terça-feira, março 30, 2010
Haron Gamal e Rafael Haddock-Lobo, Jornal do Brasil
RIO - Dentre as muitas epígrafes existentes no livro Nietzsche: o rebelde aristocrata, de Domenico Losurdo, a primeira é muito reveladora. Diz o seguinte: “Quem não o pode reivindicar? Dize-me apenas de que precisas e te encontrarei uma citação de Nietzsche. Pela Alemanha e contra a Alemanha, pela paz e contra a paz, pela literatura e contra a literatura” (Tucholsky).
A biografia intelectual e o balanço crítico do filósofo alemão serão discutidos exaustivamente nas 1105 páginas do livro. O historiador e filósofo italiano parte da formação do pensamento de Nietzsche, seus primeiros anos de juventude, sua judeofobia, o namoro com as idéias do musicista Wagner, abordando depois a maturidade intelectual do autor de O nascimento da tragédia, suas obras e a relação delas com o contexto histórico do período, mostrando que muitas das ideias e posições assumidas pelo filósofo, que se cristalizaram em aforismos e em outros tipos de explanações, faziam parte do pensamento “do tempo”.
Essas ideias, na verdade, devem ser debatidas numa linha de crítica da revolução, a não ser que se queira descartar, com sérios prejuízos para a história do pensamento, as obras de juventude do autor. Diante de uma intelectualidade contemporânea, que no século 20 tendeu a citar Nietzsche e a tirar proveito de sua obra sem lhe exigir contextualização e coerência histórico-política, o professor italiano apresenta com muita retidão de pensamento o tanto que é precipitada a abordagem ahistórica e apolítica do autor.
Um outro aspecto que se impõe é o da honestidade editorial quanto ao texto do filólogo-filósofo da Basileia. Comentando a edição “definitiva” Sämtliche Werke, Kritische Studienausgabe, organizada por Giorgio Colli e Mazzino Montinari (Dtv-de Gruyter, München, 1980), na qual Losurdo se baseia, cita-se Gadamer: “Muitos acreditaram que a nova edição crítica, publicada por Colli e Montinari, provocasse um novo e decisivo enriquecimento e aprofundamento da compreensão de Nietzsche. Ora é certamente verdade que pela primeira vez possuímos os cadernos de apontamentos de Nietzsche em forma criticamente segura e cronologicamente ordenada e que não dependemos mais da redação e da seleção em que a irmã de Nietzsche e os editores sucessivos tinham compilado os seus fragmentos póstumos, todavia é ingênuo crer que hoje, tendo o verdadeiro Nietzsche à disposição, estejamos definitivamente livres das preocupações que atormentaram os intérpretes anteriores”.
A seguir, continua o próprio Losurdo: “Embora bastante precioso, o trabalho editorial de Colli e Montinari não é aquela espécie de hermenêutica plenitudo temporum, religiosamente anunciada por intérpretes impacientes para desembaraçar-se de perguntas inquietantes que a leitura de Nietzsche contém. É a própria edição Colli-Montinari que confirma a presença, num filósofo aliás extraordinariamente rico e estimulante, de motivos que hoje não podem não suscitar ecos sinistros: celebração da eugenia e da 'super-espécie', teorização, por um lado, da escravidão, por outro, da 'criação' da 'espécie superior dos espíritos dominadores e cesáreos'; a invocação do 'aniquilamento das raças decadentes', e do 'aniquilamento de milhões de mal sucedidos', afirmação da necessidade de 'um martelo com o qual despedaçar as raças em via de degeneração e moribundas, com o qual tirá-las do meio para abrir o caminho para uma nova ordem vital'”.
Nietzsche: o rebelde aristocrata é divido em sete partes, possuindo ainda dois apêndices. Cada uma das partes contém em média sete capítulos, que por sua vez se subdividem em tópicos.
Losurdo opta por uma abordagem que privilegia a formação do pensamento histórico e político de Nietzsche, como aponta o título do primeiro capítulo: “A crise da civilização: de Sócrates à Comuna de Paris”. No trecho, o autor mostra que o filósofo alemão já vê em Sócrates a judeização do pensamento grego, o que afasta a cultura helena do preceito de “grecidade trágica” mergulhando-a numa crise a partir da concepção socrática de uma civilização que não mais privilegia o herói, mas o homem comum e em consequência a mundaneidade, o que já ameaça a aristocracia. Tal concepção anunciaria a perspectiva de igualdade, bandeira levantada pelo cristianismo, que, como sabemos, tem raízes judaicas. Losurdo afirma que o problema de Nietzsche não era com o judaísmo, mas, sobretudo, com a cristandade, pois esta é que faz a judeização da cultura. O tópico mais revelador no trecho é: “O suicídio da grecidade trágica como metáfora do suicídio do antigo regime”.
É na sexta parte, no entanto, que o livro de Losurdo se torna mais instigante. Em “No laboratório filosófico de Nietzsche”, o professor italiano pergunta: “Por que a denúncia e a crítica da revolução devem constituir o fio condutor da leitura de Nietzsche? De outro modo, não é possível 'salvar' o filósofo de sua inteireza. Quer-se ver nele o teórico de uma crítica afiada e impiedosa da ideologia que despedaça os mitos de germanismo e do antissemitismo? Salvo qualquer outra consideração, resta o fato de que esse tipo de interpretação comportaria a liquidação das obras de juventude, que ecoam temas teutômanos e judeófobos bastante difundidos na cultura do tempo e que, todavia, são extraordinariamente fascinantes. Quer-se ver em Nietzsche o campeão do 'espírito livre' e o teórico da reabilitação da carne em contraposição ao ascetismo do Ocidente cristão? De novo somos obrigados a cortes e renúncias dolorosas em prejuízo do discípulo de Schopenhauer, que exprime todo o seu desprezo pela galopante 'mundanização', evoca com acentos angustiados as consequências catastróficas do 'triste crepúsculo ateu' e defende contra Strauss 'o lado melhor do cristianismo', o dos eremitas e dos santos”.
Domenico Losurdo, da mesma forma, se contrapõe aos apologetas de Nietzsche que desejam proteger o filósofo de qualquer contaminação e revestem suas palavras com o recurso da metáfora. Ao falar sobre aniquilamento das raças decadentes e aniquilamento de milhões de mal sucedidos, o autor de Assim falou Zaratustra estaria demonstrando capacidade “bastante limitada de entender e de querer no plano político da análise histórica e política”.
Um tópico que merece muita atenção é o denominado “Nuremberg ideológico”. As concepções filosóficas de Nietzsche como a celebração do gênio e do super-homem, ou da necessidade da intervenção eugênica que serviram até certo ponto de embasamento ideológico ao 3º Reich, também circularam intensamente na cultura europeia e americana do final do século 19 e, em momento algum, nomes como o do americano Emerson e do inglês Galton são mencionados.
Talvez o extenso trabalho de Losurdo não agrade àqueles que veem um Nietzsche idealizado, apolítico e extemporâneo, filósofo do qual apenas retiram-se os trechos necessários ao desenvolvimentos de tiradas espetaculares para satisfazer a vaidade de autores que se seguem. Mas o trabalho do professor italiano se revela monumentoso não apenas em relação aos pormenores do percurso intelectual de Nietzsche, mas também sobre a trilha seguida por toda intelectualidade dos séculos 18, 19 e parte do 20, um momento em que a modernidade já está em curso e que poucos são capazes de enxergar o mundo que se anuncia.
Com sangue e com espírito
A relação com o corpo pode ser uma das mais interessantes chaves de leitura para se tentar compreender a cultura ocidental. E o mesmo pode-se dizer da filosofia. Desde Platão, a filosofia sempre dedicou esforços para tentar compreender e estabelecer o lugar do corpo em seus sistemas filosóficos. E, salvo exceções, deve-se admitir que esta relação, desde a Grécia antiga até o século 20, sempre foi muito mais tensa do que propriamente elogiosa. Não só em Platão, mas incluindo nesse movimento tipicamente filosófico a filosofia cristã e toda a filosofia de inspiração racionalista, a mente, a alma e a razão tiveram o privilégio do estudo, concedendo-se ao corpo um lugar secundário e, por isso, inferior.
Nesse sentido, Nietzsche inaugura a contemporaneidade ao tentar a todo custo trazer o corpo para um lugar de dignidade filosófica e, com isso, todos os atributos que antes o faziam ser menosprezado, como o desejo, os instintos e tudo mais que, para Nietzsche, engrandece a vida. E talvez seja impossível se aproximar de um pensamento como o de Nietzsche sem refletir sobre esse lugar de destaque que o corpo adquire em seu pensamento.
Tal é a estratégia bem sucedida de Nietzsche e o corpo, livro de Miguel Angel Barrenechea, que toma o corpo como fio condutor para apresentar o pensamento do filósofo alemão. Mas deve-se ter em mente que o termo fio condutor não pretende estabelecer uma unidade ou um sistema de pensamento assistemático por excelência, que busca justamente denunciar os grandes sistemas da tradição filosófica. “Tomar o corpo como ponto de partida é fazer dele o fio condutor, eis o essencial”, diz o próprio Nietzsche em um fragmento póstumo.
A ideia de Nietzsche, e que é tomada como fio condutor para o livro de Barrenechea, é a de que o corpo é um fenômeno de tal modo rico que pode servir como a melhor maneira de se alinhavar alguns dos temas mais importantes e reincidentes na filosofia nietzschiana, como a crítica ao dualismo, a noção de força, a relação com a vida, com a animalidade e com a dietética. Assim, seguindo esta linha que mais parece um fio de Ariadne do que um fio condutor, pois nos leva ao labirinto de um pensamento, o leitor é convocado a contra-assinar o livro que lê: pois nada mais vital (e, por isso, autobiográfico) do que a relação com o corpo e com o desejo.
E nada mais nietzschiano, como mostra Nietzsche e o corpo, do que exigir um leitor que leia com sangue (ecoando aqui a sentença de Assim falou Zaratustra que diz: “Escreve com sangue, pois sangue é espírito”). Nesse sentido, poucos filósofos provocam uma leitura desse tipo sanguínea como Nietzsche, na qual nosso corpo parece convocado a participar da leitura, sendo talvez ele mesmo o próprio órgão do entendimento. Uma leitura como a que costumamos fazer quando adolescentes, diriam alguns, e que somos desabituados ou talvez deseducados a ter, por alguma misteriosa razão.
E tal misteriosa razão não é nada mais do que aquilo que Nietzsche quer, como médico da cultura, denunciar: a conivência da razão com o rebaixamento do corpo, as atitudes constantes que visam seu enfraquecimento e toda uma glorificação de tudo que, em última instância, é pernicioso ao corpo e à “grande saúde”, para sermos fiéis aos léxico nietzschiano. Desse modo, a cultura ocidental acabou sempre exaltando ideias metafísicas, transcendentais e, nos termos de Nietzsche, falsas e mentirosas, ao invés de se voltar para o que de fato é saudável: o corpo.
Com isso, as metáforas dietéticas, as indicações das condições climáticas ideais para uma escrita, em um movimento absolutamente crítico de afastamento da postura dualista da filosofia ocidental, povoam o pensamento de Nietzsche, e são esses os elementos que Miguel Angel Barrenechea cuidadosamente alinha em sua escrita. Escrita, aliás, que recupera sem a menor vergonha o entusiasmo adolescente que tantos parecem esconder, e que acaba por contagiar o leitor. E não seria essa a mais coerente leitura? Não seria essa, ao menos, a que mais condiz com a postura nietzschiana? Talvez seja uma das possibilidades de se fugir da clausura que Nietzsche tanto denunciou, e que o livro de Barrenechea nos convida a percorrer. Com sangue – e com espírito.
08:22 - 27/03/2010
--------------------------------------------------------------------------------
Haron Gamal, Jornal do Brasil
RIO - Partindo do princípio de que os seres humanos deveriam dedicar todas as suas energias para o aumento da felicidade humana, expressão que não é propriamente sua, mas de pensadores tanto materialistas como também de pensadores místicos, Richard Rorty (1931-2007) desenvolve em Filosofia como política cultural uma espécie de pragmatismo. Segundo ele, deveríamos nos preocupar com as finalidades e não com reflexões abstratas, que, ainda conforme suas palavras, não levariam a nada. Como exemplo, um artifício utilizado no início do livro para sustentar sua argumentação descarta a perspectiva de classificar os seres humanos segundo raça, privilegiando uma abordagem geneticista. Em vez de “falarmos sobre raças diferentes, vamos falar sobre genes diversos”. Portanto, segundo Rorty, não deveríamos falar sobre coisas que não fazem sentido.
A espécie humana caracteriza-se pelo desenvolvimento do raciocínio e, a partir dele, pela construção tanto de obras concretas – como as possibilitadas pelas ciências físicas – como também pela elaboração de outro tipo de obras, estas abstratas, que existem apenas na imaginação e se concretizam em forma de textos, literários ou não. As teorias filosóficas, que se caracterizam pelas sutilezas do pensamento, muitas vezes servem mais como demonstração da engenhosidade humana do que como meios de estabelecer um propósito propriamente físico. Não é de se admirar que filósofos como Platão e Aristóteles tenham escrito obras com a intenção de que o ser humano obtivesse alguma vantagem. Mas mesmo tendo desencadeado intermináveis discussões, muitas delas de caráter controverso, não se podem abandonar as perspectivas abertas por esses filósofos, desejando que se discuta apenas o que possui lógica interna, útil para a melhoria da vida humana.
A própria discussão filosófica também serve como uma espécie de melhoria ao permitir às pessoas o desenvolvimento do pensar. Afinal, a obra dos grandes filósofos, mesmo que contestada, não deixa de ser um tipo de obra de arte, que merece apreciação em toda a sua plenitude. Na história da humanidade, todo homem que desenvolveu algum tipo de filosofia talvez tenha pensado que os seres humanos teriam como resultado um mundo melhor. O que acontece é que não se pode utilizar essa afirmação com o objetivo de demonstrar a perenidade e validade do pragmatismo.
Ao defender sua tese, Rorty pergunta: “Como deveríamos dividir a cultura em áreas para as quais a política cultural seria relevante e áreas que deveriam ser mantidas livres dela?”. Neste livro, com artigos elaborados, sobretudo, na última década, o filósofo norte-americano tenta responder a questão por meio da filosofia, mas despindo-a de qualquer resquício metafísico.
A primeira parte do livro tem o título “Religião e moralidade de um ponto de vida pragmatista”. No primeiro capítulo, Rorty afirma que se deve abrir mão da discussão sobre as crenças para que se possa esboçar um tipo de “comunidade cooperativa global entre as nações”. O descarte do apego às crenças e mesmo a existência ou não de Deus não deveria ser levado em conta quando se tem como meta o estabelecimento de um mundo em que o ser humano saia beneficiado. Voltando a John Stuart Mill e a Wiliam James, e seguindo o pensamento deste último, “a crença certa a ser adquirida é aquela que fará mais pela felicidade humana”.
No segundo capítulo, o livro quer demonstrar que a visão de mundo pragmatista está mais próxima do politeísmo romântico que do monoteísmo secular. A argumentação de Rorty, sempre voltada para a realização da felicidade, se bate às voltas com o discurso religioso como forma de afastar o homem do caminho da vida secular. Valeria a pena não se preocupar tanto com os fins religiosos, os quais preconizam a salvação numa outra vida, optando pelo aqui e agora, de modo que as nações convivessem de forma harmônica.
Na segunda parte, considerando pensadores canônicos, o autor afirma: “Quando Copérnico e Galileu extinguiram a imagem do mundo que havia confortado Tomás de Aquino e Dante, Espinosa e Kant ensinaram à Europa como substituir o amor de Deus pelo amor à verdade, e como substituir a obediência à vontade divina pela pureza moral. Quando as revoluções democráticas e a industrialização nos forçaram a repensar a natureza do vinculo social, Marx e Mill se apresentaram com algumas sugestões”. São discutidas questões que levam em conta mais uma vez a crença e opção materialista da vida humana. Rorty afirma que “as classes educadas da Europa e da América se tornaram complacentemente materialistas em sua compreensão de como as coisas funcionam. (...) Também se tornaram utilitaristas e experimentalistas em suas avaliações das iniciativas sociais e políticas propostas”. O autor traça um percurso filosófico em que prevalece a opção pelo descarte de princípios tanto teológicos como filosóficos que mantenham o ser humano afastado de fazeres que não privilegiam a vida em sociedade.
Na última parte, ele propõe a discussão entre a filosofia analítica e conversacional. O princípio de pensamento que não leva em consideração o diálogo e a interação com outras linhas de pensamentos não estaria condizente com o estabelecimento daquilo que ele chama de política cultural. Rorty refuta o conversacionalismo de Habermas, o qual, segundo ele, não atinge a proposta pragmatista ao não seguir perspectivas historicistas na mesma linha do autor de Filosofia como política cultural.
Após a leitura, fica a impressão de que os ensaios tentam responder a questões pontuais da cultura norte-americana. Ao procurar estabelecer uma forma de pensar que leva em consideração apenas soluções de problemas práticos, que na verdade privilegiam apenas as ciências físicas, não haveria lugar para a crítica que se mostrasse fora de um modelo de vida predominantemente tecnicista. Poder-se-ia dizer que o desenvolvimentismo empreendido pelos Estados Unidos deveria servir de modelo bem sucedido para toda a humanidade.
O que se pode estabelecer como crítica é que o pensamento pragmatista, preconizado por Rorty, não leva em conta as contradições sociais, negligenciando questões como a luta de classes e, sobretudo, os interesses de países que tentam alcançar o mesmo patamar das nações desenvolvidas. Através da mundialização atual, pode-se concluir que ser pragmático seria pensar e agir de modo a beneficiar seu próprio país e sua consequente população. Mas o que fazer quando levamos em consideração o acirramento dos interesses e a intensificação dos conflitos, sem ainda considerar a extensão do fundamentalismo tanto do Ocidente como do Oriente?
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
“Morava sozinho, não tinha dinheiro, minha saúde deixava bastante a desejar, não publicava nada em lugar algum fazia um bom tempo, ultimamente nem sequer escrevia. Meu destino parecia miserável. Acho que tinha começado a me acostumar com a autocompaixão.” Num determinado trecho de Estrela distante, Roberto Bolaño (1953 - 2003) faz o narrador dizer as palavras acima. Tudo funciona como se a literatura, ou a escrita do personagem – ele também é um escritor – estivessem a fracassar. Mas a história narrada, na verdade um romance dentro de outro, é que trará ao leitor a verdade. Então, o que seria fracasso acaba por se tornar revelação.
A narrativa inicia-se em 1973, às vésperas do golpe militar contra o governo de Salvador Allende. O autor apresenta um Chile pleno de força juvenil, onde a maioria dos personagens frequenta oficinas de literatura, sonha com um governo revolucionário e paquera as também jovens poetas, como as irmãs gêmeas Garmendia. No entanto, um jovem misterioso, inicialmente conhecido como Alberto Ruiz-Tagle, surgirá para desestabilizar o ambiente. Ele é um elegante e sofisticado participante numa das oficinas de literatura da Universidade de Concepcion, escreve até bons poemas segundo a opinião de algumas pessoas, e conquista o coração de uma das gêmeas. Após o golpe, saberemos seu verdadeiro nome: Carlos Wieder; na verdade, trata-se de um oficial aviador. Daí, ele passa a escrever com fumaça, nos céus do Chile, versículos bíblicos e poemas “enigmáticos”.
A questão primeira que o romance impõe é a literatura. Todos os jovens amigos do narrador são poetas ou pretendem sê-los, inclusive o militar infiltrado. Mais adiante, Bolaño faz um levantamento dos anos que se seguiram ao golpe, o que aconteceu com grande parcela da juventude chilena, a perseguição, a morte e o exílio. Sabe-se mais sobre o poeta aviador, sobre o furor que causou nos meios civis e militares do novo governo com suas piruetas e poesias aéreas. Mas, a seguir, também somos informados sobre sua saída de cena no momento em que não mais interessa ao governo.
Ainda a respeito da literatura, é importante observar outros pontos colocados pelo romance. Um deles é que, à primeira vista, todos os poetas são de esquerda. Apesar de seus poemas não serem diretamente políticos, a atitude de cada um dos escritores é de recusa ao status quo. A arte atua como instrumento de resistência. A partir daí se discute até que ponto pode existir uma arte de vanguarda patrocinada pelo regime, sobretudo sendo o regime militar e de direita. Após o golpe, há a debandada, quase todos os intelectuais ou poetas precisam deixar o país; há também aqueles que sucumbem. Outro ponto é a referência a grandes nomes da literatura universal, como Vitor Hugo, Balzac, Apollinaire etc, juntamente com autores desconhecidos ou mesmo criados por Bolaño, poetas ou prosadores que não só convivem com os clássicos mas representam (alguns deles) uma espécie de literatura marginal.
No começo do livro, o narrador conta a sua história e a de seus companheiros, de uma perspectiva distante. Diz que no ano de 1973 tinha apenas a idade de 18 anos. Logo vem os anos de exílio que perduram e parecem não acabar mais. A narrativa transforma-se numa espécie de escavação da memória quando relata sobre seus amigos e o destino que experimentaram. A maior parte da narrativa, no entanto, fixa-se em Ruiz-Tagle/Wieder, seu possível destino, sua aparição através de pseudônimos em algumas publicações menores e a tentativa de localizá-lo.
Nos três últimos capítulos “é então que entra em cena Abel Romero e eu volto a aparecer em cena”, o que revela a pouca importância que este narrador-poeta dá a si próprio. Há ainda uma frase pungente no mesmo parágrafo: “O Chile também se esqueceu de nós.” O personagem recém chegado é um ex-policial chileno que também está há anos no exílio, após vagar por vários países estabelece-se na França. Sempre tivera a fama de exímio investigador, chegando a desvendar os casos mais difíceis. No trecho, o livro assume ares de verdadeiro romance policial. Romero procura o narrador-personagem em sua casa, em Barcelona; encontra-o por intermédio de um ex-companheiro deste dos tempos do Chile, chamado Bibiano. Ambos eram inseparáveis na frequência às oficinas literárias e na vida boêmia de Concepcion. Bibiano jamais deixara seu país, tendo trabalhado durante muito tempo numa sapataria, para depois publicar e se tornar famoso, inclusive chegando a dar aulas em universidades americanas. Uma pessoa não identificada, que tinha enriquecido recentemente, pagava ao investigador e a quem ajudasse a encontrar Wieder uma significativa quantia, e “para encontrar um poeta ele precisava de ajuda de outro poeta. Eu disse que para mim Carlos Wieder era um criminoso, não um poeta.”
Romero segue o rastro de Wieder através dos vários nomes que este usara. Mergulhamos então numa rede que inclui fanzines de várias partes do mundo, não só de várias correntes literárias marginais como também publicações de skinheads, de grupos neonazistas e de torcidas de clubes de futebol. Aparece até uma rede de produção de filmes pornôs.
No capítulo final, é emocionante a viagem feita por ambos até uma estação turística na Catalunha, onde, segundo as investigações, mora o ex-poeta aviador. O objetivo é que o escritor exilado o reconheça, o restante estará a cargo de Romero.
O que se pode depreender no balanço geral da obra é todo um percurso que não só inclui a história recente do Chile, mas também um possível processo tanto de descrédito como de valorização da própria literatura. O narrador, numa vida muito semelhante à de Bolaño, está doente, não sobrevive de seus livros, até ali não obtivera reconhecimento e já passa dos quarenta anos. Acaba por aceitar a quantia oferecida para ajudar na captura do ex-agente colaboracionista do regime Pinochet.
A valorização está na elevação da poesia acima de qualquer outro tipo de arte literária, pois se trata de um enredo protagonizado por poetas. O próprio Bolaño parece fazer uma mea culpa, já que começou sua carreira como poeta e pouco a pouco foi abandonando a poesia para dedicar-se à prosa, sendo reconhecido afinal como grande ficcionista. Apesar de, aqui, a história ser contada por um poeta, não significa a negação da poesia; através de sua narrativa a História se mantém viva, a poesia se impõe e a arte assume, enfim, sua verdadeira função.
Estrela distante, Roberto Bolaño
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Companhia das Letras, 143 páginas.
quarta-feira, fevereiro 03, 2010
Mélika Ouelbani relata origens do Círculo de Viena
Haron Gamal, Jornal do Brasil
RIO - O Círculo de Viena , um movimento neopositivista que ocorreu na primeira metade do século 20, tinha como finalidade discutir problemas de filosofia das ciências e de metodologia. Seus mentores e participantes objetivavam tornar a filosofia científica, oposta a qualquer especulação ou dogmatismo, eliminando por completo a metafísica, considerada por eles sem sentido.
O movimento foi vigoroso entre as duas grandes guerras e surgiu numa Viena que se opunha à tradição idealista e metafísica da filosofia alemã. Os integrantes do Círculo, estudiosos das mais diferentes áreas do conhecimento (o que marcava o grupo com o que se convencionou chamar nos dias de hoje de interdisciplinaridade), bebiam nas fontes de Wittgenstein (1889-1951), filósofo também vienense, que contribuiu no campo da lógica e da filosofia da linguagem.
O Círculo de Viena, livro de Mélika Ouelbani, procura descrever a origem do movimento, convergências e divergências de concepções de seus integrantes, formulações de teorias do conhecimento e o destino intelectual de cada um após a dissolução do grupo, devido também ao acirramento da perseguição nazista nos anos de 1930, a que se deve o assassinato do seu formulador, Moritz Schlick.
No principal período de atuação do Círculo, que se situa entre 1922 a 1936, quando Schlick substitui L. Boltzmann na cátedra de filosofia das ciências indutivas, na Universidade de Viena, estudantes e cientistas reuniam-se à sua volta para debater os mais variados temas, mas o que caracterizou esses pensadores foi o rigor lógico e, ao mesmo tempo, o principio de que só teria validade o evidenciado pela experiência. Por isso, eles também são chamados de filósofos empiristas.
Outros grupos análogos constituíram-se em Praga e Berlim, estando seus integrantes em intercâmbio com os do Círculo de Viena, organizando congressos em várias capitais europeias, tendo acontecido o último nos EUA, em Cambridge, Massachusets, no ano de 1939.
Eis algumas palavras da autora: “Praticamente quase todos os filósofos desse círculo recusavam-se a ser classificados como positivistas, a fim de que seu movimento não pudesse ser associado ao positivismo de Comte, que eles consideravam uma espécie de metafísica, ou até mesmo de 'verdadeira religião'. Contrariamente a isso, o propósito deles era fazer da filosofia uma disciplina científica oposta a toda 'especulação', a todo dogmatismo. A esse respeito, Schlick declarara que, eventualmente, ele até podia concordar com a classificação de 'positivista', desde que ela fosse sinônimo de negação de toda e qualquer metafísica”.
É importante salientar, no entanto, que seria melhor falar em um programa neopositivista do que em uma doutrina. Na verdade, esse programa consistia “globalmente, na realização de uma unidade da ciência e [caminhava] lado a lado com uma concepção da filosofia e de sua função”. O movimento até teve um manifesto, cujo título era A concepção científica do mundo. Nele, seus autores situam o movimento na história da filosofia inscrevendo-o na tradição vienense do final do século 19, e ressaltam a tradição empirista que não era estranha à Inglaterra (Russel e Whitehead) nem aos EUA (James), ou mesmo à Alemanha (Reichebach, em menor escala). O que esses pensadores queriam dizer com concepção científica do mundo significava mais especificamente uma concepção não metafísica do universo. O Círculo de Viena também tinha um aforismo: “O que se deixa dizer deixa-se dizer claramente”.
Um dos capítulos mais importantes do livro é o que trata de “Críticas ao positivismo lógico”. Mélika enumera os filósofos que criticaram o programa do Círculo, discutindo detalhadamente as formulações de Popper, Quine, Kuhn e Putnam. As principais reflexões desses autores são contra os princípios básicos do positivismo lógico (a distinção entre o analítico e o sintético) e “sobretudo o princípio da verificação, ou de sentido; em segundo lugar o empirismo e a antimetafísica daí decorrentes”. Outra crítica é a de que os neopositivistas não levaram em consideração “o aspecto social e cultural em sua explicação do processo do conhecimento científico”.
O que se poderia discutir, apesar de a autora tocar sem ênfase no assunto, é até que ponto o aparecimento do neopositivismo fez parte de um projeto de eliminação da metafísica, que foi concomitante à ascensão das doutrinas nazi-fascistas e outros totalitarismos. Essas doutrinas, na verdade, eram avessas a qualquer discussão que permitesse a multiplicação de sentido. Da mesma forma, os filósofos do Círculo de Viena propõem o estabelecimento do sentido pela experimentação e pelo logicismo. Até mesmo as ciências humanas, segundo eles, deveriam “seguir, mais cedo ou mais tarde, a mesma via da física e da matemática”. Segundo o livro, numa crítica tardia aos neopositivistas, associou-se a eliminação da metafísica não a uma ordem epistemológica, mas a uma ordem “política e histórica”.
Sem querer endossar concepções e propostas desses filósofos, a importância do grupo aponta a necessidade do ser humano pelo contínuo debate, condição fundamental para o progresso não só das ideias, como também das ciências, mesmo que os interesses dos cientistas não sejam convergentes e que suas disciplinas muitas vezes se mostrem conflituosas.
O destino do movimento pode ser observado a partir de duas perspectivas. A primeira delas é que a emigração de muitos de seus integrantes para os Estados Unidos nos anos que antecederam à Segunda Guerra fortaleceu o desenvolvimento do país que os asilou, permitindo que o pragmatismo e o pensamento lógico encontrassem terreno fértil na América do Norte. O segundo é que a perspectiva de destruição da metafísica não encontrou terreno na Alemanha, mesmo num período em que a ascensão do nazismo acarretava controle sobre a linguagem, ainda que o germanismo austríaco não se prendesse ao tom diretamente político, mas à questão de método.
É louvável, no livro, a existência de vasta bibliografia para quem deseja se aprofundar no pensamento dos integrantes do Círculo. Faço, no entanto, uma ressalva. Aparecem pelo menos três referências indiretas e uma direta a Kant (o kantismo é refutado pelo pensamento heterogêneo do Círculo), mas o seu nome não consta no índice onomástico.
O livro faz parte da coleção Episteme, da Parábola Editorial. Nela já foram publicados dois volumes: um sobre Foucault e outro sobre diversidade cultural.
15:54 - 04/01/2010
domingo, janeiro 10, 2010
Um romance interessante, que não é recente, mas merecedor de atenta leitura é República dos Sonhos, de Nélida Piñon. A autora, que já presidiu a Academia Brasileira de Letras, faz nesse livro um inventário do percurso de dois personagens oriundos da Espanha que se conhecem no mesmo navio que os traz, no início do século XX, ao Brasil. Desde cedo, eles percebem as duas faces do que significa terem deixado para trás a terra de origem e partido em busca do sonho.
Um desses personagens logo se mostra empreendedor e próspero. Após alguns anos, volta à terra de origem para pedir a mão da futura esposa, retorna com ela ao Brasil e tem numerosa prole, tornando-se, por fim, um rico e respeitado empresário. Enquanto o segundo permanece imerso no sonho e, na maior parte da história, na melancolia; continua fiel ao companheiro bem sucedido, frequenta-lhe a casa aos domingos, mas prefere manter a reserva do imigrante que não veio “fazer a América”, mas sim tentar valores morais ligados à satisfação da alma, como a admiração à cultura local, e a identidade aos despossuídos. Na verdade, descobre-se no decorrer da narrativa que esse último é um refugiado, remanescente de um povo tornado ilegal num passado não muito distante pelo decreto de um rei espanhol.
Madruga, o que enriquece, é oriundo da Galícia, terra violentada pelos reis de Castela, local a que foram impostos língua e costumes estrangeiros. A proibição de falar a língua materna, o galego, deixa o idioma à sombra, quase clandestino. Esse personagem percebe a violência que vigora sobre os povos minoritários na península ibérica, mas sua ânsia pelo sucesso o faz esquecer as frustrações, partindo para o Brasil em busca de amealhar fortuna que não conseguiria na terra natal. Deixa a casa paterna ainda adolescente, às escondidas, sem que os pais saibam de suas verdadeiras intenções, e viaja com dinheiro emprestado de um tio, que fracassara em tentativa semelhante. Sua determinação e vontade, no entanto, são tamanhas, que nada o impedirá de progredir. Venâncio, seu companheiro, não tem a mesma determinação, mas sua busca é outra, uma espécie de poesia, que só é permitida àqueles que se perderam em terra estrangeira, ou se tornaram para sempre estrangeiros. Talvez esse seja o personagem mais complexo. Sua dúvida e dor são pungentes, o amor que traz dentro de si é intenso, mas torna-se incapaz de manifestá-lo, a não ser pelo flanco da dor.
A questão principal do livro inicia-se com o diálogo e a camaradagem entre os dois imigrantes que aportaram em terra brasileira, ora expandindo-se ora contraindo-se nos descendentes de Madruga, em suas características pessoais, sucessos, fracassos e conflitos surgidos pela disputa da gerência do império estabelecido pelo pai, entrando no jogo um genro. Muitas vezes se percebe que o lucro empresarial não paga a dor e a melancolia daqueles que se sentem sempre estrangeiros.
A narrativa atravessa praticamente todo o século XX, estando seus personagens a acompanhar tanto os acontecimentos mais importantes do Brasil, como a Revolução de 1930, o Estado Novo, a redemocratização, a morte de Getúlio, a construção de Brasília, a fermentação política dos anos de 1960, o golpe militar e a resistência a ele; e, a nível mundial, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Mas o principal não se encontra nesses fatos, a essência do livro se mostra no interior de cada personagem, podendo ser ele Venâncio, Madruga e a esposa Eulália, os vários filhos e filhas nascidos no Brasil, a neta Breta e até mesmo a criada e companheira da esposa por toda a vida, Odete.
Nas 748 páginas que compõe o livro, experimentam-se várias vozes. Madruga, já aposentado, o império econômico estabelecido, e em meio à briga entre os filhos, a filha e o genro pela direção dos negócios, é um dos narradores. Percebe-se, já na velhice, o ressentimento do personagem relativo à constante indagação sobre a validade do percurso escolhido. O conflito de interesses entre os descendentes, que não experimentaram as mesmas dificuldades vividas por ele, afligi-lhe a alma.
A narrativa se inicia com o casal já na velhice; a mulher se encontra às portas da morte, momento em que acontece o processo de reflexão sobre todo o passado da família. A neta, Breta, criada desde menina na casa do avô, é outra narradora, seu relato soa como extensão da descendência, e também como inventariante de todos esses sonhos. Parece ser a pessoa que herdou a arte de contar histórias do velho Xan, avô de Madruga, só que dessa vez será quem dará voz aos familiares que a antecederam e aos contemporâneos a ela. Simpatizante da resistência aos militares nos anos de chumbo, acaba exilada e, por isso, torna-se companheira de infortúnio do próprio Madruga, que também na verdade deixara a terra de origem, embora ele, premido pela pobreza e pela falta de perspectivas quanto à vida de camponês.
A grande habilidade de Nélida Piñon em conduzir essa saga de imigrantes e sua ramificação no Brasil está em dominar o tempo da narrativa, percorrendo com destreza diversas fases da vida de Madruga e da família, um percurso que foge à cronologia habitual, mas que não arremessa o leitor em vazios que o deixem perdido. Uma lembrança torna-se sempre motivo para que a narrativa mergulhe num outro segmento de tempo, permitindo o conhecimento necessário sobre a vida pregressa dos personagens, seus sentimentos e sofrimentos. O retorno ao momento em que a história havia mudado de curso ocorre sem prejuízo para a economia total do romance.
Talvez não tenhamos na literatura brasileira um romance tão ousado, no sentido de reconstruir a vida de várias gerações, tanto na terra de origem, Sobreira, na Galícia, como no Brasil. Uma falta que se preenche em termos de discussão multicultural, num país formado pela constante vinda de imigrantes de todas as partes do mundo e que prima pela mestiçagem.
Quem sai ganhando, no entanto, é a literatura, por se tornar uma espécie de guardiã da memória e recuperar um passado que reflete ora a luz ora a sombra do que é viver – bem sucedido materialmente ou não – em terra estrangeira.
A república dos sonhos
Nélida Piñon
Ed. Record, 748 páginas.
segunda-feira, dezembro 28, 2009
http://www.letras.ufrj.br/posverna/doutorado/GamalHJ.pdf
sexta-feira, dezembro 11, 2009
Haron Gamal, JB Online
RIO - No fim de outubro morreu Claude Lévis-Strauss, antropólogo que mudou o entendimento do homem ocidental a respeito de sociedades tidas como diferentes da matriz europeia. Através dele, passamos a compreender que não existem grupos humanos superiores ou inferiores. Todas as sociedades possuem capacidade de explicar o seu estar no mundo, ainda que de modo mítico, e de solucionar os próprios problemas, a menos que sejam externos as suas origens. Após a leitura de O mundo se despedaça, do nigeriano Chinua Achebe, livro publicado pela primeira vez em 1958 pelo escritor que viria a se tornar detentor em 2007 do prestigioso prêmio Man Booker International, é possível perceber claramente a impetuosa violência exercida pelo homem branco, ainda que sob a capa do cristianismo, no contato e na evangelização promovida em África, a partir de sua chegada nas sociedades locais.
Things fall apart – nome original do livro, já que Achebe é escritor africano de língua inglesa – inicia-se descrevendo a fama de Okonkwo, personagem que trouxera orgulho à sua aldeia ibo, em Umuófia, “onde tudo se tinha por perfeitamente regulado e imutável”, palavras de Alberto da Costa e Silva, no prefácio à narrativa. A comunidade ainda vivia seus dias de liberdade, não imaginando o que estaria por vir. Embora imperfeita, como qualquer outra sociedade, e até mesmo possuidora de idiossincrasias incompreensíveis àqueles fora de seu círculo, vemos um mundo em que vigoram os valores locais, o respeito aos deuses, e uma hierarquia não muito distinta daquela a que estamos acostumados a observar nas sociedades de origem europeia, baseada na acumulação de riqueza. A fratura que se apresenta entre Okonkwo e sua sociedade surge já no primeiro capítulo, na imagem do pai do personagem, uma vez que entre os ibos, como entre quase todos os povos semelhantes, valorizam-se os guerreiros, os lutadores e aqueles que enriquecem por esforço próprio. Seu pai, Unoka, desconversava quando o assunto eram as guerras e o trabalho na lavoura. Gostava de música, era exímio na flauta, mas devia muitos cauris (moeda local) a quase todos da aldeia. Como consequência, vivia com a família na mais profunda pobreza. Okonkwo, para fugir ao estigma paterno, preenche os requisitos. Desde cedo se destaca nas artes marciais, vencendo o lutador mais forte do povoado vizinho; é o mais bravo dos guerreiros; enriquece desde cedo com o trabalho e recebe ajuda de seu chi (o deus de cada pessoa, mais do que um anjo da guarda), conquistando posições e tornando-se um dos mais importantes membros do clã.
Chinua Achebe, ao escrever o romance, parte de uma situação que o põe em ligeira vantagem. O mundo que desfila nas páginas de sua narrativa já não existe há pelo menos 200 anos. O autor recria a vida em Umuófia, seus costumes, os títulos que os mais importantes obtinham, como os conseguiam, como eram as casas habitadas pela população, as negociações para os casamentos, as festas, uma sociedade em que deuses e homens estão quase que irmanados; até os mortos encontram um meio de permanecer entre os vivos, no cotidiano da aldeia, através dos egwugwu, mascarados que encarnam os antepassados dos integrantes dos clãs. O narrador tenta não tomar partido, pois há cerimônias de sacrifícios, como o assassinato de um jovem chamado Ikemefuna, entregue à aldeia ibo como pagamento por danos que alguns dos integrantes da aldeia vizinha causaram a Umuófia. Há também costumes totalmente estranhos a quem não pertence a essa sociedade africana, como o abandono de crianças na Floresta Maldita, quando nascem gêmeos. Enfim, as fissuras da narrativa e os titubeios daquele que nos conta a história nada mais são do que elementos premonitórios.
A menção ao homem branco acontece diretamente apenas após a primeira metade da narrativa. O fato, no entanto, está presente durante todo o tempo no subtexto. O narrador, apesar de ainda não descrever o futuro invasor, não consegue esconder que este está à espreita. Advirá a decadência e a destruição.
O herói, Okonkwo, cai em desgraça ao agredir uma de suas mulheres na Semana da Paz, período em que todos deveriam manter-se em vigília. Acaba também por matar acidentalmente um jovem durante a cerimônia fúnebre do membro mais idoso de Umuófia. É condenado a sete anos de exílio.
Retira-se com a família para a terra de sua mãe. Após ser acolhido pelos parentes dela, permanece todo o período de exílio trabalhando para enriquecer novamente e planejando sua volta. Deseja retomar o prestígio e as honras que possuía. Mas os deuses já não estão a seu favor. Ou melhor, talvez já estivessem em retirada. É época de um novo deus, fora das tradições ibo.
Ao voltar, o herói se depara com outra realidade. O local já fora tomado pela religião e, sobretudo, pelo tribunal do homem branco. O que resta ao habitante original e a sua família? Resta outra espécie de exílio: vive na aldeia em que nasceu, permanece entre os seus, mas o mundo tornara-se outro. A Ibolândia nunca será a mesma.
“O regresso de Okonkwo à terra natal não fora tão memorável quando desejara. Verdade que as suas belas filhas despertaram grande interesse entre os pretendentes e que, pouco depois, desatavam-se as negociações para os casamentos. Mas, à parte disso, Umuófia não parecia ter dado nenhuma atenção especial ao retorno do guerreiro. O clã sofrera tão profundas mudanças durante seu exílio, que estava quase irreconhecível. O povo só tinha olhos para a nova religião, o novo governo e os novos entrepostos. Ainda havia muita gente que considerava as novas instituições malignas, mas mesmo essa gente não pensava nem falava outro assunto e, sem dúvida alguma, não estava interessada no retorno de Okonkwo.”
Hoje, após a destruição de praticamente todas as sociedades que não seguiam o pensamento europeu, tanto através da força militar, como da econômica e ideológica, tenta-se preservar o que delas restou. Entre outras ações, criam-se leis para que as pessoas estudem suas origens africanas e as valorizem. Mas, como se pode observar, a história é contada pelos vencedores. Pior ainda (ou será melhor?), um livro lançado há 51 anos só agora chega-nos traduzido ao português, num tempo em que cresce o número de pessoas que agem como os primeiros missionários que chegaram a Unuófia, impondo governo e religião.
Que a arte e, sobretudo, a literatura consigam cumprir sua "missão". Cito, mais uma vez, o prefaciador da obra: “Este livro só existe porque Umuófia ingressou num império. Porque seus valores puderam ser descritos e traduzidos na língua do conquistador e, assim, tirar uma impressentida desforra.”
14:28 - 04/12/2009
terça-feira, dezembro 08, 2009
Dani, escuta, é rápido. Sei que de repente você está esperando outra ligação, quero falar só mais uma coisa. É que domingo, na praia, arranjei um namorado. Nada sério, tu sabes, mas pude me divertir. E o homem é bem mais velho. Pode ser que tenha a idade do meu pai. Mas acho que deve ser um pouquinho mais jovem. Aconteceu assim, perguntei: você sabe me dizer em qual estação tenho que saltar para ir à praia no ponto tal? Ele me ensinou direitinho. Quando saltei e caminhei em direção à superfície, encontrei o homem de novo, dei um sorrisinho e segui. Ao chegar ao ponto da praia que desejava, o local estava repleto de pessoas. Mas sempre há espaço para uma moça bonita, não é mesmo? Tanto mais para uma jovem de biquíni mínimo, como o meu. Não te contei? Comprei um biquíni novo. E menor. Lindo. Não falta homem a me olhar. E lá caminhava eu, com o bumbum de fora, chamando de todos a atenção. Logo encontrei alguns conhecidos naquele pedaço da praia. Um moreno bonitão veio conversar comigo. Mora aqui perto, me reconheceu. Depois veio uma amiga dele. Ficamos juntos os três. Mas tudo na maior liberdade. Passei o protetor e entrei no mar uma vez. Tomei duas latas de cerveja. Ah, que arrepio, tanto o mar como, depois, a cerveja. Foi então que percebi o homem a quem pedira informação. Me acenou do quiosque. Ficou olhando pra mim um tempão. Fez sinal para que eu fosse até ele. Reparei que me convidava para acompanhá-lo no quiosque. Mas eu é que acabei fazendo que se aproximasse. Naquele momento, estava sozinha. Ele demorou um pouco, mas veio. Sentou-se ao meu lado e desfiamos uma conversa de que já nem sei qual o assunto. O homem parecia não se dar conta do meu corpo nem da minha nudez. Cheguei a pensar: o que ele está querendo? “Não entra n’água?”, instiguei. Entramos. Dentro d’água, pude senti-lo melhor. Mais uma vez fui eu que tomei a iniciativa: puxei-o pra mais perto. Agarrei o homem pela cintura. Ele envolveu meu corpo, percorreu, suave, os meus quadris. Desceu um pouco as mãos até tocar o meu biquíni. No momento pensei: “pena que não estou com um biquíni de lacinho!”. Você está rindo, Dani? Me acha maluca? Já sei, você pensa que sou tarada. Mas nada disso, só queria me divertir um pouco. Ele é tímido, sabe, muito tímido. Não tentou nada além das duas mãos na minha cintura, no máximo nos meus quadris. Eu quis que me desse um beijo. Mas lógico que nada falei. Seria demais, não? Um beijo, ainda mais dado por mim. Duvidas que não beijei o homem? Não, não beijei. Você sabe que sou atirada, mas não tive coragem. Tudo porque ele é bem mais velho do que eu. Caso fosse da minha idade, ou mesmo apenas um pouco mais velho, eu não o perdoaria. Agarraria o coitado ali mesmo. Após sairmos d’água, fui com ele ao quiosque. Disse que eu podia pedir o que quisesse. Sabes que não sou interesseira. Sou até bastante modesta. Acompanhei-o na cerveja, num tira-gosto simples, acho que batatas fritas. Antes de ir embora, peguei o número dele. Da casa e do celular. Ele mora ali mesmo, em Copacabana. Educadamente me convidou pra vir um dia de semana, jantarmos num restaurante de minha escolha, depois passearmos um pouco. O que achas, Dani? Não acreditas? Pensas que sou mentirosa? Não ficaria esse tempo todo no telefone pra falar bobagem. Mas não vou, não, Dani. Foi apenas um flerte de praia. Acho que deve ser ótimo ter um caso com ele. Mas prefiro ficar por aqui com o meu pessoal, neste bairro distante, longe da praia, longe do Rio que aparece na TV. Você iria, Dani? E logo no primeiro dia? Lembras que a tarada sou eu? Não se importaria em deixar que ele lhe tirasse o biquíni? Não sei, Dani. Tenho consciência de que teria muita vantagem, sei também que por aqui há muitas meninas que desejariam uma facilidade dessas. Você diz que sou sortuda, que não sei aproveitar as oportunidades e que meu negócio é trabalhar de garçonete, não é mesmo? Mas, Dani, o que tiver de ser vai ser. Caso meu destino seja esse homem, ele vai aparecer por aqui. Ou mesmo vou encontrá-lo novamente, ao acaso. Aí, quem sabe, me atiro nos braços dele.
sábado, dezembro 05, 2009
Livro sobre Deleuze mostra como a filosofia resiste à dominação
Haron Gamal, Jornal do Brasil
RIO - Há um momento em Deleuze, a arte e a filosofia no qual Roberto Machado afirma: “E quando Deleuze diz que numa linha de fuga há sempre traição, isso significa trair as potências fixas, as significações dominantes, a ordem estabelecida – o que exige ser criador”. Talvez, neste trecho, o professor titular de filosofia do IFCS e da UFRJ tenha ressaltado de modo genial um dos pontos mais importantes na obra do pensador francês. Devido à complexidade dos temas abordados e às novas nomenclaturas usadas para captar e expressar o real, Gilles Deleuze tenha-se tornado um dos filósofos de mais difícil assimilação na contemporaneidade. A colocação de Machado, no entanto, não deixa de ser bastante esclarecedora.
Costuma-se dizer que Deleuze é o filósofo da diferença. Ele tentou durante toda a vida desvincular sua reflexão de qualquer tipo de filosofia de identidade ou de representação, chegou a utilizar parte de teorias de filósofos aos quais se opõe, como Platão, para elaborar um modo de reflexão sutil, que não se situa em função de signos cristalizados, imagens ou outros sistemas de significação. A filosofia teria linguagem própria, não estaria submetida a qualquer tipo de representação, seja ela imagística ou vocabular. Daí a dificuldade de penetrar no universo do pensador, já que sua linguagem necessita de novos signos, de nova instrumentalidade, isto é, de nova sintaxe – para Deleuze, filosofia é criação – e, quando se utiliza da existente, torna outros os seus sentidos e significados.
Roberto Machado apresenta uma arqueologia da formação do pensamento e dos conceitos deleuzianos, desde Platão, Aristóteles, Espinosa, Kant e Nietzsche. Parte da filosofia como representação, desenvolvendo o pensamento do filósofo francês, um pensar oposto à representação e à identidade, e vai mostrar “o ápice da diferença”, que é o objeto talvez fundamental da filosofia de Deleuze. Machado transita pela história da filosofia não só com o objetivo de discutir a contestação do pensador à tradição, mas, sobretudo, para dimensionar as questões que este traz à tona para tornar a filosofia um tipo de arte, a qual, independentemente de modelos e referências, desenvolve linguagem própria e escapa dos instrumentos de dominação.
Já na introdução, que tem como título “A geografia do pensamento”, Machado privilegia o espaço, ou topos, em que a filosofia de Deleuze transita, em detrimento da história. Esse espaço apresenta uma espécie de zona de iluminação em que estariam confluentes, concomitantemente, conceitos de alguns filósofos canônicos que, mesmo tendo pontos contestados e desprezados pelo autor francês, intercedem na mesma geografia, permitindo a gestação de novos conceitos. Na verdade, uma espécie de “roubo” ou “apropriação”, palavras do próprio Deleuze, do pensamento alheio descontextualizado de sua natureza original a produzir novas potencialidades. O mesmo acontece na leitura que o filósofo faz de escritores, como Proust e Kafka, e de pintores e cineastas.
O livro é desenvolvido em oito partes, que tratam inicialmente de pensadores da tradição filosófica e dos diálogos possíveis a partir de suas obras com o próprio Deleuze. Mesmo que essa interlocução se dê, em relação a alguns desses pensadores, de modo negativo. Como exemplo, podemos citar a negação do platonismo, já que esse é situado como uma filosofia de representação e de identidade, inversão feita por Gilles Deleuze para afirmar uma filosofia que nega essa mesma representação e opta pela produção de conceitos.
A primeira parte aborda o “nascimento da representação”, onde são situados Platão e Aristóteles. A segunda, nomeada “O ápice da diferença”, culmina com o pensamento de Nietzsche – segundo Machado, o único filósofo a quem Deleuze não apresenta restrições.
As partes 3, 4 apresentam, respectivamente, “Kant, diferença e representação” e “A doutrina das faculdades”, que contém os pressupostos da representação e a diferença do empirismo em relação à abordagem deleuziana. A parte 5 tem como foco a relação filosófica entre Deleuze e Foucault, ressaltando a proximidade entre os dois pensadores.
Daí em diante, talvez uma das seções mais interessantes do livro, é abordado o instrumental teórico de Deleuze em relação às artes. Machado mostra como o filósofo, num diálogo com a literatura, a pintura e o cinema, elabora não uma reflexão sobre essas artes, mas utiliza-se delas como um novo modo de filosofar, situando filosofia e criação artística na mesma interseção geográfica. Tal empreitada não se daria apenas a favor do pensamento, mas tendo em vista que, para Deleuze, a filosofia visa a tornar linguagem o inefável e, até mesmo, o impensável. A prática filosófica teria a sua disposição um arcabouço conceitual em que arte e filosofia transitariam pela mesma via, a partir do momento em que ambas trabalham com a criação, coexistindo na mesma zona de luz ou sombra.
Vejamos uma passagem do livro em que Machado discute o que Deleuze apresenta sobre literatura. Inicialmente, utiliza uma pergunta do próprio filósofo: “O que se torna quem escreve?”. A seguir, o professor esclarece: “Sua resposta é que, se escrever é tornar-se, trata-se de se tornar outra coisa que não escritor, tornar-se estrangeiro em relação a si mesmo e a sua própria língua. E uma das maneiras como ele aborda a questão é pensando o processo de minoração do escritor através da relação entre literatura que ele chama de menor e o que também chama de 'povo menor'. Esse tema está no âmago da filosofia de Deleuze, explicitamente desde Kafka, por uma literatura menor. Ele aparece com clareza num pequeno artigo de 1978, 'Filosofia e minoria'. Esse texto opõe maioria e minoria qualitativamente e não quantitativamente. Maioria implica uma constante, um modelo, uma medida pela qual a maioria é avaliada. O que é ser maioria hoje? Ser homem, branco, ocidental, americano do norte ou europeu, masculino, adulto, racional, heterossexual, morador de cidade... O que é ser minoria? Desviar-se do modelo, ao mesmo tempo teórico e político. O minoritário é um devir potencial que se desvia do modelo. E Deleuze salienta que devir jamais é devir majoritário, que ser majoritário nunca resulta de um devir”.
Na verdade, pensar a diferença é possível quando a filosofia, mesmo se apropriando do cânone, destorça-o de modo a contestar modelos e representações quase sempre hegemônicos, em favor de um pensar que se situe numa zona de sombreamento, onde se dá uma espécie de resistência, cujo objetivo é contrapor-se a qualquer tipo de cristalização que redunde na perda da singularidade.
Por isso, para Gilles Deleuze, a arte se torna tão cara. Essa mesma arte que expressa questões aparentemente menores, mas que funciona como uma “máquina de guerra”, contrapondo-se ao “aparelhamento do estado”, este sempre se fazendo passar por hegemônico e fazendo-se crer preocupado com o bem-estar da maioria. Fato que não deixa de ser uma ficção.
13:07 - 13/11/2009
sábado, novembro 07, 2009
Livro sobre Heidegger reflete o estudo da ética na obra do pensador
Haron Gamal, Jornal do Brasil
RIO - Alexandre Marques Cabral propõe em Heidegger e a destruição da ética o estabelecimento de uma volta ao ethos, isto é, morada, no sentido original, a partir da filosofia de Martin Heidegger (1889-1976). Constatando que a crise do pensamento contemporâneo, sobretudo no Ocidente, é uma consequência da crise da própria racionalidade, a ética não estaria imune a ela.
O início dessa crise já aconteceria a partir de Aristóteles, com o estabelecimento do raciocentrismo, expandir-se ia com a escolástica, na Idade Média, e atingiria seu auge na modernidade. Retornando ao pensamento arcaico-originário, mais precisamente aos filósofos pré-socráticos, que por meio do discurso mítico-poético teriam condições de abordar ser e ente sem a fissura que passa a existir já no século 5 a.C. a partir do estabelecimento do logos e a realização da metafísica, seria possível pensar o dasein (“estar-aí”, existência, segundo Heidegger) numa perspectiva em que o espírito da letra predominaria com todo seu aparato de possibilidades de significação. O ser, segundo Heidegger, constituir-se-ia mais como verbo do que como substantivo, mostrando-se em constante realização, permitindo seu desvelamento /velamento cuja abordagem o aproximaria do universo da poesia, com todas as possibilidades da metáfora. A cristalização do pensamento racional criou conceitos e estabeleceu sob sua tutela certa tradição em que passaram a existir doutrinas filosóficas e leis morais que não acompanham o “estar-aí” – experiência permanente e essencial do ser – produzindo uma espécie de engessamento da reflexão.
O livro é dividido em três partes. Na primeira, o autor estuda O problema do ser e o dasein em ser e tempo, de Heidegger – pressupostos da ontologia fundamental necessários para a compreensão do conceito de ética originária presente na Carta sobre o humanismo, também de Heidegger. É interessante observar como Alexandre Cabral desenvolve os fundamentos e conceitos da filosofia arcaico-originária expostos pelo filósofo alemão. O autor brasileiro aborda a questão sobre o dasein de modo bastante explicativo, já que Heidegger é um grande desafio até mesmo para os pensadores profissionais: “A locanda onde o ser é achado, porque ali vigora, é o homem originariamente concebido. Dissemos 'originariamente concebido' porque, de forma alguma, como sempre o fez o pensamento ôntico, o homem é por Heidegger analisado objetivamente. Ele não é nem sujeito, no sentido moderno do termo, nem uma substância racional capaz de inteligir as essências objetivamente dadas dos entes, como pensou a tradição medieval, por exemplo”. Fundamental, da mesma forma, é o capítulo 3, em que é analisado o conceito de “ser-com”, porque é a partir dele que, na parte final, chegar-se-á à noção de solicitude.
Na segunda parte, o brasileiro apresenta “A ética originária e seus elementos”, delineia o percurso do pensamento arcaico-originário até o estabelecimento da metafísica, e distingue a concepção tradicional dos conceitos de Heidegger. Ao mesmo tempo, é muito importante o tópico “Linguagem e poesia”, em que a ética é apresentada como po-ética, isto é, uma concepção de ética baseada na linguagem. Se o dasein é o ente realizando-se na plenitude do ser, no ato constante de ek-sistir, nada melhor do que a linguagem poética, em seu espírito original de criação e revelação, como espaço de desvelamento do ethos.
Na terceira parte, Alexandre Cabral propõe a destruição da ética tradicional, isto é, uma espécie de abandono dos princípios morais cristalizados pela tradição, os quais já não mais seriam capazes de acompanhar o ato de realização do ser na contemporaneidade.
A questão sempre presente, o estabelecimento de uma nova ética, é que ela não se prenderia às ideias morais, mas levaria a existência a uma espécie de não-esquecimento do ser, coroando-o com a perspectiva de solicitude, um comportamento que, ao mesmo tempo, o tornaria aberto para os outros e colocaria o existir numa perspectiva de não-esquecimento desse mesmo dasein.
Pensar a ética a partir de Heidegger nos leva a duas questões fundamentais: a primeira é que sua concepção de ser, ao tentar escapar do raciocentrismo aristotélico, leva a filosofia de volta aos pensadores pré-socráticos e acaba por permitir uma forma do pensar fora da razão tradicional numa modernidade em que a própria ratio se acentuou realizando-se como tecnocentrismo (segundo o filósofo alemão uma das causas do esquecimento do ser); a outra perspectiva envolve o próprio Heidegger, como cita Alexandre Cabral ao tentar argumentar que a pessoa do autor não deve predominar sobre a obra. O filósofo da Floresta Negra envolveu-se com o nazismo, defendeu-o e formulou questões teóricas que o justificavam. O fato de dizer que Heidegger permaneceu pouco tempo filiado ao Partido Nacional-Socialista, afastando-se logo a seguir, e que foi perseguido por ter renunciado ao cargo de reitor da Universidade de Freiburg não o isenta de participação em um dos regimes mais cruéis do século 20. Aqui se estabelece o paradoxo da utilização da filosofia como teleologia (doutrina que identifica a presença de fins guiando a humanidade). O pensar como reflexão é uma coisa, mas o estabelecimento de um arcabouço teórico com a intenção de gerar algum tipo de ação, ou mesmo de discutir comportamentos, de antemão já é problemático, tanto mais quando inspirado no autor de Ser e tempo. A filosofia heideggeriana não se restringe apenas à ética, sabe-se disso, a questão principal é a existência como discurso. O estabelecimento de uma ética a partir de um filósofo controvertido como Heidegger, no entanto, caso um dia venha a vigorar, será uma grande ironia da história.
O que deve ser bastante elogiado no livro de Alexandre Marques Cabral é a apresentação pormenorizada e didática do pensamento de Heidegger, tornando o filósofo assimilável até mesmo para o público externo ao universo acadêmico.
quinta-feira, outubro 01, 2009
Sebald revela a dor e a melancolia dos refugiados em Os emigrantes
Haron Gamal*, Jornal do Brasil
RIO - O século 20, no seu início, apresentava-se como um período pleno de possibilidades. A ideologia do progresso e a perspectiva de um futuro que trariam soluções para a maior parte dos problemas humanos pareciam dignas de credibilidade.
A arte soube captar bem o espírito da época, tanto a favor como contra. A vanguarda europeia mostrou-se sensível ao expressar suas inquietações sobre um passado que insistia em se fazer presente tanto nas concepções artísticas tradicionais como no modo de vida, ainda carregado de tinta dos oitocentos. A obra de Proust é rica em fazer desfilar uma sociedade em que homens e mulheres relutam em abandonar valores nobiliárquicos e um tom em que predomina o apreço pelo antigo. Não se quer dizer que a leitura de Proust não seja adorável. Talvez seu sucesso aconteça devido a isso: retrata um mundo que já desapareceu ou está em vias de desaparecer, um modo de vida que grande parte das pessoas gostaria de ter vivido em todo esplendor.
No início do século 20, concepções futuristas vão tentar dinamitar o passado e apostar o futuro da humanidade na máquina. Tal modo de ver o mundo não é novo. Muitos séculos antes, o homem do renascimento já expressava a opção pela vida secular e começara, ali, a apostar suas fichas em algum tipo de engenho.
Marinetti, porta voz do futurismo italiano, na primeira década dos novecentos, chega a propor a destruição dos museus e das obras de arte do passado, colocando em primazia o engenho mecânico.
Depois temos Joyce, que já nos apresenta um tipo de herói que é fruto da modernidade; o homem fragmentado, um Ulisses que precisa juntar os cacos de suas 24 horas para que a existência tenha sentido. É interessante observar que o escritor dublinense publica sua obra máxima no ano da morte de Proust – 1922. É como se o século 19 tivesse terminado definitivamente para dar lugar ao século 20.
A literatura de W. G. Sebald (1944-2001) apresenta o resultado de um período em que o humano foi deixado de lado, quando a ênfase da vida se voltou para o negócio, para a indústria, para a economia. Foi no começo do século passado que a educação e a cultura começaram a voltar-se para a produtividade.
Os emigrantes focaliza essa questão. Quem são os personagens que ali desfilam, plenos de saudade e de melancolia? Tudo leva a crer que, impelidos pela necessidade da partida, esses seres deixaram seus lugares de origem para tentar a vida em países distantes, longe da família e envoltos em total solidão. Não importa qual o motivo, se econômico ou político – aqui entram os refugiados, como os judeus e os foragidos dos regimes totalitários.
Na literatura desse autor alemão, que trocou cedo seu país pela Inglaterra, onde trabalhou como professor de literatura e morou até morrer, percebe-se o lugar provisório em que ele e seus personagens se situam. É como se sentissem desconfortáveis na condição de emigrantes. Mas será que teriam para onde voltar?
O livro é constituído de quatro relatos. Em todos eles, Sebald faz um inventário dos escombros do passado através da vida pregressa de cada personagem. Um trecho da primeira história é emblemático. O narrador, que nunca tem um pouso definitivo, informa: “Tivemos, dr. Selwyn e eu, uma longa conversa cujo ponto de partida foi sua pergunta se eu nunca sentia saudades de casa. Eu não soube direito o que responder, mas dr. Selwyn, após uma pausa para reflexão, confessou-me – outra palavra que não faz jus à situação – que no curso dos últimos anos fora tomado cada vez mais pela nostalgia”. A conversa ocorre no início dos anos de 70, na Inglaterra, e o personagem que dialoga com o narrador é um cirurgião aposentado, cujo objetivo de vida é apenas cuidar do jardim e de alguns animais; ele mesmo é um emigrante, mas deixara a distante Lituânia aos 7 anos de idade, precisamente em 1899.
A segunda narrativa começa com a seguinte informação: “Em janeiro de 1984, chegou-me de S. a notícia de que na noite de 30 de dezembro, uma semana após completar 74 anos, Paul Bereyter, que fora meu professor no primário, dera fim a sua vida ao deitar-se na frente de um trem a pequena distância de S., onde os trilhos desviam em curva do pequeno bosque de salgueiros e ganham campo aberto”.
Em cerca de 80 páginas, o narrador investigará as causas do suicídio do ex-professor, mas chegará apenas a conjecturas, o verdadeiro motivo ele não conseguirá descobrir. No final, sabemos que Bereyter viveu seus últimos dias na França e voltou à Alemanha para dar fim à própria vida.
Ambros Adelwarth dá nome à terceira história. Trata-se de um tio-avô do narrador que havia muito emigrara para os Estados Unidos (levando neste país uma vida extravagante) e volta para visitar a família uma única vez, no verão de 1951, quando o próprio narrador tinha apenas 7 anos. A impressão que causa em sua mente é tão forte, que ao tornar-se adulto, ele viaja à América em busca da história desse tio, que na ocasião já falecera. Recebe de uma tia a caderneta onde Ambros fazia anotações, descobrindo parte de sua vida e de suas viagens pelo mundo como pajem e companheiro de um milionário americano.
A quarta e última história inicia-se com o narrador chegando à Inglaterra como imigrante, num voo noturno: “Até meus 22 anos, nunca me afastei de casa mais do que cinco ou seis horas de trem, e por isso, quando no outono de 1966 decidi, por diversas razões, mudar-me para a Inglaterra, eu mal tinha uma idéia apropriada de como era o país e como eu, dependendo apenas de mim mesmo, me arranjaria no estrangeiro”. O narrador chega a uma Manchester fuliginosa, permeada por ruínas. Conhece então o pintor judeu-alemão Max Ferber e convive com ele. Anos mais tarde, quando Ferber, já famoso, encontra-se velho e doente, entrega ao narrador um pequeno diário com uma narrativa escrita pela própria mãe, na Alemanha, que contém a história dela e do modo de vida de uma geração que antecedeu à Segunda Grande Guerra.
Em todos os contos, suspeita-se que o narrador, de quem nunca sabemos o nome, seja o próprio Sebald. Ele sempre está às voltas com uma espécie de arqueologia, escavando o passado das pessoas e acabando por lhes dar vida própria. E, por mais simples que essas vidas tenham sido, sua narrativa consegue envolver todas elas num quê de importância, de algo único, cuja perda significaria a perda da própria poesia.
O que resta a esses personagens, que se perderam num constante exílio, é a representação de seu não-lugar através da arte, como ocorre a Ferber, que “trabalhava desde o final dos anos 40, 10 horas por dia, o sétimo dia inclusive. (...) Eu não cansava de me admirar de como Ferber, ao final de um dia de trabalho, produzia um retrato de grande vividez com as poucas linhas e sombras que haviam escapado à destruição”.
Assim também se apresenta a literatura de Sebald, quadros com grande vividez, que retratam, apesar do lugar sempre frágil que o ser humano ocupa, um momento máximo de lirismo, mesmo que depois sobrevenha a morte.
* Professor de literatura e doutorando em literatura brasileira pela UFRJ
quinta-feira, setembro 03, 2009
Edição de 'Dialética negativa' marca os 40 anos de morte de Adorno
Haron Gamal*, Jornal do Brasil
RIO - O século 20, com suas duas guerras mundiais, revoluções e conflitos localizados, foi mais do que suficiente para fazer ruir tentativas de explicações totalizantes insinuadas pelos sistemas de pensamento (metafísica ou filosofia) que, até o século 19, tentaram dar conta tanto da natureza humana, com suas formas e meios de manifestação e reflexão sobre o próprio estar no mundo e suas conseqüências, como da história. Hegel foi o último filósofo a elaborar um sistema que, a partir de pares opostos (ou em contradição aparente) levaria à síntese. Daí à elaboração do método, resultado de um engenhoso sistema de materialização do conhecimento, tentativa de estabelecer o caminho para validar o que se convencionou chamar de saber científico. Ao mesmo tempo, a questão para ser levada avante precisava de um sistema lógico ideal, que não tivesse em conta as idiossincrasias do homem e daquilo que se convencionou chamar de história.
Ênfase na subjetividade
Theodor Adorno nasceu em 1903, viu cair por terra todos os sistemas lógicos surgidos no percurso da filosofia, percebeu a ênfase na subjetividade em um tempo em que o objeto – o outro, aquilo que se apresenta fora do sujeito – mostrava-se insuficientemente explicado pela lógica, incluída aí a própria filosofia. Adorno viveu o desbaratamento da intelectualidade alemã durante o surgimento e crescimento do nazismo – o próprio regime hitlerista foi um dos absurdos que a filosofia não soube explicar. Precisou exilar-se na Inglaterra e, depois, nos Estados Unidos. Voltou a seu país, a Alemanha, depois do fim da Segunda Guerra.
O pensador alemão propõe em Dialética negativa uma dialética que não só convive com os contrários no método de análise, mas também na apreciação do objeto como algo com linguagem própria, dessemelhante do sujeito. Opondo-se a Hegel e mesmo a Heidegger, a quem acusa de posições idealistas quando trata da subjetividade em Ser e o tempo, Adorno contesta o conceito idealista de objeto, mostrando em primeiro lugar que toda reflexão, por mais pura que tente se apresentar, traz um rastro de mundaneidade do qual é incapaz de se desvencilhar. Num segundo momento, sua reflexão se dirige à análise da ontologia e suas aporias.
Só então, depois de mostrar as lacunas e os trâmites escorregadios pelos quais envereda Hegel, parte para apresentação de sua dialética, que não deixa de trazer em parataxe a coexistência com a diferença, com as contradições do ser humano e com a história.
A segunda parte do livro aborda o tema proposto pelo autor, apresentando conceitos e categorias; a terceira tem como título “Modelos”, com os seguintes tópicos: “Liberdade”; “Espírito do mundo e história natural”; e “Meditação sobre a metafísica”.
A crítica à filosofia da identidade, empreendida por Adorno, centra-se na afirmação de que a subjetividade, ao visar o objeto como meio de este estar apenas disponível a seus interesses, não observa nele o que lhe é contrário ou diferente. Uma vez que o almejado no não-semelhante está apenas em demonstrar a hipótese daquele que empreende a busca, só é levado em conta, no segundo elemento, o que tem de semelhante no próprio sujeito – o oposto visado teria algo que identifica a esse mesmo sujeito. Daí pretende-se chegar à síntese. As outras contradições imanentes ao objeto, que estão fora dos interesses do sujeito, não são levadas em consideração. Portanto, o método desenvolvido a partir da dialética hegeliana acaba não só sendo apropriado pela ideologia, como servindo à legitimação de seus interesses. Essa mesma ideologia avalizará todo o processo científico e a expansão do sistema de troca. Em sua extremidade, chega-se ao conceito de indústria cultural, que, ao fazer jus a todo o percurso, apresenta-se de maneira avassaladora como verdade, tornando difícil, ou mesmo impossível, a crítica a partir do aparelhamento resultante de todo o processo.
A Dialética negativa na verdade complementa, por confirmação filosófica, os conceitos críticos desenvolvidos por Adorno e Horkheimer na Dialética do esclarecimento. Em palavras do próprio autor: “A dialética enquanto procedimento significa pensar em contradição em virtude e contra a contradição uma vez experimentada na coisa. Contradição na realidade, ela é contradição contra essa última. Uma tal dialética, porém, não se deixa mais coadunar com Hegel. Seu movimento não tende para a identidade na diferença de cada objeto em relação a seu conceito; ela antes coloca o idêntico como suspeita. Sua lógica é uma lógica da desagregação: da desagregação da figura construída e objetivada dos conceitos que o sujeito cognoscente possui de início em face de si mesmo. A identidade dessa figura com o sujeito é a não-verdade. Com ela, a pré-formação subjetiva do fenômeno se coloca diante do não-idêntico, do indivíduo inefável. A suma conceitual das determinações idênticas corresponderia à imagem dos sonhos da filosofia tradicional, à estrutura a priori e à sua forma arcaísta, à ontologia”.
Idealismo sem verdade
Não mais seria possível, assim, o método lógico hegeliano, porque este, a partir do descarte das contradições presentes no objeto, apelaria por um idealismo que não corresponderia à verdade em nenhum período da história humana. O método hegeliano apresentar-se-ia como tout a coup para introduzir uma filosofia do progresso, já encetada a partir do iluminismo.
No ano de 1969 Adorno – que morreu há 40 anos – foi acusado pela esquerda alemã de não levar à prática seus escritos críticos. A partir do movimento estudantil que sacudiu a Europa, ele foi acusado também por Marcuse, que se colocou ao lado dos revoltosos. O alemão respondeu que não era sua incumbência traçar um plano de ação, que não se destinava a ele elaborar qualquer tipo de práxis ligada a sua teoria. Em determinado momento, falou que a própria pesquisa crítica já era um tipo de práxis. Em outras palavras: o exercício do pensamento já se mostraria a própria práxis, porque liberaria o ser humano dos instrumentos de dominação.
* Professor de literatura e doutorando em literatura brasileira pela UFRJ.
quinta-feira, agosto 06, 2009
Romance da alemã Juli Zeh tem como base a filosofia de Nietzsche
Haron Gamal*, Jornal do Brasil
RIO - Há uma passagem em A menina sem qualidades, de Juli Zeh, em que Alev, um estudante de 18 anos (meio egípcio, um quarto de sangue francês, cresceu na Alemanha, na Áustria, no Iraque, nos Estados Unidos e na Bósnia-Hezergovina) entra junto com Ada, uma menina de quinze anos – sua cúmplice – na sala de informática do colégio onde estudam, senta num boxe e grita: “Heil Hitler!”.
Tais dizeres não significam qualquer tipo de saudação neonazista, mas sim um teste: ambos praticam, naquele momento, um jogo arriscado, e o rapaz deseja se certificar de que os outros jovens que ocupam o mesmo local o estão escutando. Após o chamado e após perceber que ninguém lhe dera a atenção – todos estão mergulhados na rede e com fones no ouvido – ele deduz que pode conversar à vontade com sua companheira de turma enquanto instala um programa clandestino na página da escola, possível de ser acessado por uma senha que apenas ele e Ada conhecem e, mais tarde, o professor chantageado.
Fato periférico
O breve episódio – o fato de ter gritado o nome de Hitler – é periférico na longa narrativa de 508 páginas, mas a autora, ao colocar a saudação na voz de um jovem não-alemão, alguém oriundo do mundo árabe e com passagem por vários países, não cometeu a ação por acaso. É a única vez em que o nazismo é mencionado, e em apenas um momento do romance insinua-se sobre a Segunda Guerra.
O comparecimento da saudação, no entanto, deixa o leitor de sobreaviso. A história é ambientada numa Alemanha pós-11 de Setembro e contemporânea aos atentados de Madri. O romance também não salta em flashbacks com o objetivo de investigar o passado recente do país. Portanto, o que poderia nos revelar a saudação?
Mesmo tendo em consideração as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra, seria o comportamento dos jovens naquela sala, isolados entre si através de suas torres e fones, imersos cada um no seu próprio mundo, semelhante ao comportamento alienado do mesmo povo durante os anos do Reich? Estariam todos contaminados pelo pior flanco da mundialização e entregues mais do que nunca à ideologia de mercado, fato que leva os dois protagonistas a encetar uma aposta em que o único objetivo digno da existência é um tipo de jogo? Talvez seja isso que leva Ada a dizer que é uma mulher sem alma, isto é, sem essência e consequentemente sem particularidades.
Aqui precisamos falar sobre outro livro, também pertencente à cultura germânica e que declaradamente serve de matriz para o romance em questão: O homem sem qualidades, de Musil. Maurice Blanchot, em um artigo que fazia parte da coletânea O livro por vir, diz o seguinte: “O homem sem particularidades é o homem que tem, por vocação e por tormento, de viver a teoria de si mesmo, o homem abstrato que não é e não se realiza de maneira sensível”.
O mesmo Blanchot, ao discutir a tradução do título do livro de Musil para o francês, acrescenta: “Acho que eu teria ficado com a tradução mais simples, a mais próxima do alemão e a mais natural em francês: L'homme sans particularités [O homem sem particularidades]. A expressão 'o homem sem qualidades', embora de um uso elegante, tem o inconveniente de não ter sentido imediato, e a de deixar perder-se a ideia de que o homem em questão não tem nada que lhe seja próprio: nem qualidade, nem tampouco nenhuma substância. Sua particularidade essencial [...] é de que ele não tem nada de particular. É o homem qualquer, e mais profundamente o homem sem essência”. Embora seja outro o contexto em que o autor vienense escreveu seu extenso livro, enfocando a perda dessas particularidades diante do fim do Império Austro-Húngaro e da marcha da modernidade, o livro intensifica a questão.
Ada afirma: “Somos netos dos niilistas”. Mais adiante, ao depor em defesa de um amigo: “Pode acreditar em mim quando digo que me interesso muito pouco pela minha alma quanto pela sua ou pela de qualquer outra pessoa. Eu nem sequer acredito na existência dela. 'Alma' é um nome para a tentativa famigerada dos homens de se elevar por sobre o mundo dos objetos. [...] Mas quem se atreve a dizer que os homens não têm alma, colocando-o no mesmo nível dos outros fenômenos móveis e imóveis daquele conglomerado de causalidades que estamos acostumados a chamar de 'mundo', porque soa bonito e não diz nada, este se torna suspeito de ser um misantropo, um apoiador da eutanásia e um fã da tecnologia genética, mas, antes de tudo, um ser humano frio. Como se a alma fosse a sede do bem no ser humano! Uma alma é um espaço vazio retorcido em forma espiral, por dentro do qual voa uma bala de pistola. Onde está a alma quando os alemães marcharam em direção a todos os pontos cardeais a fim de molestar metade da crosta terrestre espalhando morte e destruição? Onde está ela quando crianças jogam futebol com as cabeças decepadas de outras crianças?”.
Pacto fáustico
Por isso, a ausência de particularidades revelaria um homem que não vive mais o mundo sensível nem se incomoda com a existência de sentimentos nobres. Talvez seja essa questão que faz o tradutor Marcelo Backes dizer, no seu esclarecedor posfácio, que “Ada faz com Alev um pacto fáustico sem precisar dar em pagamento uma alma que já não tem”. O romance tem como base filosófica Friedrich Nietzsche, com os conceitos de “vontade e poder”, “eterno retorno”, “super-homem” mencionados diretamente. O conceito predominante, no entanto, parece ser o de “amor fati”, única saída num mundo desprovido de crenças e ilusões. “Amor fati” significa “o dizer-sim dionisíaco em antítese à constante negação promovida pelo cristianismo”, segundo Backes.
A narrativa possui várias outras referências à filosofia e à literatura. A história, suas marchas e contramarchas, conceitos e definições também comparecem através do professor Hofi, um dos personagens mais interessantes do livro, depois de Ada, e que vale a pena ser observado com atenção.
O enredo poderia se resumir ao seguinte: uma aluna recém-chegada ao colégio Ernst Bloch (Bonn, Alemanha), mostra-se o contrário das princesinhas de plantão, tanto fisicamente como em leitura e conhecimentos, sendo capaz de duelar e vencer os professores mais perspicazes. Mas dizer que a questão se limita a isso é diminuir, e muito, o valor da narrativa. O que vai intensificar o conflito é a chegada de outro personagem, cuja teoria de vida nada mais é do que um grande jogo, em que predominam instintos de sobrevivências e não a existência de valores. Os dois, juntos, vão chantagear Smutek, um polonês imigrante, professor de germanística.
A narradora é uma surpresa a mais, o que mostra a perda de rumo da justiça, num mundo onde não há mais em que se ancorar. A menina sem qualidades revela a grande cultura dos escritores europeus de nova geração, como Juli Zeh, que conseguem perceber os instrumentos de dominação e dissecar os mecanismos de funcionamento de uma sociedade em que não mais existem parâmetros para nenhum tipo de crença ou valor.
* Professor de literatura e doutorando em literatura brasileira pela UFRJ
23:22 - 10/07/2009
quinta-feira, julho 16, 2009

A câmera e a pena – duas novelas
Alexandre Brandão
Editora Cais Pharoux, l56 páginas
