quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Wellington, Paçoquinha e a escola

Mesmo alguns anos depois, quando já estava aposentada e desfrutava um pouco de lazer, o que jamais conseguiu durante o tempo em que foi professora, Maria Lúcia jamais compreendeu o significado da visita que um ex-aluno lhe fizera, na escola, numa tarde de quarta-feira, em setembro do ano de 2002.
No dia seguinte à misteriosa visita, ao encontrar na própria escola uma colega de profissão, não hesitou em logo lhe dizer:
- Sabe quem esteve aqui, ontem? – e sem esperar resposta, continuou: - o Wellington.
- Que Wellington? – perguntou Isa, a amiga.
- O Wellington, aquele que foi meu aluno na 2a série e da Márcia na 3ª.
- Aquele garoto totalmente louco, que nos fez um dia chamar a polícia e o corpo de bombeiros ao mesmo tempo?
- Isso, esse mesmo.
- Não acredito. Pra mim ele nem mais existia. Do jeito que era maluco e com as companhias que andava, achei que não duraria muito.
- Ele não só existe, como mudou muito. Está um homem, é grande e forte, tem vinte e três anos – afirmou, sem pestanejar, Maria Lúcia.
- E o que ele queria? – perguntou Isa, um tanto desconfiada.
- Disse que estava com saudade da gente. Queria nos ver, sobretudo a mim e a Márcia, que fomos professoras dele. Disse que devia muito a nós.
- Não acredito, aquele garoto era uma peste.
- Sério, e parece que mudou muito, contou que entrou pra polícia.
- Polícia? – surpreendeu-se a amiga.
- Polícia Federal.
- Não acredito, Lúcia, isso deve ser brincadeira.
- Verdade, Isa, ele mostrou carteira de policial.
- Deve ser falsa.
- Não era, não. Ele nos contou que está lotado em São Paulo. Que veio ao Rio numa missão especial. Pediu-nos segredo. Falou: “professora, por favor, não fale a ninguém”, aí virou pra Márcia e continuou: “trata-se de uma missão altamente perigosa e comprometedora”.
Isa, com a testa franzida, olhou para Maria Lúcia, demonstrava total descrença pelo que a amiga lhe relatava.
Maria Lúcia continuou:
- Então, ele nos contou o segredo: “a senhora já ouviu falar num criminoso chamado Paçoquinha?”, “o seqüestrador?”, perguntei. “Esse mesmo”, ele continuou: “o que está preso no batalhão de polícia, aqui próximo da escola. Viemos escoltá-lo, ele será transferido para outra unidade”.
- Você e Márcia realmente se certificaram de que ele era da polícia mesmo?
- Claro. A Márcia ainda disse a ele em tom de dúvida: “como você é da polícia federal se não há concurso pra lá há anos?”. “Claro que houve concurso”, ele nos assegurou e ainda disse mais: “foi um concurso que ocorreu apenas em São Paulo”.
- Lúcia, como é possível, um concurso federal apenas em São Paulo?
- Isa, ele nos contou todos os detalhes. Nos relatou algumas façanhas acontecidas por lá, prisões espetaculares que fez junto com outros companheiros e outras tantas coisas. Eu ainda falei pra Márcia: “viu?, há pessoas aqui que não crêem, mas a escola também forma pessoas para o bem. Em meio ao tráfico, à criminalidade que toma conta dos morros aqui em volta, há aqueles que optaram por fazer parte da lei".
- Há algo de estranho nisso, Lúcia, não consigo acreditar.
- Nós duas, eu e a Márcia, conversamos com ele durante muito tempo. Depois que bateu o sinal de saída, a Márcia se foi com as crianças e eu ainda saí com ele e continuamos conversando.
- Vocês saíram? Maria Lúcia, você deve ter enlouquecido. Vocês foram pra onde?
- Isa, aí você já está querendo saber demais.
As duas se separaram a seguir. Cada uma foi para sua sala e deram suas aulas naquele dia.
Na sexta feira, dia seguinte à conversa, Isa chegou à escola procurando desesperada por Maria Lúcia. Ao encontrá-la disse de um jato só?
- Lúcia, você já leu algum jornal de hoje ou viu o noticiário da TV?
- Não, por quê?
- Então leia você mesma – entregou-lhe o exemplar de um jornal.
Maria Lúcia então se surpreendeu com a principal notícia:
"Paçoquinha foge. Famoso seqüestrador escapa fardado e pela porta da frente de Batalhão onde estava preso. Governador exige apuração imediata. Secretário de Segurança exonera comando da polícia militar. Há suspeitas de mega operação envolvendo civis e militares na fuga do famoso criminoso".

2 comentários:

J disse...

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amira disse...

Haron,
Simplesmente delicioso...
Adorei a naturalidade, o bom humor e a forma natural como voce passa a ideia.
Espero ler mais e cada vez mais e vou indicar o site para amigos que gostam de leitura, inclusive o RONALDO GUIMARAES que é um escritor mineiro e que é muito meu amigo.
PARABENS!!!
Tambem gostei demais dos outros dois.
Beijao
AMIRA