quinta-feira, outubro 31, 2013

Ninguém é inocente

Resenha de Memória da Pedra, de Maurício Lyrio, Companhia das Letras, 315 páginas)

Memória da Pedra, de Maurício Lyrio, é um romance que desde o início se mostra complexo. Com um narrador em terceira pessoa, a história de dois casais desenvolve-se entre idas e vindas, procurando ora apresentar o presente, ora o passado de cada um desses personagens. O foco narrativo se detém, no entanto, sobre Eduardo, o protagonista.

Um fator que traz mérito à narrativa é o distanciamento temporal. Ela se dá no início dos anos 1990, momento da história do Brasil em que acontece o impeachment do ex-presidente Collor, a que a narrativa faz referência. Mas, na verdade, não se trata de romance político nem histórico. Essa ambientação, mais ou menos vinte anos atrás, permite ao leitor analisar com menos risco atitudes e comportamentos que ficariam comprometidos caso a problemática discutida no enredo se desenrolasse nos dias de hoje. Mas a história datada não elimina a sua universalidade. Apesar de referências a meninos de rua, tendo um deles como personagem coadjuvante, apesar da menção a protestos pela destituição do presidente da república, o que vigora é o drama interior dos personagens, seus traumas e conflitos, a violência inerente a cada um, enfim, trata-se de um complexo romance psicológico onde, na maioria das vezes, as pessoas, de tão desesperadas, apenas procuram culpados pela própria infelicidade, esquecendo que a causa de suas tragédias pessoais encontra-se dentro de si mesmas.

Eduardo é um professor de filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, discute seus pensadores prediletos, ministra aulas especulativas, mas sua vida particular é pontuada de desencontros. Até aí tudo bem, pois não se trata de um livro de autoajuda nem é função da filosofia propor soluções àqueles que lidam com o assunto. Mas o que nos chega é alguém permeado pela hipocrisia.  A literatura brasileira sempre foi plena de histórias que apresentam, em primeiro plano, personagens pertencentes a classes abastadas. Eduardo não é rico, mas sua vida de filho único, herdeiro de um imóvel na Gávea, acrescentando-se o salário de professor de universidade federal, proporciona-lhe trânsito num universo de requinte, em que há bem mais do que o necessário para se sobreviver. Problemático nas relações afetivas, faz par com Laura, uma artista plástica extremamente insegura. Ela vê a relação com Eduardo como uma tábua de salvação, tábua esta que começa a naufragar em largo oceano (aproveitando a metáfora, já que o mar é também personagem do romance) no momento em que ele descobre um segredo seu.

Gilberto é médico, oncologista, tem como mulher Marina, uma psicanalista irônica, que o absorve, apesar da frieza que o contato com doentes terminais lhe impõe. O casal é amigo de Eduardo e Laura, mas quanto mais os dois casais aproximam-se, tanto mais a amizade se esgarça. À primeira vista a relação dos quatro soa moderna, sem preconceitos. Eles saem juntos, viajam para Búzios, trocam ideias e opiniões. Não há conflito entre a visão médica de Gilberto e a filosofia, profissão de Eduardo. Mas há um ponto em que surge o nó, e ele não desata.

Aqui é necessário acompanhar não o desenrolar da história, mas estudar a criação desses personagens. Talvez o mais complexo seja Eduardo. Sua mulher, Laura, soa um tanto frágil. Não como mulher na narrativa, mas como construção do escritor. Aliás, as mulheres de Maurício Lyrio mostram-se um tanto previsíveis. Talvez, a mais bem construída, embora seja a que menos aparece, é Gorda, uma moradora de rua para quem a mobilidade é quase impossível. Com ela, a narrativa atravessa uma vereda romântica permitindo-nos atração por esse tipo de personagem, atitude ainda possível até meados dos anos 1990.

Mas, antes de falar nessa contração narrativa, analisemos também Gilberto, o oncologista.  O autor fez um bom o trabalho de pesquisa ao descrever com certa minúcia os subterrâneos da profissão do personagem. Desfilam ante nossos olhos doenças terríveis, seus nomes científicos, os sintomas, a evolução e até mesmo a descrição da fase terminal. Mas Gilberto tem a superficialidade da maioria dos médicos. Isso mesmo, muitas vezes achamos esses profissionais importantes, verdadeiros monstros do saber, mas quando se trata de relacionamento, de filosofia de vida, de entendimento sobre o humano, são verdadeiros fracassos. Portanto, a superficialidade em que está imerso Gilberto é fruto da construção bem sucedida do personagem.

A fissura na narrativa advém por meio da mencionada mulher chamada Gorda e, antes, pelo aparecimento de Romário, um menino de rua de doze anos que vende limão num semáforo, na Gávea. Este personagem norteará grande parte da narrativa. Ele passa a ser não apenas companheiro do professor de filosofia, mas também o seu contraponto. O primeiro contato entre os dois é um total fracasso. O garoto pensa que Eduardo é homossexual e está em busca de um caso. Mas pouco a pouco o professor aproxima-se, estabelece contato e conquista a sua confiança. A construção do personagem é verossímil, até a linguagem do garoto mostra-se convincente. O que, talvez, destoe nisso tudo é o que se segue. Romário passa a morar no apartamento de Eduardo, diante de uma, a princípio, estarrecida Laura. Daí a razão da ambientação da narrativa no início dos anos 1990, porque nos dias de hoje tal atitude não seria plausível.

Como ensina Dostoievsky, a literatura precisa exagerar um pouco. Esta arte feita de palavras não comporta o homem comum, as situações corriqueiras do dia a dia, a não ser que esse mesmo homem passe a ter um papel grandioso. Por isso, o aparecimento de Romário proporciona vigor à narrativa, o que não aconteceria caso ela tivesse apenas como destaque as quatro personagens iniciais. Até mesmo a bela Anita, uma jovem bibliotecária do Instituto de Filosofia da UFRJ, soa um tanto frágil. Ou mesmo de Felipe, seu namorado estrangeiro. Romário e Gorda, que moram no teto do Túnel Velho, em Copacabana, trazem à narrativa a estranheza necessária para que o romance atinja patamares mais elevados.

Outro ponto que norteia toda o livro é a constante presença da morte. Ela já desponta através da especialidade de Gilberto, que vive às voltas com doentes terminais, e do acidente que vitimou os pais de Eduardo quando ele ainda era adolescente. Mas é no suicídio que a morte será anunciada com todas as letras, e causará a perplexidade que somente tal ato pode gerar. Já nas primeiras páginas há a uma antecipação da narrativa revelando que Marina, a psicanalista, suicidar-se-á. E, cá entre nós, não é todo dia que uma psicanalista se suicida.

Interessante o Rio de Janeiro com seus encantos num período de pré-acirramento da violência que se seguiria com todas as consequências que já sabemos. Então, o exagero de trazer um menino de rua para dentro de casa permearia um ideal de filósofo semelhante à aposta de Pascal. Filosofia e literatura são construções de pensamentos e de artifícios. Apostas fora delas talvez produzam consequências nefastas, sobretudo numa época em que ninguém mais é inocente.

Trecho do romance:

Eduardo sempre foi o mais circunspecto dos quatro, mas era Gilberto quem nunca atravessava o limite, quem se controlava diante das insinuações de Marina e do apelo do corpo de Laura. Talvez tirasse dali um prazer que nunca vinha ao rosto, severo como uma carranca. Por trás do palavrão, do termo latino ou grego da doença, estava o controle de si e do discurso, como se pontificasse para a posteridade. Dizia conviver mal com a ideia de que bastaria combinar na ordem certa cinco ou seis palavras para responder as questões que o angustiavam: a origem de cada câncer, a cura definitiva, o momento e o lugar em que, pela última vez, correria os olhos em torno de si. Todas as respostas estavam disponíveis, em uma página, um comentário despropositado, uma conversa em um filme, era questão de discernimento. Não se cansava de repetir em voz baixa, como um mantra, o verso sobre o câncer que Eduardo recitou uma vez, no vício de querer encontrar em uma frase a chave para a salvação.

Sobre o autor:

Mauricio Lyrio nasceu no Rio de janeiro, em 1967. É diplomata e trabalhou em Brasília, Washington, Buenos Aires, Pequim e Nova York, onde vive atualmente. Em 2010, publicou A ascensão da China como potência, pela Fundação Alexandre de Gusmão. Memória da pedra recebeu Menção honrosa no prêmio SESC de Literatura 2010.

segunda-feira, setembro 30, 2013

“Hanói”, o novo romance de Adriana Lisboa

“Elefantes não deveriam morrer, não é verdade? Elefantes deveriam viver para sempre.” Embora no começo do seu mais recente romance, “Hanói” (Alfaguara, 238 páginas), Adriana Lisboa use a metáfora desse grande e belo animal, ela vai tratar mesmo é de seres humanos e da precariedade de suas existências. A autora estreou na literatura no final dos anos noventa, e “Sinfonia em Branco” (2001), seu segundo livro, abriu caminho para que ela recebesse muitos elogios e alguns dos principais prêmios concedidos pela crítica especializada. “Sinfonia” acabou também por marcar a sua literatura, porque mesmo hoje, morando nos Estados Unidos desde 2007 e com vários livros publicados, para muitos leitores é ainda o seu melhor trabalho.

Com “Hanói”, seu sexto romance, talvez alguns já possam afirmar que há algo de novo não apenas na literatura de Adriana Lisboa, mas também no horizonte da literatura brasileira. O primeiro ponto é que se trata de uma história totalmente ambientada fora do Brasil, restando nela de brasileiro, além da referência ao já falecido pai do personagem principal – nascido em Governador Valadares e tendo emigrado jovem para os Estados Unidos – a circunstância de ter sido escrita em português. David, o filho, é americano; e sua mãe, uma emigrante mexicana. No livro seus pais aparecem apenas como lembrança. O segundo ponto é que o romance traz como tema principal algo difícil de ser abordado: a dor e a consequente proximidade da morte. O que fazer quando alguém sabe que já não lhe resta mais do que seis meses de vida? Adriana desenvolve bem o tema sem resvalar na pieguice ou no melodramático.

David, um homem de 32 anos, é músico amador, toca trompete, mas tem câncer. O médico lhe assegura que sua doença só possui tratamentos paliativos e que lhe resta apenas uma sobrevida. Mas o personagem, de modo surpreendente, não se deixa abater, cria um objetivo para si, e até arranja uma namorada. Assim como os elefantes citados lá no início separam-se da manada quando sentem a morte próxima (é a própria narradora que nos alerta), David deseja viajar para bem longe, quem sabe Hanói. A capital do Vietnã será o motivo para a entrada em cena das consequências dessa guerra americana.

Talvez muitas pessoas não saibam que a guerra do Vietnã produziu uma horda de deserdados dentro da própria sociedade vietnamita. Enquanto durou, muitos soldados americanos geraram filhos em mulheres vietnamitas. Com o término da guerra, depois que os soldados partiram, essas crianças foram discriminadas e atiradas numa espécie de limbo, não podendo nem mesmo frequentar a escola. Nos anos 1990, os Estados Unidos decidiram receber em seu solo essas pessoas, uma espécie de resgate à tragédia que causaram no extremo oriente. Na América, receberam cidadania e começaram a ser preparadas para a integração na vida social e profissional.

O romance é muito bem sucedido ao expor as duas vertentes a que se propõe. A dor física, incluindo aí a proximidade irremediável da morte, e as feridas ainda não cicatrizadas de todo oriundas de uma guerra que além de mortos e feridos produziu gente proibida de existir como ser humano, outro tipo de sentença de morte.

Embora o romance não possua o mesmo requinte narrativo de “Sinfonia em Branco”, “Hanói” é um bom motivo de comemoração para aqueles que gostam de ousadia. Assim como a experiência americana dos exilados vietnamitas gerou mudança no conceito racial do que é ser americano nos dias de hoje, o exílio voluntário de Adriana Lisboa nos Estados Unidos está gerando uma bem sucedida literatura brasileira, mesmo escrita fora do Brasil e distante dos problemas brasileiros.

sábado, agosto 31, 2013

Ensaio e memorialismo: os livros de Pedro Nava

Michel de Montaigne viveu no século 16. Ao escrever seus famosos ensaios, não tinha a pretensão de angariar um grande público leitor. Pois como se sabe, a literatura da época era divida entre os escritos religiosos, que na verdade tentavam preservar a Igreja Católica dos reformistas, os primeiros lampejos do que mais tarde se viria a chamar de ciência, e o que sempre se costumou nomear literatura e filosofia, na verdade uma herança da antiguidade clássica. O escritor francês, com seus textos, inaugurou um novo gênero que ainda não possuía nem nome nem leitores, o ensaio. Alguém há de perguntar: por que então Montaigne escrevia? Segundo ele, para satisfazer a si próprio, para que pudesse entender melhor a vida e para acostumar-se à ideia de que era impossível escapar à morte. E assim viveu o autor. Sua escrita traz tal sensualidade, que talvez tenha inspirado Roland Barthes quatro séculos depois a escrever “O prazer do texto”. Montaigne viveu a liberdade (que sempre se quis como um direito humano) por meio da exposição de suas ideias e da construção de sua literatura. Em meio a um período crítico da história da humanidade, fins da Idade Média e começo da era moderna, o escritor talvez se tenha tornado o primeiro intelectual até certo ponto independente, um não especialista que, com erudição, disserta sobre os mais variados assuntos e, ainda que se sentisse cristão, fundamenta suas ideias não no que a religião prega, mas na dúvida que todo leigo traz dentro de si, o desamparo a que o homem está submetido, e o inevitável fim que, mais cedo ou mais tarde, teremos de enfrentar.

Assim como os textos do clássico francês, a literatura sempre necessitou daqueles que a utilizassem para discutir não apenas a condição humana, mas também para preservar a memória. Nessa linha de filiação, situa-se o memorialismo, gênero que resgata o passado e o guarda da perspectiva de desaparecimento. O homem de carne e osso está fadado à morte, mas suas obras não. Enquanto houver um humano sobre a face da terra, este deverá saber que é herdeiro de tudo que aqui foi produzido, sobretudo quando se trata de ideias e arte.

Guardadas as devidas proporções, nossa literatura apresenta um herdeiro clássico dessa tradição que, no Ocidente, começou com Montaigne, realizou-se plenamente no século 20 com Marcel Proust, e tem Barthes como espectador e estudioso privilegiado. Na literatura brasileira, esse herdeiro, pouco conhecido principalmente entre os leitores mais jovens, chama-se Pedro Nava (1903-1984). Sua obra, em grande parte memorialista, traz no bojo a discussão da condição humana, ensaística que permeia os livros de todo escritor que sobrevive ao seu tempo. Filho de médico, nascido em Juiz de Fora Nava tornou-se cedo também médico famoso e reconhecido, tendo ocupado importantes cargos na administração da saúde pública. Mas a medicina não lhe foi suficiente. Quando ninguém esperava, já em tempo de aposentadoria, despontou como escritor requintado trazendo à tona o passado não só em que aparece como protagonista, mas também o da intelectualidade brasileira. Seu primeiro livro, “Baú de ossos”, resgata não apenas o tempo perdido de sua família e de parentes próximos que remontam ao século 19, mas traz muitas reflexões sobre o período. Desde cedo o autor privou da convivência com pessoas que vieram atuar como atores principais na vida cultural, intelectual e política do país, como o escritor e poeta, seu tio, Antônio Salles (amigo de Machado de Assis, recusou candidatura à Academia Brasileira de Letras) e entre muitos outros com os irmãos Afrânio e Afonso Arinos, e Prudente de Morais Neto.

Em “Balão cativo” o autor remonta à sua infância em Juiz de Fora, cidade para onde voltou logo após a morte do pai. Rememora a vida provinciana local, as pessoas famosas que desfilavam na rua principal da cidade, homens e mulheres que na verdade também frequentavam a sua casa. Depois relata a mudança com a mãe e os irmãos para a casa do avô materno, em Belo Horizonte. Na recente capital mineira, ingressa no internato do Colégio Anglo-Mineiro, instituição dirigida por ingleses que fez fama à época porque abria mão do latim, do catecismo e primava pela prática de esportes, principalmente do recém-introduzido futebol. Depois, muda-se para o Rio onde passa a morar com os tios, no Engenho Velho. Na verdade, sua vinda para a capital da república acontece devido à necessidade de continuar os estudos ingressando, já adolescente, no internato do Colégio Pedro II, em São Cristóvão. Há toda uma pintura da sociedade carioca da segunda década do século 20, dos passeios pelos arredores, de sua assídua frequência ao cinema Velo, na rua Haddock Lobo, das idas de bonde ao centro da cidade acompanhando o tio Salles, onde visitavam o que havia de mais importante, inclusive a livraria Garnier, na rua do Ouvidor. Ali, ainda menino, foi apresentado a vários escritores famosos à época, como Coelho Neto, João do Rio, Gilka Machado, Silva Ramos, João Ribeiro, Alberto de Oliveira, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac e até a um Lima Barreto “todo ardido e suado de vir rolando de seus subúrbios”.

A obra memorialista de Nava é composta por seis volumes: “Baú de Ossos”, “Balão Cativo”, “Chão de Ferro”, “Beira-Mar”, “Galo-das-trevas” e “Círio perfeito”.

É interessante constatar que, ao contrário do que se diz por aí, o Brasil não é um país de memória curta. Houve um escritor como Pedro Nava, alguém que se preocupou em preservar não apenas a memória da vida familiar, mas também a memória física e espiritual dos lugares por onde andou, não deixando de lado a reflexão.

quinta-feira, julho 18, 2013

A ilha do tesouro

“É um contradição aparente.”

“Aparente?”

“Sim.”

“Por quê?”

“Porque você vem à escola e logo quer deixá-la; você vem para aprender alguma coisa, mas parece que não o deseja. No final, feitas as contas, creio que, mesmo assim, ainda sobra alguma coisa a seu favor.”

Jhonatan olhava os livros que estavam amontoados sobre uma das mesas da biblioteca; depois voltou a face para o professor, como se quisesse perguntar alguma coisa, mas o exemplar da Ilha do Tesouro, de Stevenson, com a capa colorida e algumas figuras quase em alto relevo, despertou-lhe a atenção. O livro remeteu-o ao mar que havia em frente à cidade e à visão das duas ilhas existentes diante da costa. Eram dois animais disformes que sempre quisera identificar, perfilados lado a lado, mas nunca conseguira; em uma delas, a montanha, um tanto escarpada, se destacava.

Professor Júlio também voltou os olhos para a mesa; tomou, em seguida, o livro nas mãos, folheou-o de modo displicente e disse:

“É um bom livro.”

Foi o suficiente para que o rapaz se desinteressasse. Esquivou-se esticando o olhar por sobre o peitoril da janela, em direção a um ponto indefinido na paisagem exterior. Passado algum tempo, o professor deixou livro e aluno e pôs-se a percorrer outras estantes.


O corpo da adolescente lhe escapava das mãos, o céu ia sem estrelas, as areias da praia dificultavam seus passos, pois não fizera como ela que tirara o calçado. Perseguia-a; a moça, porém, conseguia escapar e se ocultar nas sombras. O vento sacudia a vegetação rasteira; ao longo da única via, postes ostentavam lâmpadas apagadas e alheias ao prenúncio de tempestade. Quando decidiu tirar os sapatos e procurar Soraia, ela desaparecera sem deixar qualquer vestígio. Olhou na direção de onde ambos vieram, mediu a distância que percorreram e tudo se misturou à escuridão persistente.

Quando a convidara para passear, levá-la na garupa de sua pequena motocicleta, imaginou cenas indescritíveis, coisas que nunca fizera com mulher alguma - histórias existentes apenas em narrativas de colegas que tinham a mente cheia de imaginação. Ao ouvi-la aceitar o convite, não pôde mais duvidar de coisa alguma; a moça mais bela e desejada da escola seria sua, ao menos naquela noite, ainda que apenas por algumas horas.


Quando o olhar do professor cruzou com o seu novamente, percebeu que Soraia conversava com ele. Sorria e mostrava o livro que estava lendo. Com a presença dela, a biblioteca clareara, tornara-se mais viva e a escola mais agradável, mesmo numa cinzenta manhã de segunda-feira. A moça o encarou, deixou-lhe ligeiro aceno; agia como se nada tivesse acontecido.


Jhonatan esperou encostado a uma falésia. Preferiu o frio da madrugada a voltar para casa. A preamar trazia-lhe respingos esporádicos. Em determinado momento teve a impressão de que uma mulher saía nua do mar; ah, imaginações, pensou. Continuou com os olhos voltados para o mar escuro, na direção das ilhas que não podia enxergar àquela hora.

Ao amanhecer, a maré vazava. Foi então que percebeu que não estava sozinho. Soraia sorria e trazia os cabelos molhados. Mas estava vestida e agasalhada.

Voltou-lhe a mulher nua saindo das águas.

sexta-feira, junho 07, 2013

O ocidente e o Islã


Edward Said mostra em “Orientalismo” as raízes do conflito

“Harry Magdoff descreveu como ‘globalização’ um sistema pelo qual uma pequena elite financeira expandiu seu poder sobre o globo, inflando os preços das mercadorias e dos serviços, redistribuindo a riqueza dos setores de menor renda (em geral no mundo não ocidental) para os de maior renda”.
Essa citação aparece no posfácio da edição de 1995 de “Orientalismo – O Oriente como invenção do ocidente”, de Edward Said (1935-2003), livro que acabou tornando-se um clássico ao abordar as distorções do Ocidente nos estudos sobre o Oriente, principalmente sobre o Islã. As palavras de Magdoff são úteis para reafirmar a tese de Said. Segundo este, o que as pesquisas acadêmicas mais fizeram desde o início da era moderna foi construir uma visão deformada do Oriente, o que correspondia plenamente às intenções dos impérios europeus, que visavam subjugar e explorar a região.
Said nasceu em Jerusalém, filho de árabes cristãos, foi educado no Cairo e em Nova York, onde depois lecionou literatura na Universidade de Colúmbia. Na verdade, o autor diz jamais ter ensinado “coisa alguma sobre o Oriente Médio”, foi professor de Humanidades, principalmente europeias e americanas, e especialista em literatura comparada. Baseando-se nesses estudos escreveu, entre muitos outros livros importantes, “Orientalismo”.
No livro, Said faz uma pesquisa de tudo o que se escreveu sobre o Oriente, tanto sob a perspectiva pretensamente científica como literária, não deixando de fora o enfoque do islamismo a partir do ponto de vista de especialistas ocidentais. O estudo aponta o Oriente admirado em primeiro lugar como lugar exótico e romântico pelos europeus, para logo em seguida ser visto como área de interesses econômicos e políticos por parte dos países ocidentais. O autor demonstra também por que o povo judeu, tão pouco diferente dos povos árabes, foi vítima de outro tipo de discriminação.
O livro é dividido em três partes. A primeira trata do “alcance do orientalismo”; a segunda chama-se “Estruturas e Reestruturas orientalistas”; e a terceira, “O orientalismo hoje”.
Na primeira, o autor conceitua o que se costumou chamar de orientalismo, remontando à Idade Média para depois se fixar no século 19, período em que essas pesquisas se consolidam. Na segunda parte trata das políticas empreendidas pelos impérios ocidentais, como o britânico e o francês, sobre o Oriente. Na última, como o próprio nome revela, aborda como o conhecimento aprofundado do Oriente gerou políticas de dominação da parte dos países ocidentais, sobretudo a partir de meados do século 20 através dos Estados Unidos.
O que Said anuncia, no entanto, é que os estudiosos ocidentais sempre se consideraram civilizados, enquanto viam o Oriente como objeto de civilização. Na construção dessa área de saber, chamada orientalismo, não falta uma quantidade enorme de preconceitos, o que leva o leitor ocidental a uma visão depreciativa desse grande outro, o Oriente.
Na segunda parte, sobretudo, o autor aprecia a quantidade de projetos que visavam à dominação ocidental sobre os povos do Oriente Médio, e relata a expedição de Napoleão ao Egito no início do século 19, quando o país foi conquistado pela França. Napoleão preparou e concretizou a investida levando à frente uma quantidade enorme de intelectuais preparados para convencer os nativos sobre o caráter promissor da presença francesa na região. Rebeliões e levantes que se seguiram mostraram o caráter falacioso do argumento.
Ainda no posfácio há um embate entre Said e Bernard Lewis. Analisando as críticas tanto positivas quanto negativas direcionadas ao seu livro à época do aparecimento da primeira edição em inglês, Said rebate Lewis, que considerou limitada a perspectiva do autor palestino. Bernard, também autor de diversas obras sobre o Oriente, deseja a pesquisa orientalista sob a mesma perspectiva de estudo do helenismo clássico. Said, porém, sustenta que o helenismo clássico pertence a um mundo que já não existe, enquanto o mesmo não pode ser dito a respeito do orientalismo, vide os estudos sobre o Islã e sobre todo o Oriente sendo utilizados pelo Departamento de Estado norte-americano com fins de hegemonia econômica, política e militar na região. Portanto, exigir o caráter apolítico em tal tipo de pesquisa seria negar a contemporaneidade.
A morte de Edward Said em 2003 (período em que se acirrou o conflito Ocidente/Islã devido ao atentado ao WTC e ao consequente início das guerras do Afeganistão e do Iraque), foi uma grande perda para todos, porque ele era o melhor interlocutor intelectual entre essas duas culturas, que, por causa de grupos minoritários (tanto de um lado como de outro), encontram-se num conflito quase irremediável.
“Orientalismo – o Oriente como invenção do Ocidente”
Edward Said, tradução de Rosaura Eichenberg
Companhia das Letras, 523 páginas

domingo, maio 12, 2013

Ilíada e Odisseia, a fundação do humano e a inauguração da literatura

Pouco se sabe a respeito de Homero, até mesmo a cidade onde teria nascido é palco de controvérsias. O período em que a Ilíada e a Odisseia foram escritas também é outro ponto para discussão. Alguns pesquisadores acham que os poemas são do século VIII a.C., enquanto outros apontam o século VII e até mesmo o VI. O consenso é de que esses dois poemas épicos são os fundadores da literatura ocidental, ainda mantendo intensa atualidade.

A Ilíada descreve e narra a Guerra de Troia, desde as suas motivações, a genealogia dos deuses, dos heróis, os detalhes das batalhas e o intrincado conluio entre os habitantes do Olimpo e os homens. A Odisseia já trata da vida de um homem, Odisseu, mais conhecido como Ulisses, seu nome latino.

Atualmente, nas livrarias, é possível encontrar os dois livros em edições muito bem cuidadas. A Ilíada, em capa dura e arte final perfeita, traduzida por Odorico Mendes, famoso intelectual brasileiro que viveu no século XIX, é da Ateliê Editorial. A tradução é tão bem resolvida que se tornou modelo entre aqueles que desejam seguir essa muitas vezes ingrata carreira de tradutor. A Odisseia já aparece em edição mais simples, porém bilíngue e também muito bem acabada, traduzida pelo conhecido professor Trajano Vieira, com posfácio de Ítalo Calvino; a editora é a 34. Na Odisseia há ainda inúmeras notas, a geografia do Mediterrâneo à época em que se passaram a guerra de Troia e as viagens de Ulisses (calcula-se que a guerra tenha ocorrido entre 1300 e 1200 a.C., logo seis ou sete séculos antes de se transformar em literatura), e o sumário dos cantos.

O motivo da Ilíada, como todos sabem, é a fuga de Helena (mulher de Menelau, rei de Esparta) e Páris para Troia (alguns afirmam que ela teria sido raptada), o que motivou uma espécie de aliança entre várias cidades-estados da Grécia para acorrer à Ásia menor e trazê-la de volta. Só que, entre marchas e contramarchas, a guerra dura dez anos. Os gregos combatem sob o comando de Agamêmnon.

Já a Odisseia narra a volta de Ulisses a Ítaca, ilha governada por ele. Mas o herói, autor do cavalo de madeira que enganou os troianos e tornou possível aos gregos a vitória, leva vinte anos para conseguir retornar a sua ilha, somando o tempo que durou a guerra. Ele sofre no percurso todo o tipo de atribulações.

Enquanto a Ilíada é pungente porque além de cantar a vitória das hostes aliadas ressalta a desventura dos que morrem em terra estrangeira, a Odisseia nos aponta o percurso de um homem e sua solidão. Apesar do caráter heroico atribuído a Odisseu, não há quem não se identifique com ele quando se trata dos problemas humanos. O herói é levado cada vez para mais longe de casa; experimenta a ameaça de monstros inimigos, feiticeiras, sereias, tempestades e naufrágios. Seus companheiros vão pouco a pouco perdendo a vida pelo caminho e, quando consegue voltar para casa, Ulisses chega sozinho e em nau estrangeira. Além disso, precisa disfarçar-se para tramar a vitória sobre os pretendentes que assediam sua esposa. Como havia duas décadas que partira e jamais dera notícias, muitos achavam que ele morrera enquanto navegava de volta a sua Ítaca. A viagem de Ulisses é tão tormentosa que ele chega a ir ao Hades – na mitologia grega é a terra dos mortos –, onde reencontra muitos dos seus companheiros que pereceram no campo de batalha, como Ajax e Aquiles. Também descobre entre os mortos sua mãe, que ainda vivia quando ele partiu para a guerra.

Em algumas paragens, o herói também é recompensado com a lealdade e a amizade, como entre os feácios. Estes o acolhem, enchem-no de presentes e o transportam de volta a Ítaca.

Outro episódio interessante ocorre logo que ele desembarca e vai à própria casa apresentando-se como um estrangeiro que pede abrigo, disfarce para driblar os pretendentes de sua mulher. É reconhecido por Argos, seu cachorro, que já tem vinte anos de idade. O animal se agita ante a aproximação do herói, dá demonstração de fidelidade e morre logo em seguida. Uma criada também o reconhece. Uma vez que era costume entre os gregos ofertar banho aos estrangeiros, a criada que o leva reconhece a cicatriz que ele possui num dos joelhos, fruto de um acidente que sofreu quando criança ao acompanhar o avô na caça ao javali.

Apesar de ambas as histórias terem como pano de fundo a guerra, principalmente a Ilíada, vemos diversas demonstração de amor, lealdade e amizade. Ressalte-se o sentimento do herói, Ulisses, que nos ensina como é difícil viver como estrangeiro, pior ainda na própria terra.

Embora os leitores de primeira viagem possam encontrar alguma dificuldade no começo, a leitura de ambos os livros pouco a pouco se torna mais fluida e agradável. Ler esses dois clássicos da literatura acaba tornando-se não apenas uma questão de cultura, mas de humanidade.

sábado, abril 13, 2013

Livros de Benedito Vidigal passeiam pelo lirismo e recuperam o passado de todos nós


Roland Barthes, em A preparação do romance, diz que o cinema não é capaz de transmitir os cheiros, mas a literatura, sim. Antes, em Sade, Fourier, Loyola, ele havia negado a capacidade da literatura para tal representação. Talvez isso tenha ocorrido porque, naquele período, ele flertasse com a psicanálise lacaniana, e visse no princípio da denegação a impossibilidade de representação do real. No entanto, Em A preparação, Barthes parece mudar de ideia. Analisando as afirmações do escritor francês, chego também à mesma conclusão. Se pensarmos o cinema como uma linguagem organizada através de imagens, por mais criativas que sejam suas sequências de cenas, concluiremos que ele não é capaz de nos transmitir odores. Tomemos com exemplo a sequência de um filme que privilegie a imagem de várias flores. Em primeiro lugar, essas imagens causarão prazer aos nossos olhos, ficando sensações mais sutis, como o odor, em situação de desvantagem, tornando difícil ou mesmo impossível a sua representação. A abordagem de nossos sentidos através da visão acabará por nos marcar muito mais pelos contornos que a imagem sugere do que pelas eventuais propriedades que ela possa comportar. Já a literatura, não; uma vez que é constituída por palavras, desde que usadas com criatividade e esmero, poderia representar os cheiros. O bom escritor precisa nos conduzir, em primeiro lugar, a esses conceitos e sugestões, deixando as imagens para um segundo momento. Na literatura é plenamente possível explicar um perfume. É lógico que os cheiros presentes nas histórias não exalarão fisicamente através das páginas de um livro. O perfume que um personagem usa ou o aroma de uma comida no fogo poderão ser sentidos por nós porque, na verdade, há um misto de conceitos explanados por meio de palavras mais a experiência que vivemos no dia a dia. A verdadeira literatura vai muito além do filme que rola dentro da cabeça de cada um de nós.

Essa questão pode ser percebida nesses dois livros de Benedito Vidigal, Corações desatentos, de poemas, e Espelho d’água, de crônicas. Em ambos, somos conduzidos aos sabores e cheiros de uma juventude perdida no tempo. E também a situações contemporâneas, mas que não deixam de trazer um travo de sentimentalismo.

No livro de poemas, Vidigal toca em temas amorosos, eróticos, revisita amigos e canta as lembranças proporcionadas pela cidade de Valença à época em que estudou medicina. O eu lírico é um eterno apaixonado. Através de seu percurso, experimentamos toda a intensidade daquele passado.

Destaco algumas passagens de sua poesia, sempre marcada pelo caráter enxuto e elegante.

“Eu te olhava / enquanto dormia / Acordei por nada / ainda no começo da noite / por isso / eu te olhava de pertinho / sentia teu cheiro / cheiro de perfume / cheiro de amor...”, em “Detalhes”. O erotismo surpreendente predomina em “Pela segunda vez”: “Ela lambeu-me / a boca / como se fosse cadela / e saiu rebolando o traseiro / como se cadela fosse / a segui / pelas ruas sem fim / feito cão predileto...”, e também em “Fuxico”: “Um beijo / um cheiro / uma passada de mão / fuxicos ao pé do ouvido / outros beijos / suspiro / e a negação...”. Reparem a sinestesia em “Ermitão”: “A casa exibia / um caramanchão na entrada / lotado de jasmins estrelados / a perfumarem o ar / Cheiravam mais que as roseiras / ... lá dentro morava o desejo / desejo não revelado...”. Sobre as recordações, “Lembranças de Valença”: “Naquele dia / seduzido pela cidade / subi o jardim de baixo / desci o jardim de cima / e logo te encontrei / naquela rua / Destino!”. Por fim, Vidigal não deixa de fazer uma elegia a amigos e amigas da adolescência ao construir uma espécie de ciranda em “Our street”: “... Rodem / rodopiem / gente alegre / gente amiga / cujo destino / não nos pode roubar / o afeto...”

Espelho D’água também nos presenteia com histórias em prosa, na maioria das vezes plenas de poesia. São narrativas sobre amores roubados, lembranças de amigos e de entes queridos, encontros e separações. Dentre as vinte e quatro crônicas que compõem o livro, destaco as seguintes: “Espelho D’Alma”; “Colegas, Amigos”; “O Ballet das Almas”; “Sob o estigma do sobrenatural”; “Sem censura”; “Sonhar é preciso” e “Pe. Caio de Jesus”.

No final um inédito, “De mim para você”, escrito pela mãe de Vidigal sobre uma viagem que ela fez à terra natal. Esta crônica, pungente, recuperada e modelada pelo autor, demonstra o gosto e o talento da família de Benedito Vidigal pela escrita, pela poesia, enfim, pela literatura.

Corações desatentos, 119 páginas e Espelho d’alma, 99 páginas
Autor: Benedito Vidigal
Editora Kelps

quinta-feira, abril 04, 2013

A cultura de massa e a perfeita audiência

Seria interessante encontrar um poeta, romancista, cineasta, dramaturgo, músico, ou mesmo artista plástico que se contentasse com a audiência de meia dúzia de pessoas. Às vezes se ouve falar de autores que criam por necessidade. Segundo suas próprias palavras, não conseguiriam viver sem praticar algum tipo de criação artística. Será isso verdade, ou essas pessoas estariam sempre desejando a grande audiência e, em consequência, o estrelato?

Desde os primórdios da humanidade, muitas obras de arte foram reproduzidas. Quando se tratava de livros, logo apareciam os copistas, aqueles seres humanos que exerciam a mesma função de uma tipografia, só que a mão.

É lógico que quando se fala de teatro ou de artes plásticas, a situação é um pouco diferente. Uma vez que no teatro cada apresentação é única, ele não se propõe a mecanismos de repetição. Mas qual autor não gostaria de ver suas peças em cartaz anos a fio, como algumas produções da Broadway que permanecem em cartas durante anos ou até durante décadas? Em relação às artes plásticas também se percebe a mesma questão: cada obra de arte é única. Mas todo pintor ou escultor, quando alcança o sucesso, há de querer multiplicar sua produção para sair em turnê mundo afora, sem falar na possibilidade de reprodução através de álbuns de fotografia, a mais recente febre nas livrarias.

Limitemo-nos, porém, à escrita e ao cinema.

A primeira, desde Gutemberg, proliferou-se com a impressão de exemplares que continuaram a sair das máquinas de acordo com a perspectiva de expansão do produto. Sim, produto, porque faz tempo o livro se tornou um produto, um objeto de consumo muito bem acabado, sem nada a dever a qualquer outro produto desse nosso vasto mundo de negócios.

O cinema, já pela própria natureza, surgiu como ponta de lança daquilo que se costumou chamar de cultura de massa. Ele conseguiu massificar a literatura tornando-a acessível ao grande público, já que seria mais fácil assistir a filmes do que ler livros. Sei que muitos cineastas apontarão essa minha afirmação como um sacrilégio. Mas a ideia que se formou no mundo inteiro a respeito da sétima arte é de algo espetaculoso. A própria reprodução em larga escala das cópias de um determinado filme e sua consequente distribuição por todo o planeta configuram o cinema como um tipo de arte fadado à grande audiência.

Portanto, voltamos à questão inicial. Por que a necessidade do estrelato, por que a necessidade de uma grande audiência? Quem se propõe a ser um artista para si mesmo ou para um círculo pequeno de apreciadores? Sim, de verdadeiros e profundos apreciadores. Assim, penetraríamos na misteriosa afirmação de Machado de Assis no início do seu Brás Cubas, que contabilizava apenas uma meia dúzia de leitores como a sua perfeita audiência. 

sexta-feira, março 08, 2013

Resenha de "A montanha mágica", de Thomas Mann


Romance de Thomas Mann antecipa visões do Holocausto

Um jovem singelo viajava, em pleno verão, de Hamburgo, sua cidade natal, a Davos-Platz, no cantão dos Grisões. Ia de visita por três semanas. 
Mas de Hamburgo até essas alturas a viagem é longa, demasiadamente longa, na verdade, para uma estada tão curta. É preciso atravessar diversos estados, subindo e descendo, do planalto da Alemanha meridional até a beira do lago de Constança, cujas ondas saltitantes são transpostas de navio, por sobre abismos considerados insondáveis. 
A partir dali torna-se demorada a viagem que até  esse ponto se realizava rapidamente quase em linha reta. Há delongas e complicações. Na localidade de Rorschach, já em território suíço, voltamos a nos confiar à viação férrea; mas, por enquanto não se progride além de Landquart, pequena estação alpina, onde se precisa fazer baldeação. [...] A estação de Landquart acha-se situada a uma altura relativamente moderada. A partir dela, porém, entra-se na própria montanha, por uma estrada rochosa, áspera, angustiante.

Desse modo começa a viagem de Hans Castorp aos Alpes suíços, no romance “A montanha mágica”, de Thomas Mann. O personagem, um jovem recém-formado em engenharia naval, tem como objetivo visitar o primo, Joachim Ziemssen, que sofre de tuberculose e está hospedado num sanatório (uma espécie de hotel, como são os sanatórios da época) da pequena cidade. A narrativa situa-se na primeira década e em meados da segunda, do século 20.

O início do romance, ao descrever as agruras da viagem de Castorp, contrasta com o que vamos encontrar durante todo o texto, que situa a história num lugarejo da Suíça. Narrações e descrições fora dali existirão apenas na lembrança dos personagens. E não são muitas. A narrativa avançará sem movimentos bruscos, privilegiando o aparecimento dos personagens, seus pensamentos, suas ideias e o que eles nos têm a dizer.

Assim, desde o começo, será possível constatar, além do movimento e do aparente desconforto para se chegar à montanha, sobretudo devido aos vagarosos transportes da época, a oposição entre subida e promessa, uma vez que toda escalada cria a perspectiva de algum tipo de revelação.

O título “montanha mágica”, que poderia soar estranho, permite também análises diversas. A primeira delas esgota-se no que pouco a pouco nos é revelado, um local onde a permanência pode levar os enfermos à cura; a segunda, como aponta Antônio Cícero no prefácio dessa edição, remonta a uma citação de Nietzsche em “O nascimento da tragédia”: “Agora a montanha mágica do Olimpo como que se nos abre e mostra as suas raízes. O grego conheceu e sentiu os pavores e os horrores da existência: para poder não mais que viver, precisou conceber a resplandecente criatura onírica dos olímpicos.” Nesse sentido, não teremos no romance deuses olímpicos, mas seres humanos que vivem, estes sim, um novo aprendizado. Ele pode estar numa nova maneira de compreender o passar do tempo (se é que o tempo, ali, passa), ou, uma vez que não se tem aonde ir porque os passeios são sempre os mesmos, na viagem pelo mundo das ideias. Portanto, a montanha mágica torna-se mística não apenas por curar alguns de seus enfermos, mas por proporcionar ao nosso personagem central revelações sobre a vida e sobre a morte. Na verdade, o romance de Mann acaba por tornar-se um romance de formação.

E para a transformação desse jovem engenheiro, que se preocupava apenas com a técnica, num homem de pensamento, a montanha mostra-se promissora. Tentativa bem sucedida do autor em revelar, num princípio de século tomado por intensa febre tecnológica (um mundo futurista), que as ideias jamais podem ser abandonadas.

Há uma história curiosa sobre a família de Thomas Mann. Conta-se que, um dia, seu filho, Klaus Mann, ao voltar a Munique após uma viagem ao exterior, foi convencido por um dos empregados da casa a abandonar imediatamente o país, pois o avanço do nacional-socialismo colocava em risco a sua segurança e a de sua família. Klaus ainda espera até o dia seguinte quando, então, parte para um longo exílio. Após algum tempo, ele descobriu que o empregado era agente do regime e, naquele momento, não se sabe por que motivo, tentou livrar a barra dos patrões.

Em “A montanha mágica”, vemos desfilar uma série de adoráveis personagens, cada um representando uma ideia, ou um modo de vida. Um deles é Setembrini, a quem o autor nomeia de literato da civilização, isto é, um intelectual herdeiro do humanismo e da ilustração. Outro é o jesuíta Naphta, que trava com o italiano Setembrini um tumultuado embate intelectual. Ambos visam conquistar o espírito de Hans Castorp e tê-lo como discípulo. Há também Mynheer Peeperkorn, um holandês grandioso nos gestos e inconcluso na eloquência, mas cujas palavras revelam-no um tenaz conquistador. Mann o criou baseando-se num famoso escritor alemão do período, ganhador do prêmio Nobel de literatura. Desfila também a russa Mme. Chauchat, cujos olhos quirguizes seduzem o personagem central e o fazem lembrar uma paixão da época de colégio. Atente-se aqui para o tipo de paixão. Espalham-se pelo romance muitas informações acerca da medicina da época e da psicanálise, esta ainda no seu estágio de fundação, representada no romance pelo Dr. Krokowski.

A estada de três semanas de Castorp junto ao primo, em Davos-Platz, acaba demorando-se um pouco mais. As pessoas, praticamente todas enfermas, vivem um microcosmo da humanidade do período. Thomas Mann, como todo grande autor, adianta-se ao seu tempo quando diz pela voz de Naphta: “o segredo e a existência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do eu. O que ela necessita, o que deseja, o que criará é: o terror”.

O livro, publicado em 1924, muito antes da Segunda Guerra Mundial, dos campos de extermínio e dos atuais homens-bomba, mostra, ao contrário do apelido que carinhosamente Setembrini dá a Castorp, que os “filhos enfermiços da existência” estão muito além da montanha.

A montanha mágica
Thomas Mann (tradução de Herbert Caro)
Editora Nova Fronteira, 957 páginas

domingo, fevereiro 10, 2013


Resenha de 'O explorador de abimos - Vilém Flusser e o pós-humanismo'

Erick Felinto e Lucia Santaella partem do pensamento de Vilém Flusser para debater o impacto da tecnologia sobre a vida contemporânea

Por Haron Gamal*

Partindo de premissas do pensamento de Vilém Flusser, Erick Felinto e Lucia Santaella discutem a presença avassaladora da tecnologia e suas consequências sobre a contemporaneidade, no livro “O explorador de abismos — Vilém Flusser e o pós-humanismo” (Editora Paulus).

Flusser é um pensador que foge às amarras da filosofia tradicional, tendo adotado a visão transdisciplinar sobre a realidade muito antes de esta entrar em voga. Sua reflexão se entrega ao risco e ao fascínio com a multiplicidade do mundo, não se fixando em parte alguma. O problema que os autores do livro enfrentam, no entanto, é conciliar o pensamento nômade de Flusser, que não abandona o humanismo e navega até certo ponto nas mesmas águas de Heidegger, com o que chamam de pós-humano, isto é, a perda da centralidade do homem e o fim dos humanismos clássicos num mundo que passou a ser regido pela tecnologia.

O pós-humanismo abordado por Felinto e Santaella traz em muitos momentos a perspectiva da supremacia do maquínico sobre o humano, o que é sugerido pelos autores como o apagamento das fronteiras entre as instâncias da natureza e do artifício. Num futuro universo pós-humano, a tecnologia não apenas dividiria essa preponderância com o humano, mas estaria prestes a superá-lo. Em certas passagens, os autores não veem a questão como malefício, mas sim como um avanço.

Em meio à quantidade de informações disponíveis nos dias de hoje, quem seria capaz de organizá-la e acessá-la sem dispositivos? A partir dessa perspectiva, as subjetividades se veriam diminuídas em proporção à capacidade de atuação dos sistemas e do armazenamento de dados nos computadores. 

A obra desenvolve-se em sete capítulos. O primeiro apresenta “O mistério de Vilém Flusser”, investigando sua produção intelectual e a apropriação de sua filosofia pela teoria da mídia. O segundo, “O nascimento do pós-humano na cibernética”, estabelece como ponto de partida a complexidade e a prevalência dos sistemas de informação como base para a decadência do humanismo clássico, fase em que, pelo menos teoricamente, era o homem o centro do saber e do universo. O capítulo 6, polêmico mas necessário até para quem deseja contestar a obra, aborda a dissolvência dos humanismos.

Interessante nessa discussão é a conclusão de que os humanismos clássicos já não conseguem trazer à Humanidade soluções para problemas pontuais nem existenciais. Portanto, segundo os autores, há a perspectiva do maquínico assegurar um futuro em que, apesar do apagamento das fronteiras entre o humano e o tecnológico, os agenciamentos tornem-se mais eficazes.

Ainda segundo eles, um bom exemplo estaria no livro “Filosofia da caixa preta”, obra em que o pensador tcheco utiliza a máquina fotográfica como metonímia de toda tecnologia: “Na caixa preta de Flusser, manifesta-se uma espécie de dialética do senhor e do escravo. O fotógrafo domina o input e o output da máquina, sem todavia conhecer suas entranhas, sem entender realmente os processos que se efetivam no interior do aparato. Por desconhecer o seu funcionamento, é por ele dominado.”

O título, “o explorador de abismos”, revela o fascínio de Flusser pela reflexão sobre temas prementes e de difíceis soluções. Mas o filósofo aponta que a própria reflexão ainda é a contrapartida mais adequada para a sobrevivência do humano.

*Haron Gamal é professor de literatura e doutor em literatura brasileira pela UFRJ
Matéria publicada no Jornal O Globo, Caderno Prosa e Verso, em 09/02/13.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Doutor

O empregado do bar aproximou-se respeitoso da mesa onde se encontrava Arlindo.

– Doutor, tem uma moça aí querendo falar com o senhor.

– Que moça?

– Aquela – disse apontando para o fundo do bar –, que está perto do banheiro feminino.

O mercadão de Madureira começava o dia de terça-feira sem muito movimento. O local, que é visitado por todo tipo de gente e serve principalmente a quem procura mercadorias baratas, possui em seus pequenos boxes e lojas comércio bastante variado. Ali, vendem-se diversas bugigangas: material para festas, material de papelaria, artigos de armarinho, artigos religiosos, de cabeleireiro, flores, balas e doces (estes procurados por ambulantes que trabalham nas ruas e nos transportes coletivos), ferragens, pequenos animais, rações entre outras; ultimamente, já há até mesmo a presença de lan houses. Nas horas de movimento, lanchonetes e bares servem de refúgio àqueles que precisam de alguns minutos de descanso, desejam matar a fome ou saciar a sede através de um copo de refrigerante ou mesmo de uma cerveja.

Num desses bares, a presença de Arlindo, ou Doutor, como é mais conhecido, é diária. Sua mesa é forrada com uma toalha especial, toda quadriculada, e vez ou outra ele seca o suor da testa por meio de um guardanapo de pano, que, no local, é também exclusividade dele. Este senhor, um tanto gordo e vestido de terno de linho branco, controla o jogo no local. Dizem que a toalha quadriculada é para debochar dos policiais, já que estivera preso inúmeras vezes mas sempre se saíra bem, tornando-se cada vez mais próspero.

– Diga a ela que é pra vir aqui.

O empregado fez um leve movimento com a cabeça e se retirou. Instantes depois, a moça se aproximou.

– Bom dia – disse entre tímida e enigmática.

– Bom dia, sente-se, tenha a bondade.

– Obrigada.

– Está servida? – perguntou enquanto enchia meio copo, com água mineral.

– Não, não, obrigada – agradeceu mais uma vez.

– Em que posso lhe ser útil?

– Gostaria de pedir um favor ao senhor.

Arlindo assentiu num gesto largo e bonachão; repousou o copo sobre o mesmo lugar onde estivera e a mirou por cima dos óculos de leitura, que ele raramente retirava.

– Qual a sua graça?

– Lindimar.

– Lindimar, bonito nome. Lembra-me das vezes em que trabalhei em Niterói.

– Uma amiga indicou-me o senhor.

– A mim? – pareceu surpreso.

– Sim. Diz que o senhor é muito afetuoso e, cá entre nós, não resiste às mulheres bonitas.

Arlindo desfez a posse e se pôs a rir, alisou de modo automático um pequeno trecho do forro da mesa e a olhou de novo, voltando à seriedade anterior.

– Está calor, peça alguma coisa – dirigiu-se a ela como que para quebrar o constrangimento.

– Não, não desejo nada, obrigada.

– Então me fale, vai, qual é o favor que desejas de mim?

– Uma pulseira de ouro.

Doutor, que já passara por quase tudo na vida, não achou surpreendente o pedido. Ainda repetiu as duas últimas palavras da moça, só que em forma de pergunta:

– De ouro?

Ela meneou a cabeça afirmativamente e se fez de encabulada.

– Já que seu pedido é irrecusável, fechamos o negócio.
Sinalizou ao garçom e pediu mais uma garrafa de água.

***

A Estrada do Portela é avenida de tráfego intenso a qualquer hora do dia. O viaduto, que atravessa a linha férrea, tem como cenário quase permanente ônibus e automóveis, o que intensifica a paisagem urbana de modo irremediável. Imagine-se o local às duas horas da tarde, num dia de verão.

O dia era o seguinte ao encontro no bar do mercadão. Arlindo e Lindimar atravessaram pela passarela. De cima, puderam observar o fluxo de pessoas nas ruas principais e na própria estação de trens. Ao desceram no lado oposto, caminharam durante alguns minutos pela calçada estreita. Fazia muito calor. Doutor não abandonava o lenço branco, que trazia em uma das mãos; vez ou outro o usava para secar o suor. Seguiram por uma rua secundária, acompanharam o casario antigo e depois entraram num velho sobrado. No segundo andar, havia uma tabuleta: Jóias – ouro e prata – Irmãos Xavier.

O homem de terno de linho branco cumprimentou um rapaz, o único funcionário do local. Ao reparar o ilustre visitante, pediu que aguardasse e desabou numa assustada correria em busca de um dos sócios da loja. Alguns minutos depois, entrava Seu Moysés, um senhor de mais ou menos sessenta anos, corpo magro, cabelos brancos, óculos estreitos. Procurava sempre demonstrar muito interesse sobre tudo que vendia; agia como se cada objeto fosse verdadeira relíquia.

– Doutor, que grande prazer tê-lo aqui, quanto tempo! O senhor não vai ficar de pé, aí, entre, sente-se, aqui atrás do biombo há uma poltrona confortável, tenha a bondade.

– Não, obrigado. Agradeço a gentileza. Estou com pressa. Peço que atenda a moça. É gente minha. Ela quer uma pulseira. De ouro, seu Moysés, de ouro.

– Oh, claro, pode deixar, será um grande prazer tê-la como cliente.

Arlindo cumprimentou-o apenas com um breve gesto, depois sorriu para Lindimar e disse:

– Procure-me guando tiver tempo.

Ela agradeceu com ligeiro sorriso.

Depois, Arlindo desceu a escada, seus passos eram firmes e compassados;
esfregava o rosto com o pequeno lenço.

***

Alguns dias depois, recebeu de novo a visita de Lindimar.

– E, então, gostou da pulseira? – perguntou como que surpreso.

– É linda! Adorei. Vim pra mostrar a você.

– Oh, que beleza! – exclamou enquanto tomava nas mãos o braço da moça –, é realmente maravilhosa.

– Também vim até aqui para agradecer.

– Não há de quê. Sempre que desejar alguma coisa e isto estiver a meu alcance, pode contar comigo.

Lindimar parecia querer dizer algo mais, mas não se sentia à vontade. Depois ensaiou algumas palavras.

– Sabe o que é? Vim lhe fazer outro pedido.

– Outro? Tenha a bondade...

– Quero que compareça a uma festa que vou dar lá em casa.

– Oh, queira me desculpar, mas não sou homem de festas.

– Será algo bastante simples e reservado.

– Olha, sabe o que acontece?, as pessoas me aborrecem, todos me conhecem, sempre querem algum favor.

– Ninguém lhe pedirá coisa alguma, garanto. E a festa será bastante íntima.

– Íntima?

– Isso, íntima!

– Então, é de se pensar, é de se pensar...

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Ricardo Piglia discute em seu romance a natureza da literatura

Tardewsky, personagem de Ricardo Piglia no romance Respiração artificial, afirma: “a natureza não existe mais, só nos sonhos. Ela, a natureza, só se faz notar sob a forma de catástrofe ou então se manifesta na lírica. Tudo o que nos rodeia é artificial: tem as marcas do homem.” O livro, agora em edição de bolso, foi publicado recentemente pela Companhia das Letras.

O autor quando diz, através de seu personagem, que dos dois lugares possíveis para a manifestação da natureza um deles é a lírica, ou seja, a própria literatura, ele quer dizer que essa literatura passa a ter enorme responsabilidade. Então, é necessário aprofundar a questão.

A natureza, como algo absoluto, apresenta-se como total impossibilidade. No filme “Matrix”, dos irmãos Wachowski, no momento em que toda a parafernália tecnológica para de funcionar, alguém diz: “Bem vindo ao deserto do real”. Logo, retirada toda a ilusão criada pelo homem, mesmo as ilusões mais concretas, a natureza seria o deserto, o mar revolto, a densa floresta onde nenhum humano penetrou, ou algum tipo de desastre natural impossível de ser contido pelos seres humanos e por seus artifícios. Partindo-se do princípio de que nos dias de hoje tudo pode ser previsto e medido, estão aí os instrumentos cada vez mais precisos oriundos da avançada tecnologia, pelo menos se tornou possível orientar as pessoas a dirigirem-se a abrigos, ou mesmo aconselhá-las a abandonarem os locais de risco na iminência de catástrofes. Diminuída a surpresa de a natureza manifestar-se, resta a ela a literatura. Como isso, no entanto, poderia acontecer?

A meu ver, de dois modos distintos. O primeiro através da poesia, do teatro e da narrativa, mesmo representando toda a violência que a natureza humana é capaz de comportar; o segundo por meio da idealização daquilo que costumamos nomear de catástrofe, ou seja, do sublime kantiano.

A natureza habita com pleno direito de posse, desde a mais longínqua antiguidade, o espaço literário. Por outro lado, é certo que essa mesma natureza, quando crua, é devoradora. Basta dizer que morreríamos caso fôssemos abandonados a seus cuidados. Em um mundo onde tudo funciona a partir de um clique, obter fogo com dois pedaços de madeira ou mesmo nos defender de animais ferozes não seriam nossas especialidades.

Isso, no entanto, é uma questão apenas adjacente no livro de Piglia. O que a narrativa aborda e discute é a natureza da literatura.

Um jovem escritor extremamente culto, que acaba de publicar o seu primeiro livro, recebe carta de um tio que mal conheceu e que se encontra desterrado. Ele deseja contar-lhe novos fatos, já que o livro do sobrinho tem como tema a própria família. “Ninguém jamais fez boa literatura com histórias de família”, afirma. A partir deste fragmento, vamos descobrindo como se deve fazer literatura. Não apenas por causa do conselho desse tio chamado Marcelo Maggi, mas através das situações que Piglia nos apresenta.

Cartas vão sendo trocadas até que o personagem-escritor Emilio Renzi resolve viajar a Concordia, cidade da Argentina na Província de Entre Rios. Sua intenção é encontrar o tio. Mas quem vai recebê-lo na estação ferroviária é Tardewsky, um imigrante polonês que fugiu do nazismo e vive exilado no país desde o começo da Segunda Guerra Mundial. Alguém que joga bem o xadrez e que conheceu James Joyce. Ele, porém, é um homem deslocado, definitivamente fora de sua terra, despossuído de sua língua materna. Tardewsky ocupa o lugar sempre movediço e transitório do imigrante, espaço visceral de estranhamento, isto é, ocupa na verdade o não lugar, o mesmo lugar itinerante da própria literatura.

O eixo narrativo do romance situa-se na década de 1970, período em que vigorou uma ditadura militar das mais sanguinárias que chegaram ao poder na Argentina. Renzi, além de receber uma caixa com escritos de Enrique Ossorio, papéis que possibilitariam recuperar parte da história do país, discute não apenas política, mas, sobretudo, literatura nacional contemporânea e mundial.

Num trecho, somos surpreendidos pela seguinte afirmação: “a literatura argentina não existe mais”. “E Borges?”, retruca o interlocutor. “Borges, disse Renzi, é um escritor do século 19.” Aqui é introduzido Roberto Arlt (1900-1942), escritor argentino descendentes de imigrantes europeus pobres a quem se atribui o título de introdutor do Modernismo no país e que promoveu a renovação nas letras portenhas. Arlt abandona o beletrismo reinante até então, quando se cultivava uma espécie de purismo parnasiano, tentativa de manter a identidade da literatura nacional. Seus textos abordam a sordidez do homem comum, que vive em meio a dificuldades e num constante flerte com a vida fora da lei. Seu estilo narra as vilezas e as grandezas de personagens que poderiam ser chamados de indolentes. Hoje, ele é considerado o mentor de grandes autores latino-americanos, como Bolaño e o próprio Piglia.

Nas discussões sobre literatura, entre os personagens e nas próprias cartas trocadas entre Marcelo e o sobrinho, desfilam também Proust, Joyce, o filósofo Wittgenstein e principalmente Kafka, a quem é atribuído um diálogo com Hitler, no Café Arcos em Praga entre 1909 e 1910, quando o precursor do nazismo era um obscuro pintor e desertor do serviço militar. “Kafka faz em sua ficção, antes de Hitler, o que Hitler lhe disse que ia fazer”.

Assim como o xadrez de Tardewsky, jogo passível de inúmeras variações, onde as peças só estão em local fixo no início da partida, a literatura permite infinitas combinações, e aquelas que revolvem os sedimentos da nacionalidade acabam por potencializá-la.

Respiração artificial
Ricardo Piglia, tradução de Heloisa Jahn
Companhia das Letras, 197 páginas

sábado, dezembro 01, 2012

Raduan Nassar, um clássico da literatura

Escrever sobre escritores clássicos contemporâneos não é tarefa fácil, pois nada melhor do que o passar do tempo como método eficaz para avaliar as obras. O crítico deve comportar-se como um juiz experiente, não pode julgar sob o clamor das ruas, ou sob o reflexo desse clamor, que sempre transparece nas listas dos livros mais vendidos. Terry Eagleton, intelectual e escritor inglês, ex-professor da Universidade de Oxford, afirma que ao assumir a cátedra de literatura inglesa em 1992 na mesma universidade, a literatura estudada até então chegava apenas ao início de 1900. Os professores, que ocuparam a mesma cátedra antes dele, consideravam que a distância ideal para a aventura crítica seria em torno de um século.

Faço essas conjecturas no momento em que pretendo alinhavar um artigo sobre Raduan Nassar, autor brasileiro que se consagrou com a novela Um copo de cólera e, sobretudo, com o romance Lavoura Arcaica. Raduan nasceu em 1935, em Pindorama, São Paulo, publicou seus dois principais livros em meados da década de 1970 e, em 1984, abandonou a literatura para viver recluso num sítio, no interior do mesmo estado.

É consenso entre a crítica afirmar que o autor de origem libanesa, apesar de vivo e de obra pequena e recente, já se tornou clássico. Seus livros estão traduzidos em muitos idiomas. Nas faculdades de letras do Brasil e mesmo em muitas do exterior, já se tornou obrigatório estudá-los.

Não precisamos, portanto, ter a mesma precaução dos circunspectos professores de Oxford, que achavam suspeita a literatura recente. Sobre a obra de Nassar, esse argumento é frágil e fácil de ser refutado.

Mas, para isso, perguntamos: o que torna clássico um autor? Mais precisamente: o que tornou Raduan Nassar um clássico da literatura brasileira?

Em primeiro lugar, um clássico é avaliado como tal pela profundidade que sua obra alcança ao abordar temas que se relacionam com a vida, isto é, com o âmago do humano. Uma obra também torna-se clássica quando o autor consegue trabalhar a linguagem e elevá-la ao nível do “sublime”. Nesses dois pontos, o autor de Lavoura arcaica é mestre.

Na abordagem da família de características patriarcais, Raduan consegue dissecar o sistema nervoso de um grupo de imigrantes que procura sobreviver através do próprio ethos. Um pai tenta impor sua moral, sua fé, enfim, sua lei, à mulher, aos filhos e a todos que o cercam. Mas ele tem a visão turva, não conta com o dissenso. Talvez aqui se apresente uma das principais características do ser humano: o direito à liberdade. Quando ela não é respeitada, surge o conflito. Portanto, a princípio, teríamos um clássico porque o autor expõe com maestria a questão da liberdade. Isso, no entanto, não seria suficiente para elevá-lo ao panteão dos melhores escritores. Ainda faltariam o trabalho com a linguagem e a elaboração da estrutura narrativa. Mas Nassar sabe trabalhá-las com perfeição, conduzindo a língua portuguesa a meandros onde predomina o mais absoluto requinte. Poderíamos dizer que o seu poder narrativo invade a seara da poesia, e a sua prosa convive de modo harmonioso com o gênero lírico.

Há ainda um elemento a mais, e talvez fundamental em sua obra. Raduan Nassar explora o mito e o trabalha de modo bastante eficaz ao tocar em concepções conceituais formadoras da civilização.

Um parêntese. Todo autor que se tornou clássico navegou nessas águas, sobreviveu a tempestades e muitas vezes a naufrágios. Foi assim com Homero, Eurípedes, Dante, Shakespeare, Dostoievsky, Joyce e, para citar mais um brasileiro, com Nelson Rodrigues. Claro que há muitos outros, a nível nacional e universal, mas interrompo a lista nesse último para não me tornar enfadonho.

O autor de Um copo de cólera mergulha em alguns dos principais mitos de formação e manutenção da sociedade civilizada. Um deles é o da negação ao incesto. Numa sociedade que precisa voltar-se para fora, que necessita de relações extrafamiliares, o incesto isolaria os indivíduos não permitindo o intercâmbio, a negação e/ou a aceitação das diferenças. Outro ponto que os seus livros mostram é o predomínio da pulsão, melhor dizendo, da pulsação dos desejos, enfim, da violenta manifestação da emoção sobre a razão.

Um assunto que pode ser bastante explorado na obra de Raduan Nassar é o da tentativa de formação da razão e de sua superação através do transbordamento dos desejos, até mesmo dos mais recônditos. Na história da humanidade a razão sempre se mostrou frágil, sempre se apresentou como uma construção. Na verdade, a razão realiza-se para poucos, e acaba por sobreviver apenas como teoria. Talvez o racionalismo nunca tenha existido, e isso serviria de munição suficiente para dinamitar as teorias ditas pós-humanas, que pretendem atestar a morte do "Racionalismo Clássico".

Na Oréstia, de Ésquilo, em determinando momento, um dos personagens grita: “queira a ira de todos os homens contra si, mas não a ira de um dos deuses”. Se até mesmo os deuses gregos se mostraram irados, desequilibrados e tomados pela emoção, como poderia o humano viver a razão pacificamente?

Logo, quando desejamos verificar se um autor tem a dignidade de um clássico, precisamos observar se suas obras trabalham o fracasso da razão; se soube mostrar que a razão é apenas uma construção sustentada por alicerces extremamente frágeis. Assim é a vida humana, assim é a humanidade. E Raduan Nassar, através da ira do patriarca, mostra que o ser humano sempre esteve mais próximo de colocar tudo a perder do que de erigir um mundo sólido. Ou melhor, nos dias conturbados de hoje, é lícito afirmar que a solidez do mundo, ou seja, o predomínio da razão, é apenas uma questão de crença. Isso não quer dizer que devemos abandoná-la (a razão). Essa é a tensão que sustenta o humano, a mesma tensão que mostra a necessidade de cada obra de arte.

sexta-feira, novembro 09, 2012

"Matéria de memória"


Livro lançado pela primeira vez em 1962 mantém força visceral

Às vezes, no afã de procurar novidades em matéria de literatura, perdemos a oportunidade de ler o que se convencionou chamar de clássico. É o que pode acontecer caso deixemos de lado o romance de um ótimo autor que, apesar da idade avançada (86 anos), ainda se mantém ativo tanto escrevendo crônicas para a Folha de São Paulo, como fazendo comentários para a rádio CBN. Falo de Carlos Heitor Cony. Trato aqui de Matéria de Memória, sucesso editorial desde os anos 1960, que hoje se encontra na sexta edição.

Podemos perguntar: por que um livro torna-se clássico? Talvez a resposta não seja apenas porque conta uma boa história, mas por estabelecer e tentar responder questões que muitos outros não conseguiram.

Lançado pela primeira vez em 1962, a obra imediatamente alcançou sucesso de público e de crítica, fazendo Gilberto Amado comentar: “trata-se de um momento especial na nossa literatura”, levando-o a comparar o romance com A náusea, de Sartre. Só que com vantagem para o livro de Cony.

O enredo em especial resume-se à vida de três personagens. O pintor de quadros Tino, alcoólico inveterado; Selma, mulher independente que, durante o voo de volta da Europa para o Brasil, faz o balanço de sua vida; e João, membro disciplinado do Partido Comunista, a quem a esposa desprezou por considerá-lo homossexual.

Os três mantêm laços entre si, mas é bom que o próprio leitor descubra que ligações são essas. Apesar de o romance ser ambientado no Rio de Janeiro, durante a maior parte do tempo na zona sul carioca, a história poderia ter acontecido em qualquer grande cidade do Ocidente.

Num momento em que a literatura acomodou-se à forma consagrada do best-seller e que muitos autores já não tentam inovação alguma, Cony estabelece uma narrativa dividida em três partes, onde cada um dos personagens assume a narração fazendo transparecer seus desejos, suas frustrações e também suas idiossincrasias.

Começando por Tino, passando à Selma, a João, e por fim voltando ao primeiro personagem, a narração desenvolve-se com os personagens falando, sobretudo, da solidão e do abandono em que vivem. Apesar dos subterfúgios que a sociedade sempre pôde oferecer para que os problemas sejam esquecidos, os personagens, mesmo quando abastados, batem-se contra certa náusea de viver. Podemos aproveitar o famoso axioma do psicanalista Jaques Lacan: “a relação sexual não existe”. Isto é, as pessoas são incomunicáveis, não sendo possível nenhum tipo de relação.

Tino é considerado pela crítica especializada um pintor em decadência. Sheila foge de seus fantasmas viajando para o exterior, permanecendo três anos longe de todos. João esconde-se, de modo medíocre, em meio às fileiras de um partido político que, na verdade, já não apresenta nada de novo, pois ambos, o partido e ele, tornaram-se verdadeiros burocratas.

Quem se salva, talvez, conseguindo uma ponta de felicidade, é a empregada doméstica Enedina. Contratada por Tino para trabalhar apenas no período da manhã, acaba aceitando, a princípio em troca de dinheiro e depois por afeto, tornar-se sua amante.

Apesar de o romance dissecar o lado psicológico de cada personagem, eles transitam pelas ruas de um Rio de Janeiro de meados do século 20. Paira no ar certa expectativa do que a vida na cidade é capaz de oferecer como solução existencial e material para cada um. No fundo, o que sobressai, no entanto, é um profundo mal-estar. Nem mesmo dinheiro, bebidas, automóveis, sexo, viagens – ou qualquer outro artefato que a sociedade dos bem sucedidos oferece – podem lhes tirar o travo amargo da existência e do abandono.

É interessante ler esse romance no atual momento em que a intensa tecnologia se propõe como solução para muitos dos problemas dos seres humanos, mas esbarra na mesma náusea em que os personagens de Cony vivem submersos.

Deve-se prestar muita atenção às primeiras frases do livro, principalmente quando Tino afirma: “Não tenho mais nada. A rigor, talvez nunca tenha tido realmente coisa alguma”. Frases emblemáticas que apontam a trajetória fugaz não só do pintor, mas de cada um dos personagens retratados no romance. Por mais que se pense nos bens materiais, ou mesmo na possibilidade de alguém ser suprido pelo afeto, a narrativa de Cony desmente.

Para essa trajetória travada, há a ligeira insinuação de que pode haver uma saída. Ela estaria entre os humildes empregados e empregadas, que ainda acreditam na amizade, no afeto, enfim, no amor. A matéria de memória estaria, assim, não apenas na lembrança do que se poderia ter vivido, mas também nesse sentimento sutil e ao mesmo tempo visceral, que é capaz de manter no ser humano o gosto pela vida.

Matéria de Memória
Carlos Heitor Cony
Ed. Alfaguara, 195 páginas

sábado, outubro 20, 2012

As "bibliotecas" das escolas públicas

Afirmar que as bibliotecas escolares são de fundamental importância para o desenvolvimento do gosto pela leitura e pelo consequente aprendizado das crianças e dos adolescentes é um lugar comum. Mas não parece que entendem assim alguns governos estaduais e tantos outros municipais. Basta rápida visita a algumas escolas públicas para constatarmos o descaso com que o assunto é tratado.

Na maioria das vezes as bibliotecas, quando existem, transformaram-se apenas em depósitos de livros didáticos, tornando os livros de leitura inacessíveis a muitos jovens. Em alguns lugares, instalam-se no local até mesmo monitores de TV, revelando a vitória da cultura de massa sobre aqueles que deveriam ser seus críticos, os profissionais de educação. Outro ponto que deixa a desejar é a falta de pessoas qualificadas para assumir tanto a função de bibliotecário como, em escala menor, a de auxiliar de biblioteca.

Enquanto em quase todo o mundo as bibliotecas tornaram-se locais de extremo dinamismo, com a realização de rodas de leitura, palestras de escritores convidados, festas literárias etc., é comum, em nossas escolas, encontrarmos nesse setor a mais absoluta inércia, ficando muitas delas fechadas durante grande parte do horário diurno ou noturno por falta de funcionários ou pela impropriedade do local de funcionamento. Quando, de alguma forma, funcionam, é graças a professores que, apesar de afastados de sala de aula por motivos de saúde, dedicam-se voluntariamente a favor da leitura.

No momento em que muitos veem a solução para o aprendizado na presença maciça da informática nos meios educacionais, a guarda, a exposição de livros e o estímulo pela leitura não recebem o mesmo tratamento. Muitas escolas do município de Macaé tem pequeno espaço, insuficiente para o funcionamento de uma biblioteca. Tanto isso é verdade, que é comum nomear o local como “sala de leitura”. Outro problema premente é a falta de condições a muitos professores em estimular a leitura entre seus alunos, o que muitas vezes acontece devido à fraca estrutura física e cultural da escola.

Profissionais de educação tentam refletir, no mundo inteiro, sobre a melhor maneira de transformar a escola em local prazeroso, o que facilitaria muito a aprendizagem. Programas de mestrado e doutorado das mais diversas universidades têm disponibilizado recursos para a pesquisa no sentido de tornar a educação transformadora, mas ainda esbarramos em atitudes primárias, que revelam o amadorismo de gestões políticas. Tais administradores quando demonstram alguma preocupação querem saber apenas sobre números, não investindo na melhoria da qualidade do ensino.

Os gestores escolares, aproveitando o período de renovação nos municípios proporcionado pelas últimas eleições, deveriam dedicar-se à solução dessas questões. Não podemos nos orgulhar de uma educação de qualidade se não temos bibliotecas nas escolas, nada podemos fazer de bom para os alunos se amontoamos os livros em locais inadequados que chamamos de sala de leitura, muitas vezes com funcionamento precário e com pessoal despreparado.

Governadores, prefeitos, secretários de educação e cultura, diretores de escola e também professores precisam demonstrar que também são leitores, exigindo a implantação de bibliotecas equipadas em todas as escolas e zelando pelo seu bom funcionamento. Caso isso não aconteça, estarão demonstrando falta de cultura e revelando que ocupam suas funções apenas por interesses particulares, e não pelo bem da educação, da cultura, enfim, da construção de uma sociedade mais justa.

Um dado além: o descaso a que são relegadas as bibliotecas das escolas públicas está se alastrando também para as chamadas salas de informática, onde ao invés de as recentes conquistas tecnológicas proporcionarem proveitoso avanço cultural e social acabam por revelar que os investimentos estão sendo jogados na lata de lixo.