Baseado na oralidade, "O doente", de André Viana, discute as tragédias particulares que permeiam a vida
Em O doente, André Viana (Cosac Naify,
128 páginas) narra a maior parte da história baseando-se na oralidade. Não que
ele recorra ao conhecido artifício dos velhos contadores de histórias, como faz
Guimarães Rosa por intermédio de Riobaldo, em Grande sertão: veredas.
A narrativa de Viana começa com a palavra “transcrição”, numa página em branco;
na seguinte, seguem-se travessões que se repetem por seis linhas, só então
aparece a primeira palavra do romance, a preposição “de”. Após a incomum
abertura, o leitor depara-se com o seguinte trecho:
Começou a gravar? Então antes eu gostaria de ler
uma frase pra você. Se um dia alguém escrever minha história, seria uma
possível epígrafe.
Logo, trata-se de uma gravação, e os travessões significam aquele espaço
de tempo durante o qual esperamos ouvir algum som após ligar o aparelho. A
história, no entanto, ainda não começa. Lemos (sempre como se estivéssemos
ouvindo) apenas comentários desse irônico protagonista. A narrativa, quase
durante todo o livro, segue a estrutura de uma gravação sem a consequente edição,
com espaços em branco repetindo-se ainda com mais travessões e algumas páginas
em branco, ou com apenas duas ou três palavras. No final, são transcritas duas
cartas, que completam o sentido da história.
O protagonista, cujo nome jamais sabemos, ao invés de buscar um
psicanalista, como ele mesmo afirma (“No fundo, acho que não faço análise não
porque não acredito, mas justamente porque tenho medo do que posso
encontrar.”), procura alguém de sua profissão, um jornalista, e conta a ele sua
vida. Este interlocutor, que está ali porque adora ouvir histórias, não se
expressa em momento algum. Tudo o que sabemos a seu respeito é através dessa
voz, que nem podemos afirmar ser de um narrador, mas simplesmente a voz de uma
gravação. Assim, sempre na casa desse excêntrico personagem, o jornalista
escuta e grava tudo, a varar madrugadas, regadas a muito uísque.
Mas não se trata de uma narrativa vã, ou mesmo festiva. No início, já se
percebe o tom trágico. A voz da gravação diz: “Vamos lá. Se um dia eu
escrevesse minha história, ela teria como ponto de partida a morte do meu pai.
No dia do meu aniversário de onze anos”. Também não significa que a história
desse personagem será piegas ou mesmo não terá valor diante de tantas histórias
tão ou mais trágicas que existem por aí. Mas sim pela importância dada à
singularidade e ao fato de que cada história de vida seja, talvez, se não a
mais importante, pelo menos digna de ser contada.
Além de muitas referências à psicanálise, o narrador cita vários livros
de literatura, de filosofia, e filmes famosos. Há também uma trilha sonora que
acompanha o diálogo entre os dois personagens. A principal referência literária
é o romance A montanha mágica, de Thomas Mann
(1875-1955), incluindo a epígrafe do livro de Viana: “O homem é essencialmente
um enfermo”, que aponta para o tema principal do romance.
O tema da doença também é recorrente no livro de Thomas Mann. Mas não
porque se trata de um romance ambientado numa estação de cura de tuberculosos.
Quem se destaca no livro do escritor alemão é Hans Castorp, chamado de filho
enfermiço da modernidade por Setembrini, um intelectual de moldes clássico que
sucumbe em consequência da mudança de valores provocada pelo alvorecer da
modernidade. Voltando ao livro de André Viana, não mais estamos diante dessa
mesma modernidade, mas num momento histórico em que todas as possibilidades
discutidas no livro de Mann já se encontram esgotadas. O romancista nascido em
Lübeck, ganhador do Nobel em 1929, ainda moldava uma sociedade em que os seres
humanos tinham como suporte existencial os conceitos clássicos da filosofia e
da literatura, mas que desaparecem ante a inclemente violência provocada pela
Primeira Guerra Mundial.
Fim das utopias
Quanto ao livro de Viana, o ponto alto é a discussão da doença gerada pelo esgotamento de uma modernidade tardia e o fim de suas utopias. À medida que o autor introduz o cinema no romance, percebe-se a necessidade de criação de novas mitologias que gerariam sentidos outros à existência, sobretudo num momento de predomínio da cultura de massa, cujo único sentido é o elogio ao consumo.
O doente, no decorrer da voz narrativa, envolve outros personagens. Além do protagonista, um alcoólatra inveterado que também precisa fazer uso de ansiolíticos, há sua mãe, mulher profundamente depressiva (principalmente após a morte do marido), e seu irmão, que na adolescência recebe o diagnóstico de esquizofrênico.
Toda boa literatura é desagradável. No livro de Viana, isso acontece
quando a narrativa toca o tema da loucura e suas consequências na família do
narrador. Mas Viana propõe uma espécie de solução que ameniza as
características pessimistas do romance. Tal perspectiva acontece quando
sabemos, sempre pela voz desse estranho narrador, sobre Charles Fourier
(1772-1837).
Tal menção estende-se por várias páginas e é introduzida como por acaso, durante o diálogo entre o protagonista e seu interlocutor. As páginas são reveladoras para quem não conhece o pensamento e a obra deste autor francês considerado por muitos um socialista utópico. Já que o assunto do livro de Viana é sobre uma espécie de doença provocada pela civilização, Fourier, muito antes de Freud e Reich, propõe uma revolução sexual, mas cujo princípio era a abolição da monogamia e a experiência de um prazer praticamente total. André discute a falsa permissividade da sociedade contemporânea, e até mesmo a falaciosa proposta de realização do desejo colocada pela psicanálise. Ainda citando Fourier, o protagonista afirma: “Se não é geral, a liberdade é ilusória”, ou “Não é de moderação que são feitas as grandes coisas”. Inclusive há uma referência a um livro de Leandro Konder: Fourier, o socialismo do prazer. Mas o protagonista não defende nenhum tipo de socialismo, refere-se apenas à realização do desejo sexual e à formação de vários outros tipos de família, todos fora dos padrões vigentes.
A morte do pai, como tema da psicanálise, também é aprofundada no livro.
O personagem refere-se ao assunto diversas vezes e fala do peso que precisa
carregar por herdar os problemas que passam a lhe afligir a partir do momento
em que sua mãe já não dá conta de manter o pequeno negócio da família nem de
cuidar do filho doente. Na verdade, ao contrário do que esta morte significaria
em termos simbólicos (pois a morte do pai proporcionaria o desenvolvimento e
independência do filho), aqui ela aparece só como dor e obstáculo ao prazer.
O romance acaba por discutir o adoecimento de toda a sociedade, que
muitas vezes é mascarado pelos excessos, sejam eles a partir do álcool, das
drogas e até mesmo dos medicamentos antidepressivos, considerados por muitos
como solução à dor existencial. A negação da liberdade e a não realização plena
do amor, ainda segundo o narrador, seriam as causas de uma vida arruinada,
condenada às amarras da doença e do enlouquecimento.
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