segunda-feira, junho 02, 2014

Malhas que o império tece


A literatura portuguesa contemporânea sempre nos brinda com boas obras, e Peregrinação de Enmanuel Jhesus (Editora Tinta da China), de Pedro Rosa Mendes, segue a mesma trilha. Trata-se de um livro que descreve todo o percurso que resultou na independência do Timor-Leste do domínio da República da Indonésia, em 1999. Mas para os amantes da literatura a vantagem é que a História é narrada em forma de ficção.

Já no capítulo de abertura, Matarufa, veterano da resistência timorense, relata o dia em que a ONU anunciou o resultado oficial do plebiscito que reconheceu a pequena ilha como país independente: “Às 9 horas da manhã de sábado, 4 de setembro de 1999, no Hotel Ma’hkota, em Díli, Ian Martin, chefe da missão internacional, anunciou os resultados da consulta popular em Timor-Leste: 21,5 por cento tinham votado a favor da autonomia, 78,5 por cento votaram contra.” É preciso esclarecer que “a favor da autonomia” significava permanecer como região “autônoma” da Indonésia, o que não foi a vontade dos habitantes de Timor-Leste, pois a maioria optou pela independência.

O romance possui um eficaz artifício literário. Começa como um auto de missão levado avante pelo bispo Per Kristian Kartevold, da Igreja da Noruega (outubro/novembro de 1999). Isto quer dizer o seguinte: trata-se de uma investigação sobre o suposto paradeiro de um nativo, afilhado deste bispo, que teria desaparecido no Matebian (montanha sagrada conforme a tradição local), exatamente no dia do plebiscito na ilha.

Em forma de inquérito, são enumerados vários personagens que teriam concordado em falar sobre o desaparecido, sobre o país e, enfim, sobre tudo que estava relacionado à luta pela libertação. Não escapam narrativas sobre as tradições dos vários povos que formam a etnia timorense, mesmo aqueles que antecederam a chegada dos portugueses. É sempre bom lembrar que a chegada de Portugal à região data do segundo decênio do século 16. Entre os personagens que depõem neste inquérito literário, encontram-se pessoas que estiveram ao lado da resistência timorense e outras que atuaram junto à administração da ilha sob o domínio da Indonésia ou fizeram parte do seu serviço secreto. Como se sabe, a Indonésia invadiu o Timor logo após a saída dos portugueses, em 1975.

Ao apresentar testemunhos de personagens que estiveram em ambos os lados da luta pelo domínio do Timor, a narrativa acaba por tornar-se polifônica. São oito pessoas (sete homens e uma mulher, entre os homens há um padre) que contam a história do país, cada um sob a sua perspectiva. O romance de Pedro Rosa Mendes, com isso, filia-se à narrativa de António Lobo Antunes, ficcionista que melhor soube ousar nas letras lusitanas. A influência de Antunes pode ser observada não apenas na forma (organização dos parágrafos, diálogos e pontuação), mas também na repetição dos mesmos acontecimentos sob pontos de vista diferentes.

Além desses aspectos estruturais, é possível perceber no romance o mal que toda espécie de colonialismo foi capaz de causar mundo afora. Até mesmo a presença portuguesa, que acabou por predominar porque permaneceu durante muito tempo no local e deixou como herança a língua, é discutida pelo autor. Portugal colocou uma centelha a mais na já conturbada rivalidade existente na região à época das grandes navegações. Povos de Java e de Sumatra havia muito pretendiam o domínio da região.

No final do romance, o autor empreende uma viagem à Noruega, aonde vai ao encontro do tal bispo que seria o autor do relato que nos apresenta. Após boas observações sobre o país nórdico, os contrastes com Portugal e com o Timor, o suposto “editor” (este seria o papel de Pedro Rosa Mendes na organização do livro) estende sua viagem ao Polo Norte, exatamente à cidade onde o bispo reside, localizada em território russo. Ali encontra o religioso com a saúde já bastante debilitada, mas ainda capaz de lhe fazer revelações que proporcionam novo alento às suas investigações.

Talvez, o maior êxito do romance seja a bem sucedida exposição do caráter mágico relativo à resistência das hostes timorenses contra os opressores, sejam eles de onde quer que tenham vindo. Tais segmentos lembram o realismo mágico das literaturas da América Latina. Na luta pela liberdade, até mesmo os ancestrais estão sempre de prontidão, habitando um passado que de certa forma revela-se sempre presente, ou um presente que não se atemoriza diante de um duvidoso futuro.

Outro ponto digno de nota é a descrição das atrocidades perpetradas pelas forças de ocupação da Indonésia, que, segundo a narrativa, não pouparam velhos, mulheres e crianças, condenando todos à fome, à miséria, à morte.

A estada de Pedro Rosa Mendes no Timor-Leste, a título de fazer uma série de reportagens sobre a perspectiva da região após a independência, acaba por revelar não apenas a escolha do povo local pela independência e pela língua proibida pela Indonésia enquanto esteve no poder, o português, mas ainda esclarece que, no mundo atual, cultura alguma é capaz de ser autossuficiente.

Trecho do romance:
Tenho uma memória pequenina de meu pai. Ir aos ombros dele quando, ao descermos do Matebian, um soldado indonésio nos fez parar e ordenou
Dá a criança à tua mulher porque tu ficas aqui,
é essa recordação que tenho, um soldado de boina vermelha, arrancando-me aos braços de meu pai, falando em indonésio, e dando ordens através de um intérprete timorense,
Larga o rapaz, tu és preciso aqui para ajudar as milícias.
Eu nasci em 1974, tinha três ou quatro anos na altura, não entendia nada do que estava a acontecer. O meu pai não queria dar-me. O soldado indonésio arrancou-me e deu-me a minha mãe. Vieram separá-la de meu pai também. Lembro-me dos gritos nossos e deles misturados. Uma bulha. Depois, mais nada. A minha mãe, os meus irmãos e eu continuámos descendo a encosta. Meu pai ficou para trás. Parámos mais abaixo para dormir e esperar se viria ter conosco. Pelas doze da noite ouvimos uns disparos e a minha mãe disse
O vosso pai já morreu. Vamos embora.

O autor:
Pedro Rosa Mendes nasceu em 1968. É autor de uma obra heterogênea que engloba ficção, ensaio e reportagem, com incursões no teatro e na poesia. É autor de quatro romances – Baía dos tigres (1999, prêmio Pen de narrativa), Atlântico (2003), Lenin oil (2006) e Peregrinação de Enmanuel Jhesus (prêmio Pen de narrativa 2011). Atualmente Pedro Rosa Mendes vive em Genebra, na Suíça.

quarta-feira, abril 16, 2014

A literatura e o logro

Primeiro romance de Alberto A. Reis apresenta um narrador suspeito

O leitor de romances não gosta de ser enganado. Essa verdade é mais fácil de ser observada na literatura policial. Entre os cultores do gênero, sobretudo entre os escritores, é regra que o narrador não poder ser o personagem que praticou o crime. Ainda outro ponto: o bom narrador desse gênero, junto com o seu detetive, segue pistas que levarão ao criminoso. Quando este é descoberto, parecerá ao leitor que o próprio narrador vem a reboque do seu herói-detetive. O autor de literatura policial não deve, no final da narrativa, apresentar uma solução em que nas páginas anteriores tenha enganado o leitor. Apesar de alguma controvérsia, em toda a literatura tal concepção de certo modo vigora. Ninguém quer ouvir história de uma voz que, no final do relato, o terá passado para trás. Na literatura brasileira, temos a questão do narrador suspeito. Mas ela geralmente vigora em narrativas em primeira pessoa. Caso este narrador participe da trama e ele seja o protagonista, muitas vezes há de se perdoar o logro. O personagem quer salvar os seus interesses. Neste caso, no entanto, mesmo assim, o logro não será total. O bom leitor olhará com suspeição este tipo de narrador desde o início.

No romance histórico Em breve tudo será mistério e cinza, de Alberto A. Reis, o leitor experimentado não sairá da narrativa logrado, mas perceberá o pecadilho que cometeu o autor. Ao optar por um narrador em terceira pessoa, narrador onisciente, que paira acima da trama, o autor tenta ludibriar o leitor no começo da história.

O livro tem início na Paris da segunda década do século XIX. Um casal de franceses embarca para o Brasil. A mulher é filha de um joalheiro que dirige uma casa famosa à época, a Gerbe D’0r. François Dumont é convencido pelo sogro a se aventurar no interior do Brasil, precisamente nas Minas Gerais, em busca de diamantes.

A aventura é suspeita. Pois não é praxe ser oferecida tal missão a um homem até certo ponto medíocre, não acostumado a aventuras, tanto mais quando se trata de um bom frequentador do fastio parisiense. Mas François aceita a missão e, depois de uma tempestuosa viagem, desembarca com a mulher no Rio de Janeiro.

Após ser informado da morte trágica do sogro ocorrida em Paris, por intermédio da Missão Diplomática Francesa no Rio de Janeiro, Dumont cavalga como o amigo Fernando Murat, de volta à chácara onde este último o hospeda. Em meio a uma conversa entremeada por longos momentos de silêncio, o narrador interpõe um flashback remontando a Paris no momento anterior ao embarque de François. Neste trecho, somos informados de um grande roubo na Gerbe D’Or. Trata-se do desaparecimento de quatro graúdos diamantes pertencentes a uma condessa. Na página 79, o narrador em terceira pessoa (é bom sempre reafirmar esse ponto) engana o leitor: “François, no entanto, estava triste. Sentia-se só no mundo. Havia perdido, em poucos segundos, o sentido de sua viagem e a herança do sogro.” Mas próximo ao final, principalmente a partir da página 489 (capítulo chamado Pedras Mortas), na conversa que tem com Dona Beja (ela mesma, a tal deusa da beleza de Araxá), François Dumont fará uma contundente revelação. O leitor, então, perceberá que não foi exatamente isso que o narrador proferiu no começo do livro.

Outro ponto negativo refere-se aos diálogos. Com exceção de uma palavra ou outra, mesmo quando trata da fala de escravos, eles seguem um padrão único. Em determinadas passagens é difícil de acreditar no discurso indireto livre de personagens como Maquim, Rosa Xangana e Duzinda. Algumas dessas reflexões beiram problemas filosóficos, difíceis de serem atribuídos a personagens que estiveram ainda recentemente ligados à vida tribal.

Mas a narrativa não deixa de ter virtudes, principalmente por se tratar de uma obra com 564 páginas onde a trama principal e histórias paralelas se desenvolvem e se resolvem satisfatoriamente. O romance é dividido em cinco livros (ou partes), cada um deles possui título: “Por terras e por mares”, “Tempo de guerras”, “Batalhas cívicas”, “Rebeliões” e “Passim”. O primeiro aborda, em sua maior parte, a viagem de François Dumont e a esposa. Também se situa neste trecho parte da história da joalheria Gerbe D’Or e de seu proprietário, o sogro de Dumont; a chegada do francês ao Recife e ao Rio de Janeiro depois de muita intempérie; e a rede de influentes contrabandistas, que inclui pessoas de renome. Elas facilitam o envio de pedras preciosas para a Europa, conseguindo a inserção de ouro e diamante no mercado, uma espécie de lavagem de dinheiro da época. O segundo livro já enfoca a questão da escravatura e como os brasileiros brancos lidavam com ela; depois introduz política e aventura na busca desenfreada pelos minérios mais valiosos. “Batalhas cívicas” e “Rebeliões” descrevem a tentativa de um mundo ainda rústico ter como fiel da balança o Direito, mas tudo de modo combinado e fingido. Quando as coisas fogem do controle, desemboca-se nas rebeliões. Na última parte, há o suplício do escravo Maquim, e a já citada revelação (objeto de controvérsia na escritura do romance) que o narrador põe na voz de Dumont.

Como romance histórico, o livro nada acrescenta, proporcionando a personagens reais apenas traços caricatos. A narrativa prima em apresentar a sensualidade das escravas negras, do cortejo de Dona Beja, em Minas, e a voluptuosidade de padres homossexuais e pedófilos, sendo alguns entre eles ricos.

Como todo livro tem um quê de romance policial, Em Breve tudo será mistério e cinza também vai por esse filão, mas o narrador em terceira pessoa, ao se colocar sob a perspectiva ideológica do protagonista, elimina qualquer sutileza de surpreender o leitor em relação ao problema principal que motiva a viagem do casal Dumont ao Brasil.

Trecho do livro:
François, no entanto, estava triste. Sentia-se só no mundo. Havia perdido, em poucos segundos, o sentido de sua viagem e a herança do sogro. Mas de que lhe valeria? Ele nunca teria uma parte significativa daquilo. Mesmo que a tragédia não tivesse ocorrido, tudo iria bem para Louis e Hubert. No melhor dos casos, ele e Honorée recolheriam apenas algumas migalhas da riqueza do sogro. Talvez ainda pudesse escrever ao tio da esposa. Tentar salvar ainda alguma coisa. Ficaria no Brasil. Acharia enquanto isso seus diamantes e, em breve voltaria para Paris rico, muito rico, cheio de histórias parecidas com aquelas que até pouco antes absorvia no clube de leitura de Mme. Baudot.

Sobre o autor:
Alberto A. Reis nasceu em Belo Horizonte em 1947. Mudou-se para Paris em 1968, onde se graduou em Psicologia Clínica. Lecionou na Argélia e foi professor da Faculdade de Medicina da PUC –  SP. Atuou como psicanalista e hoje é livre-docente da USP, universidade em que coordena o Laboratório de Saúde Mental Coletiva. É autor de numerosos artigos e livros sobre psicanálise, saúde mental e saúde pública. Em breve tudo será mistério e cinza é seu primeiro livro de ficção. 

terça-feira, março 04, 2014

“Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu”


Livro de Verônica Stigger discute o caráter sempre em trânsito da cultura brasileira

Opisanie Swiata, que em polonês quer dizer descrição do mundo, é quase um livro de viagens. Mas depois se percebe que a volta ao Brasil empreendida pelo protagonista para uma breve visita ao filho, que ele não conhecia, é quase que definitiva. Se há possibilidade de retorno à Polônia, ela é bastante remota. Começara a Segunda Guerra Mundial.

O romance se inicia com uma carta de Natanael ao pai. Dentro do envelope vai também a passagem. O filho vive na Amazônia. Na carta, Natanael insiste para que o pai venha, pois deseja conhecê-lo. Revela que está doente, que não demore, não sabe se viverá até o dia de seu regresso. A medicina ainda não encontrou os meios de detectar a sua doença. Ainda dita ao pai algumas recomendações que deve observar durante a viagem, e diz que o espera ansiosamente. Daí em diante, podemos perceber as questões que o romance apresenta.

A primeira delas é a saudade. Pois Opalka, o polonês, deixa sua cidade para trás, e o leitor começa a desconfiar de que ele dificilmente a verá de novo. Em segundo: por causa da guerra – e sem saber dela –, ele está prestes a se tornar um imigrante, um dos elementos fundadores da cultura brasileira. Em terceiro, ainda há outros sentimentos, como o amor e uma espécie de nostalgia, mas agora pelo filho que ele não conhece e pela precariedade da saúde dele.

Para completar, num dos primeiros momentos da viagem, enquanto aguarda o trem que o levará ao porto, Opalka se depara com um personagem inusitado, homem divertido e atrapalhado, cheio de malas e bugigangas, alguém que vive viajando pelo mundo. Trata-se de Bopp, um brasileiro. Quando descobre que Opalka fala português e toma conhecimento do motivo de sua viagem, abre-se em sorrisos, faz mais um amigo e deseja acompanhá-lo no seu retorno ao Brasil, mais propriamente à Amazônia, onde Bopp diz já ter vivido.

A narrativa, ao abordar esses dois personagens, apresenta tipos que a princípio seriam antagônicos, mas depois se percebe que um é quase o complemento do outro. Enquanto Opaka viaja a partir da Polônia, o brasileiro apresenta-se como alguém em constante trânsito, conhece ambas as Américas, a Ásia, e acaba de chegar de Vladivostok, na Rússia. O polonês deseja sossego para ler o jornal. Bopp fala constantemente e o atrapalha na leitura. Opalka já estivera na região norte do Brasil nos primeiros anos do século XX. Bopp nessa época mal havia nascido. No final, o leitor perceberá que a influência de Bopp perdurará sobre o seu taciturno e recente amigo polonês.

Tanto na viagem de trem, como na de navio, ocorrem fatos que flertam com o fantástico. Isto talvez revele o objetivo da autora em reiterar que tudo é literatura. Tais momentos se concretizam com a chegada da italiana Priscila e o desaparecimento de sua aranha Maria Antonieta; depois, no navio, com o sádico batismo executado pelo comandante àqueles que ainda não haviam cruzado à linha do Equador; e no momento em que todos a bordo acenam a outro transatlântico, El Durazno, que navega continuamente proporcionando a seus passageiros uma vida fora do mundo, liberada de todos os preceitos e preconceitos morais (é a época da guerra, há de se convir), é para ele que fogem as irmãs andaluzas Olivinhas.

A narrativa não possui apenas uma voz. Ela se dá ora em primeira ora em terceira pessoa, e também há várias cartas que contribuem para o avançar da trama. Um poema próximo ao fim do romance contribui para mesclar os vários gêneros que compõem a narrativa, fazendo o livro beirar o experimental. Gravuras anunciando produtos ou serviços, todos eles da primeira metade do século XX, ilustram a narrativa e propiciam ao leitor conhecimentos da publicidade à época, além de ainda servirem como suporte para a narrativa. Há também recomendações para o desconfiado viajante europeu que se aventura pela América Latina de então.

O microcosmo étnico, formado por pessoas de várias nacionalidades, representa bem a humanidade do período do entreguerras, sublinhando os aspectos mais marcantes de cada personalidade, confere a jovem italiana, o russo, os alemães, os ingleses e, por fim, o próprio brasileiro.

Na chegada à Amazônia, Opalka se vê diante de uma situação pungente. E sempre incentivado pelo amigo, resolve escrever “opisanie swiata”, isto é, a sua descrição do mundo. Na verdade é o brasileiro que revela a ele: “– Tome – disse Bopp, estendendo-lhe um caderninho preto. – É um presente. Serve para fazer anotações. Para que o senhor escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu. Bopp se calou e, depois de um tempo, acrescentou: – Ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu.”

Procurar uma filiação literária para Verônica Stigger é algo problemático. Opsanie Swiata, ao transitar na direção oposta, isto é, do exterior para o Brasil, trazendo no enredo o retorno de dois personagens (um à sua terra natal; outro à terra onde deixara um filho) nos soa como algo antropofágico. Pois não se trata apenas de a cultura brasileira absorver o que vem de fora, mas também uma cultura brasileira que já transitou por outros países e agora retorna mais robusta e feliz ao seu país de origem, pois também se tornara alimento a completar e deixar marcas em outras culturas. Portanto, filiar este livro à ideologia modernista seria torná-lo menor. O que há aqui é um trânsito entre culturas, deixando no mesmo patamar de tantas outras a cultura brasileira, algo talvez impensável à época dos dois Andrades.


Verôncia Stigger nasceu em !973, é gaúcha radicada em São Paulo desde 2001. Doutora em história da arte, crítica de arte e professora universitária, defendeu tese sobre a relação entre arte, mito e modernidade, enfatizando as obras de Kurt Schwitters, Marcel Duchamp, Piet Mondrian e Kasimir Malevitch. Em seu pós-doutorado estudou, entre outros, os artistas brasileiros Maria Martins e Flávio de Carvalho. Seu primeiro livro, O trágico e outras comédias, foi publicado pela editora portuguesa Angelus Novus, em 2003 e, no Brasil, pela 7Letras, em 2004. Pela Cosac Naify, publicou Gran cabaret demenzial (2007) e Os anões (2010). Alguns de seus contos foram traduzidos para o catalão, o espanhol, o francês e o italiano.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

A viagem maior

Júlio Ricardo da Rosa aprofunda o duplo na literatura através de disfarce permitido pela internet

A existência do duplo sempre foi presente em toda a história da literatura. Na poesia, por exemplo, através da tensão entre linguagem figurada e linguagem referencial; na narrativa, sobretudo, através da dialética entre autor e narrador. Tais artifícios não só expandem a possibilidade de leitura de cada texto, como também ampliam suas perspectivas de representação e de criação de realidades.

Sabe-se que autor e narrador são entidades que ocupam instâncias diferentes. Portanto, ao criar um narrador marginal, não se supõe que o autor também viva à margem da sociedade. Quando o autor expande esse duplo ao estabelecer um narrador-autor que cria ainda outro narrador, podemos dizer que foi instituída a narração em abismo. Trata-se, então, de três histórias: a do autor em relação a todo o romance, a história que o narrador nos conta, e a do autor “fictício”, criação do narrador, que também está a nos propor mais uma história. É o que acontece em O viajante imóvel, de Júlio Ricardo da Rosa.

Não é difícil perceber o ardil, na verdade já a partir do segundo capítulo. No primeiro, o romance começa com uma aventura no deserto. Félix Kölderlin presencia uma batalha entre os tuaregues, povo nômade de etnia árabe, que transita pelo norte da África. Já no segundo capítulo, apresenta-se outro narrador, cujo nome é Vitor Assis. Este sim, o viajante imóvel. Daí em diante, quase em capítulos alternados, acompanharemos a trajetória desses dois personagens. O primeiro a aparecer é escritor de livros de viagens radicais, mas (ao menos no início) trata-se de um personagem sobre quem é impossível se fazer publicidade pessoal. Ele nem sequer conhece o seu editor, envia-lhe os textos por correio eletrônico, em meio às suas aventuras em torno do mundo. O segundo, Vitor de Assis, é uma pessoa infeliz, alguém que permanece trancado num apartamento fazendo traduções do alemão para um homem chamado Turco, um tradutor juramentado. Assis vive vigiado e até certo ponto aprisionado pela ex-mulher, como já se pode perceber desde o início do livro. Tal fato o incentiva a tramar um plano espetacular de vingança e de libertação. Ele cria então o escritor-viajante, que lhe permite faturar com o sucesso de suas aventuras transformadas em livros. Se essa situação vai perdurar ou se a ficção será desmascarada, compete ao leitor descobrir.

Uma vez que no mundo das ideias tudo poder ser viável, analisemos a obra partindo do seu criador, Júlio Ricardo da Rosa. O autor soube aproveitar muito bem o recurso imprescindível da atualidade, a internet. A rede possibilita, mais do que em qualquer outra época, que em poucos minutos se possa tomar conhecimento sobre qualquer assunto (ainda que de modo superficial). Permite também a qualquer mortal chamar alguma atenção sobre si. Outra possibilidade da internet é incentivar certo namoro com a fraude, principalmente quando há a criação de pessoas fictícias. Até que ponto se pode forjar uma nova identidade e conseguir documentos “oficiais” através de sites pertencentes ao submundo da rede? Quanto se precisa pagar por isso? Qual o risco que se corre? Rosa nos mostra um caminho divertido e perigoso, que pode ser até mesmo verdadeiro. Ao mesmo tempo que consegue dar a Vitor Assis bastante verossimilhança, o autor cria um Félix Kölderlin titubeante, uma espécie de falsário amador, que acaba bem sucedido devido à ganância do mercado editorial.

No universo de Kölderlin, o autor das histórias radicais, quase tudo é possível. O perigo e o risco de morte sempre rondam os personagens. No de Assis, a aparência é de imobilidade, mas no final há um exagero surpreendente, maior do que o do autor das aventuras à beira de vulcões, batalhas, escarpas e ondas gigantes. Como a literatura, no entanto, é feita muitas vezes de situações que extrapolam a realidade, situações estas em que o exagero é necessário, entra-se na fantasia e é possível acreditar no desfecho, que beira o inverossímil.

Há dois momentos no livro que creditam ao autor a qualidade de saber aproveitar narrativas paralelas. Apesar de não fazerem parte da história principal, acabam por apresentar boas questões. A primeira é narrada por Vitor Assis, em meio ao seu trabalho de tradutor. Trata-se do episódio da vida de um ex-agente do serviço secreto da Alemanha no período em que o país estava dividido. O homem, após ter vivido no lado oriental, foge para o Ocidente, e no final vem dar no Brasil. Não devido à profissão que exercera, mas sim por estar fugindo de duas mulheres. Morara e dormira com ambas simultaneamente, numa espécie de casamento a três. Um dia descobre que elas tentaram envenená-lo. O motivo: a herança. O trabalho de Assis é traduzir a peça jurídica que deverá ser assinada pelo tal homem. Uma das mulheres, a verdadeira esposa, reclama uma pensão, pois alega ter sido abandonada pelo marido, que, a seguir, teria fugido para o Brasil. Outro episódio interessante é relatado pelo narrador-aventureiro. Chama-se: “Na rota da Guerrilha”. Aqui, Júlio Ricardo da Rosa discute a resistência aos regimes autoritários na América Latina, incluindo um ex-agente do exército nazista que teria fugido no final da guerra para a América do Sul. Ele passa a ajudar os guerrilheiros que combatem as ditaduras locais. Talvez o lado negativo de tantas narrativas seja dar ao livro um ar de romance total, mas revela a habilidade do autor em inserir histórias paralelas e demandas diversas a uma narrativa maior.

O título do livro, O viajante imóvel, permite especulações e diálogos com uma longa fila de autores, começando por Xavier de Maistre em Viagem à roda do meu quarto, passando por Machado de Assis, que cita Maistre várias vezes, até desembocar em Joyce que, com o seu Ulisses, cria o duplo Leopold Bloom / Stephan Dedalus.

Além da alternância entre os dois narradores, com trechos quase sempre intercalados, há um longo flashback – necessário para conhecermos a vida pregressa de Vitor –, onde a história se desenvolve por um narrador em terceira pessoa. No capítulo 8, denominado “Identidade Kölderlin”, voltamos ao narrador Vitor Assis, permanecendo assim até o final, o que também acontece nos capítulos intercalados onde há a narração empreendida pelo escritor aventureiro.

Como epígrafe do romance, Rosa cita Ernesto Sabato: “A arte é quase sempre um ato antagônico, e um homem parado pode ter muito mais imaginação do que outro que percorre o planeta.” A citação antecipa o desenrolar da história, que aponta a literatura como a viagem maior, tanto mais quando lembramos que muitos dos escritores viajantes não lograram fisicamente ir muito longe, mas suas obras, além de atingirem estâncias inauditas, nos perseguem e nos mantêm presos a essa eterna peregrinação.

Trecho do livro:
O Lascar estava adormecido por mais de dez anos e, em sua última manifestação, as cinzas haviam atravessado a Argentina e chegado até o sul do Brasil. O calor aumentava, e um leve tremor sacudiu o chão. Luc e Sabine verificaram os aparelhos. Trocavam frases curtas, os olhares fascinados. O vulcão cuspiu as primeiras chamas, e o tremor foi maior, quase roubando meu equilíbrio. Enterrei o chapéu na cabeça enquanto me firmava para retomar a caminhada. Não queria parecer medroso, mas a situação ultrapassava o razoável. Deveríamos nos afastar e não prosseguir em direção ao topo. Novo tremor, e uma golfada de lava jorrou do alto da montanha, alcançando as raras árvores da paisagem e queimando o solo enquanto as cinzas desciam sobre nós. Gritei, chamando meus companheiros de volta, e Sabine replicou sem me olhar, enquanto continuava avançando:

– É apenas uma explosão, não corremos perigo, vai passar logo. (Trecho de Terra em chamas, o mais recente livro de Félix Kölderlin). (O viajante imóvel, Júlio Ricardo da Rosa)

Sobre o autor (Júlio Ricardo da Rosa):
Nasceu em Porto Alegre. Durante os anos 80, escreveu sobre cinema para os jornais Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Comércio. É o responsável pela seleção de Filmes Bourbon, que se realiza todos os anos em novembro. Publicou os livros Beijo no escuro e Veludo.

O viajante imóvel
Júlio Ricardo da Rosa
Editora Dublinense, 253 páginas

sexta-feira, dezembro 20, 2013

A literatura que não deve nada a ninguém

Resenha de “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera, Companhia das letras, 423 páginas.

Daniel Galera tornou-se um escritor respeitável nos últimos anos. Após três livros de muito boa repercussão (“Até o dia em que o cão morreu”, “Mãos de cavalo” e “Cordilheira”), o autor lançou, em 2012, “Barba ensopada de sangue”, romance extenso, algo incomum entre os autores contemporâneos. O livro é digno de ser lido não apenas pela história narrada, mas pelas questões que apresenta. Galera é um escritor auspicioso para a nossa literatura, porque se revela um autor maduro, que não se deixa levar pelas exigências de mercado.

O livro começa com uma espécie de prólogo onde um narrador em primeira pessoa fala sobre a morte de um tio que ele nunca conheceu pessoalmente e que viveu a maior parte da vida no litoral catarinense, em Garopaba. O narrador está na cidade com a família devido à morte desse tio. Portanto, desde o início, percebe-se que o personagem principal do romance já está morto. Esse fato incomoda um pouco, mas não é tão relevante para o desenrolar da história. Tudo não passa de um intrincado jogo em que Galera nos mostra as entranhas da tessitura de um romance. Após o breve prólogo, a narrativa se apresenta em terceira pessoa. É o momento, então, em que passamos a conhecer a vida desse personagem, que não é nenhum escritor, nem mesmo um intelectual, mas um homem que treina atletas para as mais diversas competições, sobretudo as de triatlo.

Na literatura brasileira de hoje, é grande o número de romances que trazem em primeiro plano a vida de um escritor, ou mesmo de alguém importante no mundo das ideias. Não é aqui o caso. Embora um personagem adjacente seja escritor, o fato é apenas mencionado, trata-se do pai do personagem que nos fala no prólogo. O romance desenvolve-se em torno do homem que vê a atividade física como meio de lhe garantir a sobrevivência. Ele não só prepara atletas, mas também dá aulas de natação, e nas temporadas de verão do litoral catarinense ainda trabalha como salva-vidas.

O primeiro capítulo apresenta o motivo de todo o restante do livro. Num sítio em Viamão, no Rio Grande do Sul, pai e filho conversam. O assunto é sobre o avô do rapaz, que desapareceu numa praia do litoral de Santa Catarina. O pai toca em fatos que jamais revelou a pessoa alguma da família. O filho, que o está visitando, escuta e passa ter interesse pela história. Mas no fim deste primeiro capítulo, quem se surpreende é o próprio filho (e também o leitor!). O pai lhe pede que dê um fim à cadela que já o acompanha durante mais de quinze anos, porque, no dia seguinte, vai-se matar.

Contando assim, este início de romance soa meio absurdo, mas a história transcorrerá dentro da mais perfeita coerência e se mostrará muito próxima a uma narrativa policial em grande estilo.

No momento seguinte o filho chega a Garopaba, a mesma cidade em que viveu e desapareceu o avô, e ali se instala. Ele tem a intenção de desvendar o mistério.

Dentre as questões que o livro apresenta, pode-se ressaltar que a literatura para ser boa não precisa querer provar nenhuma grande ideia, ou mesmo filosofia. Outro ponto, também digno de nota, é sobre as relações familiares, ponto turvo no relacionamento humano.

O romance de Daniel Galera leva o leitor a paisagens muito bonitas e a acidentes da natureza dignos de nota. É muito boa a criação de tipos e também de personagens complexas, como a ex-mulher do treinador de atletas, que pouco aparece na narrativa mas tem grande importância. Num mundo pleno de contradições, a amizade e o companheirismo são temas relevantes no enredo.

Enfim, trata-se de uma história bem tramada, com todos os componentes necessários para mostrar que a boa literatura não precisa de firulas, e que as pessoas comuns podem ser ótimas personagens de romance. O mais interessante em tudo isso é que o autor conduz a narrativa sempre de modo a surpreender o leitor, não fazendo concessão alguma.

sexta-feira, novembro 29, 2013

Vários narradores à beira da oralidade

Novelas de Vereza flertam com o realismo fantástico

Noveleletas, de João Paulo Vereza, é um livro que segue na trilha de uma literatura brasileira original. Com cinco pequenas novelas, sendo quatro delas ambientadas longe dos grandes centros, em flerte com um regionalismo inusitado e quase atemporal, as histórias apresentam personagens telúricos e sonhadores, não deixando de lado a relação de poder entre proprietário e empregados nem a religiosidade do homem do povo. Ao mesmo tempo, os textos transitam em meio ao que se costumou chamar de realismo fantástico, provocando desfechos em aberto, que torcem o trágico na direção de possíveis finais felizes.

A primeira história, “O trem nascente”, começa com uma cantiga, que retorna e se interpõe aos vários trechos da narrativa, como uma espécie de ciranda. Tal estratégia alivia os momentos de tensão e desvia de modo inteligente o foco do enredo a outros segmentos, revelando e ampliando fatos que pouco a pouco tornam o leitor prisioneiro do texto. A primeira parte, em forma de um falso diálogo (apenas um dos personagens fala e pressupõe a escuta de outro), apresenta um morador do lugarejo tentando negar informações a um recém-chegado que pergunta sobre o Almirante, uma espécie de mandachuva local. Mas este narrador, com o intuito inicial de nada falar sobre tal personagem, elogia-o tanto que acaba produzindo um efeito contrário: deixa à mostra toda a crueldade do “senhor”, dono da única usina do lugar. Esse foco não é, no entanto, o que há de maior na novela, mas sim a habilidade do autor em transitar por vários tipos de narração, partindo da fala de personagens, poemas, monólogo interior e narrativa em terceira pessoa.

O mistério da “Barra Pequena” é a segunda novela e, talvez, a mais pungente. Inicia-se em forma de diálogo entre um pescador e seu Vianna, o proprietário local, dono de terras e de quase todo o comércio da pequena cidade. É ele que cede o barco para a pescaria. Uma vez que chega sem os peixes, o pescador é acusado de bebedeira. Mas este teria testemunhado a aparição de um monstro no mar, que lhe teria roubado todos os peixes. Entrega um bilhete onde está escrito “Deutilande”, palavra a princípio misteriosa, mas que depois revelará grande parte da violência que a história comporta. Com o desenrolar da novela, a versão do pescador mostrar-se-á próxima da verdade. Apesar de não se tratar de monstro algum, é algo misterioso, que deverá permanecer oculto aos moradores da pequena Barra. A seguir a história deixa a característica dialógica para ser narrada por um jovem órfão de mãe, cujo pai é alcóolico e violento. O aparecimento de um padre, homem de intensa alegria, mudará o destino desse rapaz. O religioso contrasta a todos os princípios severos da Igreja, assinala o prazer como realização máxima e afirma que o ser humano já não carrega o pecado, mas, ao contrário, tem todas as possibilidades, desde que saiba apreciar tudo que a vida lhe tem a oferecer. A narrativa empreendida pelo garoto soa plena de desejos e descobertas. Na verdade, torna-se quase um pequeno romance de formação. Primeiro é o amor pela menina Laura, depois, vendo-se só devido ao desaparecimento do pai, apega-se ao irmão mais velho. Mas esse quer ser soldado e parte para a guerra. A Segunda Guerra Mundial. Por isso a pungência da história. Quase totalmente desamparado, com apenas a figura do padre a lhe insuflar que todo homem é responsável pelo seu destino, esse narrador quer descobrir o mundo. No microcosmo de sua Barra Pequena, ele se depara com os problemas que a vida impõe a todos os homens. Mesmo assim ele não desiste, o amor é mais forte e ele empreende a sua aventura. No final, novamente o desfecho em aberto e a presença do realismo mágico amenizam e proporcionam a nós, leitores, alguma esperança, em meio a uma narrativa de conflito e solidão.

“A maçã do Chorume” é um conto protagonizado por um cachorro que já tomou parte da primeira novela. Mas o autor adverte que “não são histórias relacionadas”. Aqui, o cão aparece sozinho e faminto, anda pelas ruas da pequena cidade num dia de festa de santo, está em busca do que comer e acaba por se fixar numa maçã do amor. Mas Chorume, nas suas travessuras para surrupiar o doce alimento, acaba por provocar um incêndio. Daí em diante, começa uma intensa correria para capturá-lo. O narrador nos faz acompanhar o cachorro na sua fuga e na superação das diversas armadilhas que os moradores criam para lhe barrar o caminho. O que sobressai, entretanto, é a solidão humana, agora sob o ponto de vista de um animal.

A quarta história, toda em versos, “Canção de Mané Cotó”, traz à tona a violência da colonização portuguesa na sua impetuosa busca pelo ouro no Brasil. Embora narrada em terceira pessoa, o conto (podemos dizer assim) parte do ponto de vista de um menino negro, escravo fugido que esconde uma pepita de ouro. Mas a sorte não lhe é favorável. Ele se defronta com certo capitão do mato conhecido como Juba de Leão. Dom Moncorvo, um emissário que vem em busca de indícios de ouro na colônia, sai como vencedor. O menino é o ladrão, mas não deixa de ajeitar as coisas para o nobre português. De acréscimo há a presença de escravos e mais escravos, soldados e índios”, todos a serviço da Coroa.

A última novela é “A perna do rei”, única que destoa do universo telúrico que o livro aborda. Transcorre num transatlântico, durante um cruzeiro. A narrativa, ambientada nos dias atuais, traz como personagem principal um homem da burguesia que teima em discordar da esposa. A bordo, há um cantor muito famoso, chamado de “rei” pelos seus fãs. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Contra ele trama um homem que permanece à sombra, cuja identidade só será revelada no final.

A leitura do livro de Vereza traz à memória o texto “O narrador, considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, de Walter Benjamin, onde o filósofo discorre sobre a arte de narrar e compara o trabalho do narrador ao de um artífice: “a experiência que passa de pessoa em pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos.” No texto, Benjamin aponta a narrativa como uma experiência coletiva: “quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia. Mas o leitor de um romance é solitário”. O filósofo distingue a narrativa próxima à oralidade da narrativa de romance, dizendo que esta última já teria perdido a mística do narrador oral e refletiria a solidão e a fragmentação do homem moderno.

Percorrendo as diversas narrativas desse simpático livro não é difícil detectar a filiação literária de Vereza ao universo ficcional de Guimarães Rosa. Mas não se trata de imitação, o motivo e as questões apresentadas pelas histórias remetem o leitor nesta direção.

Trecho do livro:
Lá distante o trem se acerta num vale reta firme. O sol deixa o lugar, flores cores desaparecem, grama planta surge que nem palha. Chique chique vem o trem, pracumpum pracumpum. Atinge a nuvem auréola da cidade, o negrume da usina tampa tudo feito eclipse. Vai entrando fiuí piuí entre as ruas e casinhas, o ponto abandonado da estação. Treme tudo este trem, termina nunca a fila de vagão. Balança janela acorda criança, poeira flutua o pó decanta, vixe!, a mucama esqueceu lençol no varal. O cobrão diminui a velocidade, a cachorrada abre passagem pela ferrovia e o metal sem óleo chia faísca.

O autor:
João Paulo Vereza escreve desde que se lembra. Carioca, 33 anos, casado, redator publicitário, graduado pela PUC-Rio. Tem formação musical e é baterista de garagem. Mora em São Paulo desde 2006.

quinta-feira, outubro 31, 2013

Ninguém é inocente

Resenha de Memória da Pedra, de Maurício Lyrio, Companhia das Letras, 315 páginas)

Memória da Pedra, de Maurício Lyrio, é um romance que desde o início se mostra complexo. Com um narrador em terceira pessoa, a história de dois casais desenvolve-se entre idas e vindas, procurando ora apresentar o presente, ora o passado de cada um desses personagens. O foco narrativo se detém, no entanto, sobre Eduardo, o protagonista.

Um fator que traz mérito à narrativa é o distanciamento temporal. Ela se dá no início dos anos 1990, momento da história do Brasil em que acontece o impeachment do ex-presidente Collor, a que a narrativa faz referência. Mas, na verdade, não se trata de romance político nem histórico. Essa ambientação, mais ou menos vinte anos atrás, permite ao leitor analisar com menos risco atitudes e comportamentos que ficariam comprometidos caso a problemática discutida no enredo se desenrolasse nos dias de hoje. Mas a história datada não elimina a sua universalidade. Apesar de referências a meninos de rua, tendo um deles como personagem coadjuvante, apesar da menção a protestos pela destituição do presidente da república, o que vigora é o drama interior dos personagens, seus traumas e conflitos, a violência inerente a cada um, enfim, trata-se de um complexo romance psicológico onde, na maioria das vezes, as pessoas, de tão desesperadas, apenas procuram culpados pela própria infelicidade, esquecendo que a causa de suas tragédias pessoais encontra-se dentro de si mesmas.

Eduardo é um professor de filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, discute seus pensadores prediletos, ministra aulas especulativas, mas sua vida particular é pontuada de desencontros. Até aí tudo bem, pois não se trata de um livro de autoajuda nem é função da filosofia propor soluções àqueles que lidam com o assunto. Mas o que nos chega é alguém permeado pela hipocrisia.  A literatura brasileira sempre foi plena de histórias que apresentam, em primeiro plano, personagens pertencentes a classes abastadas. Eduardo não é rico, mas sua vida de filho único, herdeiro de um imóvel na Gávea, acrescentando-se o salário de professor de universidade federal, proporciona-lhe trânsito num universo de requinte, em que há bem mais do que o necessário para se sobreviver. Problemático nas relações afetivas, faz par com Laura, uma artista plástica extremamente insegura. Ela vê a relação com Eduardo como uma tábua de salvação, tábua esta que começa a naufragar em largo oceano (aproveitando a metáfora, já que o mar é também personagem do romance) no momento em que ele descobre um segredo seu.

Gilberto é médico, oncologista, tem como mulher Marina, uma psicanalista irônica, que o absorve, apesar da frieza que o contato com doentes terminais lhe impõe. O casal é amigo de Eduardo e Laura, mas quanto mais os dois casais aproximam-se, tanto mais a amizade se esgarça. À primeira vista a relação dos quatro soa moderna, sem preconceitos. Eles saem juntos, viajam para Búzios, trocam ideias e opiniões. Não há conflito entre a visão médica de Gilberto e a filosofia, profissão de Eduardo. Mas há um ponto em que surge o nó, e ele não desata.

Aqui é necessário acompanhar não o desenrolar da história, mas estudar a criação desses personagens. Talvez o mais complexo seja Eduardo. Sua mulher, Laura, soa um tanto frágil. Não como mulher na narrativa, mas como construção do escritor. Aliás, as mulheres de Maurício Lyrio mostram-se um tanto previsíveis. Talvez, a mais bem construída, embora seja a que menos aparece, é Gorda, uma moradora de rua para quem a mobilidade é quase impossível. Com ela, a narrativa atravessa uma vereda romântica permitindo-nos atração por esse tipo de personagem, atitude ainda possível até meados dos anos 1990.

Mas, antes de falar nessa contração narrativa, analisemos também Gilberto, o oncologista.  O autor fez um bom o trabalho de pesquisa ao descrever com certa minúcia os subterrâneos da profissão do personagem. Desfilam ante nossos olhos doenças terríveis, seus nomes científicos, os sintomas, a evolução e até mesmo a descrição da fase terminal. Mas Gilberto tem a superficialidade da maioria dos médicos. Isso mesmo, muitas vezes achamos esses profissionais importantes, verdadeiros monstros do saber, mas quando se trata de relacionamento, de filosofia de vida, de entendimento sobre o humano, são verdadeiros fracassos. Portanto, a superficialidade em que está imerso Gilberto é fruto da construção bem sucedida do personagem.

A fissura na narrativa advém por meio da mencionada mulher chamada Gorda e, antes, pelo aparecimento de Romário, um menino de rua de doze anos que vende limão num semáforo, na Gávea. Este personagem norteará grande parte da narrativa. Ele passa a ser não apenas companheiro do professor de filosofia, mas também o seu contraponto. O primeiro contato entre os dois é um total fracasso. O garoto pensa que Eduardo é homossexual e está em busca de um caso. Mas pouco a pouco o professor aproxima-se, estabelece contato e conquista a sua confiança. A construção do personagem é verossímil, até a linguagem do garoto mostra-se convincente. O que, talvez, destoe nisso tudo é o que se segue. Romário passa a morar no apartamento de Eduardo, diante de uma, a princípio, estarrecida Laura. Daí a razão da ambientação da narrativa no início dos anos 1990, porque nos dias de hoje tal atitude não seria plausível.

Como ensina Dostoievsky, a literatura precisa exagerar um pouco. Esta arte feita de palavras não comporta o homem comum, as situações corriqueiras do dia a dia, a não ser que esse mesmo homem passe a ter um papel grandioso. Por isso, o aparecimento de Romário proporciona vigor à narrativa, o que não aconteceria caso ela tivesse apenas como destaque as quatro personagens iniciais. Até mesmo a bela Anita, uma jovem bibliotecária do Instituto de Filosofia da UFRJ, soa um tanto frágil. Ou mesmo de Felipe, seu namorado estrangeiro. Romário e Gorda, que moram no teto do Túnel Velho, em Copacabana, trazem à narrativa a estranheza necessária para que o romance atinja patamares mais elevados.

Outro ponto que norteia toda o livro é a constante presença da morte. Ela já desponta através da especialidade de Gilberto, que vive às voltas com doentes terminais, e do acidente que vitimou os pais de Eduardo quando ele ainda era adolescente. Mas é no suicídio que a morte será anunciada com todas as letras, e causará a perplexidade que somente tal ato pode gerar. Já nas primeiras páginas há a uma antecipação da narrativa revelando que Marina, a psicanalista, suicidar-se-á. E, cá entre nós, não é todo dia que uma psicanalista se suicida.

Interessante o Rio de Janeiro com seus encantos num período de pré-acirramento da violência que se seguiria com todas as consequências que já sabemos. Então, o exagero de trazer um menino de rua para dentro de casa permearia um ideal de filósofo semelhante à aposta de Pascal. Filosofia e literatura são construções de pensamentos e de artifícios. Apostas fora delas talvez produzam consequências nefastas, sobretudo numa época em que ninguém mais é inocente.

Trecho do romance:

Eduardo sempre foi o mais circunspecto dos quatro, mas era Gilberto quem nunca atravessava o limite, quem se controlava diante das insinuações de Marina e do apelo do corpo de Laura. Talvez tirasse dali um prazer que nunca vinha ao rosto, severo como uma carranca. Por trás do palavrão, do termo latino ou grego da doença, estava o controle de si e do discurso, como se pontificasse para a posteridade. Dizia conviver mal com a ideia de que bastaria combinar na ordem certa cinco ou seis palavras para responder as questões que o angustiavam: a origem de cada câncer, a cura definitiva, o momento e o lugar em que, pela última vez, correria os olhos em torno de si. Todas as respostas estavam disponíveis, em uma página, um comentário despropositado, uma conversa em um filme, era questão de discernimento. Não se cansava de repetir em voz baixa, como um mantra, o verso sobre o câncer que Eduardo recitou uma vez, no vício de querer encontrar em uma frase a chave para a salvação.

Sobre o autor:

Mauricio Lyrio nasceu no Rio de janeiro, em 1967. É diplomata e trabalhou em Brasília, Washington, Buenos Aires, Pequim e Nova York, onde vive atualmente. Em 2010, publicou A ascensão da China como potência, pela Fundação Alexandre de Gusmão. Memória da pedra recebeu Menção honrosa no prêmio SESC de Literatura 2010.

segunda-feira, setembro 30, 2013

“Hanói”, o novo romance de Adriana Lisboa

“Elefantes não deveriam morrer, não é verdade? Elefantes deveriam viver para sempre.” Embora no começo do seu mais recente romance, “Hanói” (Alfaguara, 238 páginas), Adriana Lisboa use a metáfora desse grande e belo animal, ela vai tratar mesmo é de seres humanos e da precariedade de suas existências. A autora estreou na literatura no final dos anos noventa, e “Sinfonia em Branco” (2001), seu segundo livro, abriu caminho para que ela recebesse muitos elogios e alguns dos principais prêmios concedidos pela crítica especializada. “Sinfonia” acabou também por marcar a sua literatura, porque mesmo hoje, morando nos Estados Unidos desde 2007 e com vários livros publicados, para muitos leitores é ainda o seu melhor trabalho.

Com “Hanói”, seu sexto romance, talvez alguns já possam afirmar que há algo de novo não apenas na literatura de Adriana Lisboa, mas também no horizonte da literatura brasileira. O primeiro ponto é que se trata de uma história totalmente ambientada fora do Brasil, restando nela de brasileiro, além da referência ao já falecido pai do personagem principal – nascido em Governador Valadares e tendo emigrado jovem para os Estados Unidos – a circunstância de ter sido escrita em português. David, o filho, é americano; e sua mãe, uma emigrante mexicana. No livro seus pais aparecem apenas como lembrança. O segundo ponto é que o romance traz como tema principal algo difícil de ser abordado: a dor e a consequente proximidade da morte. O que fazer quando alguém sabe que já não lhe resta mais do que seis meses de vida? Adriana desenvolve bem o tema sem resvalar na pieguice ou no melodramático.

David, um homem de 32 anos, é músico amador, toca trompete, mas tem câncer. O médico lhe assegura que sua doença só possui tratamentos paliativos e que lhe resta apenas uma sobrevida. Mas o personagem, de modo surpreendente, não se deixa abater, cria um objetivo para si, e até arranja uma namorada. Assim como os elefantes citados lá no início separam-se da manada quando sentem a morte próxima (é a própria narradora que nos alerta), David deseja viajar para bem longe, quem sabe Hanói. A capital do Vietnã será o motivo para a entrada em cena das consequências dessa guerra americana.

Talvez muitas pessoas não saibam que a guerra do Vietnã produziu uma horda de deserdados dentro da própria sociedade vietnamita. Enquanto durou, muitos soldados americanos geraram filhos em mulheres vietnamitas. Com o término da guerra, depois que os soldados partiram, essas crianças foram discriminadas e atiradas numa espécie de limbo, não podendo nem mesmo frequentar a escola. Nos anos 1990, os Estados Unidos decidiram receber em seu solo essas pessoas, uma espécie de resgate à tragédia que causaram no extremo oriente. Na América, receberam cidadania e começaram a ser preparadas para a integração na vida social e profissional.

O romance é muito bem sucedido ao expor as duas vertentes a que se propõe. A dor física, incluindo aí a proximidade irremediável da morte, e as feridas ainda não cicatrizadas de todo oriundas de uma guerra que além de mortos e feridos produziu gente proibida de existir como ser humano, outro tipo de sentença de morte.

Embora o romance não possua o mesmo requinte narrativo de “Sinfonia em Branco”, “Hanói” é um bom motivo de comemoração para aqueles que gostam de ousadia. Assim como a experiência americana dos exilados vietnamitas gerou mudança no conceito racial do que é ser americano nos dias de hoje, o exílio voluntário de Adriana Lisboa nos Estados Unidos está gerando uma bem sucedida literatura brasileira, mesmo escrita fora do Brasil e distante dos problemas brasileiros.

sábado, agosto 31, 2013

Ensaio e memorialismo: os livros de Pedro Nava

Michel de Montaigne viveu no século 16. Ao escrever seus famosos ensaios, não tinha a pretensão de angariar um grande público leitor. Pois como se sabe, a literatura da época era divida entre os escritos religiosos, que na verdade tentavam preservar a Igreja Católica dos reformistas, os primeiros lampejos do que mais tarde se viria a chamar de ciência, e o que sempre se costumou nomear literatura e filosofia, na verdade uma herança da antiguidade clássica. O escritor francês, com seus textos, inaugurou um novo gênero que ainda não possuía nem nome nem leitores, o ensaio. Alguém há de perguntar: por que então Montaigne escrevia? Segundo ele, para satisfazer a si próprio, para que pudesse entender melhor a vida e para acostumar-se à ideia de que era impossível escapar à morte. E assim viveu o autor. Sua escrita traz tal sensualidade, que talvez tenha inspirado Roland Barthes quatro séculos depois a escrever “O prazer do texto”. Montaigne viveu a liberdade (que sempre se quis como um direito humano) por meio da exposição de suas ideias e da construção de sua literatura. Em meio a um período crítico da história da humanidade, fins da Idade Média e começo da era moderna, o escritor talvez se tenha tornado o primeiro intelectual até certo ponto independente, um não especialista que, com erudição, disserta sobre os mais variados assuntos e, ainda que se sentisse cristão, fundamenta suas ideias não no que a religião prega, mas na dúvida que todo leigo traz dentro de si, o desamparo a que o homem está submetido, e o inevitável fim que, mais cedo ou mais tarde, teremos de enfrentar.

Assim como os textos do clássico francês, a literatura sempre necessitou daqueles que a utilizassem para discutir não apenas a condição humana, mas também para preservar a memória. Nessa linha de filiação, situa-se o memorialismo, gênero que resgata o passado e o guarda da perspectiva de desaparecimento. O homem de carne e osso está fadado à morte, mas suas obras não. Enquanto houver um humano sobre a face da terra, este deverá saber que é herdeiro de tudo que aqui foi produzido, sobretudo quando se trata de ideias e arte.

Guardadas as devidas proporções, nossa literatura apresenta um herdeiro clássico dessa tradição que, no Ocidente, começou com Montaigne, realizou-se plenamente no século 20 com Marcel Proust, e tem Barthes como espectador e estudioso privilegiado. Na literatura brasileira, esse herdeiro, pouco conhecido principalmente entre os leitores mais jovens, chama-se Pedro Nava (1903-1984). Sua obra, em grande parte memorialista, traz no bojo a discussão da condição humana, ensaística que permeia os livros de todo escritor que sobrevive ao seu tempo. Filho de médico, nascido em Juiz de Fora Nava tornou-se cedo também médico famoso e reconhecido, tendo ocupado importantes cargos na administração da saúde pública. Mas a medicina não lhe foi suficiente. Quando ninguém esperava, já em tempo de aposentadoria, despontou como escritor requintado trazendo à tona o passado não só em que aparece como protagonista, mas também o da intelectualidade brasileira. Seu primeiro livro, “Baú de ossos”, resgata não apenas o tempo perdido de sua família e de parentes próximos que remontam ao século 19, mas traz muitas reflexões sobre o período. Desde cedo o autor privou da convivência com pessoas que vieram atuar como atores principais na vida cultural, intelectual e política do país, como o escritor e poeta, seu tio, Antônio Salles (amigo de Machado de Assis, recusou candidatura à Academia Brasileira de Letras) e entre muitos outros com os irmãos Afrânio e Afonso Arinos, e Prudente de Morais Neto.

Em “Balão cativo” o autor remonta à sua infância em Juiz de Fora, cidade para onde voltou logo após a morte do pai. Rememora a vida provinciana local, as pessoas famosas que desfilavam na rua principal da cidade, homens e mulheres que na verdade também frequentavam a sua casa. Depois relata a mudança com a mãe e os irmãos para a casa do avô materno, em Belo Horizonte. Na recente capital mineira, ingressa no internato do Colégio Anglo-Mineiro, instituição dirigida por ingleses que fez fama à época porque abria mão do latim, do catecismo e primava pela prática de esportes, principalmente do recém-introduzido futebol. Depois, muda-se para o Rio onde passa a morar com os tios, no Engenho Velho. Na verdade, sua vinda para a capital da república acontece devido à necessidade de continuar os estudos ingressando, já adolescente, no internato do Colégio Pedro II, em São Cristóvão. Há toda uma pintura da sociedade carioca da segunda década do século 20, dos passeios pelos arredores, de sua assídua frequência ao cinema Velo, na rua Haddock Lobo, das idas de bonde ao centro da cidade acompanhando o tio Salles, onde visitavam o que havia de mais importante, inclusive a livraria Garnier, na rua do Ouvidor. Ali, ainda menino, foi apresentado a vários escritores famosos à época, como Coelho Neto, João do Rio, Gilka Machado, Silva Ramos, João Ribeiro, Alberto de Oliveira, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac e até a um Lima Barreto “todo ardido e suado de vir rolando de seus subúrbios”.

A obra memorialista de Nava é composta por seis volumes: “Baú de Ossos”, “Balão Cativo”, “Chão de Ferro”, “Beira-Mar”, “Galo-das-trevas” e “Círio perfeito”.

É interessante constatar que, ao contrário do que se diz por aí, o Brasil não é um país de memória curta. Houve um escritor como Pedro Nava, alguém que se preocupou em preservar não apenas a memória da vida familiar, mas também a memória física e espiritual dos lugares por onde andou, não deixando de lado a reflexão.

quinta-feira, julho 18, 2013

A ilha do tesouro

“É um contradição aparente.”

“Aparente?”

“Sim.”

“Por quê?”

“Porque você vem à escola e logo quer deixá-la; você vem para aprender alguma coisa, mas parece que não o deseja. No final, feitas as contas, creio que, mesmo assim, ainda sobra alguma coisa a seu favor.”

Jhonatan olhava os livros que estavam amontoados sobre uma das mesas da biblioteca; depois voltou a face para o professor, como se quisesse perguntar alguma coisa, mas o exemplar da Ilha do Tesouro, de Stevenson, com a capa colorida e algumas figuras quase em alto relevo, despertou-lhe a atenção. O livro remeteu-o ao mar que havia em frente à cidade e à visão das duas ilhas existentes diante da costa. Eram dois animais disformes que sempre quisera identificar, perfilados lado a lado, mas nunca conseguira; em uma delas, a montanha, um tanto escarpada, se destacava.

Professor Júlio também voltou os olhos para a mesa; tomou, em seguida, o livro nas mãos, folheou-o de modo displicente e disse:

“É um bom livro.”

Foi o suficiente para que o rapaz se desinteressasse. Esquivou-se esticando o olhar por sobre o peitoril da janela, em direção a um ponto indefinido na paisagem exterior. Passado algum tempo, o professor deixou livro e aluno e pôs-se a percorrer outras estantes.


O corpo da adolescente lhe escapava das mãos, o céu ia sem estrelas, as areias da praia dificultavam seus passos, pois não fizera como ela que tirara o calçado. Perseguia-a; a moça, porém, conseguia escapar e se ocultar nas sombras. O vento sacudia a vegetação rasteira; ao longo da única via, postes ostentavam lâmpadas apagadas e alheias ao prenúncio de tempestade. Quando decidiu tirar os sapatos e procurar Soraia, ela desaparecera sem deixar qualquer vestígio. Olhou na direção de onde ambos vieram, mediu a distância que percorreram e tudo se misturou à escuridão persistente.

Quando a convidara para passear, levá-la na garupa de sua pequena motocicleta, imaginou cenas indescritíveis, coisas que nunca fizera com mulher alguma - histórias existentes apenas em narrativas de colegas que tinham a mente cheia de imaginação. Ao ouvi-la aceitar o convite, não pôde mais duvidar de coisa alguma; a moça mais bela e desejada da escola seria sua, ao menos naquela noite, ainda que apenas por algumas horas.


Quando o olhar do professor cruzou com o seu novamente, percebeu que Soraia conversava com ele. Sorria e mostrava o livro que estava lendo. Com a presença dela, a biblioteca clareara, tornara-se mais viva e a escola mais agradável, mesmo numa cinzenta manhã de segunda-feira. A moça o encarou, deixou-lhe ligeiro aceno; agia como se nada tivesse acontecido.


Jhonatan esperou encostado a uma falésia. Preferiu o frio da madrugada a voltar para casa. A preamar trazia-lhe respingos esporádicos. Em determinado momento teve a impressão de que uma mulher saía nua do mar; ah, imaginações, pensou. Continuou com os olhos voltados para o mar escuro, na direção das ilhas que não podia enxergar àquela hora.

Ao amanhecer, a maré vazava. Foi então que percebeu que não estava sozinho. Soraia sorria e trazia os cabelos molhados. Mas estava vestida e agasalhada.

Voltou-lhe a mulher nua saindo das águas.

sexta-feira, junho 07, 2013

O ocidente e o Islã


Edward Said mostra em “Orientalismo” as raízes do conflito

“Harry Magdoff descreveu como ‘globalização’ um sistema pelo qual uma pequena elite financeira expandiu seu poder sobre o globo, inflando os preços das mercadorias e dos serviços, redistribuindo a riqueza dos setores de menor renda (em geral no mundo não ocidental) para os de maior renda”.
Essa citação aparece no posfácio da edição de 1995 de “Orientalismo – O Oriente como invenção do ocidente”, de Edward Said (1935-2003), livro que acabou tornando-se um clássico ao abordar as distorções do Ocidente nos estudos sobre o Oriente, principalmente sobre o Islã. As palavras de Magdoff são úteis para reafirmar a tese de Said. Segundo este, o que as pesquisas acadêmicas mais fizeram desde o início da era moderna foi construir uma visão deformada do Oriente, o que correspondia plenamente às intenções dos impérios europeus, que visavam subjugar e explorar a região.
Said nasceu em Jerusalém, filho de árabes cristãos, foi educado no Cairo e em Nova York, onde depois lecionou literatura na Universidade de Colúmbia. Na verdade, o autor diz jamais ter ensinado “coisa alguma sobre o Oriente Médio”, foi professor de Humanidades, principalmente europeias e americanas, e especialista em literatura comparada. Baseando-se nesses estudos escreveu, entre muitos outros livros importantes, “Orientalismo”.
No livro, Said faz uma pesquisa de tudo o que se escreveu sobre o Oriente, tanto sob a perspectiva pretensamente científica como literária, não deixando de fora o enfoque do islamismo a partir do ponto de vista de especialistas ocidentais. O estudo aponta o Oriente admirado em primeiro lugar como lugar exótico e romântico pelos europeus, para logo em seguida ser visto como área de interesses econômicos e políticos por parte dos países ocidentais. O autor demonstra também por que o povo judeu, tão pouco diferente dos povos árabes, foi vítima de outro tipo de discriminação.
O livro é dividido em três partes. A primeira trata do “alcance do orientalismo”; a segunda chama-se “Estruturas e Reestruturas orientalistas”; e a terceira, “O orientalismo hoje”.
Na primeira, o autor conceitua o que se costumou chamar de orientalismo, remontando à Idade Média para depois se fixar no século 19, período em que essas pesquisas se consolidam. Na segunda parte trata das políticas empreendidas pelos impérios ocidentais, como o britânico e o francês, sobre o Oriente. Na última, como o próprio nome revela, aborda como o conhecimento aprofundado do Oriente gerou políticas de dominação da parte dos países ocidentais, sobretudo a partir de meados do século 20 através dos Estados Unidos.
O que Said anuncia, no entanto, é que os estudiosos ocidentais sempre se consideraram civilizados, enquanto viam o Oriente como objeto de civilização. Na construção dessa área de saber, chamada orientalismo, não falta uma quantidade enorme de preconceitos, o que leva o leitor ocidental a uma visão depreciativa desse grande outro, o Oriente.
Na segunda parte, sobretudo, o autor aprecia a quantidade de projetos que visavam à dominação ocidental sobre os povos do Oriente Médio, e relata a expedição de Napoleão ao Egito no início do século 19, quando o país foi conquistado pela França. Napoleão preparou e concretizou a investida levando à frente uma quantidade enorme de intelectuais preparados para convencer os nativos sobre o caráter promissor da presença francesa na região. Rebeliões e levantes que se seguiram mostraram o caráter falacioso do argumento.
Ainda no posfácio há um embate entre Said e Bernard Lewis. Analisando as críticas tanto positivas quanto negativas direcionadas ao seu livro à época do aparecimento da primeira edição em inglês, Said rebate Lewis, que considerou limitada a perspectiva do autor palestino. Bernard, também autor de diversas obras sobre o Oriente, deseja a pesquisa orientalista sob a mesma perspectiva de estudo do helenismo clássico. Said, porém, sustenta que o helenismo clássico pertence a um mundo que já não existe, enquanto o mesmo não pode ser dito a respeito do orientalismo, vide os estudos sobre o Islã e sobre todo o Oriente sendo utilizados pelo Departamento de Estado norte-americano com fins de hegemonia econômica, política e militar na região. Portanto, exigir o caráter apolítico em tal tipo de pesquisa seria negar a contemporaneidade.
A morte de Edward Said em 2003 (período em que se acirrou o conflito Ocidente/Islã devido ao atentado ao WTC e ao consequente início das guerras do Afeganistão e do Iraque), foi uma grande perda para todos, porque ele era o melhor interlocutor intelectual entre essas duas culturas, que, por causa de grupos minoritários (tanto de um lado como de outro), encontram-se num conflito quase irremediável.
“Orientalismo – o Oriente como invenção do Ocidente”
Edward Said, tradução de Rosaura Eichenberg
Companhia das Letras, 523 páginas

domingo, maio 12, 2013

Ilíada e Odisseia, a fundação do humano e a inauguração da literatura

Pouco se sabe a respeito de Homero, até mesmo a cidade onde teria nascido é palco de controvérsias. O período em que a Ilíada e a Odisseia foram escritas também é outro ponto para discussão. Alguns pesquisadores acham que os poemas são do século VIII a.C., enquanto outros apontam o século VII e até mesmo o VI. O consenso é de que esses dois poemas épicos são os fundadores da literatura ocidental, ainda mantendo intensa atualidade.

A Ilíada descreve e narra a Guerra de Troia, desde as suas motivações, a genealogia dos deuses, dos heróis, os detalhes das batalhas e o intrincado conluio entre os habitantes do Olimpo e os homens. A Odisseia já trata da vida de um homem, Odisseu, mais conhecido como Ulisses, seu nome latino.

Atualmente, nas livrarias, é possível encontrar os dois livros em edições muito bem cuidadas. A Ilíada, em capa dura e arte final perfeita, traduzida por Odorico Mendes, famoso intelectual brasileiro que viveu no século XIX, é da Ateliê Editorial. A tradução é tão bem resolvida que se tornou modelo entre aqueles que desejam seguir essa muitas vezes ingrata carreira de tradutor. A Odisseia já aparece em edição mais simples, porém bilíngue e também muito bem acabada, traduzida pelo conhecido professor Trajano Vieira, com posfácio de Ítalo Calvino; a editora é a 34. Na Odisseia há ainda inúmeras notas, a geografia do Mediterrâneo à época em que se passaram a guerra de Troia e as viagens de Ulisses (calcula-se que a guerra tenha ocorrido entre 1300 e 1200 a.C., logo seis ou sete séculos antes de se transformar em literatura), e o sumário dos cantos.

O motivo da Ilíada, como todos sabem, é a fuga de Helena (mulher de Menelau, rei de Esparta) e Páris para Troia (alguns afirmam que ela teria sido raptada), o que motivou uma espécie de aliança entre várias cidades-estados da Grécia para acorrer à Ásia menor e trazê-la de volta. Só que, entre marchas e contramarchas, a guerra dura dez anos. Os gregos combatem sob o comando de Agamêmnon.

Já a Odisseia narra a volta de Ulisses a Ítaca, ilha governada por ele. Mas o herói, autor do cavalo de madeira que enganou os troianos e tornou possível aos gregos a vitória, leva vinte anos para conseguir retornar a sua ilha, somando o tempo que durou a guerra. Ele sofre no percurso todo o tipo de atribulações.

Enquanto a Ilíada é pungente porque além de cantar a vitória das hostes aliadas ressalta a desventura dos que morrem em terra estrangeira, a Odisseia nos aponta o percurso de um homem e sua solidão. Apesar do caráter heroico atribuído a Odisseu, não há quem não se identifique com ele quando se trata dos problemas humanos. O herói é levado cada vez para mais longe de casa; experimenta a ameaça de monstros inimigos, feiticeiras, sereias, tempestades e naufrágios. Seus companheiros vão pouco a pouco perdendo a vida pelo caminho e, quando consegue voltar para casa, Ulisses chega sozinho e em nau estrangeira. Além disso, precisa disfarçar-se para tramar a vitória sobre os pretendentes que assediam sua esposa. Como havia duas décadas que partira e jamais dera notícias, muitos achavam que ele morrera enquanto navegava de volta a sua Ítaca. A viagem de Ulisses é tão tormentosa que ele chega a ir ao Hades – na mitologia grega é a terra dos mortos –, onde reencontra muitos dos seus companheiros que pereceram no campo de batalha, como Ajax e Aquiles. Também descobre entre os mortos sua mãe, que ainda vivia quando ele partiu para a guerra.

Em algumas paragens, o herói também é recompensado com a lealdade e a amizade, como entre os feácios. Estes o acolhem, enchem-no de presentes e o transportam de volta a Ítaca.

Outro episódio interessante ocorre logo que ele desembarca e vai à própria casa apresentando-se como um estrangeiro que pede abrigo, disfarce para driblar os pretendentes de sua mulher. É reconhecido por Argos, seu cachorro, que já tem vinte anos de idade. O animal se agita ante a aproximação do herói, dá demonstração de fidelidade e morre logo em seguida. Uma criada também o reconhece. Uma vez que era costume entre os gregos ofertar banho aos estrangeiros, a criada que o leva reconhece a cicatriz que ele possui num dos joelhos, fruto de um acidente que sofreu quando criança ao acompanhar o avô na caça ao javali.

Apesar de ambas as histórias terem como pano de fundo a guerra, principalmente a Ilíada, vemos diversas demonstração de amor, lealdade e amizade. Ressalte-se o sentimento do herói, Ulisses, que nos ensina como é difícil viver como estrangeiro, pior ainda na própria terra.

Embora os leitores de primeira viagem possam encontrar alguma dificuldade no começo, a leitura de ambos os livros pouco a pouco se torna mais fluida e agradável. Ler esses dois clássicos da literatura acaba tornando-se não apenas uma questão de cultura, mas de humanidade.

sábado, abril 13, 2013

Livros de Benedito Vidigal passeiam pelo lirismo e recuperam o passado de todos nós


Roland Barthes, em A preparação do romance, diz que o cinema não é capaz de transmitir os cheiros, mas a literatura, sim. Antes, em Sade, Fourier, Loyola, ele havia negado a capacidade da literatura para tal representação. Talvez isso tenha ocorrido porque, naquele período, ele flertasse com a psicanálise lacaniana, e visse no princípio da denegação a impossibilidade de representação do real. No entanto, Em A preparação, Barthes parece mudar de ideia. Analisando as afirmações do escritor francês, chego também à mesma conclusão. Se pensarmos o cinema como uma linguagem organizada através de imagens, por mais criativas que sejam suas sequências de cenas, concluiremos que ele não é capaz de nos transmitir odores. Tomemos com exemplo a sequência de um filme que privilegie a imagem de várias flores. Em primeiro lugar, essas imagens causarão prazer aos nossos olhos, ficando sensações mais sutis, como o odor, em situação de desvantagem, tornando difícil ou mesmo impossível a sua representação. A abordagem de nossos sentidos através da visão acabará por nos marcar muito mais pelos contornos que a imagem sugere do que pelas eventuais propriedades que ela possa comportar. Já a literatura, não; uma vez que é constituída por palavras, desde que usadas com criatividade e esmero, poderia representar os cheiros. O bom escritor precisa nos conduzir, em primeiro lugar, a esses conceitos e sugestões, deixando as imagens para um segundo momento. Na literatura é plenamente possível explicar um perfume. É lógico que os cheiros presentes nas histórias não exalarão fisicamente através das páginas de um livro. O perfume que um personagem usa ou o aroma de uma comida no fogo poderão ser sentidos por nós porque, na verdade, há um misto de conceitos explanados por meio de palavras mais a experiência que vivemos no dia a dia. A verdadeira literatura vai muito além do filme que rola dentro da cabeça de cada um de nós.

Essa questão pode ser percebida nesses dois livros de Benedito Vidigal, Corações desatentos, de poemas, e Espelho d’água, de crônicas. Em ambos, somos conduzidos aos sabores e cheiros de uma juventude perdida no tempo. E também a situações contemporâneas, mas que não deixam de trazer um travo de sentimentalismo.

No livro de poemas, Vidigal toca em temas amorosos, eróticos, revisita amigos e canta as lembranças proporcionadas pela cidade de Valença à época em que estudou medicina. O eu lírico é um eterno apaixonado. Através de seu percurso, experimentamos toda a intensidade daquele passado.

Destaco algumas passagens de sua poesia, sempre marcada pelo caráter enxuto e elegante.

“Eu te olhava / enquanto dormia / Acordei por nada / ainda no começo da noite / por isso / eu te olhava de pertinho / sentia teu cheiro / cheiro de perfume / cheiro de amor...”, em “Detalhes”. O erotismo surpreendente predomina em “Pela segunda vez”: “Ela lambeu-me / a boca / como se fosse cadela / e saiu rebolando o traseiro / como se cadela fosse / a segui / pelas ruas sem fim / feito cão predileto...”, e também em “Fuxico”: “Um beijo / um cheiro / uma passada de mão / fuxicos ao pé do ouvido / outros beijos / suspiro / e a negação...”. Reparem a sinestesia em “Ermitão”: “A casa exibia / um caramanchão na entrada / lotado de jasmins estrelados / a perfumarem o ar / Cheiravam mais que as roseiras / ... lá dentro morava o desejo / desejo não revelado...”. Sobre as recordações, “Lembranças de Valença”: “Naquele dia / seduzido pela cidade / subi o jardim de baixo / desci o jardim de cima / e logo te encontrei / naquela rua / Destino!”. Por fim, Vidigal não deixa de fazer uma elegia a amigos e amigas da adolescência ao construir uma espécie de ciranda em “Our street”: “... Rodem / rodopiem / gente alegre / gente amiga / cujo destino / não nos pode roubar / o afeto...”

Espelho D’água também nos presenteia com histórias em prosa, na maioria das vezes plenas de poesia. São narrativas sobre amores roubados, lembranças de amigos e de entes queridos, encontros e separações. Dentre as vinte e quatro crônicas que compõem o livro, destaco as seguintes: “Espelho D’Alma”; “Colegas, Amigos”; “O Ballet das Almas”; “Sob o estigma do sobrenatural”; “Sem censura”; “Sonhar é preciso” e “Pe. Caio de Jesus”.

No final um inédito, “De mim para você”, escrito pela mãe de Vidigal sobre uma viagem que ela fez à terra natal. Esta crônica, pungente, recuperada e modelada pelo autor, demonstra o gosto e o talento da família de Benedito Vidigal pela escrita, pela poesia, enfim, pela literatura.

Corações desatentos, 119 páginas e Espelho d’alma, 99 páginas
Autor: Benedito Vidigal
Editora Kelps

quinta-feira, abril 04, 2013

A cultura de massa e a perfeita audiência

Seria interessante encontrar um poeta, romancista, cineasta, dramaturgo, músico, ou mesmo artista plástico que se contentasse com a audiência de meia dúzia de pessoas. Às vezes se ouve falar de autores que criam por necessidade. Segundo suas próprias palavras, não conseguiriam viver sem praticar algum tipo de criação artística. Será isso verdade, ou essas pessoas estariam sempre desejando a grande audiência e, em consequência, o estrelato?

Desde os primórdios da humanidade, muitas obras de arte foram reproduzidas. Quando se tratava de livros, logo apareciam os copistas, aqueles seres humanos que exerciam a mesma função de uma tipografia, só que a mão.

É lógico que quando se fala de teatro ou de artes plásticas, a situação é um pouco diferente. Uma vez que no teatro cada apresentação é única, ele não se propõe a mecanismos de repetição. Mas qual autor não gostaria de ver suas peças em cartaz anos a fio, como algumas produções da Broadway que permanecem em cartas durante anos ou até durante décadas? Em relação às artes plásticas também se percebe a mesma questão: cada obra de arte é única. Mas todo pintor ou escultor, quando alcança o sucesso, há de querer multiplicar sua produção para sair em turnê mundo afora, sem falar na possibilidade de reprodução através de álbuns de fotografia, a mais recente febre nas livrarias.

Limitemo-nos, porém, à escrita e ao cinema.

A primeira, desde Gutemberg, proliferou-se com a impressão de exemplares que continuaram a sair das máquinas de acordo com a perspectiva de expansão do produto. Sim, produto, porque faz tempo o livro se tornou um produto, um objeto de consumo muito bem acabado, sem nada a dever a qualquer outro produto desse nosso vasto mundo de negócios.

O cinema, já pela própria natureza, surgiu como ponta de lança daquilo que se costumou chamar de cultura de massa. Ele conseguiu massificar a literatura tornando-a acessível ao grande público, já que seria mais fácil assistir a filmes do que ler livros. Sei que muitos cineastas apontarão essa minha afirmação como um sacrilégio. Mas a ideia que se formou no mundo inteiro a respeito da sétima arte é de algo espetaculoso. A própria reprodução em larga escala das cópias de um determinado filme e sua consequente distribuição por todo o planeta configuram o cinema como um tipo de arte fadado à grande audiência.

Portanto, voltamos à questão inicial. Por que a necessidade do estrelato, por que a necessidade de uma grande audiência? Quem se propõe a ser um artista para si mesmo ou para um círculo pequeno de apreciadores? Sim, de verdadeiros e profundos apreciadores. Assim, penetraríamos na misteriosa afirmação de Machado de Assis no início do seu Brás Cubas, que contabilizava apenas uma meia dúzia de leitores como a sua perfeita audiência. 

sexta-feira, março 08, 2013

Resenha de "A montanha mágica", de Thomas Mann


Romance de Thomas Mann antecipa visões do Holocausto

Um jovem singelo viajava, em pleno verão, de Hamburgo, sua cidade natal, a Davos-Platz, no cantão dos Grisões. Ia de visita por três semanas. 
Mas de Hamburgo até essas alturas a viagem é longa, demasiadamente longa, na verdade, para uma estada tão curta. É preciso atravessar diversos estados, subindo e descendo, do planalto da Alemanha meridional até a beira do lago de Constança, cujas ondas saltitantes são transpostas de navio, por sobre abismos considerados insondáveis. 
A partir dali torna-se demorada a viagem que até  esse ponto se realizava rapidamente quase em linha reta. Há delongas e complicações. Na localidade de Rorschach, já em território suíço, voltamos a nos confiar à viação férrea; mas, por enquanto não se progride além de Landquart, pequena estação alpina, onde se precisa fazer baldeação. [...] A estação de Landquart acha-se situada a uma altura relativamente moderada. A partir dela, porém, entra-se na própria montanha, por uma estrada rochosa, áspera, angustiante.

Desse modo começa a viagem de Hans Castorp aos Alpes suíços, no romance “A montanha mágica”, de Thomas Mann. O personagem, um jovem recém-formado em engenharia naval, tem como objetivo visitar o primo, Joachim Ziemssen, que sofre de tuberculose e está hospedado num sanatório (uma espécie de hotel, como são os sanatórios da época) da pequena cidade. A narrativa situa-se na primeira década e em meados da segunda, do século 20.

O início do romance, ao descrever as agruras da viagem de Castorp, contrasta com o que vamos encontrar durante todo o texto, que situa a história num lugarejo da Suíça. Narrações e descrições fora dali existirão apenas na lembrança dos personagens. E não são muitas. A narrativa avançará sem movimentos bruscos, privilegiando o aparecimento dos personagens, seus pensamentos, suas ideias e o que eles nos têm a dizer.

Assim, desde o começo, será possível constatar, além do movimento e do aparente desconforto para se chegar à montanha, sobretudo devido aos vagarosos transportes da época, a oposição entre subida e promessa, uma vez que toda escalada cria a perspectiva de algum tipo de revelação.

O título “montanha mágica”, que poderia soar estranho, permite também análises diversas. A primeira delas esgota-se no que pouco a pouco nos é revelado, um local onde a permanência pode levar os enfermos à cura; a segunda, como aponta Antônio Cícero no prefácio dessa edição, remonta a uma citação de Nietzsche em “O nascimento da tragédia”: “Agora a montanha mágica do Olimpo como que se nos abre e mostra as suas raízes. O grego conheceu e sentiu os pavores e os horrores da existência: para poder não mais que viver, precisou conceber a resplandecente criatura onírica dos olímpicos.” Nesse sentido, não teremos no romance deuses olímpicos, mas seres humanos que vivem, estes sim, um novo aprendizado. Ele pode estar numa nova maneira de compreender o passar do tempo (se é que o tempo, ali, passa), ou, uma vez que não se tem aonde ir porque os passeios são sempre os mesmos, na viagem pelo mundo das ideias. Portanto, a montanha mágica torna-se mística não apenas por curar alguns de seus enfermos, mas por proporcionar ao nosso personagem central revelações sobre a vida e sobre a morte. Na verdade, o romance de Mann acaba por tornar-se um romance de formação.

E para a transformação desse jovem engenheiro, que se preocupava apenas com a técnica, num homem de pensamento, a montanha mostra-se promissora. Tentativa bem sucedida do autor em revelar, num princípio de século tomado por intensa febre tecnológica (um mundo futurista), que as ideias jamais podem ser abandonadas.

Há uma história curiosa sobre a família de Thomas Mann. Conta-se que, um dia, seu filho, Klaus Mann, ao voltar a Munique após uma viagem ao exterior, foi convencido por um dos empregados da casa a abandonar imediatamente o país, pois o avanço do nacional-socialismo colocava em risco a sua segurança e a de sua família. Klaus ainda espera até o dia seguinte quando, então, parte para um longo exílio. Após algum tempo, ele descobriu que o empregado era agente do regime e, naquele momento, não se sabe por que motivo, tentou livrar a barra dos patrões.

Em “A montanha mágica”, vemos desfilar uma série de adoráveis personagens, cada um representando uma ideia, ou um modo de vida. Um deles é Setembrini, a quem o autor nomeia de literato da civilização, isto é, um intelectual herdeiro do humanismo e da ilustração. Outro é o jesuíta Naphta, que trava com o italiano Setembrini um tumultuado embate intelectual. Ambos visam conquistar o espírito de Hans Castorp e tê-lo como discípulo. Há também Mynheer Peeperkorn, um holandês grandioso nos gestos e inconcluso na eloquência, mas cujas palavras revelam-no um tenaz conquistador. Mann o criou baseando-se num famoso escritor alemão do período, ganhador do prêmio Nobel de literatura. Desfila também a russa Mme. Chauchat, cujos olhos quirguizes seduzem o personagem central e o fazem lembrar uma paixão da época de colégio. Atente-se aqui para o tipo de paixão. Espalham-se pelo romance muitas informações acerca da medicina da época e da psicanálise, esta ainda no seu estágio de fundação, representada no romance pelo Dr. Krokowski.

A estada de três semanas de Castorp junto ao primo, em Davos-Platz, acaba demorando-se um pouco mais. As pessoas, praticamente todas enfermas, vivem um microcosmo da humanidade do período. Thomas Mann, como todo grande autor, adianta-se ao seu tempo quando diz pela voz de Naphta: “o segredo e a existência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do eu. O que ela necessita, o que deseja, o que criará é: o terror”.

O livro, publicado em 1924, muito antes da Segunda Guerra Mundial, dos campos de extermínio e dos atuais homens-bomba, mostra, ao contrário do apelido que carinhosamente Setembrini dá a Castorp, que os “filhos enfermiços da existência” estão muito além da montanha.

A montanha mágica
Thomas Mann (tradução de Herbert Caro)
Editora Nova Fronteira, 957 páginas

domingo, fevereiro 10, 2013


Resenha de 'O explorador de abimos - Vilém Flusser e o pós-humanismo'

Erick Felinto e Lucia Santaella partem do pensamento de Vilém Flusser para debater o impacto da tecnologia sobre a vida contemporânea

Por Haron Gamal*

Partindo de premissas do pensamento de Vilém Flusser, Erick Felinto e Lucia Santaella discutem a presença avassaladora da tecnologia e suas consequências sobre a contemporaneidade, no livro “O explorador de abismos — Vilém Flusser e o pós-humanismo” (Editora Paulus).

Flusser é um pensador que foge às amarras da filosofia tradicional, tendo adotado a visão transdisciplinar sobre a realidade muito antes de esta entrar em voga. Sua reflexão se entrega ao risco e ao fascínio com a multiplicidade do mundo, não se fixando em parte alguma. O problema que os autores do livro enfrentam, no entanto, é conciliar o pensamento nômade de Flusser, que não abandona o humanismo e navega até certo ponto nas mesmas águas de Heidegger, com o que chamam de pós-humano, isto é, a perda da centralidade do homem e o fim dos humanismos clássicos num mundo que passou a ser regido pela tecnologia.

O pós-humanismo abordado por Felinto e Santaella traz em muitos momentos a perspectiva da supremacia do maquínico sobre o humano, o que é sugerido pelos autores como o apagamento das fronteiras entre as instâncias da natureza e do artifício. Num futuro universo pós-humano, a tecnologia não apenas dividiria essa preponderância com o humano, mas estaria prestes a superá-lo. Em certas passagens, os autores não veem a questão como malefício, mas sim como um avanço.

Em meio à quantidade de informações disponíveis nos dias de hoje, quem seria capaz de organizá-la e acessá-la sem dispositivos? A partir dessa perspectiva, as subjetividades se veriam diminuídas em proporção à capacidade de atuação dos sistemas e do armazenamento de dados nos computadores. 

A obra desenvolve-se em sete capítulos. O primeiro apresenta “O mistério de Vilém Flusser”, investigando sua produção intelectual e a apropriação de sua filosofia pela teoria da mídia. O segundo, “O nascimento do pós-humano na cibernética”, estabelece como ponto de partida a complexidade e a prevalência dos sistemas de informação como base para a decadência do humanismo clássico, fase em que, pelo menos teoricamente, era o homem o centro do saber e do universo. O capítulo 6, polêmico mas necessário até para quem deseja contestar a obra, aborda a dissolvência dos humanismos.

Interessante nessa discussão é a conclusão de que os humanismos clássicos já não conseguem trazer à Humanidade soluções para problemas pontuais nem existenciais. Portanto, segundo os autores, há a perspectiva do maquínico assegurar um futuro em que, apesar do apagamento das fronteiras entre o humano e o tecnológico, os agenciamentos tornem-se mais eficazes.

Ainda segundo eles, um bom exemplo estaria no livro “Filosofia da caixa preta”, obra em que o pensador tcheco utiliza a máquina fotográfica como metonímia de toda tecnologia: “Na caixa preta de Flusser, manifesta-se uma espécie de dialética do senhor e do escravo. O fotógrafo domina o input e o output da máquina, sem todavia conhecer suas entranhas, sem entender realmente os processos que se efetivam no interior do aparato. Por desconhecer o seu funcionamento, é por ele dominado.”

O título, “o explorador de abismos”, revela o fascínio de Flusser pela reflexão sobre temas prementes e de difíceis soluções. Mas o filósofo aponta que a própria reflexão ainda é a contrapartida mais adequada para a sobrevivência do humano.

*Haron Gamal é professor de literatura e doutor em literatura brasileira pela UFRJ
Matéria publicada no Jornal O Globo, Caderno Prosa e Verso, em 09/02/13.