A literatura portuguesa contemporânea sempre nos brinda com
boas obras, e Peregrinação de Enmanuel Jhesus
(Editora Tinta da China), de Pedro Rosa Mendes, segue a mesma trilha. Trata-se
de um livro que descreve todo o percurso que resultou na independência do
Timor-Leste do domínio da República da Indonésia, em 1999. Mas para os amantes
da literatura a vantagem é que a História é narrada em forma de ficção.
Já no capítulo de abertura, Matarufa, veterano da
resistência timorense, relata o dia em que a ONU anunciou o resultado oficial
do plebiscito que reconheceu a pequena ilha como país independente: “Às 9 horas
da manhã de sábado, 4 de setembro de 1999, no Hotel Ma’hkota, em Díli, Ian
Martin, chefe da missão internacional, anunciou os resultados da consulta
popular em Timor-Leste: 21,5 por cento tinham votado a favor da autonomia, 78,5
por cento votaram contra.” É preciso esclarecer que “a favor da autonomia”
significava permanecer como região “autônoma” da Indonésia, o que não foi a vontade
dos habitantes de Timor-Leste, pois a maioria optou pela independência.
O romance possui um eficaz artifício literário. Começa como
um auto de missão levado avante pelo bispo Per Kristian Kartevold, da Igreja da
Noruega (outubro/novembro de 1999). Isto quer dizer o seguinte: trata-se de uma
investigação sobre o suposto paradeiro de um nativo, afilhado deste bispo, que
teria desaparecido no Matebian (montanha sagrada conforme a tradição local),
exatamente no dia do plebiscito na ilha.
Em forma de inquérito, são enumerados vários personagens que
teriam concordado em falar sobre o desaparecido, sobre o país e, enfim, sobre
tudo que estava relacionado à luta pela libertação. Não escapam narrativas
sobre as tradições dos vários povos que formam a etnia timorense, mesmo aqueles
que antecederam a chegada dos portugueses. É sempre bom lembrar que a chegada
de Portugal à região data do segundo decênio do século 16. Entre os personagens
que depõem neste inquérito literário, encontram-se pessoas que estiveram ao
lado da resistência timorense e outras que atuaram junto à administração da
ilha sob o domínio da Indonésia ou fizeram parte do seu serviço secreto. Como
se sabe, a Indonésia invadiu o Timor logo após a saída dos portugueses, em
1975.
Ao apresentar testemunhos de personagens que estiveram em
ambos os lados da luta pelo domínio do Timor, a narrativa acaba por tornar-se
polifônica. São oito pessoas (sete homens e uma mulher, entre os homens há um
padre) que contam a história do país, cada um sob a sua perspectiva. O romance
de Pedro Rosa Mendes, com isso, filia-se à narrativa de António Lobo Antunes, ficcionista
que melhor soube ousar nas letras lusitanas. A influência de Antunes pode ser
observada não apenas na forma (organização dos parágrafos, diálogos e pontuação),
mas também na repetição dos mesmos acontecimentos sob pontos de vista
diferentes.
Além desses aspectos estruturais, é possível perceber no
romance o mal que toda espécie de colonialismo foi capaz de causar mundo afora.
Até mesmo a presença portuguesa, que acabou por predominar porque permaneceu durante
muito tempo no local e deixou como herança a língua, é discutida pelo autor.
Portugal colocou uma centelha a mais na já conturbada rivalidade existente na
região à época das grandes navegações. Povos de Java e de Sumatra havia muito pretendiam
o domínio da região.
No final do romance, o autor empreende uma viagem à Noruega,
aonde vai ao encontro do tal bispo que seria o autor do relato que nos
apresenta. Após boas observações sobre o país nórdico, os contrastes com
Portugal e com o Timor, o suposto “editor” (este seria o papel de Pedro Rosa
Mendes na organização do livro) estende sua viagem ao Polo Norte, exatamente à
cidade onde o bispo reside, localizada em território russo. Ali encontra o religioso
com a saúde já bastante debilitada, mas ainda capaz de lhe fazer revelações que
proporcionam novo alento às suas investigações.
Talvez, o maior êxito do romance seja a bem sucedida
exposição do caráter mágico relativo à resistência das hostes timorenses contra
os opressores, sejam eles de onde quer que tenham vindo. Tais segmentos lembram
o realismo mágico das literaturas da América Latina. Na luta pela liberdade,
até mesmo os ancestrais estão sempre de prontidão, habitando um passado que de
certa forma revela-se sempre presente, ou um presente que não se atemoriza
diante de um duvidoso futuro.
Outro ponto digno de nota é a descrição das atrocidades
perpetradas pelas forças de ocupação da Indonésia, que, segundo a narrativa,
não pouparam velhos, mulheres e crianças, condenando todos à fome, à miséria, à
morte.
A estada de Pedro Rosa Mendes no Timor-Leste, a título de
fazer uma série de reportagens sobre a perspectiva da região após a
independência, acaba por revelar não apenas a escolha do povo local pela independência
e pela língua proibida pela Indonésia enquanto esteve no poder, o português,
mas ainda esclarece que, no mundo atual, cultura alguma é capaz de ser
autossuficiente.
Trecho do romance:
Tenho uma memória
pequenina de meu pai. Ir aos ombros dele quando, ao descermos do Matebian, um
soldado indonésio nos fez parar e ordenou
Dá a criança à tua
mulher porque tu ficas aqui,
é essa recordação que
tenho, um soldado de boina vermelha, arrancando-me aos braços de meu pai,
falando em indonésio, e dando ordens através de um intérprete timorense,
Larga o rapaz, tu és
preciso aqui para ajudar as milícias.
Eu nasci em 1974,
tinha três ou quatro anos na altura, não entendia nada do que estava a
acontecer. O meu pai não queria dar-me. O soldado indonésio arrancou-me e
deu-me a minha mãe. Vieram separá-la de meu pai também. Lembro-me dos gritos
nossos e deles misturados. Uma bulha. Depois, mais nada. A minha mãe, os meus
irmãos e eu continuámos descendo a encosta. Meu pai ficou para trás. Parámos
mais abaixo para dormir e esperar se viria ter conosco. Pelas doze da noite
ouvimos uns disparos e a minha mãe disse
O vosso pai já morreu.
Vamos embora.
O autor:
Pedro Rosa Mendes nasceu em 1968. É autor de uma obra
heterogênea que engloba ficção, ensaio e reportagem, com incursões no teatro e
na poesia. É autor de quatro romances – Baía
dos tigres (1999, prêmio Pen de narrativa), Atlântico (2003), Lenin oil
(2006) e Peregrinação de Enmanuel Jhesus
(prêmio Pen de narrativa 2011). Atualmente Pedro Rosa Mendes vive em Genebra,
na Suíça.
Nenhum comentário:
Postar um comentário