEMAS escolhidos pelo autor, 2008, – com elogios de inúmeros autores conceituados, como o do prestigiado acadêmico Antônio Carlos Secchin: “um dos pontos altos é o belo tom elegíaco que você empresta a tantos poemas" (sobre o livro: Viagem em torno de).

Retornando ao início dessa matéria, poderíamos perguntar: a poesia de Tanussi devorou o leitor, caso ele não a tenha decifrado? Certamente, não. Às vezes, como em toda escrita poética, a decifração torna-se difícil, e sabe-se que, para ela, não há apenas uma possibilidade de leitura, mas múltiplas. Então, não mais se teme a esfinge, admira-se e louva-se a sua beleza.

Exercício do olhar

Tanussi Cardoso

Editora Fivestar, 145 páginas.

segunda-feira, março 28, 2011

“Está bem, então vá”

Era o verão de 1972, uma época boa, tínhamos esperança quanto ao futuro e queríamos a liberdade absoluta. Uma vez que recusávamos as grandes cidades, morávamos em acampamentos à beira de praias distantes. Outras vezes íamos para locais de difícil acesso, no interior. As pessoas nos chamavam de hippies, e nós, até certo ponto, acabamos gostando do nome. Embora no mundo inteiro o movimento entrara em declínio, não queríamos pensar nisso. Andávamos de um lado para outro quase sempre em festa. Alegres, preocupávamo-nos apenas com o dia em que estávamos vivendo. Caso tivéssemos o que comer, beber e fumar naquele momento, estava bom.

Fui parar não sei como numa praia do norte da Califórnia. Se perguntar hoje onde fica essa praia, não sei dizer. Sei que havia um camping, e entre os acampados viviam alguns rapazes e moças. Os rapazes eram mais numerosos. Notava-se que eram de boas famílias, mas decidiram largar o conforto do lar e adotar aquela vida. Montavam e desmontavam barracas, subiam e desciam a serra, viajavam de carona. Com que dinheiro viviam? Não sei. Acho que alguns arranjavam com os próprios pais; outros se orgulhavam em dizer que eram artistas: pintores, escultores, artesãos etc. E vendiam o que produziam. Juntei-me a eles.

Um dos rapazes tornou-se meu amigo; depois, meu namorado. Aonde quer que eu fosse, ele me acompanhava. Naquela época eu tinha vinte e seis anos, nunca trabalhara, deixara para trás a cidade do interior em que nasci e viera me aventurar em Los Angeles. Tinha apenas uma pequena mala com poucas roupas.

No acampamento também apareciam pessoas em férias. Diziam gostar da vida em meio à natureza. Não era difícil fazer amizade com elas e até mesmo ganhar alguma coisa, como um prato de comida ou mesmo mantimentos para cozinhar nas nossas barracas. Os turistas gostavam de nos ajudar, acho que queriam ser como nós, mas não tinham coragem. Então, facilitavam-nos a vida.

O rapaz, meu amigo, era calado, não agia como os outros, que participavam de divertimentos, como jogos de vôlei e de futebol. Ele gostava de ficar na praia, principalmente ao entardecer, olhava o horizonte, pensativo. Eu o acompanhava nessas horas, nada falava, deixava-o entregue à sua meditação. Às vezes andávamos durante algum tempo pelas areias da praia. Lembro que na época eu não tinha biquíni. Tivera um, mas me roubaram no acampamento. Assim, não entrava no mar quando ele insistia. Dizia para eu tirar a roupa e mergulhar nua. Mas eu não tinha coragem.

Ele era muito jovem, acho que seis ou sete anos menos que eu, e tinha casa, pai e mãe. Mas não queria voltar para lá. Também não pensava muito como ia fazer dali para frente.

Certa vez, disse a ele:

“Você deve pensar bem sobre o seu futuro. É muito bonita essa vida, mas não é possível sobreviver assim por muito tempo. É preciso ter dinheiro, ou se morre de fome.”

Ele me ouviu, mas nada comentou. Começou então a rolar um amor entre nós. Mas sem combinação alguma. Não tínhamos compromisso um com o outro nem sentimento de posse. Acabei dormindo com ele. Nas primeiras noites, nada aconteceu. Mas, depois, começamos a fazer amor. Era muito comum na época a expressão, “fazer amor”. Dali em diante, passamos a ficar juntos, dias e noites. Divertíamo-nos muito. Seus amigos nos observavam e lhe diziam que se afastasse de mim, que eu não era boa companhia. Mas era tudo brincadeira. Na época, fumava-se muita maconha, cheguei até a experimentar ácido. Eu não era exceção. Ele, no entanto, não tinha a tendência de fumar muitos baseados. Dizia que preferia o ar puro das manhãs, e sempre carregava livros, principalmente de poesia, também escrevia.

Um belo dia – fazia uns três ou quatro meses que vivíamos juntos – quando estávamos prestes a partir mais uma vez sem destino, senti que tudo aquilo começava cheirar a um romantismo barato demais. Não sei se surtei, mas resolvi dar um basta.

“Você acha que dá mesmo para viver assim, sair viajando por aí de carona, sem dinheiro no bolso, sem destino?”, havia filmes na época que incentivavam nosso imaginário.

“Sempre dá”, eram poucas as suas palavras.

“Não vou com você, me entende? Não vou, já tenho dez anos de estrada, sei como é essa vida, não estou mais para isso.”

“O que você vai fazer?”, seus olhos sempre me transmitiam alguma melancolia.

“Vou com a Shirley. A mãe dela me ofereceu para morar com eles. Ajudo no serviço da casa, depois tento arranjar um emprego, quem sabe estudo...”

“Você vai ser empregada doméstica?”

“Não é isso, vou morar com ela, ajudar em alguma coisa.”

“E onde ela mora?”

“Ainda não sei, acho que num subúrbio, me dê um número que depois eu informo a você”, sugeri.

“Está bem, então vá”, não opôs resistência e ficou olhando na direção do mar.

Para dramatizar a situação e tentar comovê-lo, ainda falei:

“Tem mais uma coisa.”

“O que é?”

“Vou morrer cedo.”

“Morrer, como você sabe?”

“Fiz um exame do coração faz algum tempo, o médico é amigo meu, falou que não tenho muito tempo de vida.”

“Poxa, verdade?”, foram suas últimas palavras.

“Verdade”, levantei-me e saí dali chorando, sem olhar para trás. Ele não percebeu.

Hoje, penso onde andará toda aquela geração... Alguns se engajaram no mercado de trabalho, prosperaram, enquanto outros morreram, ou enlouqueceram devido ao consumo excessivo de drogas.

Sempre quando vou a uma livraria, olho os livros de poesia e procuro o seu nome sobre a capa de um deles. Mas nunca encontrei.

Quem sabe agora com o Facebook ou com o Google eu consiga localizá-lo? Ele vai se surpreender. Pode ser que tenha entrado para uma universidade, se formado, se tornado alguém importante. Pode ser realmente um poeta. Eu é que não tive até hoje competência para encontrar um livro seu.

“Você não falou que iria morrer logo?”

Terei que inventar uma desculpa.

sábado, março 26, 2011

sexta-feira, março 11, 2011



O poder ultrajovem


Reedição de crônicas de Carlos Drummond de Andrade surge num momento em que o gênero se encontra negligenciado


Era bom quando tínhamos um poeta maior que, além de produzir extensa e múltipla obra poética, também escrevia três crônicas por semana no antigo JB. Bons tempos que não voltam mais. Um poeta que não estava só a surpreender os costumeiros leitores do gênero, mas também àqueles que não liam poesia.


Talvez com Drummond, em termos de Brasil, a poesia se tenha tornado até certo ponto popular. Quem nunca ouviu falar de “José”, de “No meio do caminho”? O poeta, que tratava a palavra com tamanha maestria, não a renegava na crônica, gênero até certo ponto, conforme nos ensinam os manuais, fugaz.


Crônica vem de Cronus, deus do tempo na antiguidade clássica, também conhecido como Saturno, aquele que devorava os próprios filhos. Quem escreve crônicas não está apto a falar de deuses, mas de assuntos do tempo, desse tempo que passa muito rápido, deixando-nos com traços no rosto e mais próximos do fim. Logo, a crônica também acaba passando. Mas não é isso que acontece com o gênero quando se trata de Carlos Drummond de Andrade.


Caso procuremos nos muitas vezes soturnos departamentos de letras das universidades públicas, vamos encontrar dissertações e teses que tentam provar que a crônica drummondiana é do mesmo quilate de sua poesia. Quer dizer, poesia e crônica, quando se trata do autor de A rosa do povo, não possuem diferença. Portanto, é de se louvar e desejar que sempre se reeditem as crônicas de Drummond. É isso que faz a editora Record com a nova edição de O poder ultrajovem, conjunto de textos escritos pelo poeta por volta do final da década de 1960 e início da seguinte. Neles, predominam sutileza, leveza e sensibilidade. Mas não deixam de fazer profunda análise tanto do ser humano como da época.


O livro começa com histórias protagonizadas por crianças ou adolescentes, que, na sua vontade férrea, como o ferro das calçadas de Itabira, conseguem dobrar os adultos: a menina a convencer o pai, no restaurante, de que tem o direito de escolher o próprio prato; o caso das crianças desconfiadas, que, muito a contragosto, deixam o autor segurar suas pastas escolares, ele que vai sentado no banco de um ônibus lotado; a mãe que acompanha o filho até uma casa abandonada para que ele recolha algo dali, caso contrário será objeto de escárnio entre os colegas da escola; a professora que tenta fazer um plebiscito na sala de aula para saber se deve lecionar usando calça comprida, mas chega à conclusão de que ser democrática dá muito trabalho; a história da adolescente que recorre ao poeta porque seu cãozinho comeu a capa e as primeiras páginas de um livro de Fernando Pessoa emprestado a ela pelo namorado. Ela quer o autógrafo de Drummond, não importa que não seja ele o autor do livro, o que vale é não desagradar o namorado.


Dentre muitos assuntos, algumas crônicas abordam outros escritores, como Cecília Meireles, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Guimarães Rosa.


Cecília é comparada a uma deusa, que chegou e se foi em novembro. Ela fez tudo que deveria ter feito para ter as feições de um ser humano, mas, na verdade, tratava-se de uma deusa. “Mulher bela? Sim, foi mulher bela. Grande poeta? Claro, foi grande poeta. Mas foi principalmente... deusa. Ah, o sorriso olímpico de seus olhos verdes, mas quem disse que o sorrir dos deuses é promessa de comunhão com os homens?”


Mário de Andrade é outro contemplado. O cronista rememora os vinte cinco anos da morte do autor de Macunaíma. “Até hoje não é fácil aceitar a perda de tudo que em Mário de Andrade foi criação e expansão humana.” Sobrepõe-se, no final do texto, a imagem do modernista de primeira hora morto, mas é um morto que ri, “junta os dedos em cacho e movimenta-os, exclamando: A própria dor é uma felicidade.”


Outro lembrado é Manuel Bandeira. Ao completar um ano de sua morte, Drummond escreve: “O poeta morreu coisa nenhuma. É abrir ao acaso qualquer de seus livros e tirar a prova.” O cronista relata três episódios interessantes. O primeiro, durante um almoço com Bandeira, em que este lhe diz que não se pode julgar com justiça os concursos literários, “tão melhor avaliar um poema, quando a gente o lê sem intenção de julgar.” Outro episódio é a revelação súbita de Bandeira: “Carrego comigo duas tristezas, nunca amei uma portuguesa nem uma negra.” E ante a surpresa de um admirador, que lhe pergunta na rua sobre o segredo de sua mocidade apesar da idade avançada, Bandeira responde: “Sofrimento.”


E nesse ritmo vão as crônicas. Para não ficarmos apenas nos episódios que relembram amigos que já se foram, há momentos que revelam humor e ironia, como na crônica “Assalto”, em que uma senhora, ao pronunciar a explosiva palavra diante do preço exorbitante do chuchu, numa feira livre, põe a rua em polvorosa.


Há crônicas de espírito bem carioca, como a que registra o aparecimento de dois operários num andaime, ante a janela do autor. Este oferece a eles um cafezinho, e logo descobre que um dos pintores é compositor. O homem entoa um samba, sobre o próprio andaime, e acaba muito aplaudido pelo público, as outras pessoas que aparecem nas janelas do prédio de escritórios.


Como vivíamos o início dos anos 1970, não poderiam faltar referências ao futebol, à copa do mundo, e à ditadura militar, que aparece várias vezes sofrendo crítica velada, como no último texto do livro, o poema denominado “Copa do mundo 70”: “e de repente o Brasil ficou unido / contente de existir, trocando a morte / o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste / por um momento de grandeza.”


O poder ultrajovem

Carlos Drummond de Andrade

Ed. Record, 287 páginas
Matéria publicada no JB online em 07/03/2011.

sábado, fevereiro 19, 2011

O pai da psicanálise e de muitos segredos

Entre fofocas e verdades, o destaque são os últimos anos de vida de Freud

Em A fuga de Freud há um capítulo em que o autor, David Cohen, comenta de modo muito eficaz o último livro escrito pelo criador da psicanálise. Apesar de dizer que Esboço de psicanálise não é um livro fácil, e que o pequeno volume não se destina a principiantes, Cohen acaba por tecer saborosos comentários sobre a obra, permitindo até mesmo ao leitor comum, que só conhece Freud ou a psicanálise de nome, a compreensão de certos princípios que regem o inconsciente. Então, A fuga de Freud não é apenas o retrato de uma fuga física de Freud e de sua família da Viena ocupada pelos nazistas, mas uma fuga – ou quem sabe uma escapulida inconsciente do próprio Cohen – em que o melhor da narrativa está nos assuntos adjacentes, e não propriamente no que o autor realmente desejava abordar. Assuntos como complexo de Édipo, sexualidade infantil, transferência, espaço da análise como lugar em que os pacientes não precisam ser civilizados soam com muita clareza.

O livro começa com menção a Anton Sauerwald, um Kommissar, funcionário designado pelos nazistas na década de 1930 para administrar e controlar empresas e bens de proprietário judeu. Ele passou a controlar não só os bens de Freud, mas também o seu destino. O psicanalista também era proprietário da editora Internationaler Psychoanalytischer. Apesar de a editora ser um desastre financeiro, o funcionário nazista foi acusado, depois da guerra, de se aproveitar de sua posição para apoderar-se não apenas dos livros, mas também do dinheiro da família Freud e de outros bens, como manuscritos, obras de arte e muitas outras coisas de valor.

Cohen também afirma que seu livro explicará “por que um nazista como Sauerwald tinha todos os motivos para esperar que a filha (Anna) e os amigos de Sigmund Freud fossem em seu socorro” depois da guerra, quando foi julgado pelos americanos no tribunal popular de Viena. Essa questão, no entanto, torna-se menor no livro. O que o autor faz é escrever mais uma biografia de Sigmund Freud, detendo-se nos últimos anos da vida do psicanalista. O kommissar da SS é mencionado apenas em quatro dos quinze capítulos que compõe o livro.

A principal queixa de David Cohen, logo no segundo capítulo, é sobre as restrições em vigor para consultas ao arquivo Freud, depositado na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Segundo ele, lá estão abrigadas 153 caixas de correspondência entre Freud e membros da família, amigos e pacientes. Há também anotações e outros documentos, mas nem todo o material pode ser lido. Alguns arquivos, diz o autor, só poderão ser abertos em 2020, 2050 ou 2057. Existem também arquivos fechados em caráter perpétuo.

Das biografias sobre Freud, Cohen se detém sobre o principal biógrafo do autor, Ernest Jones. Há indícios de que áHH o próprio Freud o nomeou como seu biógrafo porque sabia das dificuldades que ele teria para ser objetivo. A principal crítica do autor de A fuga de Freud a Jones é de que este tendia à idolatria, tendo evitado assuntos polêmicos sobre a vida do pai da psicanálise. Consta que o austríaco incentivou seu biógrafo a se tornar psicanalista porque ele vinha das hostes cristãs, e a terapia freudiana era acusada de ser uma ciência judaica. Cohen também afirma que praticamente nenhum dos biógrafos de Freud, nem mesmo Peter Gay, se detiveram nos últimos anos de sua vida, período que deve ser investigado com maior atenção.

Como não poderia deixar de acontecer, o livro também focaliza a ascensão do Nazismo e sua influência, sobretudo na Áustria, e tenta explicar por que muitos austríacos teriam aderido ao partido hitlerista a ponto de apoiarem a anexação da Áustria pela Alemanha. Podemos ler trechos da correspondência de Freud com intelectuais amigos seus, que partiram para o exílio, entre eles Arnold e Stefan Zweig.

Cohen além de comentar a produção intelectual do autor de A interpretação dos sonhos também esmiúça sua vida financeira, mostrando que Sigmund Freud não a negligenciou, e que, contra as leis em vigor na Áustria de então, possuía dinheiro no estrangeiro para caso de uma emergência.

Há insinuações sobre o relacionamento de Freud com várias mulheres. A primeira é com Anna, sua própria filha; depois vem Minna Bernays, irmã de sua mulher. Também é mencionada a constante atuação da princesa Marie Bonaparte (sobrinha-bisneta de Napoleão I, da França) para ajudar os Freud nos momentos em que os nazistas estiveram em seus calcanhares.

A ressalva que se pode fazer ao livro é de que o autor muitas vezes se prende a fatos que não podem ser comprovados por documentos, como diz no começo: “Há quem afirme que Freud e Minna eram amantes e que ela teve que fazer um aborto”. Outro ponto também polêmico é sobre um tio de Freud que foi preso na segunda metade do século 19 acusado de falsificar dinheiro. Tais passagens revestem o livro, vez ou outra, em ares de fofoca.

Uma questão importante está no capítulo “As contas bancárias secretas”, onde Cohen explica como o sistema bancário suíço se aproveitou do dinheiro dos judeus que pereceram no Holocausto. O trecho vale como uma boa crítica, mostrando que houve muita gente que lucrou sob a sombra hitlerista e não pagou o preço quando o Nazismo foi derrotado.

Deve-se louvar a inclusão de dois apêndices. Um com o elenco de personagens, incluindo toda a família Freud, desde seus pais e tios até os descendentes. Depois são enumerados o primeiro grupo de psicanalistas, os médicos de Freud e os principais nazistas que tiveram alguma ligação com a psicanálise e com a família Freud.

A fuga de Freud, de David Cohen. Ed. Record, 320 páginas.

sábado, fevereiro 12, 2011


Com calibre para virar best-seller

Novo livro de Salvo Sottile prende o leitor ao discutir o destino das organizações mafiosas italianas no mundo conemporâneo, além de mostras as sutilezas da luta entre a polícia e a máfia

É sempre bom que se escrevam livros sobre o combate à criminalidade, sobretudo quando se trata de romances que têm como tema a neutralização dos mais diversos tipos de máfias. Observamos que, no Brasil, várias organizações – não apenas cujos componentes pertencem às classes desfavorecidas – são ativas no tráfico de drogas e de outras mercadorias proibidas. Sofremos na pele o alto custo para combatê-las.

Salvo Sottile escreve uma narrativa com todos os ingredientes necessários para prender o leitor do início ao fim. Ágil no jornalismo, sobretudo na própria Sicília e depois em Roma, teve grande sucesso de público e crítica com o seu primeiro livro, Maqueda, que está se tornando filme. Agora, no segundo, Mais escuro que a meia-noite, escreve mais um capítulo sobre o combate à temida Cosa Nostra, mostrando suas ramificações na Europa e nos Estados Unidos.

Inicialmente a luta é entre duas facções, Corleoneses contra Palermitanos. Qualquer semelhança com o que vivemos em nosso Rio de Janeiro é pura coincidência. Mas a justiça italiana está na mira dos criminosos através da inflexível juíza Elvira Salemi e do comissário Matteo Di Giannantonio.

O livro descreve a especialização da justiça e da polícia italianas para tratar do caso que é prioridade nacional, o combate à Máfia. Foram efetuadas mudanças nas leis no sentido de tornar mais rigorosas as penas para os integrantes desses grupos. O autor também cria situações em que há a participação de presos que entraram para o programa de proteção àqueles que pertenceram aos grupos criminosos e resolveram colaborar com a justiça em troca da diminuição da pena (ospentitos, arrependidos, em português), no sentido de levar à prisão seus principais chefes. Mas há também um ardil: muitas vezes alguns se fazem de arrependidos para confundir o andamento das investigações.

Tanto no lado dos criminosos como no dos agentes da lei há inúmeras emboscadas, o que torna impossível deixar o livro de lado. Os traidores são cruelmente punidos, os policiais, vez ou outra, são atraídos e vingados com requintes de perversidade. Não é possível a nenhum juiz, ou a comissários sérios andarem sem escolta. A qualquer momento, é possível que um tiro de grosso calibre ou a explosão de algum artefato bélico faça tudo ir pelos ares.

Muitos desses livros são escritos com o objetivo de se tornarem filmes, o que faz a narrativa de Sottile, em alguns momentos, espetacular. E quem desejar filmar sua história não terá muita dificuldade para escrever o roteiro.

Salvo Sottile costura mais uma situação que normalmente tornará o livro um best-seller. Há casos de amor entre integrantes das duas facções, e mesmo amigos e ex-amigos que transitaram em lados opostos veem-se frente a frente, ora por necessidade, ora por algum laço de afeto. O ponto alto é o casamento de um chefão corleonês com Rosa, mulher pertencente à facção derrotada, a dos Parlemitanos. Durante o desenrolar da narrativa, o sucesso de um irmão dela em Nova York, entre a máfia local, gerará uma tentativa de reviravolta, o que colocará em risco sua vida.

A juíza Salemi também vive um caso amoroso, embora sempre se mostre fria e indiferente, com um comissário de polícia, de quem ela passa a desconfiar quando ouve a história relatada por um pentito.

O que também torna o livro atrativo, não apenas por quem se interessa por narrativas policiais plenas de complicações, é a discussão sobre o destino que muitas dessas organizações criminosas passaram a ter nos dias de hoje. Talvez as constantes crises econômicas mundiais possam servir como termômetro de que há algo de podre nesse universo. Máfias de diversos tipos abandonaram o que mais as incriminavam para atuar num mercado até certo ponto legal, em crescimento em diversos países, sobretudo na América do Norte. Computadores e Internet também se transformaram em ferramentas de lucro para essas “empresas”.

A única reparação a ser feita é a mesma que é comum à literatura policial, a maioria dos personagens é estereotipada, a exceção são os policiais em fim de carreira, aqueles que tiveram uma vida arriscada e miserável mas não perderam a capacidade de sonhar.

Eis um trecho interessante da narrativa:

O esquadrão móvel de Palermo parecia um Maracanã. Havia uma fileira de policiais debruçados nas janelas, que improvisavam coros de torcidas e faziam a ola. No balcão empoeirado, no centro do alojamento, de onde sobressaía o mastro com a bandeira italiana, alguém tinha amarrado na balaustrada um lenço branco, com o V da vitória riscado à caneta.

O Croma blindado da juíza Salemi parou diante do imponente portão cor de ferrugem e se fez anunciar com duas pequenas buzinadas.

A sentinela de uniforme esticou-se na janela da guarita e correu para levantar a trave.

O carro deslizou lentamente para dentro do pátio.

Elvira desceu de um dos bancos de trás.

Um policial à paisana reconheceu a juíza, afastou-se do grupo de colegas com quem conversava e foi ao seu encontro.

– Bem vinda, doutora, quer que a acompanhe até o comissário?

– Não, obrigada – respondeu ela, cortês –, não se incomode, conheço o caminho...

A juíza Salemi subiu dois lances de escada e caminhou na direção do longo corredor que a levava à seção “Catturandi”. O vozerio da comemoração era tal que podia ser ouvido pelo caminho.

Mais escuro que a meia-noite

Salvo Sottile, tradução de Ana Resende

Bertrand Brasil, 373 páginas

terça-feira, janeiro 18, 2011

Espere aí que vou à revistaria

Alessandra caminhava no Casa Shopping com Álvaro, era quarta-feira à tarde. O rapaz sugerira uma loja de produtos para casa.

“Essa loja é de muito requinte, veja, cada coisa linda”, disse ele enquanto a moça acompanhava-o na investigação.

“Realmente, cada coisa maravilhosa, mas tudo isso é pra quem já tem a vida definida, uma carreira, um apartamento no Plano Piloto; veja o preço de uma garrafa térmica, cento e vinte reais...”

“Repare as máquinas de café expresso.”

“Estou vendo”, reparou Alessandra, “a mais barata custa oitocentos e trinta.”

“Mas vale a pena, já pensou uma cozinha com isso?”, Álvaro apontou para copos longos, algumas taças, todos de cristal.

“No final da loja há taças de fibra, imitação de cristal, de longe nem parece, mas é caro do mesmo jeito.”

“Já vi que vai ser difícil encontrar um presente aqui pra minha mãe”, ele resmungou.

“Sua mãe não é uma pessoa tão sofisticada para exigir um presente desses.”

“Verdade, é uma pessoa simples mas muito especial pra mim, queria comprar alguma coisa daqui, sei que ela vai ficar muito feliz.”

“Ali, algumas bandejas com atrizes dos anos cinquenta, sessenta, coisas a la Andy Warrol, Marylin Monroe, será que ela não gosta?”

“Ótima ideia, vamos ver.”

Depois do presente comprado andaram um pouco pelos corredores do shopping, todas aquelas lojas com sofás, estantes, mesas, quartos e salas, cozinhas. Enfim, encontraram um café, no centro de uma das alas, defronte à Marieta.

“Quer comer alguma coisa?”, convidou Álvaro.

“Não, apenas café, já comi demais no almoço.”

Dali era possível ver a livraria.

“Ah, vamos depois à Cultura, quero ver a revistaria”, disse Alessandra.

“Vamos, sim.”

“Na verdade, tenho de ter cuidado, já comprei quatro livros antes do Natal.”

“Para o concurso?”, quis saber Álvaro.

“Não, por puro prazer. Dois de escritores brasileiros, um português e outro americano.”

“Pra que tanto livro?”

“Você sabe que meu maior prazer é ler.”

“Mas você está em época de estudar, Ale, assim não vai conseguir.”

“Consigo, é apenas para as horas vagas.”

“Mas quatro livros para horas vagas, e em período de estudos...”

“Não vou ler todos de uma vez, nem vou parar tudo para lê-los, sei a programação que tenho de cumprir.”

“Tomara que você consiga.”

“Consigo, sim, não precisa se preocupar, vou passar no concurso do Executivo.”

“Assim seja. Quando eu terminar a faculdade, vou parar tudo, vou estudar dia e noite para o concurso da Câmara.”

“Isso, se prepare, você também vai conseguir.”

“Que tal o Judiciário, ao invés do executivo?”, Álvaro olhou para ela e depois parou diante do primeiro estande de livros, assim que entraram na Cultura.

“É outra opção, mas prefiro o Executivo.”

O rapaz esperou que duas senhoras passassem, depois tomou nas mãos um livro que tinha a história do rock, ou dos Rollings Stones.

“Você e sempre o rock. Aqui em Brasília, a terra do rock. Não sei, mas pode ser um atraso”, Alessandra e suas insinuações.

“Depois que estivermos lá, compramos o que precisamos”, ele não alimentou a polêmica.

“Compramos o quê?”

“Garrafas térmicas, bandejas com retratos de Monroe, máquinas de café expresso, quadros para a sala e estofados, mesas maciças...” ainda Jagger nas mãos.

“Ah, é mesmo, a loja de produtos para o lar.”

“Compraremos quase todo o Casa Shopping...”

“Bom, quase todo, mas enquanto isso espere aí que vou à revistaria.”

domingo, janeiro 09, 2011

Parte da Solução, Ulrich Peltzer

Os países europeus nunca couberam dentro de si próprios. Essa questão, muito contemporânea por sinal, está presente em Parte da Solução, de Ulrich Peltzer. Por outro lado, poderíamos perguntar: o que caracterizaria uma literatura nacional na atualidade? Encontrar a resposta seria difícil. Logo, a literatura alemã dos dias de hoje (assim como qualquer outra literatura ocidental) poderia ser chamada de literatura apenas, porque a problemática discutida é comum a todo o mundo ocidental.

Estamos em Berlim nos primeiros anos do século 21. A narrativa começa com dois velhos amigos, Christian e Jakob, vendo um documentário sobre os anos 1970. Mais precisamente sobre a turbulenta Itália daquele período, assassinatos políticos e as Brigadas Vermelhas. O primeiro é um jornalista que vive de frilas, está escrevendo um romance que não consegue levar adiante, mora de favor no apartamento da ex-mulher e tem algumas dívidas; o segundo pertence ao mundo acadêmico, é professor universitário, dá aulas sobre o Romantismo Alemão e também sobre Focault e Deleuze. Na mesma universidade há um professor de filologia românica que nos anos de juventude pertenceu à luta armada, chama-se Carl Brenner. Christian quer que seu amigo sirva de ponte para que este último coloque-o em contato com um ex-líder brigadista. Na verdade, está interessado numa matéria jornalística visando à autopromoção.

Nos dias de hoje, quando se pensa que a juventude aderiu por completo ao mundo do consumo, Peltzer nos apresenta uma Berlim plena de resistência política. Uma resistência subterrânea, é bom dizer, em que militantes das mais diversas organizações agem de modo a enganar as autoridades, como sabotar empresas públicas, colocar obstáculos a câmeras que devassam a privacidade das pessoas, danificar máquinas de venda de bilhetes do metrô, pichar vidraças de lojas famosas, tudo com a razão de que ainda existe algo digno por se lutar.

Mas Crhistian deseja uma entrevista com aqueles homens que no século 20 abalaram o poder e o mundo com violentos atentados políticos, ou atentados terroristas. Para a justa definição depende de que lado se esteja. Onde estarão hoje aquelas pessoas? Como sobrevivem? Então, sabemos que muitos vivem numa espécie de limbo, entre a clandestinidade e uma legalidade até certo ponto permitida. Outros abandonaram as hostes de luta e entraram para a vida burocrática de uma universidade. Também percebemos que ora é conveniente ao governo permitir-lhes asilo, ora é melhor extraditá-los, ou pedir a extradição, como assim fez Berlusconi numa espécie de campanha política.

Mas o romance não se resume apenas nisto. Entra na história uma mulher, estudante, bonita por sinal, chamada Nelly. Inicialmente é orientada por Jakob no seu trabalho de término de curso. Através de seu professor conhece Christian, aproxima-se dele e acabam se relacionando. O velho amigo de Jakob quer um contato com alguém que pertenceu às Brigadas Vermelhas, mas, guardadas as devidas proporções, tem ao seu lado uma mulher capaz de atos também belicosos. Só que Christian vai demorar a descobrir essa face de sua namorada. Nelly pertence a uma organização de resistência senão política, ao menos ideológica. A esquerda europeia desfila diante de nossos olhos.

O romance não faz concessão alguma ao leitor. Há uma pequena introdução, que é seguida de três partes. Uma espécie de escrita em bloco, que muda de foco constantemente de modo intercalado. Acompanhamos Christian em sua vida diária, Jakob, Nelly, Brenner, e os homens da segurança que tentam descobrir os integrantes das organizações clandestinas. O trabalho destes é frustrar as ações antes que elas aconteçam e juntar provas para condenar aqueles que atentam contra o bem público ou privado.

Nas ações da atualidade, retratadas no livro, nada igual às explosões e aos assassinatos de três décadas passadas. São ações pontuais, mais simbólicas do que de efetivos resultados. A juventude revela que sempre está pronta para protestos seja em Berlim, seja em Zurique, em Paris ou mesmo em Roma. Às vezes ardem alguns automóveis, nada muito além do que um prejuízo a mais para as companhias de seguro.

O mais interessante no livro, no entanto, não é propriamente todo esse périplo político. Mas os pequenos fracassos ou pequenos sucessos de cada personagem, tanto na atuação pública quanto na esfera de suas vidas privadas, a convivência do existencial como o ideológico.

É digna de nota a parte final do romance, chamada Belleville, bairro de Paris, onde Christian acompanhado de Nelly está prestes a conseguir sua entrevista. Um fato ocorrido em Berlim horas antes, porém, ameaça colocar tudo a perder.

Salutar a discussão, porque a partir dela chega-se à conclusão de que o mundo não acabou depois da queda do Muro.

Parte da solução, Ulrich Peltzer, 472 páginas, Estação Liberdade

quinta-feira, dezembro 09, 2010



“O fim abraça tudo”, menos a poesia

A primeira parte do livro Loja de amores usados, de Carmen Moreno, chama-se "Morte Versus Vida", eis um trecho do primeiro poema, Movimento: "O fim abraça tudo / que mal se inicia. / Qual feto morto, / na barriga do dia." Versos prenunciando a vitória da morte, que, inclusive, aparece em primeiro lugar no próprio título. Poderíamos pensar que para essa devastação impossível de ser contida nada restaria. Mas, mergulhando livro adentro, envolvendo-se no ardor da hora poética, logo se percebe que essa morte, que a tudo e a todos devora, não consegue levar consigo a poesia. Permanece esta como marco de uma vitória, como a vida dos deuses olímpicos, que se não eram tão eternos assim, ao menos o são enquanto duram. E duram até hoje.

Num idioma que, entre tantos poetas difíceis de serem hierarquizados, há um Camões e um Pessoa, a própria opção de escrever poemas torna-se uma temeridade. Mas Carmen Moreno arrisca-se, não teme o desafio, parecendo talhada para tal ofício. A epígrafe inicial, colhida na obra de João Cabral, aponta o propósito: "gosto de chegar ao fim, de atingir a própria cinza."

Em tudo que escreve, ela não deixa ideias nem modos de dizer na superficialidade:

"Ninguém parte: aparta-se de nós / apenas o palpável. / Perde-se a casca densa do amado ser. / Seus sonhos, mirados do Alto, / a terra não morde."

"Arriscar é ser mais que o medo."

"Busco o poema como quem se esparrama, / tateando a cama vazia. / Quero, no colo da palavra, / a cor que falta no dia."

Na segunda parte, "Ecos da Casa", os poemas percorrem o universo da memória:

"A família se esvai, / por entre os dedos dos anos. / Encardida fotografia. Grande útero decomposto."

Trata-se, na verdade, de uma memória drummondiana, lembranças que não apenas transmitem saudade, amargor de uma vida sempre vulnerável a perdas, a separações, ao silêncio, mas essa memória também revela o peso da ancestralidade, que permanece em cada um e que é impossível ser descartada.

"A família tomba sobre nós com seus guardados. / Quem seríamos, sem tantas vozes compondo nossos passos?"

Versos que nos lançam à presença perene daqueles que nos antecederam, presenças em pequenos gestos, olhares, palavras perdidas, impossível se livrar do passado, impossível a autossuficiência:

"Meu pai morava no desamparo. / Sorte, que a casa amparava sorriso nas frestas de cal, / nas tréguas do caos. / E havia alegrias resistentes nos cantos dos quartos, /

nas rosas das janelas... / E havia o movimento dos irmãos, / e as mãos da mulher partindo pedaços de pão, / para não perdermos o caminho."

Mais adiante:

"Tenho minha mãe entre as pernas, / Há anos tento pari-la, pari-la de mim, / mas minha mãe não se desgarra."

E, ainda uma vez, a própria poesia surge (metaforicamente, é claro) como um meio de salvação, uma barreira capaz de nos proteger das mazelas do dia-a-dia:

"Vem, poema, me salva do sorriso de minha mãe, / da loucura da minha irmã."

Momento em que alegria e loucura se unem, porque, tanto no universo familiar quanto no percurso da memória, a palavra surge como meio de organização do mundo, não a palavra comum, mas a da poesia, a palavra surpreendente, a palavra até mesmo impossível.

Na terceira parte, "De Cama e Cortes", o livro enfoca o papel do amor, também como antídoto à solidão, ao caos provocado pela inexplicabilidade da vida. A sedução se faz presente como tentativa de driblar a morte:

"Os amantes se penetram. / Injetam-se no outro, e perdem o rosto."

"De que recanto do amor o pássaro da morte / levou no bico o teu beijo."

A temática da morte, como nos grandes poetas de nossa língua, quase sempre se faz presente no texto de Carmen, ora apontando a dualidade amor versus morte, ora vida versus morte, que na verdade tem como origem o próprio amor.

Apesar da divisão do livro em partes, torna-se impossível ocultar temas recorrentes. Memória, amor e morte sempre reaparecem para configurar uma tessitura poética coesa.

"Acariciar sonhos, / enchendo gavetas de guardados. / Amarelados papéis, roídos por baratas e tempo."

A última parte, "Sobre Saias e Sobre (saltos)” enfoca especificamente a condição feminina, apresentando questões do tempo, que apontam o papel da mulher na contemporaneidade:

"A mulher que mora em mim tem tantos mundos, / que todos os homens sou eu." Aqui a mulher tornando-se uma entre todos os gêneros.

"O amor roçou no tempo até esgarçar-se de vez, por excessos. / Quando caminho as coxas roçam uma na outra, por excessos. / Cortar gorduras é exercício estóico (às vezes esmoreço e espreguiço). / Mas tenho apreço pela assepsia da alma: limpo desde menina o lixo entranhado na história."

Ou ainda:

"escondo a barriga sem lipo, / mas a alma - renovada - mostra a cara."

Neste trecho, apresentam-se as exigências da modernidade em oposição ao desejo do eu poético pela autenticidade.

E há também a crítica ao universo masculino, este equilibrado no fio tênue entre o desejo do macho e sua fragilidade, a inobservância do masculino pelo próprio reflexo, difícil de ser admitido:

“viril de crachá / ele é macho de etiqueta / lançar-se no pódio / é sua muleta / Para qualquer suspeito / ele arma sua mira / persegue o gay / que o espelho lhe atira!”

Carmen Moreno é autora de vários livros, tanto de ficção como de poesia. Este Loja de amores usados vem apenas confirmar um talento que há muito se destaca, e revelar uma poeta que sabe trabalhar tanto com os temas universalmente abordados pela poesia, como com aqueles que fazem parte do tempo presente.

Loja de amores usados

Carmen Moreno

Editora Multifoco, 119 páginas

Encomendas: vendas@editoramultifoco.com.br

quinta-feira, dezembro 02, 2010

A capa da Fama

Em seu primeiro romance depois da consagração com ‘O filho eterno’, Cristovão Tezza constrói personagem que é um escritor famoso e inseguro

Um escritor ao desamparo, pode-se dizer sobre o tema do novo livro de Cristovão Tezza. O personagem principal é um autor já famoso, ganhador do prêmio Jabuti. Ele se vê numa cidade estranha, Curitiba, para onde fora divulgar o novo livro. Na primeira noite na cidade conhece uma mulher chamada Beatriz, por quem logo se apaixona, convidando-a para ser sua secretária, uma espécie de leitora especial para o livro que pretende lançar em breve. No dia seguinte cancela a viagem de volta e, à noite, vai à casa dela com uma garrafa de vinho. Ao chegar diz: “cometi um erro emocional. Eu me apaixonei por você”. Dali surgirá um embate tenso, não propriamente permeado por palavras, mas por silêncios, pensamentos, diálogos com personagem imaginários, discussões consigo mesmo a respeito do que o outro traz à mente, ou de que carta esconde na manga.

Os dois personagens se colocam frente a frente, tendo como pretexto a literatura, mas o que escorre nesse fio de lágrimas, vinho e sangue é a vida de cada um, o desamparo a que ambos estão submetidos, à intensa solidão que compartilham sem o saber. O tempo em que os dois se movem é curto, uma noite apenas, mas o suficiente para que, em monólogos interiores, em fluxos de pensamento, saiba-se sobre a origem de cada um, suas dores, inquietações, traumas, perdas e a relação com outros personagens adjacentes, sobretudo os que lhes infernizaram a vida.

O escritor, admirado por sua leitora voraz chamada Beatriz, não demonstra ser o mesmo quando despido da pele de autor. Ele é alguém premiado, admirado por todos, mas na vida cotidiana é de uma terrível fragilidade, um autista, como pensa a personagem que o confronta, nem é capaz de chegar à janela para admirar a vista lá de cima.

A pretexto de discutir literatura, o que vem à tona é a necessidade de espantar os fantasmas do passado representados pela ex-mulher e pelo filho que o ignora. Para tirar a diferença, há Beatriz, a nova mulher, com quem ele tem esperança de recomeçar. Ela também tem seus problemas, mas parece saber lidar melhor com a solidão.

Cristrovão Tezza apresenta também como questão neste livro a precariedade do homem que se encontra sob a capa da fama, alguém cujos leitores costumam ver como uma espécie de super-homem. Um artista, uma vez que cria personagens tão fascinantes, não seria possível em pessoa ser tão medíocre. Mas é isso que acontece. À medida que a noite se esvai, à medida que a garrafa de vinho se esvazia, intensifica-se o temor pela chegada da hora da despedida. Cria-se então sempre um pretexto para se ficar mais um pouco: uma xícara de chá, um café bem forte, uma nova garrafa de vinho. E tenta-se de novo, recomeça-se o embate, como se o anterior estivesse sendo passado a limpo, como se existisse um meio de se escapar da solidão, do desamparo, enfim da morte.

A narrativa em terceira pessoa, tendo como contraponto os dois personagens remoendo suas memórias e, sobretudo, Beatriz a conversar com uma amiga imaginária a respeito da noite vivida com Paulo Donetti, o escritor, proporciona boa proximidade temporal, e faz desse narrador mais um espectador das angústias alheias do que alguém capaz de determinar-lhes os passos.

Um erro emocional, novo livro do mesmo autor de O filho eterno, obra anterior com que ele abocanhou praticamente todos os prêmios literários e que lhe permitiu dedicar-se integralmente à literatura, não deixa a desejar. É importante que no atual momento da literatura brasileira, escritores como Cristovão Tezza saibam sair-se bem da síndrome de seu livro mais famoso, mostrando que o risco e a fragilidade de todo autor podem servir de assunto para uma nova obra.

O escritor, nascido em Santa Catarina mas criado em Curitiba, trata com maestria esse tema, na verdade inquietações de todos aqueles que sabem que o tamanho da vaidade é sempre maior do que o do talento, de quem após colher os louros da vitória começa a beirar a repetição, a colecionar críticas desfavoráveis, acabando por se tornar um fantasma para si próprio. Seria melhor acreditar que somos eternamente geniais.


Um erro emocional. Cristovão Tezza.

Record. 192 páginas. R$ 34,90


Haron Gamal - Jornal do Brasil | Sábado, 27 de novembro de 2010

quinta-feira, novembro 11, 2010

Literatura: amor nada vago

A literatura brota onde se menos espera. É o que se pode dizer ao terminar uma primeira leitura de Amores Vagos, livro publicado pela editora Alternativa, coletânea de sete autores que um dia se conheceram numa oficina literária e depois seguiram seus próprios caminhos, publicaram e tornaram-se até certo ponto conhecidos. Esses mesmos autores encontraram-se mais de uma década depois e resolveram lançar um livro em conjunto. É essa a história desses Amores vagos. Tal decisão deve-se a um projeto em comum, ao qual deram o nome de “estilingues”. Isso mesmo, como o estilingue que no passado era feito a partir de uma forquilha e de um pedaço de borracha. Um artefato que lançava pedras. Só que o estilingue de Alexandre Brandão e de mais seis outras escritoras (isso mesmo, todas as outras são mulheres) serve para arremessar livros. Leiam-se os livros e os lancem adiante, assim a literatura circula sem os impedimentos existentes no Brasil quanto à sua comercialização e circulação. Há até uma página para cada leitor escrever seu nome, necessidade de saber por onde andam os filhos, ou, aliás, os livros, na verdade uma espécie de filhos. Não desejam perdê-los de vista.

Além do belo aspecto gráfico e do fino acabamento, como não poderia deixar de acontecer o pequeno volume traz quatorze narrativas, duas de cada autor, ou autora. A poesia comparece através de páginas em prosa, páginas requintadas, onde a palavra namora na fronteira do abismo.

Nilma Lacerda, no primeiro conto, apresenta uma menina que tem uma relação quase carnal com a leitura. A mãe, apesar da origem pobre, regala a filha com livros, a despeito da opinião contrária de outros parentes. No final, ante a desconfiança da uma tia idosa, a jovem leitora conclui: “que ingênua a minha mãe. Teolinda não, sabia dos riscos, sabia das coisas do corpo entre o livro e uma menina”.

Alexandre Brandão nos traz em “Dois lances do minúsculo amor” um homem dilacerado pelo amor não correspondido. Alguém capaz de se atirar a todos desvarios para reconquistar a mulher, ou mesmo esquecê-la: “O que me restou foi apenas aquela noite vasta e de escuridão imensurável. [...] Parei aqui, ali. Bebi até a morte. [...] Encontrei o chino. Joguei com o chino. Apostei até a alma. Perdi a alma.”

Em “Os olhos de Filipa”, Sonia Peçanha conta um episódio da infância de uma menina que se divide entre o amor por uma boneca e o esconderijo em que permanece alheia ao mundo circundante. Um incêndio, no entanto, muda-lhe o destino.

“Constelações”, de Vânia Osório, é constituído por três pequenas histórias, talvez as narrativas que mais se aproximam da poesia, destacando-se o texto “Eterna menina”, e “Noite feliz”; neste, há uma menina que se vê subitamente só no mundo, tendo como companheiro apenas seu cachorro, chamado Plutão.

Marilena Moraes adentra o universo da Internet, fazendo um personagem tímido adotar inúmeros disfarces por meio dos quais ele experimenta tudo que na vida “real” não teria coragem de experimentar. A questão principal é que no final, de tanto estar na pele dos outros, ele acaba por não saber mais quem é.

“Magnífica”, de Cristina Zarur, aborda a vida de um homem decadente que tem na paixão pela cachaça do mesmo nome o motivo que lhe resta para continuar vivo.

Miriam Mambrini, em “Um homem sem sentimentos” transita no mesmo universo de O homem sem qualidades, de Robert Musil, mas aqui criando um personagem frio, sem compaixão, cujo sentimento é despertado quando um pardal invade seu escritório e ele não tem coragem de esmagá-lo. A partir daí, tal qual um dependente químico às avessas, ele vai lamentar as oportunidades perdidas por se ter deixado vencer pelo seu lado sentimental.

A partir deste ponto, repetem-se os autores com mais uma narrativa cada um, todas tendo como motivo a temática de amores e desamores, não excluindo a perspectiva de um romance incestuoso, nem da mulher que adota a prostituição como meio de dar mais conforto à própria mãe. Não falta o tom rodriguiano, em “Quinze”, de Miriam Mambrini, quando uma mulher confessa, no fim da vida, que o único filho do casal era de outro homem, sendo prontamente perdoada pelo marido, porque este já sabia

Pergunta-se muitas vezes o que caracteriza a literatura. E em tantas outras vezes temos dificuldade de responder. O que se pode deduzir deste simpático livro é que a literatura está no constante esforço dos autores em escrever e reescrever suas histórias tentando voos lingüísticos como os que vão a seguir: “O tapa escuro da noite recebe-o na calçada” (Sônia Peçanha), “a vida tomada pelo verso, lambida pelo verso, cada palavra tomada a sal e pimenta” (Nilma Lacerda), “Não vale a pena sair de um sonho de amor, convenço-me”, (Alexandre Brandão), “Como poeta chegou perto, tão perto que, a exemplo de Ícaro, quase sucumbiu ao calor da poesia” (Vânia Osório), “Quem sabe alguém me acessa numa conexão banda larga? Teria prazer em ser plugado a qualquer hora, de passear por aí como link, viajar numa rede wi-fi, encontrar outro byte perdido, entrar com estilo em alguma formatação de vida” (Marilena Moraes), “o que é belo passa rápido. A beleza se consome em fogos de artifício” (Cristina Zarur), “Fera, meu amigo, estou fudido” (Miriam Mambrini).

Amores Vagos

Alexandre Brandão, Cristina Zarur, Marilena Moraes, Miriam Mambrini, Nilma Lacerda, Sônia Peçanha, Vânia Cardoso.

Ed. Alternativa, 142 páginas

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